significativamente para relacioná-lo com diversas ações relacionadas ao arranjo organizacional de pequenos produtores. Salienta-se que a análise sobre a estruturação do cooperativismo é importante para a compreensão da sua relação no contexto regional e para também constatar a existência de influências junto a organização sócio-espacial local.
Dentre os principais referenciais teóricos utilizados nessa seção para sustentar a análise e a pesquisa reflexiva, destacam-se: Braverman (1980), em
“Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalhador no século XX”, Brose (2012), em “Capacitação de executivos públicos e agentes sociais para a gestão pública e do processo de desenvolvimento local/regional integrado”, Frantz (2003), em “Caminhos para o Desenvolvimento pelo Cooperativismo”, Reis (2006), em “Aspectos Societários das Cooperativas”, Souza (2006), em
“Capitalismo Contemporâneo: as cooperativas sob o comando do capital” e dados disponibilizados pela Aliança Cooperativa Internacional, dentre outros.
serviços de assistência básica. O incentivo à coletividade e à organização dos trabalhadores para se ajudarem mutuamente foi uma das principais formas de intervenção cooperativista.
Importante rememorar que, precisamente no ano de 1844, em Rochdale7, na Inglaterra, surgiram interessantes iniciativas de organizações cooperativistas. Mais precisamente, a Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale foi à primeira cooperativa a ser criada na Inglaterra, em Manchester8. Era composta por 28 operários e tinha entre seus principais objetivos proporcionar uma melhor qualidade de vida aos seus cooperados através da produção de tecidos, que seria viabilizada por meio do cooperativismo. A referida cooperativa objetivava, ainda, facilitar os mecanismos de produção como, por exemplo, viabilizando a aquisição e a distribuição de gêneros essenciais (REIS, 2006).
Constata-se que, desde o surgimento das primeiras cooperativas, as mesmas já executavam um papel importante para organizar ações coletivas entre os trabalhadores. Eram realizadas, através das cooperativas (formadas por operários), ações e projetos para superar o desemprego, as exageradas jornadas de trabalho e as baixas remunerações. Muitas cooperativas buscavam, especialmente, combater as sequelas da pobreza e da fome vividas pelos operários e familiares.
Não se tem um número preciso de cooperativas que surgiram inicialmente, mas, de acordo com Sales (2010), Reisdorfer (2014) e Carneiro (1981), constata-se que muitas delas surgiram como forma-meio de enfrentamento da miséria, da pobreza9 e da exploração ocorrida em pleno vigor da Revolução Industrial. A princípio, o cooperativismo foi concebido como forma de promover ações de solidariedade e ajuda mútua entre os operários trabalhadores e como modo de combater o individualismo oriundo dos ideais iluministas, sendo entendido como uma forma de transformação social que se contrapunha ao modelo capitalista. Esses conceitos e concepções teóricas sobre cooperativismo, mesmo repletos de contradições, significavam uma forma de organização que poderia controlar os meios de produção e as relações de trabalho. Era uma possibilidade de os trabalhadores obterem melhores condições
7 É o principal município do Distrito metropolitano de Manchester, situado na Inglaterra.
8 Município que, de acordo com os dados das Organizações das Nações Unidas, no ano de 2011 contava com 510.746 habitantes. Trata-se de um relevante município situado na zona noroeste de Inglaterra e que obtém registros históricos de que foi um dos principais centros têxteis do mundo.
9 Essa situação levou os operários a se unirem, com a finalidade de se protegerem contra o desemprego e se manterem vivos através da organização de uma cooperativa que pudesse supri-los do básico para viver até conseguirem um novo emprego (REISDORFER, 2014, p. 27).
de vida e de trabalho, o que se alinhava aos ideais socialistas, como o de que o socialismo era uma nítida oposição ao individualismo. O modelo de organização cooperativista dos pioneiros trabalhadores de Rochdale e dos Socialistas utópicos como Buchez, Fourier, Blac e Owen foram base elementar de estruturação do cooperativismo. Assim, a cooperação foi compreendida:
[...] como forma de unir as forças para um fim comum, em oposição à competitividade e ao individualismo; a ajuda mútua, com prestação de serviços, atividades coletivas e solidárias, em oposição a atividades com fins lucrativos e concorrenciais.
Acreditavam que o capital colocado a serviço do homem permitiria a organização de associações justas que promoveriam a reforma social (ZEFERINO, 2010, p. 44).
Dentre as justificativas para organização dos trabalhadores em cooperativas, pode-se destacar que a mesma era um espaço importante para os trabalhadores se reunirem, refletirem e discutirem as dificuldades vivenciadas em comum, além de ser espaço coletivo para pensarem alternativas de soluções, a fim de enfrentarem as crises provenientes do capitalismo.
Prontamente para Marx (1975, p. 237-238, grifo do autor), “[...] as sociedades cooperativas só têm valor na medida em que forem organizadas pelos próprios trabalhadores, sem estarem vinculadas ao Estado e à burguesia”. Essa afirmação proposta por Marx (1975) remete à compreensão de que para o cooperativismo existir é necessário um evidente posicionamento de independência e oposição à dominação imposta aos trabalhadores por parte de quem detinha o poder, de modo que ainda é possível compreender que o modelo praticado desde o início no cooperativismo, mesmo tendo ações e posicionamentos que se alinhavam ao socialismo, não o coloca em condição de oposição aos ideais capitalistas, ainda acrescenta Marx (1975, p. 237, grifo nosso), que o partido operário alemão via as cooperativas como um “[...] meio para solucionar o problema social, com a ajuda do Estado e sob o controle democrático do povo trabalhador, e que delas pudesse surgir uma organização socialista de todo o trabalho”. Para Marx (1975), trata-se de intenção cheia de contradições, a começar pela própria ajuda do Estado, fato que pressupõe que o Estado é quem está no poder e não o povo, impossibilitando qualquer “controle democrático do povo trabalhador”. Ressalta-se, ainda, a evidência de que as cooperativas, nesse formato, já conseguiam organizar e influenciar a ocorrência socializada de produção; porém, a produção permanecia sendo trocada no
formato que não divergia do modelo capitalista. Nesse sentido especificado verifica-se que o Estado representa os interesses da burguesia (MARX, 1975);
por isso a necessidade de independência do trabalhador para fins de obtenção do real controle democrático.
O cooperativismo em princípio foi se adaptando às condições do capitalismo, justificado em função da consolidação do capitalismo monopolista ocorrido no fim do século XIX e início do século XX, que foi marcado pela estruturação de um novo modelo de produção e pela crise estrutural do próprio sistema capitalista. Assim, os congressos realizados pela Aliança Cooperativa Internacional (ACI), bem como o Congresso Socialista Internacional de Copenhague, realizado em 1910, foram fundamentais para o entendimento dos princípios ideológicos do cooperativismo; destaca-se que um entendimento que ficou bem evidenciado é que, ideologicamente, o cooperativismo não se trata de um modelo que levaria ao socialismo, mesmo se apropriando de diversos conceitos oriundos dele (PAGOTTO, 2004).
Independentemente do modelo a ser adotado, na produção capitalista sempre vigorou como prioridade a lucratividade; desta maneira, o modelo de produção cooperativista foi facilmente controlado pelo capital, que logo tratou de criar mecanismos de regulamentação para que o cooperativismo servisse às diversas necessidades advindas das empresas detentoras do capital. Já a partir dos séculos XIX e XX, uma das necessidades para bem servir a produção foi a terceirização, portanto, o cooperativismo era utilizado como forma de organizar a força de trabalho. Assim, enquanto por um lado criava oportunidades para combater o desemprego, possibilitando alternativas de ocupação de mão de obra e geração de renda, por outro lado se evidenciava que o mesmo admitia o subemprego, regularizado através de uma espécie de terceirização.
Um fato que também soa como conquista do trabalhador cooperativista, mas ao mesmo tempo pode ser considerado como uma falsa ilusão, é que, através do cooperativismo, o trabalhador é livre e não subordinado a um patrão, ele é seu próprio patrão. Essa concepção fragiliza a percepção identitária de classe, uma vez que o trabalhador se confunde com o burguês (patrão). Nesse caso, a cooperação torna-se a representação da produção do capital sem orientação-embasamento dos princípios cooperativistas, pois subordina os trabalhadores de forma coletiva a servirem aos interesses do capitalismo, seguindo a mesma lógica do lucro, da apropriação da mais valia e da renda da terra.
De acordo com as bases ideológicas do cooperativismo, o mesmo busca oferecer aos cooperados mais liberdade, autonomia, diminuição das desigualdades sociais e distribuição de renda. Entretanto, na prática, também existem muitas experiências que distorcem os princípios ideológicos. Há casos em que as cooperativas necessitam se adequar ao mercado para conseguirem sobreviver, precisam baixar ao máximo o custo da produção para se manterem no mercado e para conseguirem obter competitividade. Nesses casos, os trabalhadores deixam de ser assalariados para se tornarem os proprietários, mas não conseguem se colocar ou se posicionar como oposição ao sistema capitalista exploratório em vigor, o que faz com que acabem contribuindo na produção, de acordo com o que o sistema capitalista (detentores do grande capital financeiro- representado por grandes corporações) necessita. Desta forma, os trabalhadores cooperados às vezes conseguem alcançar os índices financeiros pretendidos, que se viabilizam por meio das sobras, porém, ficam expostos à mesma lógica de exploração trabalhista.
Ao relacionar a conjuntura perceptível de exploração ocorrida em períodos anteriores ao contexto atual, é possível se constatar que as adequações às regras do capital têm se perpetuado. De modo que quando se relaciona os trabalhadores a essa lógica de deturpação dos princípios cooperativistas, é possível constatar ainda que as exigências de flexibilização impostas pelo mercado, em diversos casos, continuam sendo consentidas através da terceirização, muitas vezes regulamentadas por meio do cooperativismo. Nessas condições citadas, percebe-se que o mesmo acaba por colaborar com a continuidade da exploração do trabalho e das desigualdades sociais, que ocorrem através da exploração do trabalho (de forma ainda mais intensa), por meio da remuneração (salário), que é abaixo do valor padrão de mercado, e do descomprometimento com as conquistas (obtidas no ardor de muitas lutas), que são as obrigações trabalhistas (direito do trabalhador). Quanto a essa emblemática, Souza (2006, p. 6) afirma que “A lógica da flexibilidade e suas estratégias de exploração do sobre trabalho implicam em uma forma reatualizada de cooperação do trabalho e, aliado a isto, a reafirmação imponente do trabalho coletivo para a acumulação do capital na atualidade”. Portanto, o cooperativista não deixa de ser trabalhador pelo simples fato de obter domínio do processo de produção. O que tem ocorrido nesse modelo é que a relação entre trabalho- capital passa a ser substituída pela relação empresa-empresa; a força de trabalho
passa a ser vendida de empresa para empresa e, assim, o trabalhador continua produzindo a mais-valia, que é imprescindível para a reprodução do capital.
Portanto, verifica-se, pelo processo especificado no parágrafo anterior, a exacerbação da exploração e da manipulação dos trabalhadores através do sistema cooperativista, que se evidencia por meio do desvio de funcionalidade do mesmo, com fins de atender a uma espécie de interesses neocapitalistas10. Essa constatação nos remete ao entendimento de que muitas cooperativas são usadas para fins do mercado que contrariam os princípios e a lógica idealista do cooperativismo.