2. A PARTICIPAÇÃO DOS FIÉIS NA CONSTITUIÇÃO CONCILIAR
3.4 Status da participação ativa após as primeiras recepções do Concílio
3.4.1 Aceitação da constituição litúrgica do concílio
3.4.2.3 Bento XVI e o surgimento da “reforma da reforma”
Já o Papa Bento XVI faz uma visão da reforma litúrgica pautada no conceito de
“revolução”, sobretudo, no que se refere à assunção da constituição conciliar no pós-concílio. Com efeito, de acordo com ele, a letra do concílio apresenta uma reflexão pacífica dos padres a respeito do tema da liturgia. Já a reforma efetiva da liturgia dele derivada causou não poucos espantos ao redor do orbe, em virtude das mudanças bruscas na lex orandi eclesiae77.
Isso se dava porque, de acordo com Ratzinger, os padres conciliares não esperavam grandes discussões a respeito do tema “liturgia”. Nesse sentido, ele assevera que
Que esse texto tenha sido o primeiro a ser estudado pelo concílio, não foi porque tivesse crescido o interesse da maioria dos participantes pela questão litúrgica, mas simplesmente pelo fato de que aí não se esperavam grandes discussões, e porque todo o assunto era considerado uma espécie de treinamento pelo qual se podia aprender e experimentar o método do trabalho conciliar. Nenhum dos membros do concílio tivera a ideia de ver nesse texto uma revolução, o que
75 JOÃO PAULO II, 1995, n. 7.
76 JOÃO PAULO II, 1995, n. 6.
77 RATZINGER, 2007, p. 50.
significaria o fim da Idade Média, como alguns teólogos mais tarde quiseram interpretar78.
É no bojo desse espanto do papa alemão com os resultados revolucionários da reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II que devemos situar seu posicionamento magisterial diante do tema da reforma, vista aqui, desde a chave da participação ativa dos fiéis na liturgia79. Assim sendo, destaca-se, em primeiro lugar, a visão litúrgica de Bento XVI presente na exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis80 (SCar). Esse documento, publicado a 22 de fevereiro de 2007, destaca, com certa largueza, o tema da participação ativa dos fiéis. Há, da parte de Bento XVI, o cuidado de, por um lado, defender a validade do princípio da participação ativa como sendo o principal apelo litúrgico do Concílio Vaticano II. De outra parte, precisa Bento XVI que a participação ativa deve ser vista de maneira mais profunda, sendo assim desvinculada de um mero ativismo litúrgico, assentado num fazer exterior acrítico na liturgia. Dessa forma, afirma o Papa Bento XVI que
O Concílio Vaticano II colocara, justamente, uma ênfase particular sobre a participação ativa, plena e frutuosa de todo o povo de Deus na celebração Eucarística. A renovação operada nestes anos proporcionou, sem dúvida, notáveis progressos na direção desejada pelos padres conciliares; mas não podemos ignorar que houve, às vezes, qualquer incompreensão precisamente acerca do sentido desta participação. Convém, pois, deixar claro que não se pretende, com tal palavra, aludir à mera atividade exterior durante a celebração; na realidade, a participação ativa desejada pelo Concílio deve ser entendida, em termos mais substanciais, a partir duma maior consciência do mistério que é celebrado e da sua relação com a vida quotidiana (SCar, 50).
Constata-se, assim, que a participação ativa defendida por Ratzinger relaciona-se fundamentalmente à compreensão do mistério vivenciado, à luz de uma iniciação mistagógica que habilite o fiel a vivenciar com consciência o mistério celebrado no culto. Nesse sentido, Assunção e Santos vão dizer que
78 RATZINGER, 2007, p. 50.
79 RATZINGER, 2007, p. 101.
80 BENTO XVI. Exortação Apostólica Pós Sinodal Sacramentum Caritatis sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. 3ª Ed.São Paulo: Paulinas, 2007.
Bento XVI, como se vê, lê o conceito conciliar de participação como oposto à assistência, o que é fiel ao sentido que lhe foi atribuído pelos Padres do Vaticano II. Mas é importante captar duas camadas, duas dimensões do conceito:
consciência do mistério e relação com a vida. Não basta que o fiel entre na liturgia sem saber o que se realiza; sem isso não há participação ativa. O homem deve estar capacitado para o Mistério. De alguma forma esta é uma condição prévia à celebração. A participação começa com um movimento precedente ao culto propriamente dito81.
Contudo, a par de resgatar e precisar a relação entre reforma litúrgica e participação ativa, incentivando a última, cumpre acentuar o surgimento de um movimento antirreformista presente já na exortação apostólica Sacramentum Caritatis: o resgate das missas em latim (SCar, n. 62).
Elas passam a ocupar espaço gradativamente crescente nas indicações pastorais de Bento XVI, abrindo espaço para a promulgação do motu próprio Sumorum Pontificum, datado de 27 de julho de 2007. Tal texto resgata a liturgia da missa pré-conciliar, sobre a qual o Concílio Vaticano II desejou empreender uma profunda revisão. De maneira concreta, Bento XVI, por meio desse motu próprio, alça o missal romano, editado pela última vez por João XXIII em 1962, ao status de expressão extraordinária do rito romano renovado pelas disposições do Concílio Vaticano II (SCar, n. 62).
Por isso, Bento XVI pontua no referido motu proprio que
O Missal Romano promulgado por Paulo VI é a expressão ordinária da «lex orandi» («norma de oração») da Igreja Católica de rito latino. Contudo o Missal Romano promulgado por São Pio V e reeditado pelo Beato João XXIII deve ser considerado como expressão extraordinária da mesma «lex orandi» e deve gozar da devida honra pelo seu uso venerável e antigo. Estas duas expressões da «lex orandi» da Igreja não levarão de forma alguma a uma divisão na «lex credendi»
(«norma de fé») da Igreja; com efeito, são dois usos do único rito romano. Por isso é lícito celebrar o Sacrifício da Missa segundo a edição típica do Missal Romano, promulgada pelo Beato João XXIII em 1962 e nunca ab-rogada, como forma extraordinária da Liturgia da Igreja82.
Com a promulgação do motu próprio Sumorum Pontificum, coloca-se em questão a própria validade de tomo um movimento reformista da liturgia nascido no Concílio e desenvolvido na
81ASSUNÇÃO; SANTOS, 2017, p. 365.
82BENTO XVI. Motu Póprio Sumorum Pontificum. Disponibilidade: http://www.vatican.va/content/benedict- xvi/pt/motu_proprio/documents/hf_ben-xvi_motu-proprio_20070707_summorum-pontificum.html Acesso em: 10 jan 2021.
reflexão e na vivência da Igreja no pós-concílio. Por isso, Grillo afirma que “(...) ninguém pode negar que a Reforma Litúrgica, logo após a publicação do SP, corre o risco de ver, poderosamente, relativizado, o próprio significado e o próprio alcance histórico83.