CAPÍTULO 3: As Brincadeiras com base nos 3MP na escola Padre Giuseppe Bonomi
3.2 Características da pesquisa e seu contexto
Este estudo é de caráter qualitativo, segundo explicita Minayo (1994), pelo fato de incorporar questões significativas relacionadas e inerentes às estruturas sociais, não tendo como foco testar hipóteses simplesmente, mas sim compreender os fenômenos que circundam a comunidade em estudo.
A presente pesquisa foi realizada na cidade de Ilhéus/BA em uma escola filantrópica denominada Padre Giuseppe Bonomi. A escola atende aproximadamente 60 crianças carentes na faixa etária de 03 a 05 anos, oriundas de bairros próximos, distribuídas em três turmas nos turnos matutino e vespertino localizada no bairro do Iguape, situada no pólo industrial, região de manguezal, banhada pelo rio Almada, nas proximidades da praia do São Domingos. O Bairro Iguape é considerado pólo industrial, devido à quantidade de indústrias instaladas.
Atualmente, a população corresponde a uma média de 6.000 (seis mil) habitantes, distribuídos em 25 ruas, compondo uma considerável extensão espacial e geográfica (IBGE, 2013). A Figura 4 apresenta a imagem do bairro do Iguape.
Figura 4: Imagens localizadas no mapa da cidade de Ilhéus/BA.
Fonte: https://www.google.com.br/maps/@-14.7446728,-39.0791116,15z
No Iguape há poucas escolas destinadas ao público infantil, dentre estas, encontra-se a Escolinha Padre Giuseppe Bonomi (EPGB) que é a única que possui serviço gratuito para esse segmento da educação.
Figura 5: Imagem da Escolinha Padre Giuseppe Bonomi no ano de 2011.
Fonte: Dados da Pesquisa.
A EPGB foi escolhida, pois a autora da presente pesquisa atua nela como coordenadora Pedagógica, e pelo fato de ter ocorrido um processo anterior para construção do Projeto Político Pedagógico (PPP) que orienta os encaminhamentos deste estudo. Tendo em vista, o desenvolvimento de uma proposta de trabalho colaborativo entre comunidade, escola e a universidade. Além disso, vale destacar, que a escola visa à implementação do Ensino Fundamental futuramente e, por isso, buscou a reestruturação do Projeto Político Pedagógico (PPP) que apontava limitações do ponto de vista técnico, organizacional e metodológico, identificados pela própria escola, por não envolver todos os sujeitos na sua construção inicial.
Nesse sentido, desenvolveu-se em parceria com o GEATEC um processo formativo de professores para a construção de um PPP de caráter humanizador, assim considerado, por ter como base da sua elaboração a perspectiva freireana (ASSUNÇÃO, 2019). A escola é uma instituição não governamental, vinculada à Igreja Católica, que faz parte juridicamente da Associação Novo Céu. A associação tem como fundador o Senhor José Simão Duarte, missionário que por motivações religiosas e pelo desejo de servir a comunidade local, empenhou-se em buscar parceiros para concretização de seu sonho, repercutindo de forma positiva na vida de muitas famílias da comunidade onde a escola está instalada.
No ano de 2006, ocorreu a transição da denominação Creche Padre Kolbe (patrono da instituição), período em que mantinha caráter assistencialista, para Creche Padre Giuseppe Bonomi, pelo fato do padre ter sido um dos primeiros parceiros da obra a contribuir na ampliação do espaço e investir em outros recursos para instituição7. Durante muito tempo a
7Inicialmente o propósito da creche era de atender questões alimentares e de higiene das crianças, bem como propiciar um local de ocupação para elas enquanto as mães estivessem trabalhando (viés assistencialista). O padre italiano Giuseppe Bonomi, falecido em 09 de setembro de 2008, contribuiu com a Creche durante muito
proposta pedagógica da escola não era bem definida, e mantinha como professores os missionários da obra Novo Céu que não apresentavam formação específica para o público infantil. No ano de 2011 ingressei na instituição como coordenadora pedagógica e constatei a necessidade de uma formação mais específica das professoras para atuarem no seguimento da Educação Infantil. Até então, as principais limitações das professoras estavam voltadas para as questões metodológicas em desenvolver trabalho consistente na Educação Infantil.
Neste sentido, a Associação Novo Céu buscou recursos para garantir a formação de seus membros, bem como a ampliação e adequação do espaço físico. Assim, há 12 (doze) anos a EPGB oferece atendimento de Creche para crianças de 03 anos e pré-escola para crianças de 04 (quatro) e 5 (cinco) anos. Atualmente atende em média 70 crianças em horários parciais, ou seja, há uma turma de pré-escola que funciona no turno matutino que corresponde ao Jardim 2 e duas turmas do período vespertino Jardim1 e Maternal.
A EPGB tem sua estrutura física composta por: 2 (duas) salas de aula de Educação Infantil; (01) uma videoteca; (01) uma secretaria; (01) sala da psicóloga; (01) almoxarifado;
(01) biblioteca; áreas externas amplas; (01) um jardim; (01) parque; banheiro para as professoras e banheiros para as crianças, sendo um adaptado para crianças com necessidades especiais. A figura a seguir mostra imagem da EPGB atualmente.
Figura 6: Espaço da área externa da EPGB.
Fonte: Dados da Pesquisa.
tempo sendo um grande incentivador e financiador da obra Novo Céu, a partir dele a Associação foi mantida por um bom tempo por parceiros da Itália.
Atualmente, a escola estabeleceu um vínculo com uma das empresas do bairro e conta com o projeto “Bcezinho”8 o qual contempla todas as crianças da EPGB, ex-alunos e adolescentes do bairro. Tendo por objetivo promover atividades diversificadas para oferecer condições de socialização entre as crianças e adolescentes. Focalizando no interesse pelas artes, esporte, incentivo a leitura, xadrez, capoeira e atendimento com psicóloga, ou seja, atividades pautadas nas experiências lúdicas, culturais e esportivas.
Assim, a finalidade do projeto está voltada a constituição do espaço de convivência, formação para participação e cidadania, bem como, o desenvolvimento de autonomia, por meio de interesses, demandas e potencialidades apresentadas pelas crianças e adolescentes, buscando sempre aproximação com suas famílias. Na Figura 7 apresentam-se as crianças na EPGB em atividade.
Figura 7: As crianças em atividade no “Projeto Bczinho”.
Fonte: Dados da Escola.
As crianças atendidas na EPGB são moradoras do bairro Iguape e adjacências e os responsáveis que procuram a escola, de modo geral, são pessoas desempregadas ou que vivem de “bicos”9 oriundas de classes sociais menos favorecidas, em que a maioria mães solteiras, sobrevivem de renda família de programas sociais com Bolsa Família. Nos fundos da escola, separado apenas por um muro, fica o manguezal, aspecto que chama a atenção das crianças, principalmente pela presença constante de animais como guaiamuns, aves e saguins. Embora
8 O Bcezinho é um projeto em parceria com a Barry Callebaut, atende total de 30 crianças em turnos parciais, especialmente no turno oposto ao que estudam, de 7 a 13 anos de idade, na maioria ex-alunos da escola, e adolescentes do bairro. E também as crianças da Escolinha de 03 a 05 anos. O trabalho contribui significativamente para a inserção de crianças/adolescentes adjacentes do bairro do Iguape da cidade de Ilhéus- BA, em atividades pré-desportivas e de lazer em paralelo a educação nas áreas sociocultural e psicológica, resgatando e proporcionando o desenvolvimento físico e emocional. Possibilitando espaços de alfabetização, socialização, promovendo ampliar o repertório cultura e favorecer nas interações e construção de saberes pelas crianças e adolescentes.
9 “Bico” representa um trabalho temporário, pequeno serviço.
essas crianças morem no bairro Iguape, muitas delas não reconhecem a importância de cuidar do ambiente natural, a exemplo do manguezal, fonte de renda para alguns moradores e ao mesmo tempo é visto por muitos como um depósito de lixo.