Em 30 de outubro de 2016, o então senador, Marcelo Crivella, venceu a disputa eleitoral para a prefeitura do Rio de Janeiro. Durante a sua campanha, um dos slogans mais marcantes foi a frase: eu vou cuidar das pessoas. O tema do cuidado foi recorrente em minhas pesquisas de campo, seja proferido nos púlpitos de igrejas neopentecostais, seja nos versículos grafitados pelos muros das favelas, seja nos discursos de pastores(as), moradores(as) e trabalhadores(as) do varejo de drogas ilícitas. Junto com “cuidado” estavam associadas palavras como: cansaço, ansiedade, tristeza, perda e solidão. É preciso ter cautela com o fato de que esse discurso de um
“humanismo genérico”, esteja ligado ou não a uma doutrina religiosa, pois reforça a necessidade de empatia por intermédio de soluções imediatistas ligadas à vulnerabilidade das pessoas.
Publicamente, observamos como tem crescido a perspectiva do “vamos garantir ajuda, apoio, satisfazer as demandas da urgência, não importa como”, associando dilemas e problemas que são sociais, portanto, coletivos, a uma dinâmica particular e individual. Parte da crítica elaborada nesse sentido se dirige também ao mercado do coaching. As instituições, dessa forma, são desresponsabilizadas pela produção de desigualdades, de injustiças e de precarizações, que deixam de pertencer à seara das políticas públicas para serem “assumidas” por grupos privados,
que mantêm, inclusive, uma postura conservadora e paternalista, criando um contexto em que as mobilizações coletivas, na luta por direitos, parecem perder importância.
Lembro da primeira em vez que li a palavra “solidão” em uma faixa, na porta de uma igreja de denominação neopentecostal, que dizia: “Desencapetamento total - se você é vítima de olho gordo, inveja, doenças incuráveis, vícios, dívidas, solidão, é infeliz no amor e cisma que foi vítima de trabalhos feitos na macumba, bruxaria, feitiçaria e nada dá certo: venha receber a prece violenta e seja liberto de toda opressão! ”. Em outro dia da semana, a mesma igreja anunciava também os dizeres: “Desencapetamento total - orações fortes contra macumba, bruxaria, feitiçaria, saravá e reza de São Cipriano. Venha receber o banho do alívio com arruda e alecrim e seja liberto de todo mal.”.
Abayomi, como já mencionado anteriormente, falava muito da “carência dos bandidos”
e do suporte e do alívio oferecidos pelos cultos neopentecostais. O pastor Adofo, mencionado, também pregava com repertório semelhante na madrugada dos bailes funk de favela.
O bispo e candidato Marcello Crivella seguia o mesmo caminho. E foi exitoso. Após sua eleição, meus/minhas interlocutores/as externavam sua tensão com seu discurso político que explicitava um projeto de poder a serviço de um grupo religioso, em detrimento dos demais.
Dentro dos terreiros, as pessoas estavam tensas com o possível recrudescimento do racismo religioso e da intolerância. O medo e a apreensão diante desse contexto só pioraram com a campanha, e posterior eleição, de Jair Bolsonaro para a presidência da República, em 2018. As opiniões eram unânimes: o problema que esses projetos políticos – calcados em discursos de ódio – trazem é que validam a violência, a criminalização e a demonização, protagonizada por grupos, pessoas, instituições e até funcionários da máquina pública, tais como policiais, direcionados aos terreiros. Depois essas candidaturas ficaram desgastadas por não conseguirem oferecer a solução mágica que prometiam - mudanças radicais na sociedade brasileira. A estratégia discursiva da chamada “retórica da perda”, nas palavras da socióloga Christina Vital, contém a promessa de garantir um retorno da ordem, da segurança, dos valores tradicionais da família etc.
De acordo com o balanço divulgado pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), por meio dos casos registrados via “Disque 100”, número de telefone do governo criado em 2011 (precedido pelo Disque Denúncia), que funciona 24 horas por dia para receber denúncias de violações de direitos humanos, as denúncias de intolerância religiosa aumentaram no Brasil. Só no primeiro semestre de 2019, houve um aumento de 56%
no número de denúncias de intolerância religiosa em comparação ao mesmo período do ano
anterior. A maior parte dos relatos foi feita por adeptos da Umbanda e do Candomblé. Abaixo, dois gráficos extraídos do site Brasil de Fato e do e do Instituto de Segurança Pública (ISP)72:
Figura 14 - Denúncias de intolerância religiosa no Brasil
Fonte: SOUZA, 2020.
Figura 15 - Ataques a religiões no Brasil
Fonte: SOUZA, 2020.
Figura 16 - Intolerância Religiosa: estatísticas
Fonte:http://arquivos.proderj.rj.gov.br/isp_imagens/uploads/infograficoIntoleranciaReligiosa.pdf, 2020.
72 Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2020/01/21/denuncias-de-intolerancia-religiosa-aumentaram- 56-no-brasil-em-2019. Acesso em: 30 abr.2021.
Figura 17 - Intolerância Religiosa: estatísticas
Fonte:http://arquivos.proderj.rj.gov.br/isp_imagens/uploads/infograficoIntoleranciaReligiosa.pdf, 2020.
Eu me perguntei algumas vezes se os casos de agressão aos terreiros e aos adeptos das espiritualidades afro-brasileiras cresceram após essas eleições. Fica difícil saber ao certo se aumentaram as ocorrências no número de casos, a formalização das denúncias ou ainda se ambos ocorreram. Os dados oficiais que temos ainda são subestimados, dada a dificuldade de registro pelo interesse da máquina pública em fazê-lo de forma adequada e pelo receio das vítimas em denunciar. Entretanto, o que pude observar com mais nitidez é que tivemos um aumento na publicitação de ocorrências, que refletem situações cada dia mais graves e extremas.
Os atos de violação têm vindo mais à tona, mérito dos próprios integrantes das chamadas CTTro (Comunidades Tradicionais de Terreiro), que, principalmente durante a pandemia, têm-se articulado de formas diversas nas mídias sociais para denunciar as violências sofridas. Seja na articulação em grupos ou de forma mais individual, há uma maior vocalização da indignação com a perseguição sofrida, historicamente, neste país, e com a conivência do Estado em vários casos, não assegurando os direitos da população e, por vezes, sendo o próprio algoz das opressões. Parlamentares têm sido pressionados a representarem o segmento minoritário, porém, expressivo. Artistas têm-se posicionado, assumindo sua religiosidade, por vezes mantida escondida, devido ao preconceito.
As bandeiras de luta levantadas por diversas casas de axé, as figuras públicas e os coletivos ligados à temática condenam não apenas o racismo e a intolerância religiosa, mas também se posicionam frontalmente contra o feminicídio, o genocídio indígena, a transfobia, a LGBTfobia, o machismo, a desigualdade social e todo tipo de arbitrariedade, criticando e incitando o debate, inclusive, entre seus próprios pares. É possível citar novas e antigas
campanhas e iniciativas, tais como: Liberte o Nosso Sagrado (2017); Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa (anualmente desde 2008); Manifesto de entidades do movimento negro e povos de terreiro “Fora Bolsonaro e Mourão” (2020); Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões de Matriz Africana – Idafro (2019); Comissão de Combate à Intolerância Religiosa – CCIR (2008); a CPI da Intolerância Religiosa (2021); a aprovação da concessão da Medalha Pedro Ernesto, considerada a maior honraria da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ao jogador de futebol José Paulo Bezerra Maciel Júnior, conhecido como Paulinho, campeão olímpico pela Seleção Brasileira nos jogos de Tóquio, no Japão, em 2021 - a homenagem ocorre após o atacante ter simulado uma flechada em homenagem ao orixá Oxóssi, do candomblé, durante a comemoração de um gol e por ele falar sobre Exu e outros orixás de forma recorrente em suas entrevistas, posicionamento que aqueceu o debate sobre intolerância religiosa no país;
entre outras.
Jornais, impressos e on-line, de grande circulação, têm dedicado algumas de suas páginas a fazer parte dessas denúncias por pressão da sociedade e do próprio “povo de santo”
(expressão utilizada para designar os adeptos de religiões afro-brasileiras), ainda que diversos desses veículos continuem propagando ódio e preconceito às religiosidades de matriz africana em manchetes distorcidas. Basta lembrarmos do caso do chamado “serial killer do Distrito Federal”, Lázaro Barbosa, em 2021. Antes de o criminoso ser encontrado e assassinado, diversas reportagens associaram a sua facilidade para fugas a uma possível ligação com
“bruxaria e rituais” e colocaram fotos de assentamentos religiosos com imagens de exu, como sendo oriundos da sua casa. Depois, sua esposa veio a público desmentir as informações, dizendo que Lázaro era cristão, inclusive, existiam imagens suas pregando dentro do espaço prisional, onde esteve tempos atrás, e que as fotos não eram da sua casa. As investigações concluíram que as fotos eram de um terreiro e foram usadas de forma indevida para tentar forjar uma ligação dele com as religiosidades de matriz africana, comumente associadas a rituais satânicos, que, por sua vez, são ligados a elementos negativos e a atos bárbaros.
Por trás de todas essas histórias, existem racismo, preconceito e projetos de poder proselitistas que criminalizam todo poder fora da Cristandade (como visto nos primeiros capítulos desta tese). Após a captura e a morte de Lázaro, concluíram que, por trás dos assassinatos cometidos por ele, não existam “rituais”, mas sim o coronelismo73 presente em diversas regiões, notadamente rurais, do Brasil. Ele estava a serviço de grandes fazendeiros que
73 Forma de atuação de uma elite, representada, principalmente, por proprietários rurais. Controla os meios de produção, detendo os poderes econômico, social e político de localidades no interior do país.
ordenavam a morte e o estupro de várias pessoas para fazerem valer o que consideram ser a justiça. Até a verdade ser apurada, dezenas de terreiros foram ameaçados e invadidos na “caça”
perpetrada para prendê-lo, acusados de acobertá-lo. Felizmente, uma grande e necessária mobilização de lideranças afro-religiosas da região Centro-Oeste tratou de desmentir o boato criminoso. A seguir, as notícias que foram vinculadas pelo Portal de notícias G1, associado à TV Globo (não se teve acesso ao link original das matérias, pois publicação foi excluída após as denúncias de racismo e de intolerância religiosa).
Figura 18 - Caso Lázaro Barbosa
Fonte: Portal de Notícias G1, 2021
Figura 19 – Caso Lázaro Barbosa
Fonte: Portal de Notícias G1, 2021
Figura 20 - Caso Lázaro Barbosa Figura 21 - Caso Lázaro Barbosa
Fonte:Portal de Notícias G1, 2021
Fonte: Gabriel Borges, 2021.
Esse caso nos leva a muitos outros ocorridos anteriormente, tais como o do menino Evandro, também conhecido como As bruxas de Guaratuba, desaparecido nos anos 90 no Paraná. Em um processo que se desenrolou por quase 20 anos, sete pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) como suspeitas de terem participado de um ritual religioso para matar a criança. Depois, novos arquivos da investigação vieram à tona, demonstrando que as pessoas foram torturadas para confessar o crime, entre elas um pai de santo. Configurou-se mais um episódio de intolerância religiosa. Existe uma série documental e um podcast sobre o assunto na plataforma de streaming da Globo, a Globoplay. O crime já prescreveu, foi arquivado e a justiça diz que nada pode ser feito para reverter o que as pessoas, acusadas injustamente do crime, passaram.
Figura 22 - Caso Evandro
Fonte: Portal de notícias G1, 2020.
Figura 23 - Caso Evandro
Fonte: Portal de notícias G1, 2020.
Qualquer semelhança com os julgamentos que acusavam as bruxas de matarem crianças em rituais satânicos não é mera coincidência. Ao longo da história do Ocidente cristão, diversos grupos (que já tinham uma fama negativa, reforçada por uma definição estereotipada, racista e/ou misógina) foram identificados como agentes do diabo e utilizados como bodes expiatórios para explicar crimes, mortes e desaparecimentos “inexplicáveis” dentro da lógica racional. O mito de que bruxas comiam criancinhas na Europa Moderna surge para justificar os elevados números de infanticídio e de abortos na época (entre o final da Idade Média e a Idade Moderna).
Muitas vezes, a família não tinha como sustentar mais uma criança e, em um cenário de fome generalizada, matava as crianças. Havia também infanticídios relacionados a desequilíbrios psicológicos no parto ou no puerpério. Outras vezes, crianças eram mortas para esconder relações ilícitas e outras tantas já nasciam sem vida, devido à falta de conhecimento para lidar com algumas complicações na gravidez e no próprio parto. Não à toa, as mulheres parteiras
foram comumente chamadas de bruxas e acusadas de sequestrar e de matar crianças para ofertar ao demônio74.
Essas acusações incidem ainda hoje, de forma constante, sobre alguns grupos, como os religiosos de matriz africana. O caso do menino Evandro, portanto, não é um episódio isolado.
Na introdução do livro “Espelho ante espelho: a troca e a guerra entre o neopentecostalismo e os cultos afro-brasileiros em Salvador”, o antropólogo Bruno Reinhardt inicia falando de uma ampla campanha feita por igrejas neopentecostais em Salvador contra o sacrifício de crianças no candomblé. Em uma das manifestações, crianças carregavam faixas com os dizeres “DEIXE- NOS VIVER”, enquanto pastores acompanhavam e portavam cartazes com dados estatísticos de como os cultos afro-brasileiros contribuíam para as altas taxas de mortalidade infantil do país. Abaixo, mais um caso emblemático, o da jovem Fabiane Maria de Jesus, que foi espancada e morta em 2014. Ela foi confundida, por meio do retrato falado de uma mulher, divulgado na página do Facebook “Guarujá Alerta” (Guarujá, SP), supostamente acusada de sequestrar e praticar rituais de “magia negra” com crianças.
Figura 24 - Caso Fabiane Maria de Jesus
Fonte: Anna Gabriela Ribeiro. Portal de notícias G1, 2014
Figura 25 - Caso Fabiane Maria de Jesus
Fonte: Anna Gabriela Ribeiro. Portal de notícias G1,2014