3.1- CONFORMAÇÃO DAS CIDADES INFORMAIS E LAGOA DO SAPO:
LUGARES SEM CIDADÃOS
Carlos (2008) diz que o modo de ocupar determinado lugar da cidade se dá a partir da necessidade de realização de determinada ação, seja de produzir, consumir, habitar ou viver. O ser humano, para viver, necessita ocupar um determinado lugar no espaço. Santos (2002:81) ressalta que “cada homem vale pelo lugar onde está: o seu valor como produtor, consumidor, cidadão, depende de sua localização no território”.
A ocupação fora da lei acabou por criar uma unidade à parte dentro de cada cidade brasileira, a cidade informal. A respeito desta, Grostein (2001:15) diz que se trata de “(...) uma realidade de longa data nas cidades brasileiras, especialmente nas metrópoles que tiveram seu crescimento acelerado, a partir dos anos 40 e 50, associado ao processo de urbanização brasileira”.
Sirkis (2003: 219) define as cidades oriundas deste processo como “a cidade das favelas, loteamentos clandestinos e similares”. Grostein (2001) refere-se ao mesmo espaço usando a expressão “Cidade Clandestina ou Cidade Irregular”. Essa define a forma abusiva do crescimento urbano sem controle, próprio da cidade industrial metropolitana, compreendendo os bairros relegados pela cidade dos pobres e dos excluídos, a cidade sem infra-estrutura e serviços suficientes, a cidade ilegal, ainda que legítima.
A cidade que associa o fenômeno da expansão urbana ilegal ao da exclusão social pode ser encontrada “em todas as cidades brasileiras, em maior ou menor escala”
(SIRKIS, 2003:220). São unidades dentro das cidades nas quais raramente chegam investimentos públicos, obrigando seus moradores a conviverem com a falta de saneamento básico, coleta de lixo e, em muitos casos, com os riscos de desabamento ou inundação.
A partir destas reflexões, pode-se inferir que o entorno da Lagoa do Sapo é uma cidade informal, uma vez que tanto a lagoa como o seu entorno apresentam-se esquecidos e segregados e marcados por desigualdades e pobreza. Esse espaço é esquecido por parte não só do poder público, mas da sociedade como um todo. Os moradores do entorno estão acostumados a viver sem investimentos públicos e com falta de saneamento básico.
Como já entendido no capitulo anterior, a população foi ocupando o entorno da lagoa, pois não tinha para onde ir. Essa ocupação se deu e continua de forma desordenada, pois ainda permanece a ocupação irregular no entorno da lagoa.
Tanto descaso e abandono acabam marcando de forma negativa esses espaços. Por isso, Grostein (2001:14) afirma que (...) “a precariedade e a ilegalidade são seus componentes genéticos e contribuem para a formação de espaços urbanos sem atributos de urbanidade”.
É visto que, com o passar do tempo, a ocupação no entorno da lagoa se acentua, e essa expansão traz conseqüências drásticas tanto para lagoa como para essa população, que, em períodos de chuva, vive o drama de morar naquela área.
Santos discorre a respeito da questão das habitações urbanas brasileiras em áreas irregulares:
(...) muitas dessas habitações estão localizadas em áreas de proteção ambiental ou áreas não destinadas à ocupação residencial, além do fato de muitas não respeitarem os padrões de edificação vigentes. Esse fato acaba prejudicando o apoio do poder público a essas moradias, dado que a execução de melhorias nessas habitações, na maioria das vezes, sancionaria uma ilegalidade (SANTOS, 1999:26).
Quando se trata de cidade informal, na maioria das vezes, meio ambiente e questões de habitação caminham lado a lado. Na verdade, as duas questões estão interligadas, e, para resolver o problema de um, é preciso resolver o problema do outro.
Coelho (2006), ao escrever sobre impactos ambientais, ressalta que os problemas ambientais não atingem o espaço urbano de forma regular, pois, na verdade, estão mais presentes nos espaços ocupados pelas classes menos favorecidas, ou seja, nas cidades informais.
É freqüente ver entornos de lagoas e outros lugares de preservação permanente ocupados por classes menos favorecidas. No entanto, cabe tanto ao poder público, quanto à sociedade assumir sua posição na luta por um meio urbano saudável, um espaço urbano melhor e melhores condições de vida para classes menos favorecidas, como é o caso do entorno da Lagoa do Sapo.
Os grupos sociais desfavorecidos são segregados de uma forma imposta, na medida em que as condições de como e onde morar são pequenas ou nulas. Isso é visto no próprio entorno da Lagoa do Sapo, em que esta parcela de menor poder aquisitivo da sociedade se concentrou no entorno de uma área imprópria à moradia.
As pessoas de menor poder aquisitivo fixam residência na periferia, em terrenos mais baratos, nas favelas, em áreas impróprias à moradia, em espaços que não vigoram direitos de propriedade, enquanto as classes de maior renda habitam as melhores áreas da cidade, acentuando cada vez mais a segregação.
Com toda certeza, a população que “sobrevive” no entorno da Lagoa do Sapo não pode ser considerada como cidadã, já que não goza dos direitos políticos e civis pertencentes aos habitantes de uma cidade. A comunidade vive a mercê do Poder público.
É um lugar esquecido, sujeito a todo tipo de problemas, seja social ou econômico.
Um dos muitos problemas enfrentados é a falta de moradia, já que muitas casas não podem ser consideradas uma moradia em si, pelo menos não uma moradia digna. O desejo pela casa própria é o sonho da grande maioria dos moradores. Para eles, o importante é deixar o barraco onde vivem.
Com tantas dificuldades, os moradores não são considerados cidadãos, mas heróis que sobrevivem em meio ao descaso, ganhando uma batalha por dia.
Para Santos (2002), fica claro que hoje o cidadão é substituído pelo consumidor, pois os direitos só existem para aqueles que podem pagar por eles. Este é o caso dos serviços públicos de água e luz. Só aqueles que pagam têm os direitos a esses serviços com qualidade; aqueles que não podem pagar acabam sendo obrigados a fazerem ligações clandestinas, caso da população do entorno da Lagoa do Sapo.
Ao serem indagados a respeito do que esperar do futuro, os moradores foram unânimes: eles pensam num futuro melhor para seus filhos, com melhores oportunidades de estudo e trabalho.
Entretanto, o entorno da Lagoa do Sapo apresenta-se hoje como um lugar esquecido. Ela só é conhecida por alguns bairros vizinhos, por alguns profissionais pesquisadores e por poucos setores do poder público. Nas diversas idas a várias secretarias
da prefeitura de Campos, no decorrer dessa pesquisa, foi notado o desconhecimento total por parte dos profissionais a respeito da Lagoa do Sapo.
Já dizia Faria (2005) que Guarus sempre foi uma parte da cidade mais segregada e com maiores problemas enfrentados. Até hoje permanece assim. Guarus, e mais especificamente a lagoa do sapo e seu entorno, precisa de um olhar mais atento por parte de toda sociedade.
3.2- O DIREITO DE MORAR, O DIREITO AO ENTORNO E À CIDADANIA:
CONSIDERAÇÕES FINAIS.
O direito a moradia foi admitido no artigo 6º da Constituição Federal de 1988, no ano de 2000, embora já fosse reconhecido como um direito social. É um direito que faz parte das diretrizes gerais da política urbana, estabelecidas pelo artigo 2º do Estatuto da Cidade.
O direito de morar é fundamental para o homem. Isso é explicitado por Mattos (2004:298): “se, na concepção platônica, o homem é uma alma que se serve de um corpo, tem-se que a moradia é o abrigo indispensável para esse corpo e essa alma”.
O direito a moradia não é necessariamente o direito a casa própria. Segundo Silva (2007), o direito à moradia é garantir a todos um teto onde se abriguem com a família de modo permanente, segundo o próprio significado do verso “morar”, do latim “morari”, que quer dizer “demorar”, “ficar”. Portanto, não é só o acesso à moradia, mas garantir a permanência nela.
O direito fundamental à moradia decorre, sem dúvida, do direito a vida, portanto deve ser priorizada, com elaboração e execução administrativa de políticas públicas tendentes a realização desse direito indissociável da dignidade da pessoa humana.
O grande desafio é a construção de cidades justas, ou mais justas. O direito a moradia e, em conseqüência à cidade, deve ser exercido sempre, com a consciência de que:
Reivindicar o direito à cidade requer que nunca o tomemos com algo estabelecido, que nunca fiquemos com os assuntos “encerrados” e os direitos “estabelecidos”, ou seja, como a utopia se materializa momentaneamente. Expandir o direito a cidade requer um claro foco nas possibilidades utópicas e nos perigos de sempre procurarmos rediscutir e, portanto, reformar o espaço público de forma a transformá-lo em uma imagem mais justa de ordem urbana. (MITCHELL, 20003: 236).
O problema da moradia exige a participação do Poder público, cabendo a população carente reivindicar as necessidades de um lugar para morar. Para que se cumpra
a função social da propriedade e da própria cidade, há a necessidade de se repensar as cidades.
A busca pela dignidade significa o exercício da cidadania, o que, infelizmente grande parte da população não tem conseguido. A cidadania fundamenta-se nos princípios da lei e da igualdade. Conforme Braga (2004) todos são iguais perante a lei e todos têm o direito de participar do processo de elaboração dessas mesmas leis. A consagração da cidadania é, sem duvida, o respeito ao indivíduo. Para Santos (2002), a cidadania se aprende, está na raiz da cultura.
Mas a maioria da população desconhece o significado da cidadania e a sua participação na construção da mesma. Para Santos (2002), é necessário que as camadas populares elevem a capacidade de leitura do mundo, sensibilizem-se e conscientizem-se; o conhecimento é fundamental para articular um discurso contra- hegemônico.
Santos (2002:7-8) explicita que “a cidadania pressupõe o respeito ao individuo, mas isto somente acontecerá de fato quando as pessoas tiverem consciência deste direito”. No entanto, as leis por si só não garantem a cidadania, é necessário reivindicar e, para isso é fundamental a capacidade de leitura de mundo e participação política.
Nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, talvez por causa das desigualdades sociais, muitos não se vêem como cidadãos, há aqueles que já tem consciência, lutam por ela e se consideram cidadãos, mas há aqueles que ainda não sabem que é possível se ter cidadania, são totalmente excluídos.
Portanto, a cidade deve ser pensada para o hoje e para o futuro, sempre com justiça para todos, pois ter e realizar o direito à cidade significa, além da moradia, viver dignamente com tudo aquilo que é proporcionado aos incluídos socialmente. Isso é o que Santos (2002) chama de direito ao entorno, o direito de tudo ao seu redor, as mudanças que ocorrem nas paisagens não podem afetar a população que mora ao seu entorno.
O direito à moradia exige que o Estado crie os meios materias indispensáveis para o exercício desse direito, adotando instrumentos financeiros, legais e administrativos para a criação de uma política habitacional. Conforme Canuto (2008):
Construindo um sistema de habitação democrático, com a participação popular; destinando recursos para políticas habitacionais e interesse social e, por fim, adotando políticas públicas que possibilitem o acesso ao mercado habitacional para aqueles que se encontram em estado de pobreza sem lugar para morar e/ ou vivam em condições precárias de habitabilidade e, portanto, sem vida digna. (CANUTO, 2002: 281)
O que falta aos moradores do entorno da Lagoa do Sapo não é só uma moradia digna, mas falta o respeito aos seus direitos sociais, nos quais a residência faz parte, mas não é somente uma casa de qualidade, falta a dignidade e o exercício da cidadania.
Segundo Canuto (2008:276) “o homem é digno porque é. Essa é a máxima”. Cumprir o princípio da dignidade é cumprir todos os artigos da Constituição Federal de 1988, já que digno é o ser humano que tem liberdade, educação, saúde, saneamento básico, moradia, segurança, isonomia, propriedade. Esses são os direitos sociais negados à comunidade da Lagoa do Sapo.
Refletimos acerca dessas idéias, e vimos que são necessárias algumas medidas para solucionar os problemas da comunidade do entorno da Lagoa do Sapo. O melhor a se fazer é a retirada dessa população para uma área legal e segura, garantindo a mesma uma habitação digna, o acesso aos serviços públicos básicos como: saúde; educação; lazer;
saneamento básico, além de trabalho e transporte.
E para lagoa, o melhor a se fazer seria recuperá-la, retirando os manilhas de esgoto e o lixo. Isso melhoraria as condições ambientais do bairro, dando ao mesmo uma opção de lazer, que será a lagoa recuperada, podendo também estabelecê-la como área protegida.
A respeito do projeto “paisagístico” da prefeitura para aquela área, que consiste na construção de uma praça, sem respeitar os limites das margens da lagoa postos pelo Plano Diretor, acreditamos que essa não seja a melhor solução. Como o bairro possuí espaços vazios e apropriados para edificações, acreditamos que a construção da praça deve ocorrer nesses espaços. Dessa forma, o projeto da prefeitura não traria transtornos para a lagoa, e seria outro espaço de lazer para a população do bairro.
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