Na doutrina, encontram-se várias classificações dos pressupostos processuais, porém, neste trabalho, utilizar-se-á, para tal fim, a doutrina de Luiz Rodrigues Wambier (2000, p.
208), que os classifica em pressupostos de existência e de validade (pressupostos positivos), além dos pressupostos negativos, cuja presença obsta o regular desenvolvimento do processo.
Ainda, conforme acentua Humberto Theodoro Júnior (2002, p. 54), tem-se que os pressupostos de existência válida e regular do processo são subjetivos quando se relacionam com os sujeitos do processo (o juiz e as partes) e compreendem: a competência do juiz para a causa, a capacidade civil das partes e sua representação por advogado; e são objetivos quando se relacionam com a forma procedimental e com a ausência de fatos que impeçam a regular constituição do processo e compreendem: a observância da forma processual adequada à pretensão, a existência nos autos de instrumento de mandato conferido ao advogado, a
inexistência de litispendência, coisa julgada, compromisso, ou de inépcia da petição inicial e, finalmente, a inexistência de quaisquer das nulidades previstas na legislação processual.
2.2.1 Pressupostos Processuais de Existência da Relação Jurídica Processual
Os pressupostos processuais de existência são os requisitos para que a relação processual se constitua validamente e são quatro: petição inicial, jurisdição, citação e capacidade postulatória, os quais serão analisados individualmente. (Cf. WAMBIER, 2000, p.
208).
2.2.1.1 Petição Inicial
O primeiro dos pressupostos de existência do processo é a petição inicial, seja ela inepta ou não, através da qual o autor invoca a prestação jurisdicional.
Segundo Arruda Alvim (1997, p. 471),
Não existe, assim processo, sem que haja iniciativa da parte (art.262). Diz-se, por esse motivo, que o primeiro requisito da existência do processo se prende a um princípio geral informador do Direito Processual Civil, que é o princípio dispositivo, que significa estar à disposição da parte, ou do interessado, quando se tratar de jurisdição voluntária, ou fazer valer sua pretensão.
De acordo com exposto acima, o artigo 2º do Código de Processo Civil – CPC, confirma que o processo só existe pela iniciativa da parte:
Art. 2º Nenhum juiz prestará a tutela jurisdicional, senão quando a parte ou o interessado a requerer, nos casos e formas legais.
Assim, não há como se ter uma relação jurídica processual sem pedido inicial, e por isso é exigida petição inicial, mesmo que inepta, para haver um processo e conseqüentemente uma relação jurídica processual. (Cf. RODRIGUES, 1998, p. 226).
Consoante assevera Cândido Rangel Dinamarco (1993, p. 137):
[...] aforada a petição inicial, considera-se proposta a demanda (art. 263) e, o que é mais importante, nesse momento o processo passa a existir. Antes mesmo de despachada a petição inicial, o processo já existe pela simples entrega ao órgão judicial (distribuidor, cartório e ofício, protocolo), tanto que, conforme jurisprudência reiterada, com isso já se considera interrompida a prescrição (interpretação correta do art. 219). Havendo motivo, ao despachar a petição inicial, o juiz porá fim ao processo como manda o art. 267 do Código de processo Civil (...) – e, naturalmente, só se concebe extinção de algo que exista.
2.2.1.2 Jurisdição
É imprescindível que a ação seja dirigida a uma autoridade judiciária, investida em órgão previsto na Constituição Federal.
De acordo com Marcelo Abelha Rodrigues (1998, p. 226) e Sérgio Pinto Martins (2003, p. 221), é necessário que o juízo a que está submetido o processo possa exercer jurisdição, que é o poder-dever-função de dizer o direito do caso concreto.
Quanto a isso, Luiz Rodrigues Wambier (2000, p. 208) assim se manifesta:
[...] a parte deve formular seu pedido, no bojo de petição inicial, a um órgão jurisdicional, devidamente investido dos poderes inerentes a essa função estatal. Se se trata de juízo competente ou não é algo que não interessa à análise da existência, mas que se situa no âmbito da validade do processo [...].
Portanto, a parte deve formular o pedido a alguém investido em jurisdição, ou seja, a um órgão jurisdicional, pois, mesmo se incompetente, processo haverá. (Cf. ALVIM, 1997, p.
471).
2.2.1.3 Citação
A citação é condição indispensável para a formação da relação jurídica processual, entretanto esta deve ser feita segundo as regras essenciais exigidas pelo Código de Processo Civil, do contrário será declarada inválida, ou seja, pode existir, mas com o vício de validade.
Ainda, a citação é a base jurídica do processo; por ela, chama-se ao juízo a parte e se lhe dá conhecimento do que em juízo se está pedindo. (Cf. BAPTISTA, 1997, p. 69).
Assim, somente com a citação podemos dizer que há processo íntegro, nos dizeres de Sérgio Pinto Martins (2003, p. 222): “Para o bom andamento do processo há necessidade de que a citação tenha se realizado regularmente, sob pena de nulidade absoluta. A citação vem a ser justamente a comunicação ao réu de que tem contra si uma ação proposta.”.
E Marcelo Abelha Rodrigues (1998, p. 228) complementa:
Até a citação, como se costuma dizer, existe uma relação jurídico-processual linear entre o demandante e o Estado-Juiz, tornando-se tríplice quando a citação é feita. A tríplice estrutura é indispensável para que o processo produza eficaz e utilmente o seu resultado, não para que exista. [...].Vale afirmar que a citação integra, a nosso ver, a relação jurídica processual, e não o processo, considerado aqui de forma mais ampla. Conforme afirmado na questão anterior, entendo que, há processo desde que proposta a ação (relação jurídica linear entre autor e juiz), cumprindo à citação o papel de integração da relação jurídica já existente, para que esta se torne tríplice – autor-juiz-réu, produzindo efeitos também com relação ao réu. Inexistindo citação, haverá processo iniciado, mas não integralizado; no âmbito deste processo é que o juiz verificará a ausência do pressuposto processual de existência, em tela, e
extinguirá tal processo de plano, sem julgamento de mérito, na forma do art. 267, inc. IV do CPC.
2.2.1.4 Capacidade Postulatória
Segundo a Constituição Federal (art. 133), o advogado é figura essencial e indispensável à Administração da Justiça. Erigido a esta condição, ressaltado ainda mais pelo estatuto da Advocacia e Ordem dos Advogados do Brasil (Lei 8.906/1994), vigora no nosso ordenamento o princípio da imprescindibilidade do advogado, não se admitindo, senão em casos excepcionais, o jus postulandi a qualquer pessoa. (Cf. RODRIGUES, 1998, p. 232).
O jus postulandi é comum no processo do trabalho, e, em consonância com esse raciocínio, encontra-se Amador Paes de Almeida (1994, p. 69), sustentando que a subsistência do jus postulandi no Processo do Trabalho ressalta o seu alto significado social, como meio de facilitar o acesso do hiposuficiente aos pretórios trabalhistas.
2.2.2 Pressupostos Processuais de Validade da Relação Jurídica Processual
Depois da análise dos pressupostos processuais de existência, cabe agora examinar os pressupostos processuais de validade do processo, ou seja, os pressupostos necessários para o desenvolvimento válido e regular do processo, a fim de que possa ter curso também regular, até a sentença de mérito ou a providência jurisdicional definitiva. (Cf. WAMBIER, 2000, p.
210).
2.2.2.1 Petição Inicial Apta
De acordo com Luiz Rodrigues Wambier (2000, p. 210),
[...] exige-se que essa petição inicial seja válida, regular, apta, portanto, a servir de canal condutor do pedido de tutela estatal, nos termos em que a própria lei prevê, isto é, deve conter os requisitos que a lei considera indispensáveis para que a petição inicial produza seus regulares efeitos.
Por petição apta entende-se aquela que retrata um pedido que, em tese, é possível, ou que expressa pretensão possível ou viável, ou, ainda, é inapta a petição que está inserida nas hipóteses do parágrafo único do artigo 295 do CPC, in verbis:
Art. 295. A petição inicial será indeferida:
[...]
II – da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão;
III – o pedido for juridicamente impossível;
IV – contiver pedidos incompatíveis entre si.
Ainda, Sérgio Pinto Martins (2003, p. 221) determina que a petição inicial seja encaminhada ao órgão jurisdicional competente, que tenha a descrição da pretensão resistida pela parte contrária, na qual será feito o pedido, exposto o mérito da questão, para que se pretenda ver solucionada pelo órgão investido de jurisdição.
2.2.2.2 Órgão Jurisdicional Competente e Juiz Imparcial
Para validação processual é necessário o órgão jurisdicional competente e a existência do juiz imparcial. Acerca da competência, retira-se da obra de Carlos Eduardo Ferraz de Mattos Barroso (2003, p. 39):
Competência é a medida ou quantidade de jurisdição atribuída aos seus órgãos de exercício. A jurisdição, muito embora uma, necessita ser distribuída entre os agentes nela investidos, tudo visando a melhor administração da justiça. É a competência, portanto, a divisão do poder estatal entre seus agentes políticos.
Quanto à imparcialidade, retira-se ensinamento da obra de Luiz Rodrigues Wambier (2000, p. 211):
Além de dever ser competente o juízo, deve também o juiz ser imparcial, isto é, aquela determinada pessoa, que naquele momento se encontra exercendo a jurisdição naquele juízo, não deve “tomar partido” das afirmações do autor ou do réu. Há presunção legal de que a imparcialidade possa estar comprometida, nos casos em que a própria lei vê motivos para o impedimento do juiz.
A imparcialidade do juiz é pressuposto para que a relação processual se instaure validamente. A imparcialidade do juiz é sobretudo uma garantia de justiça para as partes, e, por isso, elas têm o direito de exigir um juiz imparcial, e o Estado, por sua vez, tem o dever de agir com imparcialidade nas soluções das causas que lhe são submetidas, e, quando acontecer o contrário, cabe à parte usar das exceções de suspeição ou de impedimento para proteger seu direito à imparcialidade.
2.2.2.3 Capacidade de Agir e Capacidade Processual
Segundo Luiz Rodrigues Wambier (2000, p. 211), esse pressuposto processual se dá em duas formas: a capacidade de ser parte, isto é, de assumir direitos e obrigações na ordem civil, e a capacidade processual, que consiste na capacidade de estar em juízo, defendendo direitos e obrigações.
Assim, de acordo com Sonia Márcia Hase de Almeida Baptista (1997, p. 71),
[...] tem capacidade de ser parte toda pessoa natural, não importando a idade, estado mental, sexo, nacionalidade, estado civil, bem como as pessoas jurídicas, além de outras figuras a que a lei atribui essa capacidade, como o nascituro, o espólio etc.
Mas a capacidade de estar em juízo, também chamada legitimação para o processo (legitimatio ad processum), só é atribuída aos que estiverem no exercício de seus direitos, excluídos, assim, os menores, os loucos, os silvícolas etc. a capacidade de estar em juízo relaciona-se com a capacidade de exercício; de praticar, por si, os atos da vida civil.
Arruda Alvim (1997, p. 480) dá como exemplo o caso dos menores absolutamente incapazes, que são representados em juízo por seus pais (art. 8º), pois quem tem legitimidade ad causam é o menor, mas quem tem a legitimidade processual é o pai ou o representante legal do menor.
2.2.3 Pressupostos Processuais Negativos
Pressupostos processuais negativos ou extrínsecos são pressupostos que não podem estar na relação processual, devem não existir para que a relação jurídica processual possa ser analisada. Assim, a presença deles impede a eficácia e a validade da relação jurídica processual. (Cf. WAMBIER, 2000, p. 211).
2.2.3.1 Litispendência
A litispendência é pressuposto processual de validade negativo da relação jurídica processual, ou seja, não deve existir para que a relação processual seja válida. Assim dispõe o art 267, V do CPC:
Art. 267. Extingue-se o processo, sem julgamento de mérito:
[...]
V – quando o juiz acolher a alegação de perempção, litispendência ou de coisa julgada.
Ainda, conforme art. 301, inciso V, §§ 1º e 2º do CPC, litispendência significa a existência de dois ou mais processos concomitantemente, com as mesmas partes, o mesmo pedido e idêntica causa de pedir.
Segundo Luiz Rodrigues Wambier (2000, p. 212), o fundamento desse pressuposto processual negativo está no princípio da economia processual e no perigo de julgamentos conflitantes.
Portanto, não pode pender duas demandas idênticas perante a Justiça, e, nesse sentido, a litispendência anterior é um pressuposto processual negativo, o qual impede a validade de uma segunda relação processual idêntica. Assim se manifesta Arruda Alvim (1997, p. 481):
Diz-se que a litispendência de um primeiro processo é um pressuposto processual negativo para um segundo, com conteúdo idêntico, porque o segundo, mesmo preenchendo todas as condições de prosperar, em virtude de um elemento que lhe é extrínseco, isto é, pelo mero fato da existência de um processo igual, será trancado.
Então, a litispendência anterior é um pressuposto processual negativo, impedindo a validade de uma segunda relação jurídica processual idêntica.
2.2.3.2 Coisa Julgada
Na lição de Liebman apud Sonia Márcia Hase de Almeida Baptista (1997, p. 73), coisa julgada é a qualidade que torna indiscutível e imutável o efeito da sentença da qual não se possa mais recorrer, ordinária ou extraordinariamente; consiste, também, em pressuposto processual negativo, impedindo também a propositura de uma ação que já transitou em julgado, a respeito da mesma causa de pedir, com o mesmo pedido, entre as mesmas partes.
Marcelo Abelha Rodrigues (1998, p. 241) assim define coisa julgada:
Coisa julgada é a circunstância de já ter havido pronunciamento judicial de mérito com trânsito em julgado sobre uma ação idêntica, ou seja, não pode se repetir o ajuizamento de uma ação, cuja lide já atingiu a coisa julgada em momento anterior.
Dessa forma, as partes não podem propor novamente uma mesma demanda em juízo, e nem os juízes podem decidir novamente a mesma demanda, pois coisa julgada nada mais é que a imutabilidade dos efeitos de uma sentença.
Luiz Rodrigues Wambier (2000, p. 213) completa, afirmando que esse pressuposto decorre do princípio da segurança jurídica, em razão de que, num determinado momento, o comando existente na sentença adquire solidez.
2.2.3.3 Perempção
Luiz Rodrigues Wambier (2000, p. 215) afirma que a perempção se afasta dos pressupostos processuais, porque estes se caracterizam por atingir igualmente autor e réu.
Porém, como há autores que defendem a hipótese de que a perempção é um pressuposto processual, será citada também neste trabalho.
Conforme Nelson Nery Júnior apud Marcelo Abelha Rodrigues (1998, p. 242), a perempção é:
[...] a perda do direito de ação em virtude de o processo, tendo em vista a mesma demanda, ter sido extinto três vezes pelo motivo do CPC 267, III. Ocorrendo a perempção, a quarta ação objetivando a mesma pretensão tem de ser extinta sem julgamento de mérito”.
Ainda, de acordo com o parágrafo único do art. 268 do CPC, se o autor der causa ao tipo de extinção, no art. 267, III do CPC4, contra o réu, não poderá propor nova ação com o mesmo objeto, restando-lhe apenas a possibilidade de se defender, em eventual ação proposta pelo réu.