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O PENSAMENTO COMPLEXO-TRANSDISCIPLINAR

1.2 A MUDANÇA DE PARADIGMAS

1.4.1 CONCEITOS E TAREFAS

59 1.4A TRANSDISCIPLINARIDADE

O pensamento complexo pede uma transdisciplinaridade. O paradigma da simplificação se conteve na fragmentação das disciplinas. A disciplinaridade, fragmentação do saber, não atende à complexidade da ciência contemporânea que, por sua vez, não atende à teologia também. A visão do todo como um mundo dinâmico e de múltiplas relações anseia por um caminho capaz de possibilitar diálogos disciplinares mais abrangentes, mais transdisciplinares.

A consciência do todo e das múltiplas possibilidades de análises e reflexões enriquece a compreensão da realidade. Isto é edificante para qualquer teologia que busca se colocar, de forma atual, diante das grandes discussões contemporâneas. A postura dialógica não só faz a teologia amadurecer internamente como a coloca em posição privilegiada para uma palavra pertinente frente às demandas atuais do mundo e do humano.

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disciplina”,111 com o objetivo de compreender o mundo presente na unidade do conhecimento. É com essa imagem em mente que entendemos o quanto a relação transdisciplinar pode ser positiva para a teologia.

A transdisciplinaridade se interessa pela dinâmica gerada pela ação de diversos níveis de realidade ao mesmo tempo. Ou como afirma Maria Lucia Rodrigues:

A transdisciplinaridade surge como possibilidade para o alargamento da compreensão do real, como renascimento do espírito e de uma nova consciência, de uma nova cultura para enfrentar os perigos e horrores desta época. Instiga a tomar consciência da gravidade do momento e a colocar em conexão os conhecimentos e as capacidades de pensar para transformar a si mesmo e o mundo em que vivemos, levando a termo uma nova praxis. Ser histórico e compreender-se historicamente não significa somente o entendimento de uma lógica cuja razão crítica está na base de explicações conjunturais e econômicas, mas sim e também, reconhecer-se trans-histórico e responsável por um pensamento de si, do contexto e do complexo.112

As sociedades atuais são plurais e estão firmadas em um paradigma complexo onde a transdisciplinaridade emerge como opção que, ao mesmo tempo, aponta os limites da disciplinaridade e abre novos espaços para novas formas de saber. A proposta da complexidade exige que a disciplinaridade, divisão da ciência e da realidade em compartimentos, rompa seu isolamento, abrindo-se à relações trans, via de soluções teóricas e práticas para os problemas multidisciplinares que desafiam a humanidade.

A complexidade do desenvolvimento do conhecimento, do humano e da vida pede um olhar transdisciplinar. A conjugação entre os olhares micro e macro capta melhor a realidade e mesmo assim não a esgota. O transdisciplinar multiplica os ângulos de aproximação que complexificam o objeto, religa conhecimentos, problematiza o contexto, articula a ciência à sapiência, fundando uma nova maneira de ser-aí-no-mundo. Para isso é preciso liberdade para transitar entre os saberes e coragem para assegurar a identidade diante do diálogo. É o que diz Humberto Maturana:

Para transpassar fronteiras precisamos de liberdade. Isso significa que temos de nos comportar de maneira que possamos emergir sem que tenhamos medo de desaparecer no que fazemos. Assim, podemos voltar ou ficar lá, ou podemos ir além e juntar coisas que de outra maneira não seriam juntadas,

111 NICOLESCU, Basarab. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: TRIOM, 1999. p.35.

112 RODRIGUES, Maria Lucia. Caminhos da transdisciplinaridade: fugindo a injunções lineares.

Nemess Complex. São Paulo: PUC-SP. Disponível em:

<http://www.pucsp.br/nemess/links/artigos/marialucia3.htm>. Acesso em 28 jun. 2014.

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porque campos diferentes não se relacionam mas somos nós, seres humanos, que os relacionamos.113

A teoria da complexidade e transdisciplinaridade, ao propor a religação dos saberes compartimentados, oferece uma perspectiva de superação do processo de atomização. Embora concebidos separadamente, o pensamento complexo e a transdisciplinaridade articulam-se. Se vistas separadamente, uma torna-se princípio da outra. Sugerem a superação do modo de pensar dicotômico das dualidades (sujeito-objeto, parte-todo, razão-emoção etc.) proveniente da visão disseminada por Descartes, estimulando um modo de pensar marcado pela articulação.

Vimos que o pensamento complexo foi sistematizado por Edgar Morin. Já a sistematização da transdisciplinaridade foi realizada pelo físico romeno Basarab Nicolescu (1942-). Autor de dezenas de livros e centenas de artigos, Nicolescu é professor e o maior especialista em transdisciplinaridade da atualidade. Dentre os vários textos escritos sobre o tema, temos obras fundamentais como: Nous, la particule et le monde e la transdisciplinarité:

manifeste e a sua aplicação à teologia por Thierry Magnin. Nicolescu é presidente do Centre Internacional de Recherches et Études Transdisciplinaires (CIRET), fundado na França em 1987 e, desde 1991, trabalha ativamente em grupos de discussão transdisciplinar vinculados à ONU e à UNESCO.114

Edgar Morin também é pesquisador do CIRET. Há mais de duas décadas, ele e Nicolescu começaram a elaborar uma nova visão, a partir dos avanços da física quântica, denominada teoria da Complexidade e Transdisciplinaridade. Essa nova visão, ainda não muito difundida, já começa, porém, a se tornar referência obrigatória, tendo recebido contribuições de diversas áreas do conhecimento. A Complexidade de Morin e a Transdisciplinaridade de Nicolescu, diferentes no tipo de enfoque, se acoplam e se complementam. Morin, de um lado, prioriza as interlocuções entre os diversos saberes humanos, extraindo princípios. Nicolescu, por outro lado, na perspectiva metodológica, formula uma nova lógica, a lógica do terceiro termo incluído e uma metodologia transdisciplinar que dê conta do tratamento da diversidade e das oposições.

113 MATURANA, Humberto apud RODRIGUES, Maria Lucia. Caminhos da transdisciplinaridade:

fugindo a injunções lineares. Nemess Complex. São Paulo: PUC-SP Disponível em:

<http://www.pucsp.br/nemess/links/artigos/marialucia3.htm>. Acesso em 28 jun. 2014.

114 Cf. O Currículo de Vida de Basarab Nicolescu disponível em: <http://basarab-nicolescu.fr/cv.php>.

Acesso em 29 jun. 2014.

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Em novembro de 1994, Basarab Nicolescu, juntamente com Edgar Morin e Lima de Freitas, elaboraram a Carta da Transdisciplinaridade, por ocasião do 1º Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, em Portugal, com o objetivo de esclarecer os aspectos fundamentais da abordagem transdisciplinar. A Carta permite verificar a abrangência da transdisciplinaridade nas relações sociais, econômicas, políticas e religiosas. Ela lança desafios para repensar o lugar do sujeito na criação e ultrapassar os limites das esferas da realidade que empobrecem a compreensão da vida e do humano.

Citamos alguns artigos da Carta com a finalidade de entender o que é e o que propõe a transdisciplinaridade. No segundo momento, analisaremos, a partir da Carta, o pensamento de Nicolescu sobre a transdisciplinaridade, exposto em algumas das suas publicações:

Artigo 2

O reconhecimento da existência de diferentes níveis de realidade, regidos por lógicas diferentes, é inerente à atitude transdisciplinar. Toda tentativa de reduzir a realidade a um só nível, regido por uma lógica única, não se situa no campo da transdisciplinaridade.

Artigo 3

A transdisciplinaridade é complementar à abordagem disciplinar; ela faz emergir novos dados a partir da confrontação das disciplinas que os articulam entre si; oferece-nos uma nova visão da natureza da realidade. A transdisciplinaridade não procura a maestria de várias disciplinas, mas a abertura de todas as disciplinas ao que as une e as ultrapassa.

Artigo 4

A pedra angular da transdisciplinaridade reside na unificação semântica e operativa das acepções através e além das disciplinas. Ela pressupõe uma racionalidade aberta a um novo olhar sobre a relatividade das noções de

“definição” e de “objetividade”. O formalismo excessivo, a rigidez das definições e a absolutização da objetividade, incluindo-se a exclusão do sujeito, conduzem ao empobrecimento.

Artigo 5

A visão transdisciplinar é completamente aberta, pois ela ultrapassa o domínio das ciências exatas pelo seu diálogo e sua reconciliação não somente com as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência interior.

Artigo 6

Em relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a transdisciplinaridade é multirreferencial e multidimensional. Leva em consideração, simultaneamente, as concepções do tempo e da história. A transdisciplinaridade não exclui a existência de um horizonte transistórico.

Artigo 7

A transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência da ciência. [...]

Artigo 9

A transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta em relação aos mitos, às religiões e temas afins, num espírito transdisciplinar. [...]

Artigo 11

Uma educação autêntica não pode privilegiar a abstração no conhecimento.

Ela deve ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar. A educação

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transdisciplinar reavalia o papel da intuição, do imaginário, da sensibilidade e do corpo na transmissão do conhecimento. [...]

Artigo 13

A ética transdisciplinar recusa toda e qualquer atitude que rejeite o diálogo e a discussão, qualquer que seja a sua origem – de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política, filosófica. O saber compartilhado deve levar a uma compreensão compartilhada, fundamentada no respeito absoluto às alteridades unidas pela vida comum numa só e mesma Terra.

Artigo 14

Rigor, abertura e tolerância são as características fundamentais da visão transdisciplinar. O rigor da argumentação que leva em conta todos os dados é o agente protetor contra todos os possíveis desvios. A abertura pressupõe a aceitação do desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito a ideias e verdades diferentes das nossas.115

Em síntese, a transdisciplinaridade reconhece que há níveis da realidade regidos por lógicas distintas e que seria reducionismo um único olhar para o real (artigo 2). A constatação disso desemboca em diálogos entre os campos do saber em que a abordagem transdisciplinar emerge como um elemento complementar da disciplinaridade, e não como superação (artigo 3). Nesse processo, nega-se toda redução, simplificação, fixação e exclusão entre o observador e o observado. Antes, há interação e abertura para relações dinâmicas e construtivas (artigo 4) entre os saberes, inclusive aqueles vindos da arte, da literatura, da poesia e da subjetividade (artigo 5).

A transdisciplinaridade faz parte de um processo que inclui os ganhos da inter e da multidisciplinaridade fazendo dela uma referência multirreferencial e multidimensional (artigo 6). Sem pretensões de ser uma ciência da ciência, uma nova filosofia ou uma religião (artigo7), a transdisciplinaridade conduz a uma atitude dialógica, aberta, sensível às várias esferas da realidade humana importantes no processo educacional (artigos 9 e 11). A ética transdisciplinar se insere no mundo plural em que o reconhecimento respeitoso pela alteridade funda comportamentos de tolerância em prol de um ethos melhor. Abertura e tolerância permitem condutas de humildade diante do desconhecido e de acatamento diante do diferente (artigos 13 e 14).

115 Cf. A Carta na íntegra disponível em: <http://basarab-nicolescu.fr/chart.php#pt>. Acesso em 2 jul.

2014.

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1.4.2 PLURI, INTER E TRANSDISCIPLINARIDADE SEGUNDO BASARAB