• Nenhum resultado encontrado

5. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

5.2 Condições de trabalho

Pretende-se aqui discutir sobre as condições de trabalho oferecidas pelas ILPIs, em relação às demandas identificadas. Ou seja, se há uma relação coerente entre o que se disponibiliza ao psicólogo, para o que tem para ser feito na instituição.

No entanto, é importante ressaltar que através das entrevistas, percebeu-se a diferença e as limitações entre as respostas dos psicólogos que atuavam como profissionais em ILPIs e dos psicólogos que foram somente estagiários em ILPIs. Os estagiários ficavam em média duas horas semanais nas instituições, com condições e atividades pré definidas para o estágio, o que limitava a atuação como psicólogo e suas possibilidades de intervenção.

Cinco psicólogos, sendo dois profissionais e três estagiário, apontaram que as condições de trabalho não contemplam todas as demandas identificadas. Caliel (P) responde “Não, de jeito nenhum”. A única entrevistada que respondeu contemplar foi Damabiah (P), pois no seu caso, ela foi contratada apenas para trabalhar com os idosos, no período vespertino: “O horário pra elas (idosas) está suficiente (...) se talvez acontecer de começar a trabalhar com os funcionários, vai precisar com certeza de um espaço e de um tempo maior”.

Entre as principais condições de trabalho levantadas, destaca-se o tempo, o espaço físico e a remuneração que as ILPIs oferecem.

Quando perguntada a respeito das atividades que realiza, Caliel (P) relatou desempenhar alguns trabalhos que acredita-se aqui, não ser função do psicólogo, pois na verdade, o mesmo poderia estar realizando outras tarefas mais pertinentes a psicologia, já que o tempo de trabalho é restrito. São

atividades de oficina de bijuteria, patchwork, costura, fuxico e dia da beleza”.

Segundo Yamamoto e Diogo (2002), por não conter profissionais suficientes nas ILPIs, os funcionários acabam por desempenhar atividades que extrapolam seus graus de competência. O que acarreta numa sobrecarga de funções e até em carga horária excessiva. Isso também foi sentido por Ariel (P): “mas a questão é que eu não fico aqui tempo suficiente (para desenvolver um grupo com idosos) (...) e cuido da parte organizacional da instituição (...) faço folha de pagamento tudo, só pra tu teres uma noção”.

Creutzberg, Gonçalves e Sobottka (2007b) explicam que o pagamento dos funcionários ocupa um alto custo mensal para as ILPIs, o que acaba justificando o número reduzido de funcionários contratados, as poucas horas de trabalho e os baixos salários que eles recebem.

Sobre o tempo e a remuneração Caliel (P) comenta Não, o tempo não contempla, muito pouco tempo, o espaço. O tempo é muito pouco, quantidade de horas muito pouco, a remuneração pelo que eu trabalho, eu não estou lá pela remuneração, (...) eu não dependo só daquela remuneração, porque ela me falou que foram várias psicólogas lá, e não foi acertado, claro por causa do valor, mas porque elas dependiam daquele trabalho, mas como eu tenho outro, isso então eu acho que é um facilitador pra mim, eu não dependo daquele trabalho pra eu viver”.

Estas dificuldades também são sentidas por Ariel (P): Assim, idéias a gente tem, só que essa questão toda ai, é a questão de tempo, é questão de remuneração. Idéias a gente sempre vai ter só que falta tempo”.

Ao falar em condições de trabalho e remuneração, se torna interessante caracterizar as ILPIs brasileiras, segundo Creutzberg, Gonçalves e Sobottka (2007b) a maioria das instituições asilares brasileiras são públicas.

Sendo mantidas em geral, por um orçamento do Município, contando com verbas públicas como fonte de recursos. Entretanto, os autores identificaram que além de escassos, os recursos públicos são recebidos com atraso, fator que dificulta um ideal desenvolvimento das instituições.

Os mesmos autores indicam que as ILPIs públicas ficam com a responsabilidade de arrecadar os fundos necessários para as despesas e

contas do mês. Como alternativas, elas contam com parcerias de empresas que apresentam programas de responsabilidade social e com os programas internos de bazar e festas abertas à sociedade (CREUTZBERG, GONÇALVES E SOBOTTKA, 2007b).

Freitas et al. (2006) apontam que as ILPIs em geral, apresentam além das dificuldades financeiras, grande deficiência de profissionais adequados como psicólogos, médicos, entre outros. Os autores explicam que a estrutura local tende a ser restrita, com pouco espaço, sem pátios e jardins.

Damabiah (P) confirma: O que eu vejo que mais interfere no meu trabalho é o espaço fechado, isso é o que eu mais vejo que interfere.

Nosso espaço hoje é aqui na piscina, mas tem até esses (desníveis no piso) isso até que não interferiu muito mas poderia ser liso de uma forma que facilitaria melhor, olha ali tem aqueles desníveis ali e tal que não deveria ter, ser reto. E o espaço que a gente utiliza é no refeitório, os grupos são ali porque é o único espaço que a gente tem. Só que o que acontece no refeitório, as meninas da cozinha estão... é pra lá a cozinha, mas as vezes elas trazem os talheres e já vem pra cá, então faz o barulho dos talheres, faz o barulho dos pratos que estão colocando arrumando porque elas estão trazendo as coisas pra cá, então isso interfere porque ai tira a atenção pra outra coisa”.

Observa-se que o papel do psicólogo ainda representa angústias e ansiedades a algumas pessoas devido a falta de esclarecimentos sobre esse profissional. É o que Rafael (E) chama atenção: A própria instituição acredito que deve ter uma resistência quanto ao papel do psicólogo, por até não conhecer o que o psicólogo pode fazer”. Segundo Osório (1989) todo processo que envolve a atuação em grupo, é comum gerar mudanças, tanto positivas (que é a atitude mutante) quanto negativas. As mudanças negativas são as resistências, que acarretam em medos de perda e de ataque, além de ansiedade.

Schermerhorn et al. (1999, p. 286) acrescenta que a “resistência a mudança é qualquer atitude ou comportamento que reflete a falta de vontade da pessoa de fazer ou apoiar uma mudança desejada”. Quando as pessoas apresentam resistências, significa que estão defendendo algo importante para elas, e mudar acaba sendo interpretado como uma ameaça.

Elemiah (E) também verificou resistências em sua atuação: “Senti resistências com a diretoria e com a equipe de enfermagem no trabalho do psicólogo. Porque tem muita coisa que eles não querem que vejam, tem coisas que não pode vazar”.

As condições de trabalho discutidas estão em torno do tempo e espaço restrito, da baixa remuneração e das resistência em relação ao trabalho do psicólogo. A partir das condições de trabalho, o psicólogo pode contar com fatores que facilitem ou dificultem sua atuação. Portanto, se faz interessante esclarecer as facilidades e as dificuldades que estes profissionais encontram nas ILPIs.

Documentos relacionados