Este trabalho teve por objetivo principal analisar os indicadores de capital social do ponto de vista dos públicos interno (funcionários e dirigentes) e externo (doadores, beneficiados e voluntários) de uma organização do terceiro setor, da cidade de Blumenau.
Os indicadores analisados, de acordo com Grootaert et al (2004), foram (a) grupos e redes; (b) confiança e solidariedade; (c) ação coletiva e cooperação; (d) informação e comunicação; (e) coesão social e inclusão e, (f) acréscimo de força e política de ação, respondendo ao objetivo específico que foi a definição de um conjunto de indicadores a ser pesquisado na organização de terceiro setor.
Os resultados da pesquisa foram apresentados em três etapas. Inicialmente foram apresentados os resultados referentes ao público interno e ao público externo em separado. Isto possibilitou responder ao segundo objetivo específico que foi o de identificar como os indicadores de capital social se apresentam em cada público e em seguida, cruzar as respostas obtidas.
As respostas a este objetivo possibilitaram descobrir informações relevantes para o entendimento da presença de capital social através das percepções do público interno e externo.
Pode-se escrever sobre os efeitos positivos que o capital social apresenta no desenvolvimento de uma comunidade, pois tem base nos indicadores de associativismo, civismo, confiança (PUTNAM, 1996), que facilitam transações de ordem econômica, porque permitem o acesso a essas transações e que esses custos diminuam, além de prover crescimento através do desenvolvimento econômico. A importância da confiança pode permitir com que uma comunidade supere, de modo
mais fácil, o que é denominado pelos economistas de oportunismo, de um modo em que os interesses comuns não prevaleçam. Portanto, decorre deste ponto que “quanto mais elevado o nível de confiança numa comunidade, maior a probabilidade de haver cooperação, o que realimentaria a confiança.” (FERRAREZI, 2003, p. 8).
A presença do capital social, através dos indicadores estudados, foi percebida de diversas maneiras pelos públicos envolvidos nesta pesquisa. Nos indicadores grupo e rede de relacionamentos, as respostas dos dois públicos foram semelhantes, pois tanto público interno quanto externo não possuem membros da família participando de atividades da ONG; se tornam parte da ONG de maneira voluntária; não doam dias de trabalho para a organização a qual fazem parte;
acreditam que a organização é composta por vários tipos de pessoas e, por fim; que a organização tem um bom relacionamento com outras ONGS.
Na análise dos indicadores confiança e solidariedade as respostas dos públicos pesquisados apresentaram diferenças. Para o público interno, o indicador confiança foi percebido de duas maneiras contrastantes, para um grupo deste público, conceito de confiança é baixo e para o outro grupo é alto. Para o público externo, o indicador confiança foi percebido, assim como no público interno, de duas maneiras, como sendo alto (por 2 grupos) e baixo (1 grupo). Mas o indicador solidariedade é tido como alto pelo público interno, na percepção dos dois grupos que o compõe. Para o público externo, o indicador solidariedade foi percebido como sendo alto (por 2 grupos) e baixo (1 grupo).
Cabe salientar que construir confiança está ligado de forma direta à capacidade de relacionamento com os outros, percebendo-os e incluindo-os em seu universo de referência. Esse tipo de inclusão diz respeito à atitude tão simples e por vezes tão esquecida que é justamente a de reconhecer, no outro, suas habilidades, competências, conhecimentos, hábitos, etc. É essa reciprocidade, que rege as relações informais e formais na comunidade, sendo a base das relações e instituições de capital social. (FERRAREZI, 2003).
Na seqüência, na análise dos indicadores ação coletiva e cooperação, o público interno percebe que na organização as pessoas cooperam, mas se dividem quanto ao indicador ação coletiva, em médio e alto. O que difere do público externo, pois a maioria dos grupos acredita que a ação coletiva e a cooperação possuem o conceito médio.
Os públicos recebem as informações sobre a ONG em diferentes canais de comunicação, sendo o informativo e os funcionários da organização citados pelos dois públicos.
O indicador coesão social foi o que mais apresentou respostas diferentes quanto ao tema, principalmente pelo público externo, não chegando a uma resposta que pudesse ser categorizada como maioria por este público. No público interno, um grupo deixou em branco suas respostas, o que reflete um desconhecimento sobre o sentimento de ficar junto ou próximo as pessoas dentro da organização. Mas, cabe salientar que o indicador inclusão, é tido como alto por todos os grupos integrantes dos públicos interno e externo.
Quanto ao indicador acréscimo de força, os dois públicos percebem com conceito médio e alto, em sua maioria. Já o indicador ação política é tido como alto pelo público interno, mas é desconhecido pela maioria do público externo.
Pode-se, desta maneira, concluir que existe a presença dos indicadores de capital social dentro da organização, percebido pelos públicos interno e externo, mas sem que fosse possível explicar as origens ou o comportamento desses indicadores ao longo do tempo. O que se pode observar com base nos indicadores utilizados na pesquisa é que alguns indicadores são percebidos de maneiras diferentes pelos públicos, e outros são percebidos da mesma forma. Mas mesmo assim, nada, além disto, pode ser concluído, nem mesmo qual a relação de causalidade entre estes indicadores. Para Fernandes (2002, p. 394) “no que tange à questão da mudança e desempenho institucional, chega-se à constatação de que a existência de capital social pode aumentar o desempenho das instituições, tornando-as mais eficientes e responsáveis”.
Capital social faz uma organização, ou um grupo cooperativo mais do que um coletivo de indivíduos com objetivos próprios. O capital social une os espaços entre as pessoas. Os elementos característicos e indicadores incluem alto nível de confiança, redes pessoais fortes e comunidades vibrantes, conhecimentos compartilhados, e um senso de participação igualitária – todas as coisas que desenham os indivíduos dentro de um grupo. Este tipo de conexão suporta colaboração, comprometimento, acesso ao conhecimento e talento, e um comportamento organizacional coerente. Esta descrição de capital social sugere investimentos organizacionais apropriados – isto é, dando espaço pessoal e tempo para conexão, demonstrando confiança, efetivamente comunicando objetivos e
crenças, e oferecendo oportunidades igualitárias e recompensas que incentivem participação genuína, mais do que presença física. (COHEN; PRUSAK, 2001).
Mas, cabe salientar que as organizações podem dar certo ou não por várias razões, e seria insensato atribuir ao capital social o papel de vilão ou herói desta estória. “Capital social não é a chave para o sucesso organizacional.” (COHEN;
PRUSAK, 2001, p. 11). Para o autor, as organizações são complicadas e operam em ambientes complicados. E capital social não é uma estratégia de negócio ou um plano de marketing ou um substituto para ambos. Vale ressaltar que, necessariamente por ser dotada internamente de capital social, uma associação venha a contribuir para o “acúmulo de civismo do todo social, ou seja, para o desenvolvimento do capital social numa sociedade.” (FERNANDES, 2002, p. 385-6).
Desta maneira, as conclusões deste estudo devem ser encaradas como um novo caminho que pode ser trilhado, seja para futuras pesquisas sobre o tema, seja para ações da organização no sentindo de incrementar a presença de alguns indicadores pelos públicos envolvidos, seja para fomentar parcerias com outras esferas, uma vez que “estado e sociedade juntos podem produzir civismo ou capital social.” (FERNANDES, 2002, p. 394).