Pretende-se ter demonstrado nesta dissertação especialmente o caráter subversivo da resistência quilombola e o seu potencial de ameaça aos fundamentos do sistema escravista estabelecido na América como sustentáculo da exploração colonial empreendida pela monarquia portuguesa.
A história da escravidão negra, ao longo do período moderno, caminhou lado a lado com a história das monarquias ibéricas. Processualmente, na região mineradora, foi se montando o cenário de uma batalha concreta e discursiva entre capitães-generais e quilombolas.
O que se procurou sugerir neste trabalho é que a posição de destaque da região das Minas no contexto do Império, ou mais propriamente a condição de dependência do todo do Império em relação a essa parte que se configura como central, foi o que fez com que a manutenção da ordem sobre a região fosse percebida como uma matéria primordial.
Em se tratando da região mineradora, as questões referentes à ameaça representada por inimigos externos e internos se colocavam como sendo de primeira importância. Uma faceta importante desse controle foi o que se buscou estabelecer em relação à população escrava, de cujo domínio dependia o sucesso da exploração econômica, controle esse que se corporificou em uma extensiva construção de aparatos.
O comércio de cativos para a América portuguesa era um fenômeno crescente e que fomentava uma singularidade das partes coloniais em relação ao reino, uma vez que o trabalho escravo nunca assumiu a forma dominante na sociedade portuguesa como ocorreu no universo americano. O fenótipo negro dominava as paisagens mineiras setecentistas. A enorme desproporção entre a minoria considerada branca e a população negra e parda, constantemente referida foi uma realidade marcante do XVIII mineiro. Essa composição populacional traria como resultado não apenas as necessidades específicas de um aparato de controle rígido, devido ao vulto da população escravizada frente ao grupo senhorial, mas também algumas consequências no tocante à forma como essa sociedade representou a cor ao longo do século.
A distinção social no setecentos se estabeleceu primordialmente pela percepção da cor.
A propriedade de escravizados ao longo dos setecentos nas Minas estava dispersa entre amplos segmentos da população livre e forra. Essa dispersão da propriedade escrava e a sua penetração no meio social mineiro resultaram em uma forte adesão, por parte dessa sociedade, aos valores escravistas, tendo como consequência um apoio também generalizado à instituição da escravidão.
Desde o estabelecimento da administração portuguesa sobre a região, procurou-se normatizar e penalizar os crimes cometidos por escravos e libertos. Estes, a princípio, não se distinguiam necessariamente dos cometidos por brancos e/ou livres. Atribuíam-se, no entanto, penas diferenciadas com base no estatuto ou qualidade do criminoso, como de costume no ordenamento jurídico do Antigo Regime português. No entanto, esses crimes, cometidos sistematicamente, traziam um sentido político específico, já que não apenas ameaçavam a paz social e o desejado sossego dos povos, mas, principalmente, corroíam o sistema escravista em seus fundamentos. Entre as elites governativas e as elites locais, ainda que seja necessário frisar as eventuais diferenças de perspectiva de cada um desses grupos, tendeu-se ao acordo diante do interesse comum de evitar a temida sublevação escrava generalizada. Entre essas e os quilombolas, por outro lado, predominou o conflito aberto que os inscreveu na história dos mundos do trabalho pelos seus atos de luta.
No discurso das autoridades aqui estudadas, por vezes não há uma distinção muito clara, em se tratando do fenótipo negro, entre criminosos e quilombolas. Os quilombos, no Brasil colonial, constituíram uma realidade plural, multifacetada, carregada de nuances e matizes sob os aspectos econômico, cultural, organizacional e político. Sendo parte do conjunto das contradições inerentes a esse sistema, a quilombagem foi um fenômeno recorrente no Brasil colonial e imperial, irrompendo de maneira disseminada pelo território ao longo de toda a vigência da escravidão. Traçar, portanto, um conceito básico que abarque toda a diversidade do fenômeno quilombola consiste em um grande desafio.
Também a noção de quilombola utilizada nas fontes analisadas requer alguns cuidados especiais, uma vez que não deriva automaticamente, como se pode pensar, da definição de quilombo. À primeira vista, quilombola é aquele escravizado que fugiu e passou a viver em um quilombo. Entretanto, como se viu, o que se deu foi precisamente o inverso: foi a noção de quilombo que se definiu por derivação da noção de quilombola, como o lugar de refúgio destes. Diante do discurso governativo e da letra da lei, incorpora-se sobre o denominado quilombola/calhambola o peso de uma categoria, que passa a moldar a percepção social que se tem dele e o seu lugar político. Além de se tornar um estigma sobre o indivíduo, o significado de calhambola se expande: ao pensá-lo como categoria, novos significados se agregam ao termo, nem sempre de maneira consciente para o sujeito da fala. O calhambola é o escravizado que foge e causa desordem pública; por extensão, qualquer negro que cause desordem pública passa a ser representado como calhambola. O governador, sujeito do discurso, não tem elementos empíricos suficientes para atestar que cada um dos indivíduos que ele nomeia como calhambolas tenham efetivamente sido escravizados, fugido e formado ou se
integrado a um quilombo. A trajetória desses indivíduos lhe é opaca e sua representação sobre eles se funda, de certa forma, numa perspectiva sobre o seu dever ser, sobre o lugar social a que eles deveriam ficar legados.
O aparato governamental e administrativo das Minas, pelo próprio perfil dos governantes selecionados para a região, tinha o caráter militar como elemento central. Esse aparato ideológico e repressivo normatizou as relações sociais, econômicas, culturais e a própria ocupação do território.
Tradicionalmente, o escravo faz parte da esfera da família, ligada ao âmbito privado da atividade econômica. A questão da disciplina do escravo, embora o castigo pudesse ser publicizado como forma de exemplo, ficava ao arbítrio do senhor. Quando essa disciplina é tomada pelo poder central, isso constitui uma situação excepcional, que só se justificava pela gravidade da infração cometida, e só ocorria, na prática, nas situações em que essa infração fosse percebida como uma ameaça não apenas ao senhor como particular, mas aos povos como um todo, ao bem da República em si.
Para o escravizado que fugia, tratava-se, portanto, de lidar, enquanto pretendesse ou pudesse se manter como fugitivo, com a violência do aparato repressivo montado para fazer prevalecer o sucesso da exploração colonial.
Quando do início do governo de Antônio de Albuquerque na Capitania independente de São Paulo e Minas do Ouro, já existia um incipiente aparato jurídico a respeito da rebeldia escrava na região. três principais temas ocupam a discussão e montagem de aparatos no período que antecede o recorte estudado nesta dissertação, a saber: a regulamentação do porte de armas por escravos, o controle sobre as negras de tabuleiro e o controle sobre a mobilidade espacial dos escravos. Essa discussão povoou o espaço da decisão política na região aurífera durante todo o século XVIII.
A captura de escravos fugidos vai deixando de ser uma atividade esporádica e de atribuição incerta e passa a ser um procedimento regulamentado e centrado na figura do capitão- do-mato, movimento este apontado pela historiografia como responsável direto pelo sucesso atribuído aos agentes da Coroa em submeter a população escrava e evitar um suposto levante geral que pusesse fim à instituição da escravidão. No entanto, o debate sobre a construção de novas soluções não cessa. A construção progressiva desse aparato, baseado tanto no sistema regulamentado pelos Regimentos como pela busca incessante de soluções complementares, é o pano de fundo da produção dos discursos que seguem analisados neste trabalho.
É importante ressaltar que o triunfo do sistema escravista se deu não porque os escravizados não tenham se mostrado capazes de oferecer resistência a essa dominação, mas
porque a monarquia portuguesa foi capaz de estruturar um aparato legislativo e repressivo, centrado, para o caso dos quilombolas, na figura dos homens-do-mato, mas contando com o reforço de outras tropas e o apoio dos homens-bons da região no seu objetivo de submeter essa população à obediência e ao controle. Embora a atuação dos capitães-do-mato, de acordo com o Regimento do cargo, se restringisse a capturar e restituir aos respectivos senhores cada escravizado fugitivo, o enfrentamento bélico através de expedições de destruição foi uma constante ao longo de todo o século XVIII.
Essa opção deliberada pelo enfrentamento bélico se relaciona com o perfil dos governantes selecionados para a região nesse período. Ser percebido como governador ideal para as Minas envolvia a somatória de qualidade de nascimento, experiência de governança e sucesso na carreira militar, bem como fidelidade à monarquia e capacidade de inspirar a obediência e a arrecadação da Fazenda Real, de modo a cooperar com os objetivos de conservação e aumento da monarquia, atribuição básica de todo funcionário régio.
No caso das fontes aqui mobilizadas, a comunicação política assume especificamente o objetivo de estabelecer e afirmar a legitimidade do poder da dinastia em consolidação, e gradualmente construir os aparatos que sustentarão o braço que ela vem estendendo sobre suas possessões ultramarinas. Cabe relembrar que o dito aparato, no entendimento aqui exposto, foi se estabelecendo empiricamente, em um processo não linear, marcado pela tentativa e erro, e justamente por isso foi fortemente impactado pela comunicação entre as autoridades encarregadas de promover o sucesso da dominação imperial e sua manutenção sobre as Conquistas.
Nesse sentido, as cartas redigidas pelos governadores e capitães-generais no exercício da governança, tendo, dentre outros, o objetivo primordial de prestar contas à autoridade da qual foram designados representantes, configuram-se, ao mesmo tempo, como um ato jurídico, um registro e uma comunicação desse mesmo ato. Se é possível falar de uma cultura epistolar entre as autoridades responsáveis pelas diferentes instâncias de governo, ela é necessariamente indissociável de uma cultura imperial e da decorrente elaboração de políticas e aparatos.
É possível sugerir que apesar de a correspondência trocada entre o governador e a Coroa ter uma natureza aparentemente privada e uma circulação a princípio restrita, o seu conteúdo narrativo veio a servir como forma de consolidar uma escrita de si e uma memória de si e da Casa, como se viu nos casos de Assumar/Alorna e Albuquerque Coelho, além de uma escrita do outro, configurando um dos lados de uma disputa por representação.
O estilo narrativo das fontes selecionadas para este trabalho, especialmente as produzidas por D. Pedro de Almeida, e o perfil social dos governadores escolhidos para a
Capitania desde a emergência da Guerra dos Emboabas sugerem que é justamente quando a guerra deixa de ter sentido prático no cotidiano do grupo que seu sentido simbólico ganha importância e passa a ser reforçado.
Um aspecto importante pertinente à forma como a narrativa foi conduzida são as diferenças entre a trajetória construída para os governadores e aquela que se refere aos quilombolas. No primeiro caso, é possível se aproximar de uma narrativa quase biográfica, que nos seduz a ser percebida como linear e dotada de sentido intrínseco. No caso dos quilombolas, a história que se constrói sobre eles parece sempre lacunar, redigida por aproximação. Essa característica da narrativa não é gratuita, mas se relaciona à própria natureza desses personagens como grupo. Apenas grupos sociais privilegiados têm a possibilidade de legar à posteridade narrativas lineares sobre suas trajetórias de vida. A história de grupos minoritários, oprimidos, alienados da possibilidade de produção de registros mais perenes sobre suas realizações, anseios e intencionalidades, muitas vezes precisa ser reconstituída a partir de informações indiretas, de representações produzidas pelo imaginário alheio, especificamente no caso desta pesquisa, pelo imaginário dos seus rivais políticos.