Jua n Lu is S egu ndo , sa cerdo t e je su ít a, nasc eu no Urugu a i e m 1925 . Co nc lu iu o s e st udo s c lá ss ico s e m seu pa ís, freq üe nt a ndo e m s egu id a a fa cu ldad e de Teo lo g ia de Lo u va in ( B é lg ica), o nd e o bt e ve, e m 1956, a lic e nc iat ura. Fe z de po is s eus e st udo s de do uto rado na Fra nça o nde, e m 1963, de fe nde u su a t ese. Fo i u m a ut o r fecu nd o , t endo e la bo rado u m p e nsa me nt o o rig ina l, de sde o co nt ext o secu lar iz ado de seu pa ís. Mo rreu e m 1996, ao s 7 1 a no s, e m Mo nt e vidé u. Sua re fle xão é bast a nt e d ifere nt e da de Bo ff e So br ino , que fa la m de sde u m co nt ext o só cio -cu lt ur a l a inda marc ado pe la re lig ião .
Nest e est udo que far e mo s d e seu pe nsa me nt o , pr ivileg ia re mo s sua ú lt ima o bra: A Hi stó ria pe rdida e re cupe rada de Je su s de N aza ré42. Acred it a mo s qu e e la repre se nt a o est ág io fina l e aca bado de su a re fle xão cr ist o ló g ica. No s s a hipó t ese d e t raba lho é que a re s surre iç ão para Ju a n Lu is Seg u ndo é u ma e xper iê nc ia de e nco nt ro que, na AL, de ve dese nca dear u ma prá xis libert ado ra.
Para o t eó lo go urugua io , na AL fo i fe it a u ma le it ura do s e va nge lho s qu e dura nt e sécu lo s não ac ha va nad a de errado na co e xist ê nc ia d a po brez a d a ma io r part e de sua po pu la ção co m a o pu lê nc ia e sc a nda lo s a de a lg u ns po uco s.
Est a le it ura at é leg it ima va o exerc íc io do po der po lít ico repres s ivo co nt ra o s po bres e e m a po io ao s qu e a cu mu la va m r iq uez as ileg ít ima s, gera ndo ne st a part e do mu ndo as p io re s s it ua çõ es de de s igu a ldad e do p la net a.
42 SE GUN DO, Ju a n Lu i s. A Hi st ó ri a p e rd i d a e rec u p e ra d a d e J e su s d e N a za ré Sã o Pa u l o:
Pa u l u s, 1 9 9 7 . Dor a va n t e ci t ar em os est a o br a d a seg u i n t e m an eir a: Hi st ó ri a .
Co nt ra est a t e ndê nc ia ge ner a liza da, J ua n Lu is Segu ndo fa z u ma re le it ur a po lít ica do s e va nge lho s s inó t ico s e u ma re le it ura a nt ro po ló g ic a do s pr ime iro s o it o cap ít u lo s d a C art a de São Pau lo ao s Ro ma no s43. E le bus ca, co m is so , superar a s “ima ge ns a lie na nt es” de De us e de J esu s Cr ist o que se mpr e est ivera m pre se nt es na vid a ec le s ia l. Vo lt ar a Je sus d e Naz aré e à s ua prá xis libert ado ra é o ca minho qu e o s cr ist ão s da AL de ve m e mpr ee nd er.
Ideo lo g ia é u m do s co nc e it o s c ha ve s no pe ns a me nt o t eo ló g ico de Jua n Lu is Segu ndo . O auto r ded ic a e spa ço co ns id erá ve l na int ro dução gera l d a o br a ac ima me nc io nada, para e xp lic it ar o s ig nific ado e a impo rt ânc ia de st e co nce it o . Enga jado no d iá lo go co m mar xis mo , o t eó lo go urugua io faz d iver sa s o bser vaçõ es a nt es d e pro por uma de fin iç ã o de id eo lo g ia.
A pr ime ir a o bser vação que e le faz a cerca da ideo lo g ia é que e la o põ e-s e ao co ncret o e ao exat o da c iê nc ia e po r is s o “ca e m para o lado id eo ló g ico , não ape na s a mo ra l, a re lig ião e a met a fís ica, ma s t a mbé m a filo so fia, a est ét ic a, o d ire it o e a po lít ica ”44. Em seg u ndo luga r, a id eo lo g ia é a “co nsc iê nc ia ” daqu ilo que o co rre na at ivida de hu ma na, o que o mar xist a re fere ao p la no d a pro dução . Em t erce iro lug ar, es sa “co ns c iê nc ia ” t e m pret e nsõ es de verdad e que não lhe co rrespo nde m. É o as pect o ma is dec is ivo . E m q uart o lugar, e ss a
“fa ls a co ns c iê nc ia ” so c ia l se ba se ia no int eres se do s que “do mina m a so c iedad e t ê m e m que s e ig no re m a s mo la s que rege m a e st rut ura da pro dução , e m seu pró pr io be ne fíc io ”45.
E m s ua d e fin ição de id eo lo g ia, Jua n Lu is Segu ndo le va nt a a po ss ib ilida de de s e usar e st e t ermo não nece ss ar ia me nt e de fo r ma pe jo rat iva.
Ist o se perce be t a mbé m na s Co nclu sõe s f inais do Do cu me nt o de Puebla46. Em
43 Pr et en d em o s fa z er a p en a s a l u sõ es a e st e e st u d o d a ca r t a a os R om a n os, ex t r a in d o d el e o q u e c on cer n e a r essu r r ei çã o, já q u e n ossa i n t en çã o é a p en a s el u ci d a r a n ova ch a ve d e l ei t u r a p ar a a Cr i st ol og i a l a t in o- a m er i ca n a ( a ch av e p ol í t i ca ) q u e o a u t or i n tr od u z .
44 SE GUN DO, Op . c i t. , p. 6 0.
45 I b i d . , p . 6 0 .
46 “T od a i d e ol og i a é p a r ci a l , u ma vez q u e n en h u m gr u p o p ar t i cu l ar p od e p r et en d er i d en t i fi ca r su a s a sp ir a ções c om a s d a so ci ed a d e g l o ba l . Um a i d eol og i a s er á , p oi s, l eg í t i ma , se o s i n t er esses q u e d e fen d e sã o l eg í t i m os e se r esp ei t a os d i r ei t os fu n d a m en ta i s d os d em a i s g r u p os d a n a çã o. Ness e s en t i d o p o si t i v o, a s i d eol og i a s a p a r ecem c om o n ec es sá r i a s p a r a o q u e fa z er s oci a l , en q u a n t o sã o m ed i a ç õe s p a r a a a çã o” . Pu e bl a , C o n c l u sõ e s f i n a i s, n . 5 3 5 .
segu id a, e le d e fine a id eo lo g ia co mo o s ist e ma da qu ilo que co nst it u i u ma e fic ác ia o bjet iva que e st á a ser viço de um de ve-s er. A ideo lo g ia, e m v irt ude da su a de fin iç ão , é incapa z de d ar ao ho me m u ma e st rut ura de se nt ido para a e xist ê nc ia, a ss im co mo o faz a fé.
O aut o r reco nhec e a po s s ib ilid ade de a ideo lo g ia s u bst it u ir a fé e in filt rar- se na re lig ião . Aqu i a sa ída pr o po st a é resu mid a e m “apre nd er a apre nder ”47, expr es são que c aract er iza a he r me nêut ic a q ue Jua n Lu is Se gu ndo pro põ e para faz er t eo lo g ia na AL e m seu c o nt ext o hist ó rico at ua l.
Fa la -s e e m não per mit ir a e nt rada d as id eo lo g ia s na re lig ião . O t eó lo go urugua io a fir ma que u ma re lig ião s e m ide o lo g ia s é u ma pret ensão que não s e ju st ific a pe la s segu int e s razõ es. E m pr ime iro lugar, s e a fé, po r s i só , apres e nt ar to do s o s e le me nt o s ideo ló g ico s nece s sár io s para rea liz ar o dever- ser que e la repr es e nt a, o s ist e ma de e fic á c ia fic ará ne ce ss ar ia me nt e fixo . E m segu ndo lugar, a co nse qüê nc ia de e nfat iz ar o s per igo s e xist e nt es e m ut iliza r e le me nt o s ideo ló g ico s pro ve nie nt es de o utras fo nt es que não são a s d a pró pr ia fé é co lo c á- la nu ma esp éc ie de a lt er nat iva inu ma na. Co mo e xe mp lo , Jua n Lu is Segu ndo c it a a AL, co nt ine nt e cr ist ão o nd e a “ime nsa ma io r ia do s ho me ns co nt inua vive ndo na ma is inu ma na da s co nd içõ e s”48.
E m no s so est udo exa minare mo s co mo a c ha ve po lít ic a, ap lic ad a à re le it ura do s e va ng e lho s s inó t ico s, e co mo a cha ve a nt ro po ló g ic a, ap lic ad a à re le it ura do s o it o prime iro s cap ít u lo s da cart a ao s Ro ma no s, co nt r ibue m p ara u ma muda nça d e per spe ct iva na co mpree ns ão do cr ist ia nis mo na AL.
Co meç are mo s co m a a ná lis e d a prá xis de Je sus, pro po st a por no sso aut o r, e a co ns eqüê nc ia que e la pro vo co u: a mo rt e d e J es us. E m segu id a, vere mo s co mo o t eó lo go urugua io e nt e nde a re ssurre iç ã o . A e xper iê nc ia de e nco nt ro co m o Res su sc it ado fo i u m e ve nt o t rans fo r ma do r para o s d isc íp u lo s, ist o é, u m mo me nt o de p as sar do s imp le s “ver” a o “crer ”, o que a carret o u grand e s co ns eqüê nc ia s p ara a co mu n idad e na sc e nt e. Jua n Lu is Segu ndo pe ns a que a s
47 I b i d . , p . 8 9 .
48 I b i d . , p . 9 6 .
mud a nç as nece s sár ia s à prá xis do s cr ist ão s lat ino -a mer ica no s d e ve m fu ndar-s e nest a e xper iê nc ia d e e nco nt ro co m o Ress usc it ado .