Não é possível avaliar o estado de espírito no qual se encontrava Pôncio Pilatos ao se deparar com Jesus, no meio da madrugada, à porta de sua residência, chamado a julgar um
73 VASSALLO, Nicla. Contro la verofobia: sulla necessità epistemologica della nozione di verità. In:
AMORETTI, Maria Cristina; MARSONET, Michele (Coord.). Conoscenza e verità. Milano: Giuffrè, 2007, p.
3.
74 VASSALLO, Nicla. Contro la verofobia: sulla necessità epistemologica della nozione di verità. In:
AMORETTI, Maria Cristina; MARSONET, Michele (Coord.). Conoscenza e verità. Milano: Giuffrè, 2007, p.
6.
75 GOLDMAN, Alvin I. Knowledge in a Social World. Nova Iorque: Oxford University Press, p. 23.
Homem levado por seus pares que, por força da religião, às vésperas da Páscoa, se recusavam a adentrar à casa de um pagão por considerá-la impura. Mas, mesmo incitados por Pilatos a resolver a questão sob sua lei, os incômodos visitantes da madrugada insistiam que a lei de César deveria ser cumprida com a morte e a crucificação de Jesus.
A atitude do Governador da Judeia, de entrar em sua casa e mandar vir o Prisioneiro para ter com ele, demonstra certa impaciência já somada à natural falta de gosto para as coisas, que todo romano demonstrava quando fora de Roma naquela “terra selvagem”, "terra tão odiosa", como diria o exilado Ovídio na sua Tristia e le Epistulae ex Ponto. Ou talvez o tenha feito por respeito ao contraditório, pois inicia uma tomada de depoimento de Jesus acerca das acusações de ser o “rei dos judeus”, frente as quais o Acusado ratifica Sua missão de ter nascido e vindo ao mundo “para dar testemunho da verdade”.
Então, da boca do Governador romano, homem provavelmente culto, conhecedor das filosofias aristotélica e platônica, saem as céticas palavras: “Quid est veritas?”. Dito isso, vai ao encontro dos judeus para dizer-lhes que não via culpa no Acusado, mas que concederia o perdão judicial da Páscoa a quem eles decidissem. Ao não esperar resposta de Jesus a sua pergunta, Pilatos demonstra seu ceticismo, desdenhando do que Ele disse ser a verdade.
Não é possível saber qual o estado de ânimo de Pilatos naquela madrugada que mudou a História, mas, se tivesse acreditado no que conheceu, no que viu e ouviu, na percepção que tivera de estar diante de uma acusação vazia, talvez não tivesse optado por uma decisão subjetiva e política de evitar a balbúrdia em sua governança e, então, vendo e ouvindo o que via e ouvia, pudesse ter julgado com a verdade.
Friedrich Nietzsche76 não teve dúvida quanto ao ceticismo e ao "escárnio nobre"
contidos nas palavras de Pôncio Pilatos, nesta, a meu ver, belíssima e dramática passagem da Bíblia:
Será que eu já disse que no Novo Testamento há apenas uma figura que merece ser respeitada? Pilato, o governador romano. Levar a sério a questão de um judeu, ora, nem mesmo consegue conceber uma coisa dessas. Um judeu a mais ou a menos, que importa? [...] O escárnio nobre de um romano diante do qual a palavra "verdade" foi descaradamente violentada enriqueceu o Novo Testamento com a única frase válida, que é sua própria crítica, sua própria aniquilação: "o que é a verdade?".
Não, por acaso, Nietzsche77 será reconhecido, séculos depois das palavras do governador romano, como o fundador e o grande filósofo do ceticismo moderno: o maior
76 NIETZSCHE, Friedrich W. O Anticristo. Maldição do Cristianismo. Rio de Janeiro: Int. D.E.L. International Publishers, 1996, p. 71, § 46.
inimigo da verdade e da moral. A verdade, a partir da filosofia a marteladas nietzscheniana, passa a ser negada pelas diversas formas de subjetivismo, irracionalismo e ceticismo, principalmente, a partir da segunda metade do século XX, com Derrida, Rorty, Deleuze e outros, também qualificados por Alvin I. Goldman78 como construtivistas, pós-modernistas, pragmatistas, estudiosos da cultura, estudiosos jurídicos críticos, etc. Goldman crê que estas vertentes filosóficas sofrem de um mesmo mal que pode ser nomeado de veriphobia.
Os mais expressivos argumentos das vertentes da veriphobia, em especial contra a epistemologia social da qual o Direito faz parte, podem ser resumidos em seis fundamentos teóricos79: 1) não existe uma verdade transcendente, mas a verdade é aquilo ao qual acordamos ser a verdade, como crenças sociais negociadas; 2) conhecimento, verdade e realidade são produtos da linguagem; 3) se considerarmos a existência de uma verdade transcendente, ela é inacessível aos seres humanos; 4) não há parâmetros epistemológicos seguros, pois todas as demandas são solucionadas por convenções ou jogos de linguagem; 5) a verdade é um mero instrumento de dominação e repressão; e 6) a verdade não pode ser aplicada, pois as práticas
77 Para citar apenas duas das inúmeras passagens em que Nietzsche ataca a verdade: "O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas." (NIETZSCHE, Friedrich W. Sobre verdade a mentira no sentido extra- moral. § 1º. In: Obras Incompletas Os pensadores. trad. TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. São Paulo: ed.
Abril, 1978, p. 48). "Supondo que a Verdade seja uma mulher - não existe razão para duvidar que os filósofos, porquanto eles têm sido dogmáticos, falharam em compreender as mulheres - que a terrível seriedade, a desajeitada insistência com que se aproximam da verdade, foram meios inadequados para conquistar a dama?
Certamente, ela nunca se deixou ser conquistada; e hoje toda espécie de dogmatismo encontra-se desencorajado - se algum dia esteve em pé! [...] A falsidade de uma opinião não chega a constituir, para nós, uma objeção contra ela, sendo talvez nesse ponto que a nossa nova linguagem se mostre mais estranha." Tradução do original:
"Supposing that Truth is a woman – what then? Is there not ground for suspecting that all philosophers, in so far as they have been dogmatists, have failed to understand women – that the terrible seriousness and clumsy importunity with wich they have usually paid their addresses to Truth, have been unskilled and enseemly methods for winning a woman? Certainly she never allowed herself to be won; and at present every kind of dogma stands with sad and discouraged mien – if, indeed, it stands at all! [...] The falseness of an opinion is not for us any objection to it: it is here, perhaps, that our new language sounds most strangely." ." NIETZSCHE, Friedrich W. Preface. Beyond Good and Evil. The Modern Library: Nova Iorque, 1937, p. XV.
78 GOLDMAN, Alvin I. Knowledge in a Social World. Nova Iorque: Oxford University Press, 1999, p. 7.
Conforme ressalta Maurizio Ferraris na sua Presentazione ao livro de Markus Gabriel, ao final, as próprias filosofias céticas estão a buscar a verdade: "Mas isso não significa que tudo seja socialmente construído, ou que a verdade seja um mal. De resto não nos esqueçamos que quem insistiu sobre o caráter construído da verdade o fez em nome da realidade e da verdade. No fim das contas, se Nietzsche, Freud, Marx escreveram o que escreveram, o fizeram em nome da verdade.". Tradução do original: "Ma questo non significa che tutto sia socialmente costruito, o che la verità sia un male. E del resto non si dimentichi che hanno insistito sul carattere costruito della realtà lo facevano in nome della realtà e della verità. In fin dei conti, se Nietzsche, Freud, Marx hanno scritto quello che hanno scritto, è stato in nome della verità." (FERRARIS, Maurizio. Presentazione. In:
GABRIEL, Markus. Il senso dell'esistenza: Per un nuovo realismo ontologico. trad. MAESTRONE, Simone L. Roma: Corocci, e-book 2013, p. 35).
79 GOLDMAN, Alvin I. Knowledge in a Social World. Nova Iorque: Oxford University Press, 1999, p. 11.
dela decorrentes serão sempre apropriadas e corrompidas pelos políticos ou por interesses pessoais. Esses argumentos, no entanto, não se mostram consistentes, e passamos a enfrentá- los de maneira genérica, na extensão a que nos impomos na presente tese, mediante a demonstração de razões que justificam a verdade.
A epistemologia que defende a existência da verdade não afirma que ela seja absoluta ou transcendente, aquela com "V" maiúsculo80, do l’occhio di Dio81 – para utilizar expressão cara à epistemologia – como algumas religiões e filosofias tomam a verdade; mas a existência de uma verdade da qual dispomos, relativa e objetiva, pois se trata de uma verdade por correspondência. É objetiva – independente de nós e de nossa crença (doxa) – pois decorre da justificação. Essa afirmativa não é a negação da existência da verdade nem a sua relativização, mas se trata do realismo crítico82, que leva em conta a natural falibilidade de nossa capacidade sensorial e da ciência, que deve sempre levar em conta a aproximação hipotética e a possibilidade de erro.83
Susan Haack84, para explicar sua teoria acerca da verdade moral, esclarece o duplo uso que fazemos da palavra verdade. A verdade é identificada ora como propriedade e fenômeno, ora como partes específicas deste fenômeno e desta propriedade. É o que ocorre com a beleza ou com as coisas belas. No exemplo da autora, a "beleza está nos olhos da pessoa" significa reconhecer a beleza como fenômeno (phenomenon), diverso do que ocorre quando ressaltamos a "beleza do fundo do mar", como uma instância específica (particular instance) da beleza.85
80 “Naturalmente não se fala aqui de Verdade Absoluta, dado que a verdade com inicial maiúscula resta como patrimônio exclusivo de algumas metafísicas e de várias religiões, mas somente da verdade que pode ser descoberta no mundo incerto e frágil das coisas humanas.” Tradução do original: “Naturalmente non si parla qui di Verità Assoluta, dato che le verità con le iniziale maiucole sono rimaste patrimonio pressochè esclusivo di alcune metafisiche e di varie religioni integraliste, ma semplicemente della verità che può essere scoperta nel mondo incerto e fragile dele cose umane.” TARUFFO, Michele. Verità negoziata? In: CIPRIANI, Franco (Coord.). Accordi di parte e processo. Milano: Giuffrè. 2008, p. 75.
81 PUTNAM, H. Verità e etica. Trad. It., Milano, 1978, p. 145 apud MARSONET, Michele. Verità, Scienza e Diritto. In: AMORETTI, Maria Cristina; MARSONET, Michele (Coord.). Conoscenza e verità. Milano: Giuffrè, 2007, p. 145, nota 1.
82 TARUFFO, Michele. La semplice verità – Il giudice e la costruzione dei fatti. Bari: Editori Laterza, 2009, p.
78.
83 MARSONET, Michele. Verità, Scienza e Diritto. In: AMORETTI, Maria Cristina; MARSONET, Michele (Coord.). Conoscenza e verità. Milano: Giuffrè, 2007, p. 152.
84 HAACK, Susan. Evidence Matters. Science, Proof, and Truth in the Law (Law in Context). Nova Iorque:
Cambridge University Press, e-book 2014, p. 9789-9834.
85 HAACK, Susan. Evidence Matters. Science, Proof, and Truth in the Law (Law in Context). Nova Iorque:
Cambridge University Press, e-book 2014, p. 9794.
Como a beleza e a vida, a palavra verdade é usada para identificar a propriedade de ser verdadeiro e para aferir a verdade de uma pretensão, de uma proposição, de uma crença ou de um enunciado. Gramaticalmente poderíamos distinguir verdade de verdades, formando os seguintes enunciados comparativos:
Existem muitas e várias proposições verdadeiras, mas uma única verdade.
Algumas proposições verdadeiras são vagas, mas a verdade não é uma questão de grau.
Algumas proposições são apenas parte da verdade, mas a verdade não se decompõe em partes.
Algumas proposições tornam-se verdadeiras pelas coisas que as pessoas fazem; mas a verdade é objetiva.
Algumas proposições fazem sentido apenas compreendidas como relativas a um local, um tempo, um sistema legal, etc.; mas a verdade não é relativa.86
As verdades não sendo absolutas são verdades epistêmicas, ou seja, correspondentes à sua justificação. Da mesma forma que a doutrina da verdade por correspondência (Platão)87 informa que a verdade corresponde à realidade dos fatos, a verdade no processo corresponde à prova e aos fundamentos de direito.
Os fatos existem independentemente de nós, não são verdadeiros ou falsos, mas as proposições é que podem ser consideradas como verdadeiras ou falsas. Portanto, se, para uma decisão ser considerada justa, ela deve abarcar a aplicação correta da norma a um fato reconhecido como verdadeiro, podemos dizer que a decisão será justa se a proposição final do julgamento aplicar justificadamente a lei de forma correta aos fatos considerados verdadeiros de acordo com a justificação probatória.
Para Dworkin, a verdade é definida como o máximo sucesso (unique sucess) da investigação interpretativa demonstrada pelo melhor argumento: “Uma proposição
86 Tradução do original "There are many and various true propositions, but only one truth. Some true propositions are vague; but truth is not a matter of degree. Some propositions are only partly true; but truth doesn't decompose into parts. Some true propositions are made true by things people do; but truth is objective.
Some true propositions make sense only understood as relative a place, a time, a legal system, etc.; but truth is not relative." HAACK, Susan. Evidence Matters. Science, Proof, and Truth in the Law (Law in Context). Nova Iorque: Cambridge University Press, e-book 2014, p. 9830.
87 Como Sócrates questiona Hermógenes: "Nesse caso, aquilo que se diz existir é verdadeiro, como é falso aquilo que não existe?" Tradução do italiano: "E quello che dice gli enti come sono è vero, mentre quello che dice como non sono è falso?". PLATÃO. Cratilo. In: REALE, Giovanni (dir.). Platone: Tutti gli scritti. Milão: Bompiani, 2014, p. 136. Na tradução para o italiano de Francesco Callari: "Vero è il discorso che dice le cose come sono, falso quello che le dice come non sono". CALLARI, Francesco. Verità processo prova certezza: il circuito euristico della giustizia penale. Rivista di Diritto Processuale. Milão: CEDAM, ano LXVIII (Seconda Serie), n.
6, nov.-dez. 2013, p. 1347.
interpretativa verdadeira é verdadeira porque as razões para aceitá-la são melhores que as razões para aceitar qualquer proposição interpretativa rival".88
No processo, a verdade depende dos meios de provas possíveis e disponíveis89 e da capacidade de se produzir conhecimento. As proposições fáticas e jurídicas formuladas pelas partes e pelo juiz – sujeitos processuais cognitivos – serão conhecidas como verdadeiras ao final do processo, de acordo e na medida das provas e dos argumentos trazidos que a justifiquem e não em decorrência de avaliação subjetiva do juiz. Portanto, como atenta Taruffo90, a verdade do processo é relativa e objetiva:
No contexto do processo é apropriado falar de uma verdade relativa e objetiva. A verdade do julgamento dos fatos é relativa – no sentido em que é relativo o seu conhecimento – porque se funda sobre a prova que justifica o convencimento do juiz e representa a base cognitiva sobre a qual encontra justificação o convencimento que um certo enunciado corresponda a realidade dos fatos da causa. A mesma verdade é objetiva enquanto não é fruto da preferência subjetiva e individual do juiz, ou dos outros sujeitos, mas se funda sobre razões objetivas que justificam o convencimento do juiz e derivam de dados cognitivos que resultam da prova.
Francesco Callari91, quando aplica a função epistemológica ao processo penal, ressalta que a justificação da proposição fática no processo ocorre através da prova:
Se a finalidade do processo penal é o julgamento da verdade acerca da verificação de determinados fatos, para poder aplicar a esses (como consequência jurídica) específica solução normativa, a prova deve ser considerada como o meio através do qual o direito pretende individualizar a verdade das proposições históricas no âmbito da atividade do juízo: "p é verdade" como sinônimo de "p é provado".
Isso evidentemente afasta o necessário consenso como elemento da verdade: a verdade não só prescinde do consenso como prescinde da crença de qualquer um para existir. Alvin I.
88 DWORKIN, Ronald. A Raposa e o Porco-Espinho – Justiça e Valor. 1. ed. Martins Fontes: São Paulo, 2014, p. 171.
89 TUZET, Giovanni. Filosofia della prova giuridica. Torino: Giappichelli ed., 2013, p. 101.
90 Tradução do original: "Nel contesto del processo è appropriato parlare di verità relativa e oggetiva. La verità dell'accertamento dei fatti è relativa – nel senso che è relativa la conoscenza di essa – perchè si fonda sulle prove che giustificano il convincimento del giudice e rappresentano la base conoscitiva sulla quale trova giustificazione il convincimento che un certo enunciato corrisponda alla realtà dei fatti della causa. La stessa verità è oggetiva in quanto non è il frutto delle preferenze soggetive e individuali del giudice, o di altri soggetti, ma si fonda su ragioni oggettive che giustificano il convincimento del giudice e derivano dai dati conoscitivi che risultano dalle prove." TARUFFO, Michele. La semplice verità – Il giudice e la costruzione dei fatti. Bari:
Editori Laterza, 2009, p. 83.
91 CALLARI, Francesco. Verità processo prova certezza: il circuito euristico della giustizia penale. Rivista di Diritto Processuale. Milão: CEDAM, ano LXVIII (Seconda Serie), n. 6, nov.-dez. 2013, p. 1350. No mesmo sentido FERRUA, Paolo. Il ‘giusto processo’. Bolonha: Zanichelli, 2012, p. 45.
Goldman utiliza como parâmetro demonstrativo o argumento de que a Dorsal mesoceânica (conjunto de grandes cadeias de montanhas submersas no oceano) ou a estrutura helicoidal do DNA são verdades mesmo que ninguém forme crença acerca disto.92 Na filosofia ontológica de Markus Gabriel, isso representa o argumento da faticidade, ou seja, é admissível que os seres humanos possam criar automóveis, mas sempre haverá algum fato que não dependa do espírito humano, como o próprio fato de que os seres humanos criam automóveis.93
Outro argumento falacioso do ceticismo diz respeito à relação da verdade com a linguagem: para Goldman, a crítica relativista pode ser resumida na afirmativa de Derrida: "A linguagem é tudo e nada existe fora dela”.94 Ou seja, a verdade, a realidade e o conhecimento existem somente no discurso, são produto deste; não havendo realidade possível independente da liguagem. O absurdo de tais teorias é exemplificado pela manifestação de um antropólogo pós-modernista, contada por Goldman, em simpósio acerca da sexualidade, de que se não existisse a palavra orgasmo, não seria possível uma experiência semelhante a esta.
Alvin I. Goldman, então, passa a descrever, através de vários estudos experimentais modernos em ciência cognitiva, como o valor da linguagem é superavaliado por essas teorias céticas e cita, para tanto, a teoria linguístico-determinista de Sapir-Whorf, anterior mesmo ao pós-modernismo, segundo a qual o pensamento das pessoas é determinado pelo que a linguagem propicia. Para essa teoria, as pessoas dividem o spectrum de cores de acordo com as palavras existentes para cores em sua linguagem. Mas – como adverte Goldman – o inverso também é verdadeiro, pois nas cores como vermelho-fogo, verde-limão, azul-celeste, azul- piscina, etc.95, a linguagem difere as palavras para cores de acordo com padrões da realidade.
Goldman cita, ainda, estudos que demonstram que algumas populações cuja linguagem de cores
92 GOLDMAN, Alvin I. Knowledge in a Social World. Nova Iorque: Oxford University Press, 1999, p. 12.
93 Segundo o Professor de cadeira de Epistemologia e Filosofia moderna da Universidade de Bonn: "Ora, se desejamos perguntar se, com tudo isso, somos também os criadores do fato de que nós produzirmos automóveis.
A resposta parece evidente: não! Podemos por certo produzir automóveis, mas não o fato de produzirmos automóveis. Em outras palavras, é sempre um jogo uma certa faticidade que recai sobre nossas costas.".
Tradução do original "Ora però ci dobbiamo domandare se, con tutto questo, siamo anche i creatori del fatto che noi produciamo automobili. La risposta pare evidente: no! Possiamo di certo produrre automobili, ma non il fatto che produciamo automobili. In altre parole, é sempre in gioco una certa fatticità che si trova alle nostre spalle." GABRIEL, Markus. Il senso dell'esistenza: Per un nuovo realismo ontologico. trad. MAESTRONE, Simone L. Roma: Corocci, e-book 2013, p. 202.
94 Tradução do original: "The text is all and nothing exists outside of it" In: GOLDMAN, Alvin I. Knowledge in a Social Word. Nova Iorque: Oxford University Press, 1999, p. 17.
95 Alteramos os exemplos para palavras-cores em português, mas os exemplos realmente utilizados no texto foram fire-engine reds, grass greens e lemon yellows. GOLDMAN, Alvin I. Knowledge in a Social World.
Nova Iorque: Oxford University Press, 1999, p. 18.
é limitada ao preto e branco (povo Dani de Nova Guiné) ou ao preto, branco e vermelho aprendem de forma surpreendentemente rápida outras cores, o que demonstra sua capacidade de pensar e conhecer a realidade de outras cores que não estavam presentes em sua linguagem originalmente, aparentando possuírem uma experiência não lexical. Outros expressivos experimentos também são citados, como aquele no qual se constata que bebês de cinco semanas de idade já conseguem – mesmo sendo seres pré-linguísticos – fazer operações mentais aritméticas simples como somar um mais um.
Isso não quer dizer que se despreze a linguagem como ser-no-mundo, evidentemente. O método de identificação da verdade, nas palavras de Ferrua96, está na congruência inferencial que conjuga o enunciado fático (realidade no passado) com a prova adquirida (realidade no presente): "a verificação fatual se desenvolve através de uma linha epistêmica ou inferencial que coliga a proposição à ser provada e a premissa probatória". Para o autor, então, os passos do juízo histórico que coligará a verdade acerca do fato passado até a verdade presente são os seguintes: realidade presente → enunciados probatórios → enunciados a provar → realidade passada. Nesse esquema, há um caráter referencial entre os enunciados probatórios com a realidade presente ou/e entre os enunciados a provar com a realidade passada. A verdade não se limita ao mundo da linguagem, mas está na sua correspondência com a realidade e o mundo, através da justificação.
O argumento de ser a verdade um instrumento do poder opressivo ou "o conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder" teve em Michel Foucault um dos seus mais preciosos filósofos.97 Mas o poder opressor, autoritário, no exercício de sua Realpolitik cria seus enunciados e os qualifica como verdadeiros independente de qualquer responsabilidade com os indivíduos e as coletividades. Não identifica a verdade através da interpretação moral, mas forma juízos de valor falsos e amorais e os qualifica como verdadeiros para justificar sua ações de poder.98
No que diz respeito à transcendência da verdade, é possível distinguir – como faz Alvin I. Goldman99 – questões radicalmente transcendentes e questões moderadamente
96 Tradução do original: "la verifica fattuale si svolge lungo la linea epistemica o inferenziale che collega la proposizione da provare alle premesse probatorie" FERRUA, Paolo. Il ‘giusto processo’. Bolonha: Zanichelli, 2012, p. 45.
97 FOUCAULT, Michel. Verdade e Poder. In: Microfísica do poder. org. MACHADO, Roberto. Rio de janeiro:
Graal, 1995, p. 1-14.
98 DWORKIN, Ronald. A Raposa e o Porco-Espinho – Justiça e Valor. 1. ed. Martins Fontes: São Paulo, 2014, p. 18-19.
99 GOLDMAN, Alvin I. Knowledge in a Social World. Nova Iorque: Oxford University Press, 1999, p. 23.