No âmbito da política nacional, o modelo FUNABEM é substituído em 1990 pela FCBIA - Fundação Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência e em 1995 se transformado, já sob a égide FHC, no DCA-Departamento da Criança e Adolescente vinculado ao Ministério da Justiça, passando em 1998 à Secretaria Nacional dos Direitos Humanos que no ano seguinte recebe status de ministério.
Em 2003, já na gestão Lula, surge a SPDCA - Secretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente vinculada a recém criada Secretaria Especial dos Direitos Humanos na Presidência da República. Importante notar neste processo a passagem da área da infância e da juventude no âmbito federal outrora vinculada a Assistência ou a Justiça à pasta referente aos Direitos Humanos. A realização das Conferências Nacionais dos Direitos da Criança e do Adolescente é elemento deste progresso. Em 2000, ratificado pelo Brasil em 2004, a ONU estabelece o Protocolo Facultativo para a Convenção dos Direitos da Criança Relativo ao Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados- situação esta responsável por boa parte dos homicídios destes sujeitos.
Cabe destacar aí como pontuaram Sales (2007), Mota (2008), percebe-se na gestão do Partido dos Trabalhadores, apesar de algumas de suas particularidades, um processo de continuidade de atendimento à agenda neoliberal inaugurado a partir dos anos 1990. Por outro lado, há que se considerar a incorporação política inédita de setores progressistas alijados historicamente do cenário político brasileiro, como a criação do Ministério das Mulheres, dos negros e a política de enfrentamento à homofobia. Na área da infância e adolescência merece destaque algumas regulamentações ao menos no âmbito normativo como O Plano Nacional de Enfrentamento à Exploração Sexual, Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil, o Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito à Convivência Familiar e Comunitária e o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo- SINASE.
Vale destacar que em 05 de agosto do corrente ano, foi aprovada a Lei 12852/13, o Estatuto da Juventude que estabelece uma série de garantias de direitos humanos a esse público, entendendo a juventude nas faixas etárias de 15 a 29 anos.
adulta no país. Se nos anos 70, tínhamos uma predominância de 53% dos brasileiros na faixa de 0 a 19 anos, temos assistido uma gradativa diminuição deste percentual: 40% na década de 1980, 40%
em 2000 e 33% em 2010, o que revela um status de transição demográfica com aumento da expectativa de vida e redução das taxas de fecundidade, embora ainda tímida em comparações internacionais. (SEDH, 2010)
Fontes: IBGE (CENSOS 1980,1991,2000)
Podemos observar que o país assiste a um momento de transição demográfica ocasionado também pela redução da taxa de fecundidade e aumento da expectativa de vida. De acordo com Conanda & SDH (2010, p.8), o número de crianças no país na faixa etária de 0 a 5 anos chegou próximo a 22 milhões em meados dos anos 80 e a estimativa de cerca de 15 milhões no final desta década. Já de 06 a 14 anos, que chegou a 32 milhões em 1990 deve chegar a 25 milhões no final dos anos 10 e entre a população de 15 a 17 anos há uma tendência ao declínio em 2020.
Nas décadas sob a doutrina da proteção integral, podemos observar sensíveis melhoras em alguns indicadores sociais, entre 1997 e 2008 houve uma redução no percentual de crianças e adolescentes abaixo da linha de pobreza de 43% pra 36%. Já em relação à mortalidade infantil, houve uma diminuição do número de 47,1 óbito por mil nascidos vivos em 1990 para 19,0 no ano de 2008 com redução estimada no período de 60%, também no mesmo período houve uma redução
do número de desnutrição infantil em cerca de 80%., assim como na redução da mortalidade infantil por causas naturais e gravidez na adolescência. (SEDH, 2010)
No tocante ao direito à educação, houve uma quase universalização do acesso ao ensino fundamental com 98% de inclusão em 2008 em detrimento de 80% em 1988 (IBGE apud CONANDA & SEDH, 2010). A porcentagem de crianças de 4 a 6 anos que frequentavam a escola subiu entre 1992 e 2008 de 54% a 80%, e na faixa etária de 07 a 14 anos de 86% para 98% e de adolescentes de 15 a 17 anos do patamar de 60% a 84% (IBGE apud CONANDA & SEDH, 2010).
Todavia, embora houvesse um aumento na frequência de crianças de 0 a 3 anos a creches, o percentual é baixo em comparações internacionais e, além disso, o percentual de jovens de 18 anos com o ensino médio completo ainda é baixo.
07 a 14 anos 15 a 17 anos (Fonte: IBGE, 2008 apud SEDH, 2010)
Cabe observar que embora tenham ocorrido sensíveis melhoras nas últimas décadas, sobretudo nos últimos dez anos, em diversos indicadores sociais, há a permanência de desigualdades regionais e étnico-raciais com os menores índices de crescimento nas Regiões Nortes e Nordeste e na população de crianças e adolescentes negras (IBGE apud CONANDA & SEDH, 2010). Outro ponto de análise ainda é a baixa qualidade na educação e saúde oferecida apesar da ampliação do acesso.
Já a Agência Brasil83 nos idos dos dezenove anos do Estatuto da Criança e do Adolescente informou que 55% das crianças brasileiras com até seis anos de idade estão abaixo da linha da pobreza, isto é, cuja renda per capita familiar seja de até meio salário-mínimo. Na mesma reportagem, a pesquisadora Enide Rocha aponta que para cada adulto pobre haja pelo menos duas ou três crianças nessa situação e que “envolve-se em um delito quem já estava fora de qualquer mecanismo lícito de ascensão social, como a escola e o trabalho legal”.
Além disso, os efeitos perversos da ofensiva neoliberal iniciada na década de 90 não foram revertidos e em alguns aprofundados como a repressão à juventude pobre expressadas no encarceramento massivo e extermínio.
A implementação das políticas neoliberais no Brasil que se inicia já na primeira metade da década de 90 põe em xeque logo nos primeiros anos as conquistas adquiridas na nova carta magna.
O paradoxo constituinte é mais uma etapa das modernizações conservadoras brasileiras, um retrato do mais largo abismo que separa as garantias legais de sua efetivação, uma página nova do “para inglês ver”.
Após um processo eleitoral de ampla participação popular e uma diversa gama de partidos políticos, a primeira eleição direta para presidente da república após quase trinta anos revelou um traço societário nacional de “fazer história de costas para o futuro” (NOGUEIRA apud BEHRING, 2008, p.143). A disputa no segundo turno entre o candidato do Partido dos Trabalhadores oriundo do movimento sindical dos anos 70 e o até então desconhecido Fernando Collor, de um partido pequeno e forte identificação com as classes dominantes e insatisfeitos com a CF 88, fez deste vencedor no pleito. Assim como no início dos anos 60, a burguesia nacional, apesar de fragmentada, com forte apoio midiático deu mais uma passo em suas tendências regressivas, de um iceberg na efervescência da possibilidade de maior democratização política e econômica.
(BEHRING, 2008)
A fragmentação de sua base de apoio, culminada com forte crise econômica e multiplicados escândalos de corrupção e a mídia voltando a adquirir fortes poderes de denúncia, o primeiro presidente eleito da nova república é destituído do cargo anos depois a partir de um processo de impeachment, com seu vice terminando o mandato. É a partir da eleição de FHC que o Brasil mergulha de vez na adoção das medidas neoliberais advindas do Consenso de Washington.
83 “Desigualdade social aumenta vulnerabilidade de crianças e adolescentes”. In:
http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2009-07-13/desigualdade-social-aumenta-vulnerabilidade-de-criancas-e- adolescentes. Consulta em 28/10/13 às 20h46.
Behring (2008) afirma que, paradoxalmente a conquista histórica de 1988, se assiste ao processo de Contrarreforma do Estado Brasileiro (BEHRING 2006) a partir dos condicionantes externos referidos e sobremaneira pelo modelo político adotado pelos governos no período. Isto é se a Carta Magna referendava a participação popular e a garantia dos direitos sociais, a década seguinte pregava a diminuição de servidores e funções do Estado com a multiplicação das privatizações e a sujeição da governabilidade às leis impostas pelo mercado financeiro.
A questão das “reformas” com forte apelo dos grandes grupos midiáticos e suas relações transnacionais reproduz um discurso de que as principais razões para a crise econômica que se instaura, está ligada ao tamanho do Estado brasileiro, de sua burocracia pública e das grandes despesas oriundas da seguridade social que deveriam ser enxugadas.
Por outro lado, na década seguinte se inicia a derrubada política dos avanços constitucionais em modelo de contrarreforma do Estado no país, desencadeado por fatores conjunturais e estruturais internos e externos e a disposição do governo em adotá-las. Deste modo, se assiste, especialmente nos governos FHC, situações como repasse de parcela significativa do patrimônio público à burguesia internacional, não-obrigatoriedade de empresas privatizadas a comprarem matéria prima no Brasil, fechamento de indústrias nacionais e crescimento de subemprego e desemprego.
No tocante às políticas sociais, houve uma considerável redução dos gastos públicos, prejudicando à já precária política social em profundo divórcio com as garantias de 88. A política social então é marcada pela privatização da saúde, educação e previdência, repasse para organizações filantrópicas as ações assistenciais marcadas pela focalização, seletividade e fragmentação voltada às populações mais pobres, ocasionando portanto a restrição e redução de direitos. As contra reformas empregadas na previdência social reduziram e flexibilizaram direitos trabalhistas, além da cooptação de sindicatos e desmobilização e criminalização dos movimentos dos trabalhadores.
O cenário político gerado se dá na expansão da pobreza, estigmatizando da vida cotidiana e aumento da repressão do Estado às parcelas mais pobres da população o que se evidencia no aumento nas taxas de encarceramento e homicídios de jovens. Se o debate presente no final dos anos 70 e 80 davam conta das mobilizações por direitos sociais e combate à corrupção, os idos de 90 mostraram facetas societárias como o fisiologismo, crueldade e intolerância com o outro.
(SALES, 2007)
Santos (2012) aponta as particularidades recentes do desemprego no Brasil sob a manta neoliberal. Para tanto, a autora faz a necessária ressalva que ao contrário dos países cêntricos do capitalismo, nessas terras nunca houve Estado de Bem-Estar Social.
Neste sentido, o processo de reestruturação produtiva aqui aprofundou as características mais deletérias do nosso mundo do trabalho tais como: flexibilidade estrutural, altos índices de rotatividade de mão-de-obra, baixo custo da força de trabalho (06 e sete vezes inferior aos países desenvolvidos), grande disponibilidade de mão-de-obra vista tamanha concentração de renda e riqueza, informalidade na proteção social, alta rotatividade de trabalhadores, baixa escolaridade e a conjugação de elementos de discriminação por raça, gênero e território. Além do enfraquecimento histórico dos sindicatos, apesar de notáveis exemplos de resistência, a pesquisadora sergipana entende que no nosso país há o acirramento da tendência do “medo de perder o emprego como força disciplinadora do trabalho” (p.197)
Tais fatores representaram novas configurações nas expressões da “questão social” brasileira com o alargamento do abismo social, aumento de desemprego e da pauperização da população.
Sendo assim, ao mesmo tempo em que se observa a área da infância e da Juventude transcender sua condição periférica na agenda da política pública e uma cultura de direitos a partir da participação popular na esfera pública, cresce a situação de miséria de milhares de famílias com crianças e adolescentes a mercê da ótica da lucratividade e privatização, tendo o recrudescimento da violência urbana como consequência, dentre outros fatores, desses fenômenos na vida desses seres em desenvolvimento. É neste contexto que milhares de adolescentes e jovens especialmente são os mais afastados do mercado de trabalho no Brasil.
No estágio atual do capitalismo gerado pela crise do final do século passado, Mota (2008) destaca a restruturação produtiva responsável por mudanças no mundo do trabalho e a ofensiva ideopolítica na construção da hegemonia de dominação do capital. Estes fenômenos trouxeram, dentre outros fatores a mercantilização da esfera doméstica, superespecialização tecnológica com precarização absoluta, naturalização da mercantilização da vida, além das dicotomias cidadão- consumidor, trabalhador-empreendedor desempregado/cliente da assistência social.
Mota (2008) discorre sobre a centralidade da assistência social na seguridade social no Brasil do séc.XXI. Embora a carta constitucional de 1988 tenha estabelecido a seguridade social nos marcos progressistas da política social, a formação de um articulado mecanismo de proteção social como se pensava se tornou distante de se concretizar devido às conjunturas e opções políticas pós- 88.
Há de ressaltar, contudo, que a elevação da assistência social como dever do Estado e sua inclusão do campo da seguridade representou um avanço na proteção social brasileira. Contudo, com o advento do neoliberalismo à brasileira ocorreu um emblemático paradoxo: enquanto avançava o processo de mercantilização e privatização das políticas de saúde e previdência social, houve a ampliação da assistência social. Nesse cenário, ganhou centralidade os programas de transferência de renda.
Assim, no tripé da seguridade se criou a separação entre o cidadão-consumidor (saúde, previdência) e o cidadão-pobre (assistência social). Mota credita esse fenômeno à intenta da burguesia nacional, aliada a internacional na utilização de mecanismo persuasivos após os embates da década de 80 e a própria conjuntura econômica de ajustes macroestruturais e a condição subalterna brasileira.
Nesse cenário que de incremento do desemprego e subemprego, a assistência social com seus programas ganhou centralidade na política social como solução dos problemas oriundos do mundo trabalho. Tal processo produziu uma construção de ideologia e prática política que deslocou a condição de mecanismo integrador do trabalho para a assistência social, constituindo o mito da assistência social. Esse fenômeno despolitiza as lutas e tira de foco o caráter classista das lutas sociais, transformando o cidadão sujeito de direitos em consumidor, o trabalhador em um contribuinte autônomo, o desempregado em beneficiário da assistência social e a família e comunidades como células de uma sociedade solidária e cooperativa. Neste contexto, é importante observar que é assistência social84 a principal política a quem recorrem milhares de crianças e adolescentes e suas famílias em situação de violação de direitos no nosso país.
Há que se observar neste contexto, diversas mudanças nas configurações familiares boa parte delas inseridas nas mudanças ocasionadas em função do processo de reestruturação produtiva que em momento de crise capitalista, ocorreu um novo reordenamento nas relações sociais, além de importantes conquistas no âmbito dos direitos civis frutos de mobilizações históricas. Santos (2007, p.71) observa especialmente nas camadas médias e pobres uma “erosão da capacidade da família em termos de aglutinação e regulação dos indivíduos para vida em sociedade” (grifo original)
Segundo autora, esta nova configuração está intimamente ligada a certa falta de suporte institucional e de falta de recursos para gerir a subsistência autônoma das famílias com o ingresso
84 Pode-se afirmar que na imensa dos municípios do país, a política responsável por atender as questões mais específicas relacionadas aos direitos das crianças e dos adolescentes estão vinculadas às secretarias de assistência social que podem se apresentar com diversos nomes tais como “desenvolvimento social”, “bem-estar social”, “ação social”, “defesa social”, etc.
massivo de mulheres pobres no mercado de trabalho e as próprias crianças e adolescentes submetidas à exploração de trabalho infantil por meras condições de sobrevivência. Como diria o jornalista Caco Barcelos à revista Le Monde Diplomatique em suas entrevistas com traficantes de drogas, muito deles tiveram suas mães ocupando funções de empregadas domésticas: “os bacanas do asfalto têm duas mães e eles nenhuma”.85
São estas famílias que o tripé das ditas obrigações legais do artigo 4º do ECA mais sofrem neste processo. Temos observado nas mais variadas situações que envolvem violência contra crianças e adolescentes uma tendência a super culpabilização dos responsáveis legais, sobretudo as mães- responsáveis historicamente pelo “cuidado” segundo a lógica patriarcal e pelo fato de muitos destes sujeitos não terem o reconhecimento legal de paternidade. À guisa de ilustração, no ano de 2010, o Fantástico exibiu cenas do documentário “Falcão, meninos do tráfico” de Celso Athayde e Mv. Bill, de grande repercussão nacional e as falas do mesmo programa a partir da situação dos adolescentes trabalhadores do tráfico davam conta de um peso acentuado de responsabilização dos genitores.
É essa ponta do iceberg materializada na figura dos pais, especialmente as mães pobres que diariamente tem de “dar nó em pingo d’água” pela subsistência dos membros da família que tem recaído o pesado fardo das mais variadas formas de violência contra crianças e adolescentes a partir de visões hegemônicas simplistas descontextualizadas histórica e politicamente. Desse modo, torna- se referência obrigatória para compreender a situação de crianças e adolescentes no cenário contemporâneo a condição de pobreza e miséria que passam milhares de famílias da classe trabalhadora.
Nesta direção, conforme menciona Sales (2007, p.82)
É preciso lembrar que essas estratégias-armadilhas- uma encruzilhada de vida e morte para os membros da família-, não são fruto do puro acaso ou livre arbítrio sem compaixão de pais e mães. A crise social, à qual se combina o incremento da violência, contra qualquer resistência político-econômica e moral conservadora, é fomentada pela pobreza e não pela irresponsabilidade dos pais. Tais estratégias decorrem, assim, das múltiplas pressões sociais e econômicas sobe o núcleo doméstico, o qual produz respostas objetivas e subjetivas.
Esse caldo de incertezas produzido no solo neoliberal vai ser geradora do aguçamento das contradições sociais, em que se aumenta o desemprego e informalidade no maior apelo ao consumo das mercadorias cada vez mais industrializadas e no nosso ordenamento jurídico-político a
85 “Drogas e violência: uma questão de classe”. In: Acabar com o narcotráfico. Revista Le Monde Diplomatique, edição 26, setembro de 2009. Disponível em: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=539. Consulta em 13/10/2013 às 14h15.
permanente tensão entre a retórica da afirmação dos direitos e sua não materialização, o crescimento do fundo público mas pouco direcionado às políticas sociais.
Esse conflito se expressa de forma mais radical nos centros urbanos através de sua juventude pobre com a insegurança da existência se sobrepondo à seguridade social, a dramática combinação de desigualdade com discriminação. Behring (2009, p.58) destaca três elementos quando analisa a violência estrutural sobre a juventude pobre: o desemprego, o isolamento em periferias precárias e as discriminações cotidianas aliadas às dimensões étnico raciais, geracionais e de gênero.
Contraditoriamente, o contexto que projeta a família e as crianças e adolescentes e suas necessidades no cerne da esfera pública e os engrandece como um dos campos fecundos de (re) desenho da cidadania e das políticas sociais no Brasil é o mesmo que os deteriora, corrompe, vulnerabiliza e expõe. É um cenário de contradições acirradas pela ordem econômica mundial sob a égide do neoliberalismo, cuja diretriz é a desregulamentação, o que significa desatar os nós das âncoras dos direitos sociais, deixando os trabalhadores navegarem nas águas da imprevisibilidade, do desemprego estrutural, do trabalho temporário... Como se vê, o capitalismo no século XXI não está muito preocupado com laços ou com seguridade; pelo contrário, a palavra de ordem é desamarrar. Donde, o Estado na atual conjuntura, deliberadamente desinteressa-se da matéria e de tudo mais que concerne à reprodução dos trabalhadores e suas famílias, disponibilizando a satisfação dessas necessidades para a capitalização e privatização. (SALES, 2007, p.92-3)
Nesse emaranhado de contradições, as respostas dos Estados tem sido a ampliação em escala exponencial de seu aparato repressivo. Assistimos no auge do neoliberalismo brasileiro um incremento da face coercitiva do Estado guardando profundas raízes com nosso legado autoritário e repressor: “A avalanche (neo)liberal demonstra que os problemas sociais aprofundados nessa quadra histórica que atravessamos não representam apenas uma retórica, mas um processo com profundas raízes em nossa sociedade”. (FREIRE, 2011b, p.163)
As respostas do Estado tem sido as mais repressivas com as camadas pauperizadas expressas no aumento das penas, do encarceramento, dos homicídios. Neste sentido, em tempos de capital fetiche e ofensiva neoliberal observamos uma reatualização das “classes perigosas”, voltadas para pobres, negros, moradores de favelas, tendo na figura do traficante de drogas o inimigo em potencial.
Wacquant (2007) analisa o exponente crescimento do encarceramento na sociedade estadunidense como um componente intrinsicamente ligado à redução de gastos e precarização de políticas de assistência social naquele país. As políticas repressivas e construção da ideologia da chamada tolerância zero direcionadas aos guetos, em muitos formados por populações negras ou imigrantes, vão dar a tônica na medida da redução das políticas sociais, há um incremento do viés punitivo do Estado, a chamada “nova gestão da miséria” (WACQUANT, 2007) através da onda punitiva.
Na medida em que a rede de segurança do Estado caritativo se desfazia, a malha do Estado punitivo foi chamada a substituí-la e a lançar sua estrutura disciplinar nas regiões inferiores do espaço social estadunidense como uma forma de conter a desordem e o tumulto causados pela intensificação da segurança e marginalidades sociais. Uma cadeia causal e um elo funcional foram então colocados em movimento, por meio dos quais a desregulação econômica requeria e provocaria a redução do bem-estar social; por sua vez, a gradual passagem do welfare para o workfare demandava e alimentava a expansão do aparato penal. (WACQUANT, 2007, p.110)
Importante contribuição a análise desta realidade no capitalismo ocidental é de Wacquant,(2007) que em detrimento do esvaziamento do Estado de Bem-Estar Social (mencionado pelo mesmo de Estado providência), há uma processo de ampliação exponencial da repressão do Estado e suas políticas de repressão. Elas se expressam tanto na violência quanto no encarceramento e punição das populações das periferias dos centros urbanos como Nova Iorque, Paris e América Latina, logrando a punição aos pobres como o baluarte da gestão da miséria, fenômeno denominado pelo autor de “Estado Penal”86.
Dada a centralidade estadunidense analisada pelo sociólogo francês tida como única grande potência do capitalismo contemporâneo e suas vértices monroístas, é preciso, contudo tecer algumas mediações às particularidades brasileiras. Deste modo, destacamos que ao contrário dos países cêntricos do capitalismo, não houve Estado de Bem-Estar social no país, além de todo histórico de precarização no mundo do trabalho. Acrescentamos nesse contexto de ofensiva neoliberal todo o legado histórico de violência e arbitrariedade aos setores mais pauperizados e discriminados de nossa sociedade conforme problematizados nos capítulos anteriores.
O cenário degradante dos impactos da crise do capital e suas consequências deletérias nas políticas sociais constrói um cenário onde o Brasil apresenta uma das maiores taxas de encarceramento e extermínio do mundo.
Tomando com base nos dados fornecidos pelo Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) do Ministério da Justiça87, o Brasil assistiu entre 1995 (148.760) e 2011 (514.582) ao crescimento da população carcerária em 345,91%. De 95 presos para cada 100mil habitantes (1995), a proporção demográfica subiu para 269,79 para cada 100mil em 2011. Esse diagnóstico é
86 A expressão “Estado Penal” desenvolvida por Wacquant se tornou recorrente para designar esta face da violência na atualidade. Todavia entendemos que uso do termo pode incorrer em uma visão reducionista do Estado visto sua função na sociedade capitalista. Deste modo, concordamos com Machado (1999) com base nas formulações de Mandel que o Estado no capitalismo tardio apresenta três funções fundamentais: garantir as condições gerais da produção, integrar os aparelhos ideológicos e operar os aparelhos repressivos. Deste modo, entendemos que o “Estado Penal” nada mais é que um aperfeiçoamento dos aparelhos de coerção do Estado burguês em um contexto de crise.
87Departamento Penitenciário Nacional. Disponível em:
http://portal.mj.gov.br/depen/data/Pages/MJC4D50EDBPTBRNN.htm