4.5.1 Significados e sentidos para o princípio da Integralidade
Quanto mais se estuda, mais complexa ela se torna. Pinheiro e Mattos (2008, p. 1) afirmam que a “Integralidade é um termo polissêmico, com diferentes sentidos e usos”. A definição legal segundo os mesmo autores diz que "Integralidade é a integração de atos preventivos, curativos, individuais e coletivos, em cada caso dos níveis de complexidade".
Afirmam ainda que o termo, ou o sentido, era sempre “reduzido à definição legal ou a outra sem qualquer caráter operatório, o que fazia com que caísse numa certa abstração, desprovida de sentidos”.
A Integralidade não se resume a um conceito. Ela é o retrato mais sublime da consolidação que o SUS quer alcançar. A Integralidade se faz com um olhar humano sobre o indivíduo que sofre com a sua vida, com o seu trabalho, com a sua doença, é o reflexo de ações combinadas, voltadas simultaneamente à promoção da saúde, prevenção dos agravos e cura das doenças. É a ação voltada, antes de mais nada, à saúde e não (e somente não) à doença.
[...] integralidade seria sinônimo de ação integral, integrada. Integrada seria interdisciplinaridade, quer dizer assistência em todos os âmbitos (Pwc).
[...] no meu ponto de vista, integralidade é observar o ser humano em todos os seus aspectos - bio- psico-social; ver as condições de saúde, as condições de moradia, as condições de alimentação, as condições de ensino; educar aquela criança desde cedo a escovar os dentes, fazer uma atividade física, se alimentar direito, se cuidar; e a gente só consegue isso quando todos profissionais estão integrados em prol disso, trabalhando em equipe multidisciplinar, de forma interdisciplinar, objetivando a transdiciplinariedade (Plcc).
[...] a integralidade é porque ele é um ser complexo e é aí que entra a questão de nós termos um olhar como um ser complexo [...] (Pit).
[...] conceito social que o paciente ta inserido, o emocional [...] o profissional de saúde tem que estar vendo, que o paciente não é um joelhinho; a gente tem que perceber que é uma pessoa, que ta vindo, qual é a real necessidade dessa pessoa que ta procurando a gente, as nossas limitações, as nossas competências profissionais, e saber até aonde a gente pode ir [...] o contexto de integralidade é muito amplo, envolve todo o contexto que a pessoa está inserida. Atender todas as necessidades envolve um contexto muito maior do que, aquela questão que a gente, muitas vezes, como fisioterapeuta fica focado na doença (Paf).
[...] a integralidade do atendimento seria específico de cada profissão, porque cada profissional precisa atender integralmente seu paciente [...] Agora essa integralidade ela não é especifica de um profissional, ela precisa também inter relacionar-se com os outros profissionais. Então a integralidade de cada profissional que atende, mas ela se relaciona ou correlaciona com a integralidade de todos [...] (Pcj).
4.5.2 O princípio da Integralidade e sua apresentação na realidade de atenção básica
[...] a integralidade no SUS é ver o indivíduo como um todo. Eu não acho que a gente pode ver o indivíduo como um amontoado de partes. A Carolina é a Carolina, mas a Carolina tem uma cabeça tem um pescoço, tem 2 pernas, 2 braços nesse momento, mas ela vive assim, por trás disso tem uma Carolina[...] A integralidade para mim é assim, é você ver o individuo como um todo. Não como um amontoado de partes, e no SUS é, eu sou gineco, eu trato disso, então eu cuido só disso. Eu sou clínica essa é a minha parte, eu sou a enfermeira que cuida dos hipertensos, então diabetes já não é comigo, é lá com a enfermeira dos diabéticos. Ah eu tenho uma dor lombar, então eu tenho que ir lá na fisioterapia, daí não, eu não atendo isso eu o sou só da respiratória. Acho que nisso a gente peca. A gente não é generalista, os profissionais. Acho que a questão das especialidades melhorou muito, mas também eu acho que se perdeu muito [...] (Pmc).
Interpreto a integralidade na atenção básica do SUS como o acesso facilitado e resolutivo aos serviços, marcado pela escuta e acolhimento. Diagnosticar e tratar quando preciso; favorecendo o acesso a todos os níveis de atenção. Orientar o auto-cuidado e educar para a saúde a todo o instante. Ação integral no serviço significa espaço organizado, que atende a um público que se mostra satisfeito e sobretudo interessado, não só em receber uma intervenção sobre o seu problema de saúde mas, numa esfera muito mais ampla, que colabore com sua cidadania.
[...] eu vejo a integralidade como um acesso integral, que tem a possibilidade de fazer uma consulta no ginecologista, de fazer uma consulta no pediatra, fazer uma consulta no fisio, fazer uma consulta no dentista [...] esse é um compromisso, você tem um compromisso com a pessoa, independente da doença da pessoa, uma pessoa que tem medo, que tem anseios, dificuldade, uma pessoa que tem expectativas e esperança (Pnj).
Que tenha atenção em todos os níveis, que tenha acesso a tudo que for necessário em todos os níveis e pra qualquer pessoa independente [...] Nós temos que conseguir dar o tratamento no todo pro paciente então se ele precisa de um tratamento, não é só remédio, ele pode estar precisando de um professor de educação física p. ex. pra saúde dele (Plj).
Eu vejo assim, você visualizar o indivíduo como um todo [...] outras áreas se unindo; é que você vai ver o indivíduo de forma integral, como um todo, em todos os aspectos, psicológicos, nutricionais, físicos, todos. Eu acho que as pessoas ainda vão ter de aprender a trabalhar assim [...] o nosso objetivo, é que as coisas se somem realmente e se interajam, não só se somem; daí sim o indivíduo estará tendo um atendimento integral e que beneficia ele, ele é o foco. É nisso que a gente tem que pensar (Pmcc).
Atenção integral se faz com união de competências, diálogo, auxílio mútuo, respeito;
onde as vaidades dão lugar ao comprometimento com o espaço, com o público e com o serviço. Tal pensamento foi uma constante entre os discursos:
[...] tem que saber ter humildade; respeitar o outro profissional. Então, saber o que é integração, como é que pode beneficiar o teu paciente as demais áreas (Prt).
Todos os profissionais trabalharem juntos. Eu acho que é o caminho da saúde, ela caminha nesse sentido, de todos trabalharem em uma equipe [...] os profissionais tem que se unir pra atender juntos (Pdc).
Trabalhando juntos, no mesmo lugar, em prol da mesma coisa; nenhum mais, nenhum menos e a gente tem que se ajudar, se dar as mãos (Pit).
[...] da importância que cada profissão tem, aonde um entra e o outro sai; a responsabilidade de você sentir que o teu papel foi até aqui, que daqui pra frente eu preciso do meu colega “X” para dar continuidade (Plt).
[...] a importância da gente trabalhar o individuo em todas as suas dimensões; trabalhando sempre em equipe, pra poder trabalhar o integral, tem que trabalhar sempre em equipe, num grupo. Pra que a gente possa atender o todo, desse paciente, todo ele (Pft).
Cutolo, médico, reforça a necessidade de oportunizar a interação entre os estudantes e medicina e de outras áreas da saúde. Isto é decisivo para o seu “crescimento profissional e pessoal” (CUTOLO, 2003, p. 29).
4.5.3 Integralidade na formação acadêmica
[...] a gente se formava pra abrir um consultório, pra abrir uma clinica. Hoje, os nossos alunos estão saindo com uma visão bem maior de integralidade. Na minha formação, a gente não tinha essa noção de trabalho em equipe, do integral; eu não aprendi aquilo que eu passo hoje pro meu aluno, a importância de ouvir, por exemplo, se é uma criança, a família, de ouvir a mãe, esse pai, se é presente, se é ausente, isso influencia no tratamento, influencia na evolução. Hoje, se o aluno sai com essa visão, não vou te garantir. Agora que eu passo isso pra ele, eu tenho certeza (Pft).
Integralidade é antônimo de formação flexneriana. O paciente sob o olhar da integralidade é visto a partir de sua queixa e não o contrário, uma visão do sistema biológico
“desorganizado” que produz o desconforto. A formação voltada a super-especialização e ao
tratamento dos “amontoados de parte humana” não condiz com a integralidade, cuja dimensão prática evidencia-se no conjunto articulado de pessoas, saberes e poderes voltados a uma melhor qualidade de vida da população.
Na formação talvez nos precisaríamos de um elo de junção entre todas as áreas. Porque ainda o aluno está recebendo informações recortadas por áreas: neurologia, ortopedia. Eu acho que um passo pra formação, são as novas estratégias, de não se trabalhar mais em grade, mas sim com o núcleo de disciplinas (Pcj).