Capítulo I: O Estado da Arte e as Narrativas do Conflito
1.4. Debates de Putney
Iniciado no dia 28 de outubro de 1647 na igreja da Virgem Santa Maria e findado abruptamente no dia 11 de novembro, os Debates de Putney são mais conhecidos pela discus- são travada entre Ireton e Rainsborough, em que o último, leveller160, propõe o voto irrestrito de homens adultos, defendendo ser essa a verdade professada nas leis naturais e divinas. Ire- ton, personagem Independente importante e general próximo de Cromwell, contraria seu companheiro dizendo que na natureza os animais não possuem propriedade e que, defender o voto por meio de leis naturais seria, também, defender o fim da propriedade privada. Apesar da interessante rusga entre os dois lados, que mostra uma reflexão política arguta dentro do Exército, mas que também o mostra dividido, para nossa proposta, outros assuntos discutidos nesse evento nos são mais profícuos.
Tão logo se aproximavam do desenlace da Guerra Civil, mais urgente se fazia a dis- cussão sobre Carlos I. Se antes um acordo entre as duas partes era esperada, como nos mostra o pacto da Solemn League (1643), a partir da captura real, em 30 de Janeiro de 1647, as ex- pectativas começam a mudar, como fica explícito nos debates de Putney. Naturalmente, após a volta vitoriosa de uma nova Guerra Civil, o assunto real seria debatido. Esse debate daria voz a temas que se antes eram pensados, não eram expressados publicamente. O que deveriam fazer após o fim do conflito?
A discussão era ampla e o Exército de Novo Tipo, que abria espaço para o debate de seus membros, discutia temas políticos como um órgão de plenos poderes, uma verdadeira heresia para os presbiterianos. O proferimento de que não eram mercenários, mas sim partici- pantes políticos do processo era sincero e os debates ali travados tinham a pretensão determi- nar o futuro do país.
MORRIL, John & BAKER, Philip. "Oliver Cromwell, the Regicide and the Sons of Zeruiah". In: PEACEY,
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Jason. The Regicides and the Execution of Charles I. New York: Palgrave, 2001. p.19.
Rainsborough, escolhido por Fairfax para ocupar uma alta patente, foi recusado, na fundação do New Model
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Army, pelo Parlamento devido a sua radicalidade religiosa. Em 1647 torna-se MP (Member of Parliament) repre- sentando Droitwich. Cf.: KISHLANSKY, Mark. op. cit. p.65-66.
O novo contrato a ser firmado deveria ser aprovado pelo Parlamento ou pelo povo?
haveria tolerância religiosa na refundada Commonwealth? E o papel do rei nesse novo gover- no, qual seria? É quando se chega no tabu que a discussão acalorada nos interessa. Edward Sexby, parecendo dar vazão às suas angústias vocifera no primeiro dia dos debates: deveriam dar um fim à monarquia; o Capitão Bishop e o Coronel Harrison provavelmente fartos das artimanhas de Carlos, o chamam de "a man of bloud" . Cromwell contesta, dizendo que os 161 dois reivindicavam a morte do rei. Essa discussão, que tem seu registro feito por William 162 Clarke, nos sinaliza algo: a ideia de um julgamento ou eliminação do rei rondava as mentes dos revolucionários.
Dentro desse debate inicia-se outro processo de sectarização política. Se os Indepen- dentes tinham se afastado dos presbiterianos e logo em seguida o Exército tinha se afastado dos parlamentares, dessa vez chega o momento de cisão interna do corpo militar: os levellers confrontam, pela primeira vez, Cromwell e seus companheiros. David Underdown mostra, durante todo seu livro, que a separação desses grupos não era um rompimento circunstancial de forças, mas sim o confronto de grupos políticos já antes delimitados e que encontravam, em um certo momento, barreiras suficientemente grandes para os separarem ao invés de con- viverem. A tolerância religiosa, a escolha da religião oficial, os termos de reconciliação real e o filtro da participação política foram bifurcações que fizeram os já diferentes grupos toma- rem direções diversas, por vezes opostas.
É sob essas tensões que os levellers formulam a sua primeira edição do Agreement of the People. Primeiramente, temos de ter a noção de que os levellers não são um grupo estri- tamente militar, eles nem mesmo nasceram no New Model Army. Sua origem é urbana, no es- trato intermediário de Londres. Aos poucos seu programa se difundiu e infiltrou no Exército.
Foram chamados de levellers de forma pejorativa, acusando-os de quererem nivelar a socie- dade por meio do fim da propriedade privada. Negando as acusações, seus membros lutavam, principalmente, por tolerância religiosa, fim dos monopólios comerciais, direitos individuais
O Termo será discutido na justificativa da execução real, no segundo capítulo.
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MORRIl, John & BAKER, Philip. "Oliver Cromwell, the Regicide and the Sons of Zeruiah". In: PEACEY,
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Jason. The Regicides and the Execution of Charles I. New York: Palgrave, 2001. p.19.
garantidos na constituição, uma soberania popular e o alargamento da permissividade dos vo- tos para todos os homens, exceto indigentes. 163
O Agreement de 1647 foi, também, uma resposta ao Heads of Proposals, uma disputa de qual versão oficial o Exército, agora politizado, tomaria. Não por acaso ele sofreu ataques constantes de Ireton, tanto detratando as propostas como incoerentes ou, ainda, julgando que elas foram contempladas no Heads of Proposals de forma mais contida. Entre as propostas de Lilbourne e seus companheiros, destacam-se as de fazer as eleições de acordo com a propor- cionalidade populacional de cada região, a dissolução do Parlamento em um ano e a realiza- ção de novas eleições com duração bienal. As propostas não foram mal recebidas só pelos 164 outros membros do Exército, mas também pelos presbiterianos, com medo da malta tomar a política. Ireton e Cromwell sabiam da importância de se redigir um pronunciamento menos radical para se obter melhor aceitação externa e consolidar o poder político do Exército.
Em uma manobra política no dia 8 de novembro, o conselho votou pelo retorno dos agitadores às suas unidades. Os levellers contra-atacaram distribuindo cópias do Agreement para os pelotões, fazendo com que Cromwell tomasse medidas enérgicas e reprimisse o mo- tim, parecendo disposto a maiores medidas até que, no dia onze daquele mesmo mês o rei foge, na surdina da noite, de Hampton Court e se dirige para a ilha de Wight, onde pensava ter o apoio de seu governante. Esses acontecimentos, no entanto, na opinião de David Under165 - down, cindiram mortalmente os Independentes: dividiram-se entre o Exército (comandados pela middle-group) e os levellers. 166
No dia 27, o Parlamento, tentando recuperar seu protagonismo, apresenta um novo acordo ao rei, o Four Bills, que propunha a Carlos I um acordo de paz desde que 1) o exército e a marinha fossem passados para o controle do Parlamento por vinte anos, 2) qualquer decla- ração de guerra tivesse de passar pela aprovação parlamentar, 3) fosse permitida a possibili-
Para uma análise mais profunda sobre o surgimento e o desenvolvimento dos levellers, ler: BARROS, Alber
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to Ribeiro G. De. "Levellers e os direitos e liberdades constitucionais". São Paulo: Cadernos de Ética e Filosofia Política vol. 17, 2/2010, pp.07-20; BARROS, Alberto Ribeiro G. De. Republicanismo Inglês: Uma Teoria da Liberdade. São Paulo: Discurso Editorial, 2015; HILL, Christopher. "Levellers e Levellers Autênticos". In: O Mundo de Ponta-Cabeça: Ideias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: Companhia das Le- tras, 2001.
Para o acesso à primeira versão do Agreement: The Agreement of the People, as presented to the Council of
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the Army. Disponível em: http://www.constitution.org/eng/conpur074.htm. Acessado no dia 05/05/2016.
UNDERDOWN, David. Op. cit. p.87.
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UNDERDOWN, David. Op. cit. p.97.
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dade do Parlamento se reunir em qualquer lugar, protegendo-se de qualquer tentativa de uso das forças londrinas para coagi-lo e 4) a revogação das declarações reais passadas sobre o Parlamento. 167
A fuga de Carlos não era, no entanto, ato de puro desespero. Sabendo da não adoção do presbiterianismo na Inglaterra, do forte golpe ao episcopado e da venda de terras dos bis- pos, o rei sabia que as relações entre a Kirk e o Parlamento inglês estavam estremecidas. Se antes procurava dividir o Parlamento inglês, Carlos pensava nesse instante em dividir a alian- ça dos presbiterianos escoceses com os parlamentares. Pensando poder usar o medo que a po- litização do Exército trouxe, Carlos foge estrategicamente. Suas fugas e constantes recusas de acordo pareciam estratégias para fazer com que suas forças fossem remanejadas e pudessem combater novamente.
A intransigência real, velada com "lágrimas de crocodilo", fez com que setores radi- cais do Parlamento, liderados por Arthur Hesilrige e Thomas Wroth propusessem o Vote of no Adresses no dia 3 de janeiro. A Câmara dos Lordes, receando perder sua força, se opôs. O Exército - que nos Debates de Putney já tinha membros a favor da recusa de se negociar com o rei, como é o caso de John Wildman e o coronel Rainsborough - apoiou uníssono a proposta e, se utilizando de uma revolta popular contra taxas em Londres interviu no Parlamento sob a justificativa de proteção dos políticos. No dia 11 de fevereiro a moção passou justificando seu ato ao listar todos os atos violentos e ilegais que Carlos tinha tomado durante seu reinado.
Esse documento é um marco de um ataque direto do Parlamento ao rei. O documento termina dizendo que a partir de então eles não contariam mais com o monarca para resolver os pro- blemas políticos da Inglaterra. 168
Os membros escoceses do antigo Committtee for Both Kingdoms, um comitê formado no começo da guerra civil para articular a aliança entre escoceses e parlamentares, denuncia- ram o Vote of no Addresses e reacendeu a suspeita da traição do reino do norte. Carlos, aos poucos, se aproximava dos presbiterianos escoceses.
Chegando na ilha de Wight, o governador Robert Hammond ao invés de apoiar o rei, o prende no castelo de Carisbrooke e o denuncia ao Parlamento. Mesmo ilhado no castelo, Car-
UNDERDOWN, David. Op. cit. p. 87-88.
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Para o acesso ao documento: The Vote of No Addresses. Disponível em: http://www.constitution.org/eng/con
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pur079.htm. Acessado no dia 05/05/2016.
los consegue entrar em contato com os escoceses e firmar o seu tão desejado pacto, The En- gagement, em 26 de dezembro de 1647. O acordo daqueles que viam sua influência presbite- riana perder força no Parlamento com aquele que precisava de armas para engatilhar outra guerra civil, previa o auxílio militar desde que a) o antigo Covenant fosse respeitado pelos acordantes e os demais dispostos, b) o presbiterianismo fosse instituído como religião obriga- tória nos três primeiros anos, com a possibilidade de efetuação numa assembleia no findar desse tempo, c) a supressão dos independentes dos cargos públicos e d) uma disposição para a tentativa de reunir as coroas dos dois reinos. 169
Os ventos pareciam começar a favorecer Carlos. Comoções populares em favor do rei eram manifestadas em cena pública, procissões até o local de prisão do rei, seguida de rezas, frequentemente aconteciam e as igrejas começavam a adotar o costume de badalar os sinos em homenagem ao rei aprisionado. Ao mesmo tempo, presbiterianos ingleses, com medo da radicalização do Exército, começavam a tramar em seu favor. Para piorar o clima, o purita- nismo dos que agora tomavam as rédeas de uma nação desgovernada proibiu inúmeras festi- vidades tradicionais da religiosidade inglesa, principalmente do natal e virada do ano. Algu- mas revoltas aconteceram e acenderam o estopim que faltava para o início de uma outra rebe- lião, agora realista. Em abril, revoltas a favor de Carlos I eclodiram e a Segunda Guerra 170 Civil se iniciou. As revoltas e a invasão nortenha foram brutalmente contidas.
Ao invés de unir o Parlamento, a Segunda Guerra Civil expôs a diferença entre as par- tes. No dia posterior à vitória do New Model Army, os parlamentares presbiterianos, junto do middle-group, ganharam maioria na Câmara e extinguiram o Vote of No Addresses. Em segui- da, começaram a formular um novo acordo de paz com o rei. A Carlos foi permitida uma 171 espécie de prisão domiciliar, saindo do castelo de Carisbrooke e residindo em uma casa em Newport. Uma comissão de 15 representantes do Parlamento, envolvendo presbiterianos, in- dependentes e lordes foi constituída para iniciar as negociações. Iniciada no dia 18 de setem- bro e com o prazo de 40 dias para terminar, The Treaty of Newport, como foi conhecida, tal- vez tenha sido o momento mais próximo de reconciliação entre as partes. O rei, que já tinha
Para o acesso ao documento: The Engagement. Disponível em: http://www.constitution.org/eng/
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conpur076.htm. Acessado no dia 05/05/2016.
WORDEN, Blair. The English Civil Wars: 1640-1660. London: Phoenix Paperback, 2009. p.95-97.
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WORDEN, Blair. Op. cit. p.98-99.
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aceitado a instituição do presbiterianismo por três anos e o controle parlamentar do exército, não aceitara proposições que eram mais caras aos independentes, como o fim do episcopado e a cassação dos realistas envolvidos em guerra. 172
O Exército, impaciente e irritado com as negociações, se reuniu em St. Albans no dia 7 de novembro de 1648 para retomar sua posição de destaque político. Dessa vez sem os agita- dores, representantes dos pelotões. Henry Ireton, preparado para o debate, apresentou o rascu- nho de uma declaração que recusava as negociações com o rei sob a defesa de uma soberania popular e de julgamento dos crimes capitais perpetrados por Carlos. Inicialmente, a propos173 - ta de Ireton foi rejeitada por sua radicalidade sendo que, após alguns dias, os encaminhamen- tos do Treaty of Newport direcionavam para uma reconciliação branda, que encaminhava o rei para Londres e parecia restituir-lhe terras e rendas. Em 20 de novembro, com algumas modi- ficações para ganhar o apoio dos levellers, o Army Remonstrance é apresentado ao Parlamen- to. Os parlamentares se recusaram a discutir o documento até que as negociações com o rei fossem concluídas. No dia 28 o Exército marcha em direção a Londres, ocupando a cidade no dia 2 de dezembro.
Interferindo nos procedimentos das Câmaras, uma nova discussão se instaurou: deve- riam dissolver o Parlamento ou expurgá-lo? Henry Ireton e o Coronel Harrison advogavam pela dissolução; Lilburne a julgava ilegal, demandando do Exército que discutissem um novo Agreement para legalizar suas ações políticas, e os parlamentares independentes, junto de par- te dos membros do Exército, como Edmund Ludlow, defendiam o expurgo das Câmaras. 174
Depois da votação de 4 de dezembro, em que o Parlamento aprovou a continuidade dos processos de negociação, a dissidência, incluindo levellers, independentes e os comparsas de Ireton se reuniram em Whitehall no dia seguinte. Nessa reunião conseguiram convencer Ireton de que ele deveria invadir militarmente o Parlamento e expurgá-lo. No dia 6 de dezem- bro o Exército efetua o plano. Parte dos parlamentares, sabendo do plano, se ausentam da se- ção no dia, outros conseguem fugir e, os que ali fizeram resistência, como William Prynne,
David Underdown faz uma extensa análise sobre o Treaty of Newport. Conferir em: UNDERDOWN, David.
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Pride's Purge: Politics in the Puritan Revolution. ACLS: Cambridge University Press, 2008. p.106-142.
WORDEN, Blair. Op. cit. p. 98-99.
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Seguimos nessa análise do Expurgo de Pride seguindo a densa interpretação de David Underdown. Para
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mais: UNDERDOWN, David. Pride's Purge: Politics in the Puritan Revolution. ACLS: Cambridge University Press, 2008. p.143-172.
foram presos e passaram a noite na taverna conhecida como "Hell" (inferno), nos dias seguin- tes sendo encaminhados para a prisão.
Os parlamentares que restaram, por volta de oitenta, constituíram um novo Parlamen- to, denominado de Rump (rabo) pelos seus adversários. Para Blair Worden o Parlamento Rump se divide em duas fases. Na primeira, do Expurgo de Pride até a vitória na batalha de Worcester, em setembro de 1651, a sua preocupação central era com relação à segurança na- cional, seja com ameaças externas como a interferência de outras potências ou a invasão as- sistida de Carlos II, seja com ameaças internas, como as várias revoltas dentro do reino na Ir- landa católica ou com grupos políticos como levellers e diggers. Essa preocupação de manu- tenção militar fez com que o Parlamento fosse mais coeso, homogêneo. Sua segunda parte dura até sua dissolução. Com a república já assegurada, os diferentes interesses e pensamen- tos fizeram com que o Parlamento se tornasse uma nova arena de guerra até que Cromwell se elegesse como Lorde Protetor da Commonwealth. 175
Atentando, neste momento, para o julgamento e execução de Carlos I, detenhamo-nos na primeira parte. Passado um mês desde o Expurgo, uma Corte de Justiça foi criada para jul- gar o caso do rei aprisionado sob a alegação de que a soberania residia no povo e que, por isso, Carlos devia explicação aos seus soberanos. No mesmo dia da criação da Alta Corte de Justiça, o Parlamento lança uma proclamação do motivo de sua criação:
That Charles Stuart, the now King of England, not content with those many Encroachments which his Predecessors had made upon the People in their Rights and Freedoms, hath had a wicked Design totally to Subvert the Ancient and Fundamental Laws and Liberties of this Nation, and in their place to introdu- ce an Arbitrary and Tyrannical Government, and that besides all other evil ways and means to bring this Design to pass, he hath prosecuted it with Fire and Sword, Levied and maintained a cruel War in the Land, against the Parliament and Kingdom, whereby the Country hath been miserably wasted, the Pu- blick Treasure Exhausted, Trade decayed, thousands of People murdered, and infinite other mischiefs committed. 176
A Alta Corte de Justiça precisava de legitimidade e para tanto se serviu de um forte aparato institucional. Constituiu-se, primeiramente, de membros do Exército, da gentry, ad- vogados e figuras públicas, num total de 135 indivíduos. Dos 135, somente 70 estiveram no
WORDEN, Blair. The Rump Parliament 1648-1653. Cambridge: Cambridge University Press, 1977. p.18-19.
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apud: ORR, D. Alan. "The Juristic Foundation of Regicide". In: PEACEY, Jason. The Regicides and the Exe
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cution of Charles I. New York: Palgrave, 2001. p.126.
julgamento, sendo que alguns como John Lilburne e Bulstrode Whitelocke se recusaram a participar desde o início e outros, como Algernon Sidney e Thomas Fairfax deixaram o pro- cesso em seu desenrolar. O cargo de Presidente da Corte, inicialmente pensado para ser com- partilhado por três membros, foi dado somente a John Bradshaw, após a recusa dos outros dois indicados. John Cook foi escolhido como procurador.
No dia 20 de janeiro, esta Corte, mesmo sob várias contestações de legitimidade, abriu seu processo de julgamento contra Carlos. Sendo o conteúdo do processo e os discursos en- volvidos desenvolvidos no segundo capítulo, resta-nos dizer que no dia 27 ele foi condenado à morte por ser "tirano, traidor e inimigo público da Inglaterra", sendo decapitado no dia 30 em Whitehall.
Linearmente contados, os eventos parecem conter um devir histórico, como se a exe- cução de Carlos I estivesse contida, em potência, no dia em que o Exército tomou o poder.
Não tão simples são as teorias historiográficas sobre o momento de decisão da decapitação real. Wedgwood, em seu livro já citado, defende que os revolucionários tentaram a reconcilia- ção até o final de novembro e começo de dezembro de 1648, quando Cromwell e seus com- panheiros de Exército, fartos dos joguetes de Carlos I, decidiram interferir na política mais uma vez, tomando a posse do rei na ilha de Wight e encaminhando-o para um julgamento com fins pré-determinados, impedindo que os parlamentares que ainda acreditavam na reconcilia- ção efetivassem algum acordo. O tribunal, a manutenção do Parlamento ao invés de dissolvê- lo, a oportunidade de defesa real no julgamento e o apelo ao tribunal eram somente um verniz do que já estava decidido. Carlos I, percebendo o teatro, teria se resignado e esperado seu fim, teria preferido o martírio e os desígnios punitivos de Deus em retaliação à aceitação do mo- narca da execução de seu estimado Strafford, em 1641. 177
Anterior a Wedgwood, Gardiner teria inaugurado uma outra corrente interpretativa: a da tentativa de reconciliação até os últimos momentos. Para ele, a demora entre a entrada do Exército na política com os debates de Putney e a execução real, demonstravam mais do que indecisão, demonstravam que eles também queriam um acordo, mas em outros termos, pelo menos até a formação do tribunal de justiça.
WEDGWOOD, Cicely Veronica. "The Grand Delinquent November - December 1648". In: A King Condem
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ned: The Trial and Execution of Charles I. London: Tauris Parke Paperbacks, 2011.
Adamson e Kelsey vão além. A negociação entre rei e revolucionários, que continuou até janeiro, explicitava a inclinação para se resolver o problema por meio de um acordo. Para Kelsey, o próprio tribunal representava uma tentativa de acordo entre as partes. Nesse tribunal os revolucionários procuravam não a morte de Carlos, mas a sua subordinação ao Parlamento.
Queriam oficializar a soberania das Câmaras sobre o rei. 178
Com exceção de Veronica Wedgwood, os historiadores, em sua grande maioria, acei- tam que havia uma disposição para o acordo até o dia 25 de dezembro de 1648. Para Morrill e Baker, há provas disso ao analisarmos que no dia 21 o conselho do Exército teria sido contra a execução real e que a partir do dia 25 eles começaram a aceitar a ideia de um julgamento. 179 Tal mudança, em poucos dias, se deveria a um caso muito específico, a "Missão Denbigh".
Primeiramente identificado por Gardiner, o caso retrataria a última tentativa de acordo entre os revolucionários e o rei. Basil Fielding, segundo duque de Denbigh, teria viajado para o castelo de Windsor, no final de dezembro de 1648 para tentar um acordo de paz final com Carlos I. Mesmo com o Parlamento expurgado, não parecia de interesse do Exército o julga- mento e a condenação do rei, eles queriam a assinatura de um acordo final. Chegando à porta de seu objetivo, o duque de Denbigh teria sido enxotado por Carlos I, que não queria ouvir nenhuma proposta de negociação.
Desenvolvido posteriormente por outros historiadores, como Underdown, Adamson, Morril, Baker, Kelsey e Kishlansky, o evento vai ganhando melhores contornos. O primeiro deles se refere ao dia da visita. Segundo Underdown, a visita teria acontecido no dia 25 de dezembro. Segundo Adamson, foi um plano encabeçado pelos duques de Pembroke, Salis180 - bury, Denbigh e provavelmente o de Northumberland, que teriam se reunido na casa de Derby com o Exército, para informa-los de que uma nova guerra na Irlanda estaria prestes a eclodir.
Como solução, propuseram que Basil Fielding tentasse uma negociação final com o rei, um
ADAMSON, John. "The Righted Junto: Perceptions of Ireland, and the Last Attempts at Settlement with
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Charles I". In: PEACEY, Jason. (ed.). The Regicides and the Execution of Charles I. New York: Palgrave, 2001;
KELSEY, Sean. "Staging the Trial of Charles I". In: PEACEY, Jason. (ed.). The Regicides and the Execution of Charles I. New York: Palgrave, 2001; KELSEY, Sean. "The Death of Charles I". The Historical Journal, vol. 45, n.4., 2002. pp.727-754; KELSEY, Sean. "Politics and Procedure in the Trial of Charles I". Law and History Re- view, vol. 22, n.1, 2004. pp.1-25.
MORRIl, John & BAKER, Philip. "Oliver Cromwell, the Regicide and the Sons of Zeruiah". In: PEACEY,
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Jason. The Regicides and the Execution of Charles I. New York: Palgrave, 2001.
Até o presente momento, esta data é a que possui maior aceitabilidade entre os historiadores. Para conferir:
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UNDERDOWN, David. Pride's Purge: Politics in the Puritan Revolution. ACLS: Cambridge University Press, 2008. p.171.