4.3 DUBLAGEM COMO TÉCNICA DE ESCUTA DISSIDENTE: A ARTE DRAG DO ESCUTAR E O INEVITÁVEL REVIRAMENTO DOS ARQUIVOS MIDIÁTICOS
4.3.1 O dia em que a voz de Whitney foi abocanhada por uma drag queen tcheca
4.3 DUBLAGEM COMO TÉCNICA DE ESCUTA DISSIDENTE: A ARTE DRAG DO
uma cantora pop nos moldes da própria Whitney, Baba faz de sua escuta uma performance gestual enfática. Demarcando as mudanças vocais de Whitney por meio de sua gestualidade, a drag nos revela algo sobre seu próprio modo de ouvir a voz gravada da diva. Sua mudança de postura valoriza as mudanças de timbre da cantora, que varia entre frases suaves e limpas em voz de cabeça e densas e potentes notas a partir da técnica propriamente estadunidense do belting. As notas longas demonstram vibratos exagerados. Enquanto Baba vibra a cabeça e se lança ao chão para acompanhar o som vigoroso de Whitney, a cantora leva seu vibrato mais adiante ainda, quase como se desafiasse a drag a segui-la. Baba convulsiona também os braços desesperadamente, ressaltando a vibração do som e nos mostrando que a voz de sua diva é grande demais para sua boca e precisa lhe tomar o corpo inteiro. Ela respira entre as frases e solta o ar prolongadamente enquanto a voz de Whitney soa, organizando o seu fôlego em função da gravação. Baba acaba a performance exausta. Seu peito pulsa com sua respiração acelerada, revelando como suas trocas gestuais com a voz gravada são intensas, e o público aplaude vigorosamente.
A cena me leva para uma outra, minha própria, muitos anos antes. Trancado no quarto, assisto a Cabaret, com Liza Minelli; mais especificamente à cena em que a atriz performa a canção Mein Herr, dançando com uma cadeira. Enquanto vejo a performance pelo YouTube, imito a quebrada de perna que acentua a sensualidade da postura de Liza – semelhante à performada por Baba Yagga – e balbucio os vocais graves que saem das caixas de som:
“Byyyyeee, byyyyyeee, meeeeeeeein lieBE herrr”. Sem desejo de seguir com precisão o canto de Liza, acompanho os vocais da cantora como modo de escutar performaticamente. Mastigo sua voz – e até canto baixinho, com minha voz se apoiando na sua. Adolescendo, sozinho e inseguro, escuto Liza e vejo sua imagem porque possuo algum tipo de prazer naquela performance secreta. Alguma coisa ali, nos vocais exagerados e na gestualidade excessiva que desfaz o comedimento das mocinhas Hollywoodianas, me leva a tentar ser outro. Uma série de clichês me ligam à drag queen no palco. Enquanto vejo Baba Yagga, lembro-me de Liza Minelli e me lembro de mim e dos gestos que troquei (e troco) e gestei (e gesto) para me formar como eu mesmo. O corpo de Liza, na coreografia e enquadramentos de Bob Fosse, parece desaguar tanto na drag quanto em mim. Será que o menino tcheco que existiu antes de Baba Yagga sonhou com Baba antes dela existir?
Figura 38: Baba Yagga vai ao chão ao dublar uma nota aguda de Whitney Houston
Fonte: Foto capturada por mim em evento presencial.
A dublagem drag pode ser muitas coisas. Sendo uma prática tradicional da arte drag, ela povoa grande parte do imaginário que temos sobre drag queens. Em programas como RuPaul’s Drag Race82 e Lip-Sync Battle83, a dublagem é a prova final que valida o talento de competidores. Em filmes como Priscilla, A Rainha do Deserto (dir. Stephan Elliot, 1994), a dublagem cruza o palco e o cotidiano de drag queens, sendo uma poderosa modalidade de autoexpressão. Em boates, é um modo de escutar música coletivamente, a partir de uma performance artística que reivindica uma voz e, ao reivindicá-la, constrói uma apresentação musical. Em eventos como o que assisti a Baba Yagga, a dublagem pode ser uma plataforma de criação artística, uma modalidade da performance enquanto arte teatral. Na maioria desses casos, e especialmente a partir da difusão de RuPaul’s Drag Race, a dublagem drag frequentemente aparece a partir do termo anglófono lip-sync, que enfatiza o ato de sincronia labial. Discussões sobre lip-sync (tanto na prática drag, quanto no cinema e no videoclipe, dentre outras possibilidades) enfatizam como tal ato envolve fazer-se outro, permitindo que outros gestos – que normalmente não faríamos – apareçam. Afinal, “o lip-sync drag é fundacional. Nem toda artista drag dubla, mas, poderíamos dizer, todo lip-sync é drag”
(SNELL, 2020, p. 90, tradução minha). Neste capítulo, enquanto atravesso todas essas dimensões que podem estar presentes em qualquer dublagem drag, volto-me para como tais dublagens são também uma maneira de compartilhar uma escuta tanto singular quanto subjetiva, gestada em práticas somáticas e cautelosas, em que o escutar é tomado como um ato do corpo todo.
Nesse sentido, se desejo falar de uma arte drag do escutar, preciso levar em conta o aspecto reiterado dessas escutas, abordando como elas podem ser forjadas a partir de cenas repetitivas que costuram momentos íntimos (no quarto, com o rádio, diante da TV, em que repetidamente fazemos a nós mesmos a partir da escuta de uma voz) com performances
82 RuPaul’s Drag Race é um reality show estadunidense em que Drag Queens competem pelo título de America’s Next Drag Superstar. No programa, a dublagem – ou o lip-synch – é a instância final de teste do talento das competidoras, sendo empregada tanto para decidir as eliminadas da semana quanto para na disputa entre as finalistas do programa. Apesar de ser estadunidense, tendo estreado originalmente em 2009 na Logo TV, ele é assistido mundialmente, a partir de downloads ilegais, distribuição mundial por serviços de streaming (como a Netflix e o Amazon Prime Video) e contando até mesmo com eventos em bares para acompanhar os episódios.
Hoje, mais de dez países possuem suas próprias versões de RuPaul’s Drag Race, adaptando o formato para contextos como o do Reino Unido, da Thailândia e da Espanha.
83 Lip-Sync Battle é um reality estadunidense, estreado em 2015, em que celebridades competem dublando comicamente canções famosas. Ele é derivado de um quadro recorrente do programa Late Night with Jimmy Fallon e foi adaptado para vários países, como a Polônia, a Àfrica do Sul e o Líbano. No Brasil, ele é exibido desde 2022, tomando o nome de Batalha do Lip Sync, e sendo exibido como um quadro do programa Domingão com Huck, da TV Globo.
coletivas (na boate, no palco, nas plataformas digitais). Nesse sentido, a dublagem parece abrir um espaço de fabulação, em que o escutar anima trocas gestuais que abrem o corpo a outras, novas, talvez mais excitantes, possibilidades. Assim, interessa-me como a dublagem drag é a epítome de um processo fabular (e que se quer fabuloso) que se alastra por outras performances de escuta, para fora do palco. Através de uma drag queen que dubla, há, afinal possivelmente uma criança viada que inventa futuros impossíveis, reimagina o presente, desvia das expectativas de gênero, encontra maneiras de ser apesar das pressões normativas que pressionam um corpo que falha ao tentar ser norma. Não é verdade, afinal, que imitando Liza eu também fabulei outra possibilidade de ser eu e, porque a fabulei, ela passou a existir?
Para investigar essa dimensão da dublagem e discutir potencial drag que aparece a partir do escutar, preciso olhar para o palco, mas também para além dele. Assim, busco levar em conta o que a performance drag queen suscita, mas também o que a antecede: a escuta das vozes prioritariamente femininas, a articulação desviante com a figura da diva, o treino e a repetição para a incorporação da voz gravada. Opto por, ao falar das drags que vejo no palco, falar também de mim – das minhas memórias de desvios, prazeres e dublagens secretas. As dublagens drag, afinal, povoam minhas memórias – do reality show na TV, às boates, ao período que passei frequentando eventos de dublagem em Liverpool para produzir esta tese.
Falar de si, reconheço, é perigoso. Corremos o risco de cair na lógica confessional, a partir da gramática do pecado, da absolvição e da penitência. Semelhantemente, como discutiu Judith Butler (2017b), relatar a si mesmo é criar um “si mesmo” enquanto somos interpelados (por vezes por nós mesmos) a partir de uma articulação muitas vezes violenta ao responder às normas morais e conflitos éticos. Mais do que confessar ou relatar, entretanto, tomo a memória como um espaço fabular, em que minhas escutas podem ser ficcionadas na medida em que as lembro. A minha dublagem idealizada de Liza Minelli em Cabaret, por exemplo, sendo uma memória criada no tempo presente, lembra muito mais da potência da fabulação do que das frustrações que atravessaram minhas performances íntimas. É importante ressaltar, nesse sentido, que a própria “origem das existências LGBTQIA+ é [...] permanente engajamento na fabulação de uma futuridade. [...]. A origem da bicha é uma prática de futuridade, uma fabulação” (CARMO e MIRANDA, 2021, p. 103). Nesse sentido, reimaginando um passado que sonhava com um futuro possível, estou fazendo um gesto de fabular a fabulação. É, na verdade, ao reimaginar minha própria formação, sofrimentos, conflitos e prazeres, à luz da drag queen, que consigo discutir como a dublagem pode fazer ver um processo formativo que se desenvolve também, mas não unicamente, pela escuta. Assim, como postulam Anderson Luiz do Carmo e Maria Brígida Miranda, a drag queen aparece como um “arauto de uma
performance de escuta” (2021, p. 98), que, ao passo que performa o lip-sync, “encontra fragmentos de um passado de resistência e deboche na contínua subversão dos arquivos oficiais” (ibid).