§ 6
2O direito de própria conservação é nm dos direitos innatos da nação.
Se a nação existe, se é uma personalidade, com destino ãj preencher,—tem o direito de se conservar. E' um postulado da rasão.
Consiste o dito direito na faculdade de sustenter-se e de manter-se inteira, illeza e independente, como associação politica) organísada.
O direito de conservação encerra o de praticar todos os actos e de empregar todos os meios que são necessários para tornar effe- ctiva a conservação, contanto que a nação respeite e não invada a esphera dos direitos alheios.
O direito de se conservar apparece sob as três formas se- guintes :
I. Direito de haver 08 meios necessários á existência;
II. Direito de repellir a aggressão actual (jus inculpatce tutela);
III. Direito de se assegurar contra as aggressões futuras (direito de segurança).
Na primeira forma o direito de conservação tem um signi- ficado pozitivo; na segunda e terceira ao contrario foncciona com Caracter negativo (jus excludendi). (1)
§ 63 Direito de conservação sob a I
aforma
A nação não pode subsistir sem os meios materiaes, que' em seu complexo constituem a riqueza publica; é, pois, do seu
1(1) Veja-se Grocio. L. 1", rap. 2, § 3, n° Io, Vatlel, L. Io, § 177 e L. 2, §ij 49 e 50, Martems § 116, Kluber § 38, Wheaton P. II, cap. 1', § 2, Ilelfter § 30. Phil- limore I, § 210 e seg. HaUeck I, cap. 2, § 18 e seg. Hall f 108, Tuias I, § 107, Pradier 1, n° 211 e seg. Calvo I, §§ 203 e 204, Flore I, n° 452 e seg.
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dever favorecer, ampliar e desenvolver, por via de medidas e providencias adequadas, a agricultara, o aproveitamento dos pro- dtictos naturaes do solo, asindustrias de todo género, o comraercio, a viação terrestre e a navegação.
Importa-llie, não menos, cuidar com zelo intelligente dos variados elementos que fazem a vida moral, intellectual e politica;
d'ahi a obrigação inilludivel de promover o ensino e a propa-l gdção das artes e das sciencias, de assegurar a recta adminis- tração da justiça e de manter governo capaz de bem gerir os seus vastos e complicados interesses.
Tudo isto comprehende-se no âmbito do direito de conser- var-se; sob esse aspecto, porem, a conservação é objecto prin- cipal e directo da politica, da administração e do governo internos.
Mas na coexistência das nações não raro o dito direito entra em actividade, e então incide sob o domínio do Direito Interna- cional, como se vae ver.
§ 64 Direito de obter á força substancias alimentares
Se uma nação se acha em total penúria de alimentos e as outras lhe recusão ceder o seu supérfluo, deverá ella resignar-se á perecer, ou vae o direito de própria conservação ate o ponto de lhe ser licito haver pela ameaça, pela violência, pela força os géneros de que necessita, mediante a obrigação de p rgar a indem- nisação que for devida ?
Qualquer que seja a defficuldade que esta questão possa offe- recer á luz de uma alta theorii, na vida pratica ella rpcebe a solução que lhe impõe a lei suprema da necessidade. (1)
(1) Os antigos publicistas e escriptores de Direito Natural discutem prolixamente o que elles chamao — direito de necessidade. Vattel (L. 2, § 119) formula o direito de necessidade assim : On appelle ainsi le droit que la necessite seule donne á cer- tains actes, d'ailleurs illicites, lorsque sans ees actes il est impossible de satisfaire a unu oliligation indispensable. II faut bien prendre garde que 1'obligation doitêtre wi- itahlcment indispensable dans le cas, et 1'acte dont il s'agit, 1'unique moyen de satisfaire á cette obligation.
A Philosopbi do Direito não admitte o direito de necessidade e por uma razão simples, porque não ha direito contra direito. A necessidade por si só não crea o dhvito, onde êlle não existe, nem o faz desapparecer onde elle existe. La necessite n'a donc aucuii droit, elle a seulment des privileges; mais ces priviléçqs sont les niemes que ceux de l'ignorance, de l'inadvertence, de la folie, dudeure; en uo mot, de tout etat oú 1'hommc opere sans avoir la liberte de ses actions. (Nota ao citado § de Vattel, ediecão de Hauterive.)
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A liberdade qne tem eidi nação d*» vender os productos da sua agricultura e industria (jus mercandi) a quem lhe aprouver, é, certamente, um direito universalmente reconhecido; mas aj nação que na hypothese figurada se recusasse absolutamente a ceder á nação em penúria o que lhe sobra, infringiria as leis de humanidade, e em caso tal o emprego da força e dos meios vio-|
lentos contra ella seria plenamente justificado. (2)
§6
5Servidão necessária de transito
As nações encravadas, como a Suissa na Europa, o Paraguay na America Meridional (1), para manter relações com o exterior, crear e sustentar o commercio de importação e exportação, e desfaite prover ás próprias necessidades, carecem de servidão de passagem pelo território das nações circumvisinhas.
Poderão as nações contíguas negar-lhes passagem? A ser- vidão de que se trata pertence â classe das que em Direito se
Mas, sem embargo, no terreno pratico a necessidade faz lei e prevalece a doutrina que Kliiber (§44) expõe nestes termos: La lesion de quelque droit que oe soit doil etre excusée, si dans un cas de necessite evi lente et absolue, un Elut placé entre quelque nbiigation envers un nutre Btnt et celle qui lui impose sa propre conservation, iloiiue la prefereuce á la deruiére, et se dispense, en favesur de la necessite (ratio s/a tus) appellée meme par qiielqucs-iins droit de urctssilé, de la stricte observation, de la justice.
(2) Grocio, L. 2, cap. 2, §§ IR e 19, Vattel, L. 2, §5 e 170, Klnber § 44, Martens §140, Pradier I, n. 231.
Ainda no século passado occorreu o ca.;o de cahirem nações, por motivo de esterilidaães, em falta absoluta de géneros alimentícios. Burlamaqui (Droit des Gens, I, P.
III, cap. 3, § 5): Ces derníéres anuees, la France, le roi de Sardaigne, secoururent abondamment 1'Ètai du Pape et le royaumu de Naples qui etaient reduits á une extreme disette de blé. A hypothese á que aUude o nosso texto, defficilmente se realisnria nos nossos tempos, não só porque a facilidade de comiuunicações e transportes por terra e agua suprime os eflfeitos das esterilidade, como porque no estado actual de cultura e civilisação.
nenhum povo ousaria affrontar a consciência do género humano, recusando-se a fornecer á um Estado em penúria, os géneros alimentares de que podesse dispor. A questão discutida tem apenas interesse theorico.
(1) A Bolívia é actualmente uma nação encrava la, porque se acha sob a oceupacAo militar no Chile por prazo indefinido o departamento de Cobija, banhado pelo Pacifico e que lhe dava a única sabida que tinha para o exterior.
E' ainda caso de servidão necessária de passagem a de ter uma nação partes do seu território separadas pela interçailação de território alheio. Txviss § 245 : Again, a nation may liava some portions of íts territory separatud from theresl of its territory by the territory of another reation ; thus the Rhenish provi nee of Prússia are sjparated by the territones of other Gemian Powors from the North German and Polish provinces of Prússia.