CAPÍTULO 3 A SIMULTANEIDADE DA JUSTIÇA E DA SOLIDARIEDADE
3.3 Discursos reais e a simultaneidade da justiça e da solidariedade
Nos discursos reais a idéia do acordo entre sujeitos originariamente isolados (Kant) é substituída pela idéia do consenso racional entre sujeitos relacionados, socializados no marco do mundo da vida. Para que se chegue ao consenso é preciso um discurso real do qual participem cooperativamente todos os concernidos. Só um processo de entendimento mútuo intersubjetivo pode levar a um acordo que é de natureza reflexiva e que dá expressão a uma vontade comum. É preciso garantir que toda pessoa concernida tenha chance de dar espontaneamente seu assentimento. Somente quando a decisão resulta de argumentações, isto é, se ela se forma segundo as regras pragmáticas de um discurso, é que a norma decidida pode valer como justificada. Nos discursos reais se realiza o exercício contínuo da “formação racional da opinião e da vontade”. Conceito esse implicado no agir comunicativo porque todo processo de comunicação é intersubjetivo e o mecanismo do entendimento como coordenador das interações sociais supõe que as pretensões de validade são resolúveis racionalmente, isto é, por razões válidas intersubjetivamente. Isso significa que todo processo de resolução de pretensões de validade implica na formação racional da opinião e da vontade comum. Sem participar da discussão dos problemas e das soluções adotadas não haverá responsabilidade na sua execução e não haverá solidariedade com a dificuldade dos outros.
É no processo de formação discursiva da opinião e da vontade que as forças ilocucionárias de ligação do uso da linguagem orientado ao entendimento são utilizadas para reunir razão e vontade e para chegar a convicções nas quais todos os indivíduos possam concordar sem coação. É nos discursos reais que aprendemos a adotar o ponto de vista dos outros e o “ponto de vista moral”: o outro generalizado.
Vimos anteriormente que o único princípio moral é o princípio da universalização, um princípio formal-universal que, portanto, não pode fornecer qualquer conteúdo e também não pode fundamentar normas situacionais. Enquanto princípio moral fornece procedimentos para a relação do discurso real com o mundo da vida e com as situações concretas. Prescreve resolver racionalmente todas as pretensões da vida humana, o que implica a exigência de participar em discursos reais para colaborar na solução de todos os problemas do mundo da vida capazes de discurso.
O processo discursivo de formação da vontade coletiva, através da argumentação, nos discursos reais, forma uma conexão interna de ambos os aspectos: “a autonomia de indivíduos que são insubstituíveis e a incorporação originária dos mesmos em formas de vida intersubjetivamente compartilhadas” (JS, 78-79). Isso significa que “os discursos promovem simultaneamente a justiça e a responsabilidade solidária” (HABERMAS, 2000 b, 20). Habermas percebe que o discurso prático, em função de suas propriedades pragmáticas, pode garantir uma formação da vontade comum ou coletiva que satisfaça os interesses de cada sujeito, ou seja, que inclua também a peculiaridade de cada vontade individual envolvida, sem que rompa o laço social que une “cada um com todos”, o que corresponde à simultaneidade do individual com o coletivo.
Na prática de fundamentação do agir cotidiano, as normas orientam a ação social de modo imediato, na medida em que vinculam a vontade dos atores e a orientam de um modo específico. Os enunciados morais servem para coordenar as ações de modo vinculante, ou seja, as normas orientam decisões diante de um fracasso ou de um conflito qualquer. Nas sociedades tradicionais, o ordenamento legal e o político estão entrelaçados com o pano de fundo de certezas tácitas, inerentes à forma de vida herdada. Na sociedade moderna, a solidariedade depende dos limites normativos, os quais geralmente subordinam os valores que sustentam a comunidade. No entanto, para Habermas, sem referência ao princípio da justiça, não é possível esclarecer como a solidariedade deve entrar, como um elemento mais amplo, no conjunto de condições de uma eticidade pós-tradicional132.
Para Habermas, o procedimento do discurso prático tem vantagens frente às construções de Mead e Kohlberg. O modelo de assunção de papéis reformulado em atenção ao discurso equivale à formação racional da vontade dentro de um mundo da vida de indivíduos socializados como tais. Nas argumentações, os participantes têm que partir, em princípio, de que todos os afetados participam como livres e iguais na busca cooperada da verdade na qual a única coação permitida é a do melhor argumento. O discurso prático pode ser entendido como um processo de entendimento mútuo que por sua forma própria conduz todos os implicados, simultaneamente, à assunção ideal de papéis, numa atividade praticada intersubjetivamente. As argumentações morais servem para dirimir consensualmente os conflitos da ação. Ao entrarem numa argumentação moral, os participantes prosseguem seu agir comunicativo numa atitude reflexiva com o objetivo de restaurar o consenso perturbado.
É através dos discursos reais que se faz possível a formação do consenso racional entre
132 Cf. JS, 76.
sujeitos socializados no marco de um mundo da vida. Nos processos de formação comunicativos a identidade do indivíduo e a do coletivo se constituem e se mantêm co- originariamente, pois “nenhuma pessoa pode afirmar sua identidade por si só” (HABERMAS, 2000 b, 19). O indivíduo e a sociedade constituem-se reciprocamente133. A necessidade do respeito recíproco exige simultaneamente a integridade da pessoa particular e o entrelaçamento vital de relações de reconhecimento recíproco.
O discurso prático exige a inclusão de todos os interesses que se vêem afetados em cada caso, e se estende inclusive a um exame crítico das interpretações sob as quais reconhecemos pela primeira vez determinadas necessidades como interesses próprios. A ética do discurso abandona assim a noção de autonomia com que opera a filosofia da consciência.
A noção intersubjetiva de autonomia faz justiça ao fato de que o livre desenvolvimento da personalidade de cada um depende da realização da liberdade de todas as pessoas.
No agir comunicativo, cada um reconhece a sua própria autonomia no outro. No momento que alguém solicita que o outro tome posição em relação ao seu ato de fala dizendo
“Sim” ou “Não”, está reconhecendo que o outro é um ator responsável, como alguém sério, capaz de orientar seu agir por pretensões de validez134.
No agir comunicativo as suposições de autodeterminação e de auto-realização mantêm um sentido rigorosamente intersubjetivo: quem julga e age moralmente tem de poder esperar o assentimento de uma comunidade ilimitada de comunicação e quem se realiza numa história de vida assumida responsavelmente tem de poder esperar o reconhecimento dessa mesma comunidade. De acordo com isso, a minha identidade própria, ou seja, minha autocompreensão como um ser individuado que age autonomamente, só pode estabilizar-se se eu for reconhecido como pessoa e como esta pessoa (IS, 226).
A justiça faz referência à igualdade de liberdades de uns indivíduos que não podem delegar sua representação a ninguém e que se autodeterminam, o que só é possível no agir comunicativo, no mundo da vida compartilhado intersubjetivamente. A autocompreensão prática do sujeito já está pressuposta no uso da linguagem orientada ao entendimento, conforme visto no capítulo anterior. Sob as condições do agir estratégico, o indivíduo se vê perante o mundo objetivo, não depende mais do reconhecimento por parte dos outros e decide meramente conforme preferências subjetivas135.
O referente universal é, sem dúvida, a comunidade ideal de fala, na qual os interlocutores sentem-se solidários com toda a humanidade. O universalismo constitui assim a
133 AFIM, 101.
134 Cf. IS, 224.
135 Cf. IS, 227.
base na qual se pode conceber a solidariedade com aqueles que são verdadeiramente diferentes, porque abre a possibilidade de chegar a normas ou princípios comuns e ao reconhecimento mútuo. Somente uma moral universalista pode unir a justiça com a solidariedade por meio da realização de discursos práticos.