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A exploração sexual de crianças e adolescentes esbarra no debate sobre o início da vida sexual, a autonomia e os limites sobre a sexualidade de jovens.

Discussão espinhosa, pois falar em idade de consentimento sobre o início da sexualidade e a prostituição como outra escolha sobre o corpo gera ruídos, atrai olhares desconfiados e a discussão pode acabar por tomar um rumo deturpado, com acusações de incentivo e conivência com o explorador, abusador, aliciador, ou seja, com a criminalidade armada, articulada em rede etc.

O contexto de prostituição não pode ser reduzido a uma única paisagem ou cena e abarca uma diversidade de interesses e investimentos. Em um mesmo local, duas pessoas podem compartilhar de sentimentos opostos, e ainda assim estarem ambas envolvidas com o comércio sexual. Dor e prazer caminham lado a lado, como também a autonomia e a dependência, a submissão e a resistência, a liberdade e a contenção, alegria e tristeza e uma infinidade de modos de lidar com um fenômeno multifacetado, como também não há uma identidade que abarque esse universo plural.

No contexto de comercialização do sexo, existem os adolescentes aliciados para ingressarem em uma rede comercial mais organizada de exploração; há aqueles que se “auto-agenciam” e não despertam o interesse de terceiros, seja pela situação de uso abusivo de substancias psicoativas ou comprometimentos na saúde, na integridade física e psíquica, sendo o sexo basicamente para prover o vício (BELLENZANI; MALFITANO, 2006); e há também aqueles que optam pela prostituição como uma alternativa à situação precária em casa, na falta de recursos financeiros ou mesmo por uma opção pessoal.

Se a política pública voltada para a violência sexual contra crianças e adolescentes não consegue absorver os casos de exploração sexual, o contrário

também pode ser questionado. Crianças e adolescentes em situação de exploração veem o Estado como uma solução para seus males? Podem esperar proteção e garantia dos seus direitos, frequentemente violados?

Provavelmente, não. Da forma como atualmente a política pública está configurada, principalmente em torno da demanda espontânea e do reconhecimento da violação de direitos, o segmento relacionado ao comércio sexual não é atingido com tanta facilidade. Cabe ainda questionar se o que o Estado tem a oferecer a essas crianças e adolescentes é suficiente para suprir suas demandas.

Lopes (2009) vê na prostituição, como em tantas outras práticas, a possibilidade de produção de linhas de fuga e de promoção de fissuras nas rígidas coerências sociais. Em sua pesquisa, observou, em todos os atores, o envolvimento com a prostituição motivado pelo retorno financeiro. No entanto, destaca, a situação em outras profissões não é diferente e a semelhança não diz respeito somente à necessidade de ganho monetário, mas também aos descontentamentos profissionais.

Na prática da prostituição de adolescentes, Lopes (2009) observou dois movimentos equidistantes e divergentes: os adultos condenam a presença de adolescentes na prostituição e, em contrapartida, percebem esta prática como mais uma forma de realização financeira, apesar dos riscos, sofrimentos e desconfortos.

O caráter ilícito, a concepção de inadequação ao ato e a reprovação social da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes (ESCCA) se contrapõem às dificuldades vivenciadas pelos adolescentes, gerando a polarização: crime a ser combatido ou meio legítimo de trabalho?

O autor se coloca explicitamente contra a exploração sexual de crianças e argumenta que o desejo pode aproximar-se da violência e a criança não dispõe de muitos recursos para se defender, além de ser mais adequada a descoberta sexual das crianças ocorrendo antes do envolvimento com o comércio sexual, sendo o sexo movido inicialmente por prazer e não por ganhos sociais.

Já em relação à prostituição de adolescentes, a posição é divergente:

A ESCCA não se configura como uma máquina produtora de vítimas, apenas como uma opção para adolescentes, mesmo que pouco favorável.

[...] A questão não é tanto combater ou fortalecer a ESCCA, mas ampliar as possibilidades disponibilizadas aos adolescentes; não significa suspender proibições, mas dotá-las de alguma coerência. Numa sociedade que legitima ganhos financeiros por meio do corpo e de práticas sexuais, não há

argumentos para cercear a ESCCA a adolescentes, ainda mais pra aqueles que estão legalmente habilitados para outros exercícios profissionais – os que possuem dezesseis anos completos (LOPES, 2009, p. 165).

O autor conclui que a ênfase punitiva não auxilia o adolescente envolvido em ESCCA porque ele próprio rejeita a condição de vítima, tal como observado na presente pesquisa em que houve pouquíssimos sujeitos envolvidos com a exploração, mas principalmente pelos impedimentos de melhorias das condições de trabalhos pelo seu caráter ilegal.

Para finalizar, a violência sexual é na atualidade um dos crimes contra crianças e adolescentes com maior incidência na Rede de Proteção e figura como uma grave violação de direitos humanos. No entanto, a gravidade atribuída à violência sexual não consegue superar os efeitos da desigualdade social, que reflete nas diferenças de tratamento e atenção das políticas públicas no tocante ao abuso sexual intrafamiliar e a exploração sexual e suas expressões relacionadas ao gênero.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A repressão da sexualidade dos adolescentes não é um problema moral, mas político

REICH, 1975, p. 15

Em tempos em que o Estado investe cada vez mais em políticas de segurança pública, em ventos em que o discurso midiático aponta para a alarmante escalada da violência, e no contexto em que a solução para os impasses sociais direcionam-se cada vez mais para a prisão, para o aumento do rigor da lei e da punição daqueles que a infringiram, vemos a infância como alvo privilegiado desses discursos, em especial a infância violentada e agredida sexualmente.

O principal desafio deste trabalho foi não se ater aos efeitos produzidos pela violência sexual na criança ou adolescente em sofrimento com esses atos considerados bárbaros, cruéis e desumanos e não os tomar somente pelo viés da vítima. São amplamente divulgados os efeitos deletérios que uma violação dessa ordem produz na subjetividade de quem é acometido por um crime consagrado pela atualidade como hediondo e, por isso, merece, a qualquer custo, ser combatido, não poupando esforços para vencer uma luta semelhante a do bem contra o mal.

A masturbação era a origem de todos os males e devia ser evitada a qualquer custo, justificando uma vigilância constante sobre as crianças, exercida pelos pais, e vigilância também sobre os pais para se certificar que estava vigiando bem suas crianças. Hoje já não se fala mais em combate à masturbação, mas a sexualidade permanece como a etiologia das doenças, seja por meio da sexualidade violenta ou da sexualidade precoce.

Diversas pesquisas abordam os efeitos da violência sexual naqueles diretamente atingidos, como também no entorno familiar e não seria novidade listar os principais sintomas e sofrimentos daí decorrentes. Os manuais de psicopatologia confirmam a incidência do abuso sexual na origem de diversos males, justificando a ampla divulgação dos sinais e sintomas decorrentes de uma violência sexual silenciada. Buscou-se encontrar efeitos distintos daqueles oriundos da psicologia

clínica, desviando o olhar para a produção de subjetividade na violência sexual contra crianças e adolescentes.

O objetivo da presente tese foi o de se debruçar sobre os efeitos da violência sexual por meio da análise das políticas públicas, tomando enquanto objeto de estudo a realidade de um município, possibilitando traçar algumas ideias sobre o que o combate à violência sexual tem justificado e entende-lo enquanto um dispositivo potente de normalização e produção de subjetividade.

Os protegidos e sob intervenção do Estado, que no caso da presente pesquisa representam as crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual intrafamiliar, acabam por não serem tão protegidos assim, e passam por uma série de pesquisas devassáveis e intrusivas que pouco contribui para amenizar a dor, pois estas se perdem no meio de uma busca interminável e incansável para prender, a qualquer custo, o algoz e responsável pelo sofrimento da vítima e a Rede dita de proteção mais se aproxima de uma Rede de punição e controle.

Por ser um crime considerado gravíssimo, a violência sexual legitima ações eticamente questionáveis e mobiliza um exército de patrulhamento de condutas morais bem distantes do que deveria ser a proteção de crianças e adolescentes.

Aliada às tecnologias psi de exame e avaliação e por meio de alianças com os sistemas de justiça, a Rede de Proteção se transforma em uma de rede de produção de prova, na qual cada equipamento pode servir para colher indícios, obter subsídios e, finalmente, preparar a testemunha para dar o veredito final: a condenação e punição do “pedófilo”.

Além disso, a forma como as políticas públicas lidam com a violência sexual retratam mais um modo de expressão das desigualdades presentes na sociedade, elegendo os que deverão ser supostamente protegidos e os que não necessitam de investimento, pois habitam uma esfera que não ascende à cidadania e à política oficial.

Estão, aparentemente, à margem, mas ao contrário do conceito de exclusão, os adolescentes envolvidos no mercado sexual estão fortemente vinculados à lógica do capital e do consumo, incluídos pelo desejo de querer consumir tanto quanto qualquer um.

Preciso admitir que minha hipótese inicial sobre a invisibilidade da exploração sexual de crianças e adolescentes nas políticas públicas encontrava-se permeada por uma indignação, misturada com um tom de denúncia e intenções salvacionistas

capazes de revelar aquilo que ninguém enxerga: as crianças e adolescentes são explorados e ninguém se importa. Pensava: mas por que as pessoas não denunciam uma criança ou adolescente na rua vestindo trajes sedutores, numa atitude abertamente evocando o comércio sexual? O que faz com que uma criança recebendo um estalinho na boca provoque uma mobilização histérica enquanto outras situações são simplesmente esquecidas, quando não, negligenciadas?

O que minha indignação escondia era a visão segundo a qual crianças e adolescentes precisam, a qualquer custo, ser tutelados, e mais, se as políticas públicas não têm acesso a elas, então, consequentemente, é necessário expandir as linhas de ação. Esse pensamento não levava em conta que abarcar esse contingente que circula livremente, pode ser incrementar os mecanismos de controle e poder para capturá-los.

Ora, se não há registros de crianças e adolescentes envolvidos em exploração sexual, essa ausência significa algo, da mesma forma que um número excessivo de atendimentos com esse tipo de violação também quer dizer alguma coisa, guardadas as devidas distinções. Algumas hipóteses se fazem presentes.

A hipótese segundo a qual o município não apresenta casos de exploração sexual já foi eliminada e não foi nem ventilada, outras foram trabalhadas. A primeira delas é que a política pública voltada para o enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes não está organizada para atender os diferentes tipos de violência agrupados nessa grande categoria denominada “violência sexual”.

Considerando a análise desenvolvida no capítulo 3, o Sistema de Garantia de Direitos encontra-se, em grande parte, voltado para atender, ou melhor, para controlar as famílias das camadas mais empobrecidas por meio de diversos mecanismos de seletividade social. Desse modo, da mesma forma que não captura as crianças e adolescentes da elite, pois estas estarão submetidas a outros mecanismos de subjetivação e controle; aquelas exploradas sexualmente também não caem na malha fina da Rede (dita) de Proteção.

Pelo que foi colhido nas entrevistas, uma das principais portas de entrada para a Rede de Proteção é o Disque 100, as denúncias recebidas são encaminhadas para os órgãos averiguarem a veracidade do conteúdo. Outra forma de acessar a rede, menos frequente, dá-se por meio da iniciativa pessoal daqueles que tiveram seu direito violado. Nem a sociedade tem se mobilizado para denunciar situações de envolvimento de crianças e adolescentes com a prostituição ou

exploração sexual, como também aqueles que estão submetidos à exploração não veem na Rede uma proteção a ser garantida.

Se aqueles que tiveram seu direito violado não procuram os órgãos destinados a sanar seus problemas, isso pode ser interpretado como um não reconhecimento da possibilidade de se obter algum benefício por meio desses órgãos. Isso depende do que se espera quando se acessa a rede: um atendimento social, um exame médico, um exame de corpo delito, a punição do agressor, a prisão do agressor, vingança pessoal e uma infinidade de motivos, que, em grande parte, são frustrados. Além disso, apesar desses serviços serem supostamente planejados para atender situações de exploração sexual, na prática, estão longe de atingir esse fim.

Outro motivo leva os usuários a não procurarem por um serviço idealizado e estruturado para atendê-los. O serviço pode não reconhecer como um problema aquilo que, para os olhares externos, é uma grande aberração: diferença de perspectiva, negação da tutela, insubmissão ao controle, liberdade de escolha e rejeição simples e direta.

Resta-nos pensar se é possível estabelecer outras formas de lidar com a sexualidade de crianças e adolescentes, não exclusivamente pela via da repressão e do controle. O ECA, a Constituição Federal e a Convenção sobre os Direitos da Criança indicam crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, mas o limite desses direitos esbarra fortemente em uma herança conservadora que vê no sexo a origem de doenças, de traumas, perigos e ameaças. Obcecada pelo seu combate, acaba por negligenciar o sexo naquilo que pode vir a ser, seu caráter disruptivo, desejante, produtor, prazeroso e libertador.

Por essa via, faz sentido pensar em educação sexual, direitos sexuais, e a promoção de uma sociedade capaz de lidar com a sexualidade de crianças e adolescentes, livre do medo de punição por incitar o sexo, sem a desconfiança de que qualquer relação afetiva entre um adulto e uma criança apresente potencial de risco para o abuso e, em se tratando do rigor proibicionista ligado ao sexo, não devemos esquecer: a repressão nada mais é que a incitação às avessas.

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