3.1 O presidente
3.1.1 Enéas e o Nióbio
Inicialmente, nos discursos de @jairbolsonaro, do início de 2019 (logo quando assume como presidente), há repetidas alusões a significantes e a formulações já- ditas que preexistem no interdiscurso de décadas passadas da história do Brasil.
Especificamente estão presente alusões a um personagem polemista brasileira: o cardiologista e político Enéas Carneiro. Este foi por três vezes candidato à Presidência da República após a redemocratização e era defensor, dentre outras coisas, de que o Brasil produzisse uma bomba atômica e explorasse as reservas minerais de nióbio, sendo também foi fundador e presidente do extinto Partido de Reedificação da Ordem Nacional (PRONA), de visão conservadora e nacionalista.18 Esse personagem nunca alcançou apoio do establishment político e financeiro, sendo mais um personagem que a redemocratização possibilitou do que alguém que, de fato, alcançou apoio político das massas votantes.
Figura 07 – Postagem em @jairbolsonaro fazendo homenagem a Enéas Carneiro.
Fonte: Twitter – @jairbolsonaro (17 de agosto de 2019).
As postagens de @jairbolsonaro por vezes mobilizam diretamente memórias discursivas, como na menção do recorte na Figura 07 em que é feita uma homenagem
18 Informações extraídas de texto biográfico do sítio do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas. Disponível em:
http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/eneas-ferreira-carneiroAcesso em: 17 jul. 2021.
a Enéas Carneiro. Na postagem, ainda há ataques a governos federais anteriores (“nos últimos 22 anos o Brasil foi saqueado e transformado em anão em suas relações internacionais”), como é de costume em suas publicações, sem citar dados ou fontes, dando um efeito de rumor das postagens.
Também há remissões feitas de forma indireta ao caricato político fundador do PRONA, segundo se pode extrair do texto de Fellet (2017) que, em matéria para a BBC Brasil, traçou referências e semelhanças entre Enéas e Bolsonaro.
Visto como autoritário e truculento por muitos, um político se lança à Presidência prometendo restabelecer a ordem no Brasil. Aos berros, acusa PT e PSDB de serem faces da mesma moeda, defende os valores da família tradicional brasileira e questiona os interesses internacionais por trás da demarcação de reservas na Amazônia. [...] Vinte e três anos depois, várias bandeiras de Enéas ressurgem na disputa presidencial - agora encampadas por Bolsonaro, que se diz grande admirador do cardiologista acreano e o considera uma de suas maiores influências na política. (FELLET, 2017, online).
A diferença entre esses dois sujeitos é que Bolsonaro, após décadas como um personagem polemista e irrelevante do parlamento nacional, se encontrou em uma conjuntura que lhe foi favorável no cenário político do Brasil após o golpe na presidenta Dilma Rousseff. Diferentemente de Enéas, Bolsonaro conseguiu atraiu apoio do establishment do capital financeiro e político, passando a angariar mais e mais apoio de setores conservadores e que era contra qualquer possibilidade da eleição de membros, simpatizantes ou que sequer remetessem ao Partido dos Trabalhadores (os antipetistas).
O político de Enéas Carneiro, por sua vez, era conhecido publicamente por ser defensor da exploração das jazidas de nióbio em seus discursos.19 Conforme Fellet (2017, online), nos discursos de Bolsonaro como parlamentar costumava “dizer que Enéas foi um ‘homem do futuro’ e destacar as posições do médico sobre o nióbio, metal que também ocupa um papel central na plataforma econômica do deputado”.
Após assumir a Presidência, ato contínuo, houve um esforço discursivo em suas lives e em suas publicações em redes sociais para mover políticas públicas envolvendo o metal. Em @jairbolsonaro há diversos tuítes exaltando o minério e
19 Segundo pesquisas do Datafolha feitas ao longo dos períodos eleitorais da década de 1990, Enéas era o candidato que tinha mais rejeição entre os eleitores, sendo lembrado apenas pelo seu bordão
“Meu nome é Enéas”. Mais detalhes na matéria “Campeão da rejeição, Enéas prega moralidade”, escrita por Luiz Antonio Ryff e publicada na Folha da São Paulo, em 1998. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc21079817.htm. Acesso em: 14 jul. 2021.
outros produtos específicos, como o grafeno. Na Figura 08, o perfil presidencial faz uma postagem em tom de notícia, assuntos corporativos em que trata do minério grafeno junto com outros assuntos e temas que muito se repetem nos discursos do presidente (temática militar e sobre Israel).
A Figura 08 contém um tuíte com propaganda institucional divulgando acordo que o governo federal firmou com o governo do Japão em relação ao nióbio, em janeiro de 2021. Na propaganda há uma exaltação do acordo durante a fala o ex- ministro das relações exteriores, Ernesto Fonseca Araújo, que é filho de Henrique Fonseca de Araújo (1913-1996), Procurador Geral da República no governo do ditador Ernesto Geisel, entre os anos de1975 e 1979.
Figura 08 – Postagem em @jairbolsonaro em que divulga vídeo com balanço de assuntos recorrentes em seus discursos.
Fonte: Twitter – @jairbolsonaro (30 de março de 2019).
Figura 09 – Postagem em @jairbolsonaro divulgando um acordo entre Brasil e Japão para uso dos metais grafeno e nióbio. Em vídeo, Ernesto Araújo, ex-ministro das relações exteriores do governo Bolsonaro, também fala sobre o acordo.
Fonte: Twitter – @jairbolsonaro (21 de janeiro de 2021).
Para finalizar essa subseção, ressalto que muitas das temáticas abordadas por
@jairbolsonaro em suas postagens no Twitter não têm precedentes dentre os chefes de Estado brasileiros após a redemocratização. Esse ponto do nióbio, por exemplo, apenas tinha sido tratado de forma tão contundente nos discursos políticos nacionais por Enéas Carneiro, personagem que transitava entre o cômico e o autoritário no imaginário do Brasil da década de 1990, pós redemocratização. Desse modo, o nióbio era um assunto pouco popular no alto escalão da política brasileira, de modo que, ao
“desenterrar” esse tema, chamou atenção o esforço discursivo empregado por Bolsonaro em torno da matéria.