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4 RESULTADOS E ANÁLISE DA PESQUISA QUALITATIVA

As entrevistas qualitativas, realizadas através de um roteiro semiestruturado, foram realizadas com três fãs e um embaixador de campanha. O objetivo da parte qualitativa foi elaborar melhor as perguntas do questionário, por isso não se aprofundou neste método. Inicialmente, também havia a proposta de entrevistar pesquisadores do assunto, mas estes residem em regiões que foram afetadas pela guerra na Ucrânia, e não puderam participar.

assistem simultaneamente a um episódio selecionado da série, como se estivessem juntos fisicamente.

Dentro desses grupos, existem regras. Tanto E2 quanto E3 explicam que existem geralmente regras principais, como respeito, coibição de preconceitos, xingamentos. E2 comenta que normalmente questões de fora do assunto também são banidas, como discussões políticas, religiosas, links externos e fake news. E3 relata que, dependendo do grupo e do formato, as regras podem mudar:

Agora outros tipos de regras depende [sic.] muito da plataforma onde você está interagindo e do quão próximo é o laço do grupo que interage. Sei que em fóruns costuma ter regras mais bem definidas que a mera interação em redes sociais. (E3)

Mesmo com regras, também é unanimidade que um fandom pode se tornar tóxico.

E1 comenta: “é comum ver brigas na internet por cada um defender a sua teoria sobre determinada coisa e achar ela a mais certa. Nesse caso, quem pensa diferente da maioria é visto como inferior”.

A toxicidade do fandom pode ser tanto interna quanto externa ao fandom. E2 explica as questões internas:

E isso dá um desânimo tanto pros fãs que estão ali pra curtir, quanto pros artistas, pois as pessoas confundem o ser fã com “eu sou o maior fã dessa produção” e aí acabam disseminando discursos de ódio para quem fala mal do filme ou série, a ponto às vezes de cancelar outras pessoas e artistas que estão apenas compartilhando a sua opinião também. Fora que a internet, principalmente no Twitter, dissemina um ódio que acaba sendo voltado para a própria produção, se os produtores mudam alguma coisa ou fazem de um jeito diferente do esperado pelos fãs. (E2)

Já para questões externas ao fandom, é comum enxergar também disputas entre fandoms. E3 exemplifica essa disputa com a rixa entre fãs de Tolkien e fãs de Martin.

Com os recentes lançamentos Rings of Power, baseada na obra de Tolkien, e House of the Dragon, baseada na obra de Martin, a disputa ganhou força, com brigas virtuais para entender quem é melhor.

No entanto, mesmo com as disputas dentro do grupo, todas as entrevistadas entendem o fandom como uma possibilidade de união para se voltar em prol de uma causa, como a renovação de uma série. Tanto E2 quanto E3 relembraram a ação de fãs em prol da renovação de Lúcifer:

Você tem aí há não muito tempo atrás o caso do Lúcifer, que era da Fox, foi cancelado, mas todo mundo gostava, todo mundo queria um final, veio a Netflix e terminou a série. Trocou de casa. Então, assim, você vê que o público tem muita influência nessa questão com a produtora. (E3)

Apesar de nenhuma das três entrevistadas já ter doado dinheiro para uma série de TV, as três acreditam que contribuiriam caso chegasse a esse ponto com suas séries favoritas. E1 comenta que “com certeza pagaria pra salvar as séries que eu amo. Eu adorei essa opção, acho que o financiamento coletivo é real uma opção viável”.

E2 entende que, com o crowdfunding, o contribuidor passa a ter um sentimento de pertencimento e contribuição para a série, deixando sua conexão ainda mais especial.

Já E3, apesar de acreditar no financiamento coletivo de séries, possui algumas ressalvas.

A primeira é a necessidade de um bom sistema de recompensas para quem apoia:

Porque assim, a gente já vive numa era de streamings, então se for uma série de um streaming que não assine já é menos provável que eu me incline a ajudar, e a gente sabe que aqui no Brasil é muito comum a gente usar outros meios de ver série né... Fora que nada assegura que a gente vai realmente chegar na meta da campanha, quando você tem sistema de recompensas além de apenas a renovação da série, acho que as pessoas se inclinam mais a pagar até mesmo valores altos dependendo do benefício. (E3)

A segunda é com relação a crenças do fã médio ou até mesmo da audiência em geral, que podem ser fatores impeditivos para a adesão às campanhas:

Naqueles fãs mais aficionados, acho que a aderência seria muito boa. Mas não sei quanto à recepção do fã médio. Porque todo mundo tem a crença de que as produtoras têm sim o dinheiro para renovar a série, só não querem investir.

Então tenho meus poréns de como algo do tipo seria recepcionado como um geral pelas pessoas. Vira e mexe sai discussão, principalmente com as séries da Netflix, pelo critério duvidoso com que algumas séries são canceladas sem mais nem menos e outras continuam. Então assim, acho que também vai depender do streaming ou produtora da obra também o quanto as pessoas vão aderir sabe? Adianta nada você fazer isso pra uma Netflix da vida sendo que as pessoas vão ver outras séries tendo investimento. (E3)

Com relação ao fan funding ser uma possibilidade de exploração do fã, a pergunta dividiu opiniões. E1 acredita que é preciso ter cuidado, pois a exploração é uma possibilidade real. E2 acredita que, pela participação ser opcional, não existe esse risco:

Acredito que não. Até porque como falei antes, o fã gosta de se sentir parte daquilo e quanto mais participação, mais ele acaba abraçando a produção. Fora que participa quem quer né? Ninguém tá obrigado. (E2)

E3, por sua vez, entende que depende da maneira como vai se dar o fan funding:

Não, mas dependendo muito de como vai ser feito, porque tenho certeza que, se for pra alguma série de grandes produtoras, tipo Netflix ou HBO essa questão do investimento financeiro da produtora vai ser levantado. Acho que funcionaria mais pra essas séries menores, possivelmente. Mas assim sem nenhum tipo de dado é difícil afirmar. São apenas suposições. Mas, de novo, se essa contribuição dos fãs vier com mais do que apenas a salvação da série e

oferecer benefícios exclusivos, acho que não seria exploração, afinal muita gente ajuda em financiamentos pelos brindes e benefícios que ganham com ele.

Seria quase como um clube de assinatura da sua série onde você teria direito a produtos e conteúdos audiovisuais que vão além do que o fã médio receberia.

Se funcionar dessa forma acho que não seria exploração. O problema da questão da “exploração” é bem complicado, na real, e vem de bastante tempo.

(E3)

Por fim, com relação à evolução do papel do fã e sua relação com as produtoras, as três entendem que a internet trouxe uma voz para os fãs. E1 e E2 entendem que essa voz também traz o benefício de ser usada como termômetro por parte das produtoras:

Pra mim eles tão mais próximos hoje. Antes a gente via o fã falando mais com os atores. Hoje, com a internet, essa comunicação fica mais fácil. Deu uma voz pros fãs. Hoje é mais fácil de cobrar e se relacionar com a produtora. Pra própria produtora é bom, porque acaba sabendo mais facilmente e mais rápido os feedbacks sobre a série. (E1)

Eu acho que o papel do fã ganhou uma importância maior nos últimos anos, porque as produções têm pensado muito mais no que os fãs querem e o que eles esperam, pois diferente de ser avaliada só por críticos e pelo valor de bilheteria, hoje em dia se uma série aborda algum tema de forma errônea, como piadas racistas ou homofobia, pra ela ser cancelada e odiada na internet, leva segundos. Então o papel do fã ganhou essa importância maior de termômetro muito além da crítica e do dinheiro que a produção arrecadou. (E2)

E3 brinca que, com a evolução do papel do fã, ser fã deixou de ser “coisa de gente esquisita”:

Não é mais uma coisa de gente esquisita você ter aquela relação muito próxima com uma série. Todo mundo tá mergulhado, todo mundo tá 100% vivendo aquilo, tanto que você vê um aumento desses eventos de cultura pop e cultura geek, porque é um mercado que tá tendo apelo. Se você botar na cabeça aí uns 6 anos atrás, ou 5, não precisa ir muito longe, você não encontrava em shopping loja de produtos geeks. Você tinha que ir nos submundos da internet, naquela pessoa que produzia por conta própria pra comprar uma blusa da série que você gostava. E hoje em dia não, qualquer shopping tem uma loja de produtos geeks.

Você vê que, tipo assim, Stranger Things, né, todo mundo queria uma camiseta do Hellfire, e você achava uma camiseta do Hellfire na Riachuelo, achava uma camiseta do Hellfire na Renner, você tem a camiseta “oficial” da Piticas, que tem em qualquer shopping! Então assim, é uma coisa que tá muito acessível e tá sendo muito explorada porque perceberam que as pessoas, os fãs realmente se conectam e tão dispostos a estar ali dando dinheiro, dando o tempo deles, dando a dedicação do tempo livre àquele produto, né. (E3)

Este tipo de relação também é positivo para as produtoras, que entenderam que a apropriação do fã também pode ter seu lado positivo, como explica E3: “na verdade, é até bem bom, porque se as pessoas se apropriarem daquele conteúdo e replicarem, ele chega em outras pessoas”.

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