As ciências sociais precisam compreender algo que é prioritário, (...): o conhecimento mais fundamental está no cotidiano, ou seja, o cotidiano humano é o solo onde as ciências plantam as suas árvores. (...) há muitas coisas que as ciências corrigem no nosso cotidiano, mas há muitas coisas que o cotidiano corrige com respeito às ciências. (JOSGRILBERG, 2004, p.45-46)
Nobre e Pedro (2010) apresentam as possibilidades metodológicas da Teoria Ator- Rede (TAR) para a abordagem do social, a qual busca dar conta de uma realidade em constante produção, um processo de redefinição. A TAR busca olhar para as práticas cotidianas a partir de um emaranhado de redes, com microconexões e/ou desconexões, partindo de amarrações entre humanos e não humanos, denominados actantes. “Na concepção de redes, as mediações ganham destaque e apontam para um processo de constante redefinição.” (p.48) Nesse sentido, a análise dessas redes parte das redefinições da realidade, numa perspectiva sociotécnica, a qual envolve Ciência, Tecnologia e Sociedade num dinamismo processual, desmanchando qualquer ideia de unidade. As circulações nas tramas da rede dão-se pelas hibridizações, sendo os híbridos uma potência de criação e imprevisibilidade. Nesse sentido, a realidade é múltipla e dada pelas práticas cotidianas, ou seja, na maneira como essas práticas são performadas (MOL, 2007). A Teoria Ator-Rede entende que o social ‘duro’ não captura as instabilidades. Nesse sentido, é importante acompanhar os actantes sem impor um sentido de antemão, dando voz aos mediadores. O social se faz visível no processo de produção de novas associações, os processos de inovações a partir de distintos porta-vozes (NOBRE, PEDRO, 2010).
Segundo Melo (2011), a TAR entende a aprendizagem como um fenômeno dinâmico e multifacetado, partindo do corpo como instância mediadora que é afetado nas interações com o mundo. Nesse sentido, propõe uma reflexão sobre o ensinar, o aprender e construir conhecimento, entendendo-os como um processo vinculado e em sintonia com os outros, que leva em consideração as recalcitrâncias em humanos e não humanos, pois esta pode promover oportunidades para que novas estratégias possam ser desenvolvidas. A aprendizagem pode ser entendida como um resultado de vários vetores que visa responder aos desafios da sobrevivência; um processo em que “todos os envolvidos se modificam pelos efeitos que causam reciprocamente uns nos outros” (MELO, 2011, p.177). Nesse sentido, “a aprendizagem, como uma incorporação de saberes e fazeres, só faz sentido se a pessoa dispõe dela para operar efeitos sobre si e sobre o mundo.” (MELO, 2011, p.180) Com isso, é imprescindível que haja uma relação entre o que quer ensinar e o que se precisa aprender. A aprendizagem ou as aprendizagens têm sua sustentação numa rede que precisa da materialidade da afetação de um corpo. Por isso, o conhecimento, que se quer passar, precisa ser interessante, ou seja, precisa estar articulado, ser motivador. “(...) o sujeito é modificado/
afetado quando aprende e o mundo também não será o mesmo depois da aprendizagem (...)”
(MELO, 2011, p.181). A autora defende que a aprendizagem tem uma conotação política, na medida em que interfere na articulação do sujeito e o seu mundo. Latour (2002) defende que um aprendizado acontece quando o indivíduo se deixa afetar, o que o torna mais diferenciado por estabelecer mais conexões. De acordo com Arendt (2004), não há uma única metodologia para construir o conhecimento, inclusive uma única metodologia para ensinar e aprender.
Cada pessoa apresenta um estilo próprio de realizar essa tarefa a partir das redes que a compõem, podendo ocorrer modificações se novas conexões acontecerem.
Todo o processo de ensinar, aprender e conhecer inclui riscos, pois modifica a todos, uma vez que articula quem ensina, quem aprende e o conteúdo.
(...) a Teoria Ator-Rede postula a ideia de que alguém desvinculado revela uma situação de empobrecimento. Uma marionete sem fios não se move; com poucos fios tem movimentos limitados; com muitos fios, promove-se uma sofisticação crescente de sua performance. (MELO, 2011, p.184)
Pensar num ensino vinculado envolve pensar onde ele está sendo ministrado, ou seja, na cultura onde se ambienta. Whitehead (1916) associa a educação à cultura. A escola deve se propor a formar homens que possuam tanto cultura e conhecimento especializado. Em seu tratando de treinar uma criança na atividade do pensamento, e incluo aqui não somente elas,
precisamos estar a par de que algumas ideias inertes são meramente recebidas na mente sem serem utilizadas. Na História da Educação, as escolas, espaços, que numa época já formaram gênios, na geração de hoje (perceba que o texto é do início do século XX) se apresentam repletas dessas ideias inertes que não são apenas inúteis, mas também prejudiciais. Ideias, que não são usadas, são prejudiciais. Utilizar uma ideia com nossas percepções, sentimentos, esperanças e desejos, forma a nossa vida. Whitehead sinaliza dois mandamentos: “Não ensine muitos assuntos” e “O que você ensina, ensine completamente, cuidadosamente.” Desde o início da sua educação, a criança deveria experimentar a alegria de descobrir. O único uso de um conhecimento do passado é nos equipar para o presente. Em nosso primeiro contato com um conjunto de proposições, devemos começar por apreciar sua importância. Além do mais, deveríamos esforçar-nos para não usar proposições isoladas. Escolha algumas aplicações do assunto, expondo a teoria de forma curta e simples. A consequência de uma teoria mal digerida é deplorável, na opinião do referido autor.
A Educação se faz através da arte da utilização do conhecimento (WHITEHEAD, 1916). Aprender ideias úteis está relacionado a manter o conhecimento vivo, não transformá- lo em algo inerte. O sucesso da educação depende de vários ajustamentos de delicados fatores. A razão disso é que estamos lidando com mentes humanas. Evocar a curiosidade, o julgamento, o poder de dominar um emaranhado de circunstâncias, o uso de uma teoria de forma preventiva, ensinar a pesquisar,... tudo isso não está num grupo de regras de uma grade de matérias. A mente não é passiva e sim responsiva aos estímulos. Whitehead afirma que um professor prático sabe que a educação é um processo que exige paciência: “Todos os professores práticos sabem que a educação é um processo paciente de dominar de detalhes, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia”4 (p. 4).
A falta de conexão das matérias mata a vitalidade de um currículo moderno. Muitas línguas sem domínio. Whitehead se pergunta o porquê de uma criança precisar aprender equação do segundo grau, sem ser por estar no currículo. Equação do segundo grau é parte da Álgebra, a qual é um instrumento criado para quantificar aspectos do mundo. Não há como sair disso, o mundo está imerso em quantidades... É necessário então pensarmos no que queremos evocar nas mentes vivas das crianças, para que essas sintam que estão estudando algo que aprimore, expanda seu conhecimento e não meramente executando coisas, repetindo, reproduzindo. “A melhor formação encontra-se na obtenção da informação máxima do aparato mais simples. (...) Ele está estudando, porque, por algum motivo, ele quer saber. Isso
4 “All practical teachers know that education is a patient process of mastering of details, minute by minute, hour by hour, day by day.” (tradução nossa)
faz toda a diferença”5 (WHITEHEAD, 1916, p.7). Despertar o poder das ideias, da beleza das ideias, das estruturas das ideias enquanto algo potencial para a vida em processo. Nesse sentido, para Whietehead há quase um século atrás, a Educação sofria de uma ausência de propósito, o que pode ser bem pertinente nos dias atuais.
Uma sugestão, que o autor faz, é quanto ao sistema de avaliação externa, a qual em sua opinião só resulta em gasto educacional. Para o referido autor, cada escola deveria garantir seus certificados baseados em seu próprio currículo, propondo uma singularização do ensino através do pensamento sobre as particularidades de cada escola e não a generalização de um padrão. O que acontece muito na rotina da educação é a tentativa de unificar para melhor controlar e não ampliar, o que pode gerar a perda do controle. Segundo o autor, a raça que não valoriza a inteligência treinada, está condenada (“The race wich does not value trained intelligence is doomed”, p.9). A essência da educação, para ele, é ser religiosa no sentido de incutir dúvida e reverência.
Com isso, podemos perceber que o processo de educar é um processo complexo, demandando práticas diárias de cuidado. Law (2004) se debruça sobre o que acontece quando a ciência social tenta descrever coisas que são complexas. Segundo ele, descrições não funcionam se, o que se está descrevendo, não é muito coerente. Partes do mundo são capturadas em nossas etnografias, nossas histórias e nossas estatísticas, mas outras, não.
Nesse sentido, a etnografia precisa trabalhar de forma diferente quando se trata de compreender um mundo fluido e em rede. Se o mundo é complexo, diz o autor, nós precisaremos abrir mão da simplicidade e lidar com a bagunça e a confusão, usando métodos pouco conhecidos em Ciências Sociais. O problema não é tanto a pouca variedade na prática do método, mas sim, sua normatividade. Embora métodos padronizados sejam extremamente bons no que eles fazem, eles se adaptam mal no estudo do que é efêmero, indefinido e irregular, pois eles têm limites na compreensão do mundo, até porque este não pode ser compreendido completamente.
Para se entender a realidade, é preciso seguir as regras metodológicas que ela impõe.
Os métodos não só descrevem, mas também produzem a realidade que eles compreendem.
Adepto da STS - Science, Technology and Society (CTS – Ciência, Tecnologia e Sociedade), Law argumenta que Ciência é um conjunto de práticas formatadas pelo contexto social, organizacional e histórico. Sendo assim, o conhecimento científico é construído com essas práticas, o que nos leva a constatar que não há uma realidade universal (“There is no universal
5 “The best education is to be found in gaining the utmost information from the simplest apparatus. (…) He is studying it because, for some reason, he wants to know it. This makes all the diference.”(tradução nossa)
reality.”, 2004, p. 15) Às vezes, os gráficos ajudam a produzir uma estabilização momentânea, mas, em uma boa parte do tempo, isso é quase impossível. A partir disso, o autor propõe subverter o método, abandonando com isso, o desejo pela certeza. O método, que propõe, será calmo, incerto, vagaroso e modesto, até porque leva tempo para que as coisas façam sentido, para compreendê-las. Além disso, há a clareza de que estaremos participando na produção das realidades. Nesse sentido, precisamos nos perguntar qual o tipo de Ciência Social queremos praticar e, consequentemente, que tipo de pessoas queremos ser e como deveríamos viver.
Law (2009) desconstrói a ideia de que existe uma única realidade, propondo então que as realidades são produzidas. Mas falar que as realidades são feitas, inclui pensar num mundo de performatividade, nos levando a sair da posição confortável do realismo do senso comum euro-americano. Este consiste na proposição de que há uma realidade singular fora, que é independente de nossas ações. No entanto, se pensamos em performatividade, a realidade não é independente, a priori, definida, singular e coerente, tal como nos leva a crer o realismo euro-americano. A pergunta que geralmente se segue então é: como então as realidades são performadas? Através de nossa práticas, defende o autor. “Práticas encenam realidades incluindo realidades colaterais.” 6 (2009, p. 1) Práticas são, portanto, montagens, arranjos de relações que fazem realidades. Para isso, precisamos entender como as realidades emergem dos encontros.
Nesse sentido, estudar as práticas é aceitar a tarefa analítica e empírica de explorar possíveis parceiros de relações, entendendo como essas se configuram numa localidade particular, num momento e/ ou ocasião. Com isso, precisam nos ensinar a ver como o trabalho é feito, e encontrar maneiras de tornar esse trabalho visível. Precisamos resistir à ideia de tratarmos os textos como transparência desinteressada de um mundo pré-dado. O que está sendo enfatizado nessa escrita? O que está sendo retirado? Se entendemos que as realidades são feitas de uma forma particular, incluímos a ideia de que poderiam ser feitas de forma diferente. “Precisamos superar o óbvio de nossas representações se queremos entender como isso funciona”7 (LAW, 2009, p.7). Precisamos atender as especificidades da prática, o que nos permite a possibilidade de uma política ontológica, e esta é possível, de acordo com Law, tanto em ciência naturais quanto em ciências sociais.
Um ponto importante não é só o resultado da pesquisa, mas como se chegou à conclusão. Mais do que quais métodos são utilizados, precisamos pensar no como são
6 “Practices enact realities including collateral realities.” (tradução nossa)
7 “We need to overcome obviousness of representations if we are to understand how it works.” (tradução nossa)
utilizados ou como são deletados, selecionados, justapostos, moldados, formatados, classificados. Não é raro ouvirmos ou lermos a resposta de alguém que está sendo entrevistado, prescindindo o que foi perguntado, a que ele está respondendo, pois a resposta geralmente atende a demanda da pergunta e sem esta, fica oculto o pedido que o questionamento requisita. Muitas vezes a pergunta já induz a resposta. Fazer perguntas interessantes evita que façamos Ciência Social ruim, que performa já pela pergunta. Outro dia, num telejornal, a jornalista entrevistava um morador de uma comunidade do Rio de Janeiro recém pacificada e perguntava: “A entrada da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) trouxe mais segurança para a sua comunidade? Você consegue ficar tranquilo ao voltar à noite para sua casa?” Ao que o entrevistado respondeu: “A UPP foi muito boa pra gente. A gente chega tranquilo em casa.” De fato, a resposta corroborou ou “procurou” corroborar o que intencionava confirmar. Precisamos perguntar: Como se chegou a essa realidade? Como é produzida? Nesse sentido, Law (2009) enumera alguns pontos importantes quando falamos em estudar como as realidades são performadas:
1° - Assista às práticas, no sentido de olhar como elas estão sendo feitas;
2° - Apague a ideia de que há uma realidade lá fora independente, definida, singular, coerente e anterior às práticas;
3° - Pergunte como o processo funciona;
4° - Lembre-se de que para onde você olhar, não há como escapar da prática.
5° - Procure por lacunas e tensões entre as práticas e suas realidades, pois se olhar as diferenças você vai descobri-las.
“Pense, por exemplo,nos corpos das pessoas que falam; suas roupas, a língua comum, o tempo de coordenação, as convenções...”8 (LAW, 2009, p.13). Tudo participa da realidade performada, encenada ali.
Pensar na coreografia das práticas (CUSSINS, 1996), em como isso se faz.
“(...) Os métodos são técnicas para descrever a realidade. (...) Os métodos são práticas que tendem a promulgar realidades, bem como descrevê-las (...) o que nos pede para explorar o que é que os nossos métodos realmente fazer, e se isso é ou não é desejável.” 9 (LAW, 2008, p.1)
8 “Think, for instance, of the bodies of the speakers; their clothes; the common language; the time-coordination;
the conventions ...” (tradução nossa)
9 “(...) methods are techniques for describing reality. (...) methods are practices that tend to enact realities as well as describing them (...) it asks us to explore what it is that our methods actually do, and then whether or not this is desirable.” (tradução nossa)
Práticas de conhecimento precisam ser capazes de criar conhecimento e, em sequência, serem capazes de gerar realidades. A compreensão performativa do conhecimento e de suas realidades nos leva a uma consequência: a de que as verdades não são universais. O que os métodos das ciências sociais performam? Que realidades eles estão ajudando a gerar? E onde?
E os efeitos? Que versões do real esses elementos estão ajudando a encenar?
O euro-american-way-of-thinking não é a única realidade performada possível. Esta trata os indivíduos como isomorfos, performando um contexto que pode ser conhecido como único, centralizado, explícito, homogêneo e abstrato (LAW, 2008, p.11), desconsiderando as especificidades. Nesse sentido, Law propõe uma leitura capaz de articular novas versões.
“(...)universalismo está morto, com a sensação de que as verdades - e realidades - sempre estão localizadas em algum lugar em particular”10 (LAW, 2008, p.13) Se não estamos gostando da forma como as realidades estão sendo feitas, então é importante elaborar outras práticas de métodos.
Nesse sentido, podemos resumir prática ao ato ou efeito de praticar que gera um saber provindo da experiência. Moraes (2010) traz a importância de se estudar como a realidade é construída em nosso cotidiano, com nossa forma de atuar no cenário, sendo que essa atuação pode ser realizada de outras formas que não são dadas de antemão. Isso nos abre a possibilidade de levantarmos novas ou, simplesmente, outros meios de nos relacionarmos com os atores do mundo.
(...) o que conta ou não como realidade é variável, não está dado de antemão. Trata-se, em suma, de um enfoque que aposta numa concepção de realidade que é construída em certas práticas. (...) tais pressuposições constroem “uma certa” realidade, mas não “a”
realidade. (MORAES, 2010, p.32)
A prerrogativa de que há uma realidade externa a nós e, portanto, desvinculada de nós, a qual podemos apreender, como se o real fosse totalmente cognoscível, está impregnada em nós. No entanto precisamos nos incluir como parte dessa realidade, reconhecendo o papel de nossas práticas nessas construções. “(...) no realismo euro-americano, o conhecer é um processo desinteressado, que em nada contribui para a construção da realidade. (...) há nisso uma performatividade, uma produtividade. Nossas práticas são performativas.” (MORAES, 2010, p.34) Nesse sentido, a realidade é performada “nas e pelas práticas” (MORAES, 2010,
10 “(...) universalism is dead, with the sense that truths – and realities – are always located somewhere in particular.” (tradução nossa)
p. 35), ou seja, não está dada de antemão e basta a nós conhecê-las. Precisamos entender como as mesmas são encenadas, como se fazem existir.
2 PENSANDO O CUIDADO NA ESCOLA A PARTIR DE UMA LÓGICA PRÓPRIA