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Experimentos sobre o comportamento animal

2.8 A Teoria do Comportamento Animal de Erich Wasmann

2.8.2 Experimentos sobre o comportamento animal

143 deveria fazer para sua sobrevivência ou de sua espécie, sem ter consciência da finalidade dessas ações, mas apenas porque se vê internamente tendente a isso.

O homem sabe que o animal deve comer para se manter vivo, o animal ignora isso e come apenas porque os alimentos lhes são apresentados por suas potências sensíveis como desejáveis. Sabemos que a reprodução é essencial para a manutenção de uma espécie, o animal ignora isso e se acasala apenas porque percebe tal ato como desejável. O homem pode praticar um ato pensando no seu fim, o animal pratica diversos atos com um fim específico e de importância vital, mas sempre ignorando essa finalidade. No animal não há um “para que”, apenas um “porque”. O homem come para ficar saudável, para engordar, para comemorar, para agradar alguém e por diversos outros motivos, as ações humanas têm uma finalidade conhecida por quem as faz. O animal só come porque precisa.

144 colocadas em determinadas situações. Constatando essa falha cognitiva por parte dos animais, essa incapacidade em certos campos de ação, Wasmann conclui que as ações consideradas inteligentes devem ser reinterpretadas como meramente instintivas. Antes, porém, de demonstrar que os animais não são inteligentes, Wasmann vê a necessidade de mostrar que eles não são máquinas.

Como foi dito, a ideia de que os animais são máquinas de reflexos entrou na cultura europeia com a obra de René Descartes e teve na Alemanha do início do século XX Albrecht Bethe como seu principal representante. Bethe, diferentemente do filósofo francês, afirmava que apenas os animais invertebrados eram “máquinas de reflexos” e com isso os contrapunha aos vertebrados superiores, como os primatas, que seriam dotados de inteligência.334 Nesse contexto teórico, o instinto é visto como um reflexo, isso é, como uma reação mecânica, rígida, sem nenhuma plasticidade.

Wasmann entende que essa definição do instinto era incorreta e levava muitas pessoas a pensarem ser indispensável atribuir inteligência aos animais para ser possível explicar o comportamento deles. É evidente que os animais aprendem com a experiência, que cada um tem certas particularidades no seu agir e que não reagem aos mesmos estímulos de forma perfeitamente idêntica. Diante desses fatos e de uma concepção do instinto como uma lei rígida do comportamento animal, só a presença da inteligência neles explicaria a variedade de seus atos.335

Em oposição a esse ponto de vista, Wasmann entende que a definição escolástica de instinto é correta e explica muito bem o comportamento animal sem a necessidade de postular a presença de uma inteligência como base dos seus atos. O comportamento animal, mesmo dos animais de constituição mais simples, como as formigas, tem certa medida de plasticidade. Adapta-se às situações, aprende com a experiência, tudo isso com base em associações de imagens sensíveis.

Para provar esse ponto, Wasmann fez uma série de observações das formigas em seu ambiente natural e diversos experimentos usando um dos seus ninhos de observação. Esses ninhos, normalmente construídos com placas de vidro e uma estrutura de madeira ou metal, permitiam aos entomólogos observar com mais

334 BARANZKE, Heike. Grenzprobleme der Tierpsychologie und Entwicklungsbiologie bei dem Zoologen Erich Wasmann S.J. (29.5.1859 -27.2.1931). in ENGELS, Eve-Maria; JUNKER, Thomas;

WEINGARTEN, Michael. (Orgs.) Ethik der Biowissenschaften: Geschichte und Theorie. Berlin:1998, p.191.

335 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.67.

145 facilidade o comportamento dos insetos, reproduzir determinadas situações presentes na natureza e criar mesmo criar novas situações, artificiais, permitindo a realização de verdadeiros experimentos.

Fig.2.5 – Esquema de um ninho artificial usado por Erich Wasmann.

Fonte: WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals. St.Louis: Herder, 1905, p.28.

Aqui será apresentado um dos experimentos realizados por Wasmann com seus ninhos artificiais. Em um ninho habitado por espécimes de Formica sanguinea, Wasmann introduziu diversos besouros da espécie Dinarda dentata, que foram muito bem recebidas pelas formigas, como ocorre normalmente na natureza, visto que a Formica sanguinea é sua hospedeira regular. Depois, colocou alguns besouros de uma espécie um pouco maior (Dinarda Maerkelii), cujo hospedeiro natural é a Formica rufa, e observou que rapidamente as formigas cercaram e mataram esses besouros. Pouco depois, as formigas começaram a atacar e matar as Dinarda dentata, que originalmente hospedavam, de forma que nenhum desses besouros sobreviveu. Wasmann introduziu novos besouros da espécie Dinarda dentata e observou que eles eram sistematicamente

146 perseguidos e exterminados pelas formigas, algo que não ocorre nos ninhos naturais, e que esse repúdio das formigas ao seu hóspede natural durou por seis anos. Para Wasmann esse é um claro exemplo de como o comportamento das formigas não é mecânico. Essas formigas associaram a imagem de um inseto possivelmente ameaçador, pelo seu tamanho mais pronunciado, a do inseto com o qual conviviam pacificamente e passaram a persegui-lo.336

Demonstrar que os animais inferiores, como as formigas, não apresentam um comportamento mecânico era um passo importante para Wasmann, pois assim, ele poderia opor de modo mais claro o comportamento instintivo de todos os animais ao comportamento inteligente dos homens.

Uma das objeções levantadas à ideia de que as formigas possuiriam um desenvolvimento psíquico equiparável ao dos animais superiores se baseava no fato de que animais como cães, elefantes e macacos são domesticáveis, ao passo que formigas não o são. A possibilidade de domesticar esses animais seria prova de que eles têm inteligência, ao passo que as formigas não. Wasmann responde que não só é possível domesticar uma formiga, como ele mesmo já teria feito isso diversas vezes.

Em um de seus ninhos de observação, Wasmann notou que uma Formica rufibarbis distinta das demais por ser uma operária de um tamanho inferior ao da média, regularmente visitava uma parte do ninho na qual ele depositava açúcar ou mel, lambia esses alimentos e levava um pouco deles para o outro lado do ninho. Wasmann então tirou o bulbo de vidro e passou a lhe oferecer uma agulha embebida de mel. Na primeira vez que fez isso, a formiga hesitou, examinou a agulha com suas antenas e finalmente lambeu o mel. Depois da formiga se acostumar a essa ação, o que se deu ao longo de alguns dias, Wasmann passou a colocar o mel em seu dedo e oferecê-lo ao animal.337 A aproximação do dedo humano deveria, afirma Wasmann, espantar a formiga, mas ela já estava tão adestrada que lambia calmamente o mel no seu dedo e deixava o pesquisador pegá-la por uma das patas com um pinça e colocá-la de volta no ninho, sem oferecer resistência ou se assustar, o que seria de se esperar de uma formiga reativa como é a Formica rufibarbis. “Isso contribui para provar que as formigas são também adestráveis, a despeito de sua natureza reativa. A possibilidade de se adestrar uma

336 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.57-58.

337 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.60.

147 formiga, da mesma forma que os animais superiores, é devida à capacidade de percepção e imaginação sensível que elas possuem, sobre a qual a inteligência humana atua para atingir seus propósitos.”338 Wasmann afirma ter adestrado algumas formigas em “poucos dias”, tempo que seria gasto para adestrar um cão doméstico a fazer alguma ação semelhante e possivelmente inferior ao que seria necessário para treinar um cão selvagem.339 Esse caso seria um “um belo exemplo de como experiências sensíveis das formigas as levam a adquirir certas peculiaridades individuais de caráter”.340

Ao contrário dos evolucionistas que apresentavam a evolução da inteligência entre os animais em uma escala que coincidia com a complexidade da organização corporal deles, Wasmann pretendeu demonstrar que – mesmo não se tratando de inteligência em nenhum caso – seres inferiores na escala zoológica como as formigas apresentavam um comportamento muito mais complexo do que cavalos, cães e macacos, animais em que vários naturalistas supunham existir inteligência.

Wasmann observa que os animais considerados como os mais inteligentes pelos naturalistas, como os macacos antropoides, não apresentam grandes habilidades construtivas. Mesmo tendo um cérebro bastante desenvolvido, a produção mais elaborada dos símios nesse campo são os ninhos arbóreos construídos por orangotangos, espécie de rede feita de galhos e folhas e usada para dormir.341 As formigas, por outro lado, constroem ninhos complexos, com as estruturas mais variadas e usando grande diversidade de materiais; construções que, considerando o tamanho de seus artífices, fariam as pirâmides do Egito parecerem simples montes de terra.342

Em suas longas observações das formigas holandesas, Wasmann notou que uma mesma espécie, a Formica sanguinea, é capaz de construir dois tipos diferentes de ninhos, um para os períodos quentes e outro para as estações mais frias, usando materiais diferentes.343 A mesma espécie é capaz de esconder seus formigueiros quando eles sofrem ataques de outras formigas, fechando suas entradas e construindo novas e

338 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.61.

339 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.61.

340 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.60.

341 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.121.

342 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.94.

343 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.103-109.

148 em local mais afastado ou retirando folhas e outros materiais da superfície de suas construções, materiais que seriam indícios da sua presença.344 Diversas espécies de formiga adaptam a forma de construção de seus ninhos ao tipo de clima. Quando a umidade da terra disponível é grande, as formigas constroem os domos de seus formigueiros de forma mais elevada e com muitos furos, de forma que a evaporação da água é facilitada, quando, porém, o solo está mais seco, o topo dos ninhos são construídos da forma mais plana e baixa, dificultando a evaporação da água. Esse fato foi observado por Wasmann e por fazendeiros locais.345

Além de construir ninhos, diversas espécies de formigas utilizam suas habilidades construtivas em outras obras. Algumas espécies de formigas, como Lasius níger e Cremasogaster scutellaris, constroem túneis de superfície entre seus ninhos e determinadas árvores ou arbustos onde os pulgões e outros insetos dos quais elas se alimentam se encontram. As formigas africanas do gênero Dorylus fazem túneis com a mesma função, porém subterrâneos.346 Um grande número de espécies de formigas constroem celeiros em seus ninhos, nos quais guardam provisões para o inverno ou o verão. As espécies do gênero Atta criam cogumelos em câmaras subterrâneas de seus formigueiros que funcionam como estufas e jardins. Outras espécies usam suas habilidades para a defesa do ninho construindo muralhas de terra ao redor deles.347 Todas essas habilidades superam, em alto grau, tudo o que é feito pelos símios e cães.

Mas, nada disso, afirma repetidas vezes Wasmann, nada disso pode ser atribuído à inteligência. Todas essas ações são explicáveis pelos impulsos instintivos combinados com percepções sensoriais das formigas.

As formigas seriam superiores aos animais considerados mais inteligentes em outros campos. Segundo Wasmann, Ernst Ziegler afirmava que os babuínos rolariam pedras de cima de barrancos para atingir seus adversários, o que seria um claro sinal de

344 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.112-113. Forel observou algo semelhante com uma colônia da formiga Myrmecocystus altisquamis que transportou da Algéria para a Suíça. WASMANN S.J., Erich.

Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals. St.Louis: Herder, 1905, p.114.

345 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.116-118.

346 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.124.

347 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.124-125.

149 inteligência.348 Wasmann contesta essa informação baseando-se nas observações de Eduard Peschuel-Loesche (1840-1913), naturalista alemão que fez longos estudos nos territórios alemães na África, que após observar por bastante tempo os babuínos havia notado que esses animais não atiram objetos (pedras ou frutas) nos animais que os ameaçam e que é comum entre eles atirarem pedras sem a presença de um inimigo, sem nenhum objetivo aparente. A informação de Ziegler seria, portanto, inexata. “A despeito de seu cérebro altamente desenvolvido, cuja estrutura anatômica apresenta grande semelhança com a do cérebro humano, os macacos nunca foram capazes de tirar até mesmo a mais simples conclusão, que os levaria a utilizar galhos e pedras como armas.349

Em contrapartida, Wasmann aponta para diversos casos nos quais animais menos desenvolvidos utilizam objetos como armas, como, por exemplo, o peixe- arqueiro (Toxotes iaculator) que projeta jatos de água em insetos pousados em folhas para poder comê-los ou a formiga-leão (Myrmeleon formicarius) que lança grãos de areia com suas mandíbulas.350 Algumas formigas agem de forma semelhante, enterrando seus inimigos como forma de se proteger. Em um dos seus ninhos de observação habitado por formigas da espécie Lasius flavus, Wasmann introduziu um besouro (Lomechusa strumosa) que imediatamente foi atacado pelas pequenas formigas amarelas com pedaços de terra lançados com suas mandíbulas. Em pouco tempo as formigas, que estavam em grande número, conseguiram soterrar completamente o invasor.351

Não apenas no uso de armas os símios ficariam em prejuízo em uma comparação com diversos outros animais, como também em suas técnicas de combate. Ao passo que os macacos combatem sem uma estratégia bem definida, em algumas formigas é possível ver algo que se assemelharia muito a um planejamento tático inteligente.

Wasmann recorda alguns dos experimentos apresentados por Forel em Fourmis de la Suisse referente aos combates entre as formigas. Forel havia colocado um saco com centenas de Formica pratensis diante de um ninho de formigas amazonas (Polyergus

348 Charles Darwin também apresenta esse relato. DARWIN, Charles. A Origem do Homem e a Seleção Sexual. São Paulo: Hermus, 1974, p.102.

349 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.42.

350 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.43.

351 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.45

150 rufescens) que voltava de uma expedição de captura de larvas. Em três minutos a coluna de Polyergus deixou as larvas capturadas e formou um círculo ao redor de suas inimigas, maiores e em maior número, e as atacou com violência. Assim que venceram a batalha, as formigas amazonas pegaram de volta as larvas e rumaram para o formigueiro. Uma formação de combate como essa seria desconhecida, afirma Wasmann, entre os macacos.352

A Formica sanguinea também apresentaria estratégias de combate que, em um primeiro momento, pareceriam produto da inteligência. Ao atacar seu alvo principal, isso é, os ninhos das formigas negras (Formica fusca), o exército das Formica sanguinea se organizava em destacamentos independentes, sendo cada grupo de formigas enviado ao combate de cada vez e normalmente tendo sucesso em seus ataques.353 Esse tipo de organização de combate poderia ser entendido como uma forma racional de usar os recursos disponíveis, de evitar baixas desnecessárias e de adequar a força usada ao objetivo. Contudo, ponderava Wasmann, a organização de combate dessas formigas, que não encontraria paralelo entre os símios, não nascia da reflexão inteligente, mas era simplesmente a manifestação de um instinto. A prova disso seria o fato de que essa divisão em destacamentos era constante, mesmo quando os adversários eram em maior número ou mais fortes e o combate a eles demandava um ataque conjunto de todas as Formica sanguinea. Mesmo quando saiam derrotas, essas formigas mantinham a mesma formação o que evidenciaria a ausência de reflexão. Considerando que as operárias dessa espécie vivem por até três anos, seria de se esperar que as sobreviventes de um combate ensinassem às novas gerações que aquela estratégia poderia apresentar falhas e que alguma melhoria surgisse com o tempo. Seria de se esperar, afirma Wasmann, se esses animais tivessem inteligência, mas não é o caso.354 O fato de todas as formigas dessa espécie usarem a mesma estratégia em todo o vasto território ocupado por elas (do Cáucaso até a Inglaterra e também na América do Norte) prova que ela é apenas a consequência de um instinto. Considerando que a separação da América do Norte do continente europeu teria se dado no período terciário, Wasmann

352 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.45.

353 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.51.

354 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.52

151 entende que é possível afirmar que o comportamento dessas formigas é o mesmo há milhões de anos.

Essa é a explicação mais natural para a uniformidade específica desse instinto nas diferentes partes do globo. Uma coisa, contudo, é certa: se o impulso de escravidão e as técnicas militares específicas da Formica sanguinea fossem originadas da inteligência das formigas, ou mesmo se dependessem da inteligência no mínimo grau, essa uniformidade existente por milhares de anos seria completamente inconcebível.355

Wasmann oferece outros exemplos de como, por mais que realizem ações que poderiam ser interpretadas como inteligentes, as formigas não são dotadas de inteligência. As formigas amazonas (Polyergus rufescens) são, na opinião de Wasmann, as melhores guerreiras de todo o reino animal. Suas táticas de combate e suas presas em forma de sabre, longas e afiadas, fazem delas insetos muito perigosos e capazes de escravizar outras formigas. A escravidão entre as formigas consiste no fato de que algumas espécies capturam larvas de formigas de outras espécies e as levam para seus formigueiros. No formigueiro da espécie que a raptou, a formiga escrava faz as funções próprias de uma obreira, como alimentar e limpar o ninho e as próprias formigas, só que beneficiando as formigas da espécie escravizadora e não mais a própria espécie.356 As formigas do gênero Polyergus têm um forte instinto de escravização, capturando normalmente espécimes de Formica fusca ou Formica rufibarbis, enchendo seus ninhos com formigas dessas espécies que lhes limpam e levam o alimento diretamente na boca.

Ocorre, porém, que esse instinto nelas é tão pronunciado que elas desenvolveram uma dependência absoluta das suas escravas para realizar a própria alimentação. Mesmo quando estão com fome e têm o alimento à disposição, essas formigas do gênero Polyergus não se alimentam sozinhas.

Esse fato já havia sido observado por Pierre Huber (1777-1840) e relatado em seu livro Recherches sur les moeurs des fourmis indigènes, publicado em 1810. Charles Darwin reproduziu as pesquisas de Huber concordando com a sua conclusão: mesmo podendo, as formigas Polyergus rufecens não se alimentam sozinhas.357 Wasmann, realizou novos testes para confirmar esse ponto.

355 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.54.

356 WASMANN S.J., Erich. The Modern Biology and the Theory of Evolution. London: Trubner, 1914, p.388-389.

357 DARWIN, Charles. The Origins of Species (A Variorum text Ed. by PECKHAM, Morse.) Philadelphia: Pennsylvania University Press, 2006, 10ª Ed., p. 397-398

152 Wasmann esclarece que não se trata de uma incapacidade física; a formiga amazonas tem o aparelho bucal apto para a alimentação independente e chega até a lamber algum alimento líquido que acidentalmente toque sua boca. Ela usa sua língua, como Wasmann observou ao acompanhar alguns desses animais com uma lupa, para outras atividades como lamber larvas.358 Além de observar isso acompanhando essas formigas em seu ambiente natural, Wasmann confinou algumas delas em tubos de ensaio com pequenas quantidades de mel ou com crisálidas de formigas, alimentos que normalmente lhe interessam, mas quando estavam desprovidas de suas escravas, elas simplesmente não se alimentavam.

A única resposta possível e correta do ponto de vista psicológico é afirmar que elas agem assim porque sua fome não as compelem a procurar por comida por si mesmas, como ocorre nos outros animais, mas a pedir comida para outras formigas batendo em suas antenas. A percepção sensível da comida colocada imediatamente diante deles, apesar do sentimento de fome, já não excita neles o impulso natural de prová-la. Nessas formigas o instinto de procura por comida e de se alimentar de forma independente foi completamente degenerado.359

Para o jesuíta, esse é um exemplo claro de que o comportamento da formiga amazonas carece completamente da participação da inteligência. Um animal que falha em realizar uma ação de vital importância para sua sobrevivência, para qual está fisicamente capacitado, não pode ser inteligente. Suas demais atividades, como sua grande capacidade de realizar ataques a outras formigas, devem, portanto, ser atribuídas aos seus instintos e não à inteligência.

Com esses exemplos, Wasmann se viu autorizado a afirmar que não havia nenhuma base científica para atribuir inteligência aos animais. Mais ainda, entendia que além de não existirem razões científicas para se atribuir inteligência aos animais, a ideia de que os animais possuem essa faculdade tornaria a interpretação do seu comportamento não mais simples e rigorosa, mas, pelo contrário, levaria o pesquisador a verdadeiras encruzilhadas. Wasmann dá como exemplo a dificuldade que Alfred Brehm teve para explicar o comportamento dos babuínos diante dos filhotes de outras espécies. Brehm notou que era comum que babuínos adotassem filhotes de outras espécies e tratá-los “com muita ternura”, com frequentes abraços, cuidados de limpeza e de proteção. Contudo, esses mesmos babuínos não ofereciam alimentos para essas crias

358 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p.46-48.

359 WASMANN S.J., Erich. Comparative Studies in the Psychology of Ants and of Higher Animals.

St.Louis: Herder, 1905, p48-49.