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A feira de Acari – de volta para o futuro

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 67-71)

senso crítico está dentro do tamanho do universo que ele está permeado. Ele é um ator em ação em meio a grande babilônia da burla.

Acari às dez da manhã.Uma série de rememorações me habitaram por alguns instantes, lembranças das andanças pelas ruas que a feira se constituía, até a forma que meu pai usava ao abordar para perguntar/barganhar o preço das coisas me vieram à cabeça. A feira foi se deslocando geograficamente ao longo desses 10 anos para o que antes era o seu final: o muro da linha do Metrô de Acari (que à época era um mausoléu de concreto e mato abandonado). A divisão da feira de produtos alimentícios e da “feira de rolo”12 permanece, agora dividida por cada lado da estação do metro. Embora dentro do lado da feira livre se encontre barracas de CDSe DVDs piratas, óculos de sol e outros produtos. O grande volume de mercadorias para “rolo” fica do lado oposto.

Figura 2 - A feira de acari, a feira de rolo e acima a direita um pedaço da feira-livre de alimentos

O Clima da feira é o mesmo. O calor do concreto e o movimento ininterrupto de pessoas, vendedores aflitos e afligidos com sua própria prática, vendendo tudo que se possa imaginar produzem um cenário interessantíssimo

12 Feira de Rolo é como os atores que circulam e freqüentam a feira chamam a parte da feira que tem todos os produtos que não são do gênero alimentício. Essa expressão, fazer rolo, significa troca de uma mercadoria pela outra com ou sem retorno de diferença em dinheiro ou ainda barganhas sobre o valor da mesma. Tudo funciona dentro de um principio de negociação entre vendedor e comprador protagonistas do rolo.

onde senti que conseguiria fechar o meu trabalho de campo. Aproveitando a fala de Latour em seu texto pequeno diálogo entre um aluno e seu professor (um tanto socrático) no qual ele coloca, indagado por seu aluno sobre o que é uma descrição completa e quando deve parar ele responde: “uma boa tese é uma tese feita”. A experiência do campo, a premissa da dissertação e a produção das emoções que me construíram como parte de todo esse movimento articulado junto à rede sociotécnica me pareciam bem engendrados com essa última prática.

3.5.1 A dinâmica da pressão das marcas, legalidade e permissividade.

O contato com o campo me fez amplificar a observação da produção da burla dentro da tecnologia da informação. Outros produtos de outras áreas saltaram em meus olhos, tornando impossível não notá-los e não acompanhá- los ao menos ali, durante o contato.

Não consigo descrever algo que seja fabricado que não tenha visto, ao menos em partes esquartejadas, na Feira de Acari. Lembro em minha adolescência de ter visto um barco(!) à venda na feira (meu pai ficou tentado à comprá-lo, mas num raro momento de lucidez não o fez). Não poderia ficar indiferente a essa manifestação de actantes me pedindo para serem citados aqui, numa espécie de menção honrosa, segue um pouco das minhas impressões e descobertas do comportamento burlador desse universo multi - coisas.

Fiz visitas à feira nos meses de Outubro de 2010 e Novembro de 2011.

Nessa última percebi a sazonalidade dos itens vendidos, próximo a época de Natal. A feira tinha, como de se esperar uma variedade incrível de temas natalinos. Aliás, numa repetição do próprio camelódromo do Uruguaiana vi os mesmos produtos sendo vendidos lá em Acari. Claro que o restante dos produtos não sazonais permanece sendo vendidos normalmente.

Voltei ao camelódromo e à Feira no mês de março de 2012 e constatei algumas mudanças estruturais significativas e adaptativas na burla praticada.

Tanto na Uruguaiana quanto em Acari, os objetos de marca existem, mas

agora são originais, os falsificados, que eram as chamadas “réplicas”13 estão sofrendo uma repressão muito maior. Entrevistei um vendedor de óculos de sol que estava “queimando o estoque” de óculos réplicas, pois segundo ele não dava mais para trabalhar com eles, porque - "os homí leva tudo" - e os chamados por eles de genéricos (ou sem marca), mas que claramente são cópias dos modelos de marca permitidos.

A venda de mídias piratas mudou na Uruguaiana. Os quiosques que vendiam mídias que ficavam arrumadas em fileiras nas caixas de madeiras, passaram a vender apenas peças, acessórios e consoles de videogames e equipamentos de reprodução de mídia. As mídias piratas em si ficam agora (per)ambulando pela ruelas e calçadas com vendedores em constante movimento, que gritam anunciando o produto e se mantém “na atividade” como um deles definiu, por conta da Guarda (municipal). Em Acari, mesmo dentro da feira livre ainda permanecem as barraquinhas de madeira que vendem em sua maioria CDS de músicas e DVDs de shows, que o cliente testa na hora, já que sempre tem um CD tocando ou um show passando na própria barraca.

3.5.2 Repressão cênica, recorrências e outras dinâmicas.

Desde 2011 a prefeitura da cidade em ação conjunta com a polícia faz operações batizadas de Choque de ordem, promovidas pela SEOP (Secretaria Especial de Ordem Pública). Não posso falar sobre a atuação em outras áreas da cidade, mas é sabido que esse movimento de recolhimento de material ilegal promove movimentos práticos muito diferentes dos que em teoria, deveriam acontecer. Sem entrar na polêmica sobre o destino das mercadorias apreendidas, decidi ir à feira novamente, pois uma semana antes havia tido esse tal choque de ordem na feira e como consta nas reportagens14, foram

13 Há uma grande dúvida: pela pesquisa que fiz com pessoas que tiveram a experiência de ir à China, pude constatar que existe um desvio da linha de produção de produtos de marcas originais. Por ordem da própria fábrica, eles produzem o pedido um pouco maior do que foi encomendado, entregam a quantidade combinada e o restante é colocado no mercado não oficial como Réplica, que na verdade é o próprio original não legalizado.

14 Vide Anexo 5

apreendidas 40 toneladas de material. Será que depois de 40 toneladas de materiais, a feira, que ocorre todo domingo, iria funcionar?

Não sei se as balanças da prefeitura estavam marcando errado ou se esses “choques” são apenas para manter uma ordem estabelecida na materialidade das circunstâncias, que funciona como um agente apenas regulador de tamanho e proporção de fatos sociais. O que afirmo e o que pode ser visto nas fotos abaixo é que se não tivesse lido sobre operação da polícia nunca saberia que ela tinha ocorrido. Observando um vendedor de material de escritório, o vi respondendo a uma senhora quanto a um determinado produto.

Dirigiu-se à freguesa e disse tinha, mas havia sido levado na semana passada.

Tentei uma pergunta, sobre o que ele perdeu, tentando a empatia como veículo de conduta, mas ele não se estendeu sobre como havia sido ou o quanto ele perdeu, ele só falava que – “tá tudo lá no depósito de Bonsucesso”15. Pelo que vi na prática o impacto da operação foi muito menor que o propagandeado na imprensa.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 67-71)