mental”, com votação por maioria simples em vez de qualificada, e substituído pelo Presidente do Congresso, em lugar do vice-Presidente.
Havia, então, uma crise institucional severa e altos níveis de revol- ta civil. A maneira pela qual Abdala Bucaram saiu vitorioso foi um dos ingredientes cruciais para essa crise. A maioria do Presidente era mais uma coalizão hostil ao candidato que venceu o primeiro turno, do que uma coalizão de apoio. Seu governo durou apenas 180 dias (ALTMAN, 2010).
Neste contexto, o Presidente interino Fabián Alarcón tentou legiti- mar a remoção de Bucaram e a sua posição no cargo, além de formar uma Assembleia Constituinte que escreveria a nova Constituição, in- corporando boa parte do que foi aprovado com este plebiscito (ZOVAT- TO, 2007). O resultado foi um voto de confiança no novo Presidente, com um comparecimento de cerca de 60% e uma média de 65% de aprovação. Mesmo com esse resultado, parece que o efeito das últimas eleições foi suficientemente grande para tornar a avaliação da eficácia do voto negativa.
A iniciativa popular, por sua vez, aumenta 29% da chance de crença na eficácia do voto. No entanto, esse coeficiente diz respeito exclusivamente ao caso uruguaio de 2004 sobre a não-privatização dos serviços de abastecimento de água potável e de saneamento, com impacto nas pesquisas de opinião de 2005, juntamente com as elei- ções.
Por fim, analisa-se os coeficientes referentes às propostas votadas nos MDDs, o tipo de assunto, a quantidade e a relevância destes.
As eleições alteram de 9 a 12%, o segundo menor coeficiente, atrás apenas da interação entre poucos assuntos bastante relevantes e as eleições.
Quando os assuntos são poucos mas de maior relevância, o efeito destes na percepção positiva de performance do regime é de 43 a 47%.
O coeficiente da interação, porém, mostra um diminuição de 8% na probabilidade de crença na eficácia do voto.
Tabela 17
Natureza dos MDDs, eleições e interações na eficácia do voto90 Assuntos Assuntos e
Eleições Assuntos*Eleições Coef. Sig. Exp. Coef. Sig. Exp. Coef. Sig. Exp.
Ordenada de origem
-0,376 ,000 0,687 -0,392 ,000 0,676 -0,462 1,000 0,630
País 0,087 ,006 0,089 ,006 0,075 ,006
Ano 0,026 ,061 0,027 ,011 0,02891
Muitos 0,199 ,000 1,220 0,193 ,000 1,213 0,338 ,000 1,402 Poucos relevantes 0,371 ,000 1,450 0,356 ,000 1,427 0,385 ,000 1,469 Poucos 0,370 ,000 1,448 0,300 ,000 1,349 0,250 ,000 1,284 Presidente 0,048 ,000 1,050 0,035 ,000 1,036 0,015 ,000 1,015
Eleições - 0,081 ,000 1,085 0,116 ,000 1,123
Eleições * Muitos - - -0,411 ,000 0,663
Eleições * Poucos relevantes
- - -0,080 ,000 0,923
Era esperado que o efeito deste MDD fosse menor do que o im- pacto de muitos assuntos votados ao mesmo tempo (reformas impor- tantes ou novas Constituições), que provocam grandes transformações.
Porém, os MDDs com muitos assuntos apresentam efeito um pouco menor do que a categoria com poucos assuntos muito relevantes: au- mentam a probabilidade de percepção do voto como ferramenta eficaz em 1,4 vezes se comparado com os grupos que não votaram em MDDs ou eleições.
90 Os modelos apresentam precisão de 64 a 64,1%.
91 Esse parâmetro é redundante.
Da mesma forma que nos modelos de confiança nos partidos, o efeito da interação é quase tão grande e negativo: diminui 34% a pro- babilidade de percepção de eficácia do voto.
Depois de todos os testes realizados, prossegue-se com uma sín- tese dos achados mais importantes, relacionando-os com a literatura, sugestões de agenda de pesquisa e outras considerações finais.
8 Conclusões
Mecanismos de democracia direta foram utilizados em importantes transformações de alguns países da AL, como na aprovação de novas Constituições na Bolívia, na Venezuela e no Equador. Em função das manifestações de junho de 2013, também no Brasil entrou em discus- são a possibilidade de uma Constituinte para fazer a reforma política, que seria posteriormente submetida à consulta da população. Ao final do período observado, os MDDs registravam aprovação por parte da maioria dos latino-americanos (LATINOBARÓMETRO, 2009). Apesar disso, até a presente pesquisa, nenhum estudo que relacionasse MDDs com a confiança no regime democrático — por meio de questões que não envolvessem conceitos complexos como democracia, e que englo- bassem também plebiscitos facultativos — tinha sido realizado na regi- ão. Tampouco houve pesquisa comparativa entre países em qualquer parte do mundo anteriormente.
Os casos latino-americanos de MDDs envolvendo decisões sobre muitos assuntos estudados, categoria na qual se encontram a aprova- ção de novas constituições e grandes reformas constitucionais, estão entre os dois maiores efeitos diretos positivos em todas as dimensões de apoio à democracia investigadas, inclusive ultrapassando sempre o impacto das eleições. Isto significa que contribuem com a legitimidade do regime, o que é especialmente importante na AL, região na qual golpes e tentativas de golpes de Estado continuam fazendo parte da realidade de alguns países. Além disso, esses impactos positivos dimi- nuem os custos da política, proporcionais à quantidade de cidadãos que desconfia de suas instituições e seus representantes (DALTON, 2004).
Os efeitos encontrados são, em geral, maiores do que os dos es- tudos que foram ponto de partida dessa pesquisa (DONOVAN, BOWLER, 2002; MENDELSOHN, CUTLER, 2000). Esses apontavam para impactos em torno de 10% de aumento nas chances de percepção de responsividade governamental — embora os achados apresentados aqui não sejam relativos a surveys semanais realizadas no período de campanha ou ao número cumulativo de MDDs em diferentes estados em uma realidade de profusão de MDDs bottom-up, muito diversa da latino-americana. Quanto à relação dos MDDs com as instituições e o
Presidente, o caráter desse estudo é mais exploratório, já que até então não havia bibliografia que a estudasse sob a ótica da percepção dos cidadãos.
No estudo comparativo de vários países, há limitações relativas a eventos raros, como MDDs, que não permitem análises de apenas um ponto no tempo. Mesmo que o desenvolvimento da tecnologia tenha auxiliado muito na produção e distribuição de bases de dados desde a década de 1990, nos casos em que as coletas são anuais, ainda não é possível a realização de análise seriada. Na solução possível de utiliza- ção de modelos multiníveis, informações são perdidas ao serem des- consideradas as modificações em relação ao ano anterior.
A diferença entre os modelos que levam em conta as médias dos países e dos anos, isto é, modelos multiníveis apenas com a ordenada de origem variando, para um modelo que considera todos os dados como provenientes de um mesmo grupo é pequena. Este fato não deixa de ser um achado interessante. Existe uma opinião latino-americana que evolui mais ou menos ao mesmo passo em relação à avaliação dos cidadãos sobre a eficácia do voto e o Presidente, ou em relação à con- fiança nas instituições. Na realidade, faz ainda menos diferença na probabilidade de ver o voto como um instrumento de mudança e de confiar nas agremiações partidárias os cidadãos serem residentes de um país ou de outro.
A precisão dos modelos sobre a aprovação presidencial e a eficá- cia do voto alcança em torno de 65%. As mesmas variáveis explicam, no entanto, uma média de 46% da variação dos dados nos modelos das instituições. Essas informações reforçam o caráter multidimensional do apoio político. Além disso, as variáveis têm pesos diferentes e até efeitos inversos em cada dimensão. No modelo da eficácia do voto, por exemplo, todas as variáveis do âmbito dos indivíduos apresentavam sinais positivos. Nos modelos de aprovação presidencial, no entanto, a educação tem sinal negativo. Isto é, alta escolaridade tem efeito de diminuir a probabilidade de aprovação do chefe do Executivo, enquanto aumenta as chances de crença no voto como instrumento de mudança.
Figura 1
Efeitos de ter ensino superior na aprovação presidencial, na confiança das instituições e na crença na eficácia do voto
A percepção dos cidadãos sobre a situação econômica corrente do país é treze vezes mais importante no caso da aprovação presiden- cial do que no modelo da eficácia do voto. Em relação às instituições, é seis vezes maior do que no modelo que tenta explicar a responsividade governamental.
Figura 2
Efeitos de julgar a situação econômica do país como muito boa na aprovação presidenci- al, na confiança das instituições e na crença na eficácia do voto
Da mesma forma que estudos anteriores (BOOTH, SELIGSON, 2009; POWER, JAMISON, 2005; MCALLISTER, 1999;), foram encon- trados coeficientes muito pequenos para as variações do PIB e do Gini, sendo a percepção dos cidadãos sobre a situação econômica muito mais relevante do que esses macro indicadores. Essas percepções vêm mediadas pela situação social da pessoa entrevistada, pela cober- tura midiática e por outros fatores. O fornecimento de novos serviços públicos, por exemplo, pode desonerar parte do orçamento das famílias e gerar a percepção de que a situação econômica do país vai melhor, ainda que os indicadores econômicos não mostrem alterações.
A idade tem impacto negativo nas instituições, porém positivo na percepção do voto como ferramenta de transformação do futuro e na aprovação do Presidente. As instituições podem sofrer mais desgaste com a experiência das pessoas, ou para os mais jovens elas não per-
sonificam tanto a autoridade como o chefe do Executivo. Como, de acordo com as teorias democráticas, quanto mais experiência tem-se com o regime, mais ele é apreciado, quanto mais velhos os cidadãos, mais confiança eles têm na eficácia do voto.
Figura 3
Efeitos de ter 61 anos ou mais na aprovação presidencial, na confiança das instituições e na crença na eficácia do voto
Confiança interpessoal é menos importante para a aprovação do Presidente e mais importante para os partidos. Assim, a confiança nas instituições e a percepção da eficácia do voto dependem mais de mu- danças culturais, ainda que o peso da confiança nos concidadãos para a crença no Congresso e nos partidos seja menor se comparado com a questão econômica. Embora as instituições e a eficácia do voto não se encaixem perfeitamente no conceito de apoio político difuso, guiado por orientações mais afetivas e resistentes a mudanças (EASTON, 1965), sem dúvida a avaliação presidencial tem mais de apoio político especí- fico, isto é, está mais relacionada aos cálculos de custo-benefício e à apreciação das performances dos atores e dos processos.
Figura 4
Efeitos de ter confiança interpessoal na aprovação presidencial, na confiança das institui- ções e na crença da eficácia do voto
Por essas razões, a aprovação presidencial não aumenta tanto a probabilidade de percepção do voto como instrumento de transforma- ção do futuro, pois se trata de uma dimensão cuja variação tende a ser menos volátil do que todas as outras analisadas aqui.
Figura 5
Efeitos da aprovação presidencial na confiança das instituições e na crença na eficácia do voto
Nos casos da confiança nos partidos e no Congresso, a aprovação presidencial mais do que dobra as chances de apoio a essas institui- ções. Na realidade, confiança interpessoal reforça um pouco mais a confiança nas agremiações partidárias do que no Parlamento, ao passo que maior aprovação presidencial ajuda um pouco mais no apoio ao Legislativo do que aos partidos. No caso da percepção da performance do regime, boa avaliação do Presidente e dos concidadãos têm o mes- mo peso.
Figura 6
Efeitos da confiança nas instituições na crença da eficácia do voto
A variável da confiança nos partidos tem efeito maior na crença da eficácia do voto do que a confiança no Congresso. A maior aproxima- ção entre as percepções sobre as agremiações partidárias e o voto foi constatada na análise de vários modelos.
Em relação às variáveis institucionais, exploradas com a justificati- va de que no curto prazo é mais fácil mudar as instituições do que as estruturas socioeconômicas para aumentar a legitimidade da democra- cia (NORRIS, 2008), a hipótese 1 sobre MDDs aumentarem a aprova- ção presidencial encontra algum respaldo empírico. Quando os MDDs são tratados sem diferenciação de tipo ou natureza, as eleições têm efeitos quatro vezes mais importantes do que os MDDs. Porém, se interações entre tipos ou natureza de MDDs e eleições são incluídas, o impacto direto de plebiscitos facultativos e MDDs que envolvem muitos assuntos superam o efeito das eleições nas chances de avaliação posi- tiva do chefe do Executivo.
MDDs podem ter efeitos diferentes também dependendo de seu tipo — se são obrigatórios por lei, iniciados pela elite política ou através da coleta de assinaturas de parte do eleitorado, propositivos ou revoga- tórios — e do número e da relevância das propostas por eles envolvi- das, que levam a graus diversos de transformação dos países.
Embora outros trabalhos tenham considerado os tipos de MDDs utilizados para a construção de seus índices de participação (ALTMAN, 2012; PETERLEVITZ, 2011; STUTZER, FREY, 2006), nenhum havia testado o impacto específico de cada tipo, de forma que não era possí- vel saber se na realidade os efeitos correspondiam à teoria. Ainda que a proposta dessa pesquisa de subdividir a variável de ocorrência de MDDs em seus tipos e natureza específicos seja um avanço para a pesquisa sobre os efeitos da democracia direta, para ter-se certeza dos resultados, mais casos teriam que ser adicionados.
De qualquer forma, parece ser bem-sucedida a estratégia de mui- tos presidentes de convocar MDDs com a expectativa de aumentar sua legitimidade pessoal (ALTMAN, 2010; MOREL, 2001). Além disso, em interação com eleição, apenas no modelo de aprovação presidencial o impacto dos plebiscitos facultativos na percepção dos cidadãos conti- nua positivo.
Os plebiscitos mandatórios não têm efeito direto, mas quando acontecem junto a eleições têm impacto semelhante aos facultativos.92 Eleições extraordinárias ocorreram em dois dos quatro países incluídos nessa categoria. Assim como os MDDs são tipificados, as eleições também poderiam ter sido classificadas de acordo com critérios de al- ternância de poder, comparecimento eleitoral, nível de polarização, etc.
para resultados mais refinados serem alcançados.
Figura 7
Efeitos dos plebiscitos facultativos na aprovação presidencial, na confiança nas institui- ções e na crença na eficácia do voto
NOTA: o número em parênteses é referente aos casos de MDDs classificados nessa categoria.
Esses dados demonstram a importância de controlar as outras arenas que podem influenciar as escolhas dos cidadãos e fazê-las pa- recer irracionais quando são desconsideradas (TSEBELIS, 1999).
92 Referendos, como era esperado, têm impacto negativo, pois são um movimento de protesto em relação às ultimas modificações legislativas, geralmente endossadas pe- los Executivo. Iniciativas populares, apesar de bottom-up, são propositivas, além de não revogatórias. Elas também têm efeito direto negativo, porém, quando ocorrem juntamente com eleições, têm efeito positivo.
Outro avanço desse estudo foi a atribuição de efeitos dos MDDs considerando tanto o número de assuntos incluídos em cada votação quanto a relevância das propostas apreciadas. As pesquisas anteriores que tratam do número cumulativo de MDDs (ALTMANA, 2010; DONO- VAN, BOWLER, 2002) 93 consideram uma consulta com 15 perguntas separadas como 15 MDDs, e uma Constituição totalmente nova conta como um MDD. O peso das 15 propostas votadas separadas não pode ser maior do que o de uma Constituição. A quantidade e a relevância das mudanças propostas faz diferença nas considerações dos cidadãos sobre sua influência no governo e envolvem mais ou menos atores políticos e instituições no processo (LACEY, 2005).
No caso da aprovação presidencial, se são vários assuntos e pro- vocam a sensação de que há muito em jogo a ser decidido pela vota- ção, as avaliações têm maior probabilidade de serem positivas do que se a consulta é sobre poucas questões que não dizem respeito à maio- ria da população ou não foram encaradas como fundamentais pelos principais atores políticos.94 O que não era esperado é que os efeitos diretos de poucos assuntos muito relevantes fossem negativos. No entanto, eles têm entre seus casos MDDs bottom-up que possuem im- pacto negativo no modelo dos tipos.
93 Em estudo posterior, Altman (2012) apostou nas previsões constitucionais, considerando-as válidas se já tivessem sido utilizadas alguma vez. Donovan e Bowler (2002) lidam com estados norte-americanos, que possuem basicamente mecanismos bottom-up, portanto, cada proposta vale de certa forma a mesma coisa, diferentemente do que acontece na AL.
94 Muitos assuntos têm efeito maior do que quando o assunto é o próprio Presidente.
Quando a votação sobre a convocação da Assembleia Constituinte interage com as eleições, tem o segundo maior impacto, superado somente pela interação das elei- ções com poucos assuntos muito relevantes.
Figura 8
Efeitos dos MDDs sobre poucos assuntos muito relevantes na aprovação do presidente, na confiança nas instituições e na crença na eficácia do voto
NOTA: o número em parênteses é referente aos casos de MDDs classificados nessa categoria.
Essa última colocação demonstra o quanto seria importante, no caso de haver mais casos de MDDs a serem analisados,95 criar uma classificação que considerasse os tipos e os assuntos, porque eviden- temente uma característica modifica a outra.
A hipótese 2 sobre o desempenho dos partidos políticos e do Par- lamento na proposição de um MDD, nos seus trâmites e nas campa- nhas aumentar a visibilidade e a proximidade delas com os cidadãos e, possivelmente, melhorar a confiança que o eleitorado tem nessas insti- tuições, também encontra respaldo nos dados, mas com impactos me- nos significativos.
95 A inclusão de países europeus foi descartada porque, além das diferenças entre os dois continentes e da dificuldade de encontrar as mesmas questões, o número de MDDs nacionais realizados na Europa foram basicamente os sobre a inclusão na União Europeia, que sequer ocorreram na maioria dos países.
Figura 9
Efeitos da ocorrência de MDDs na aprovação do presidente, na confiança nas instituições e na crença da eficácia do voto
Ao contrário do modelo de aprovação presidencial, que no caso de interações a variável que terminava mais valorizada era a das eleições, no caso das instituições são os MDDs. A ocorrência das duas votações em um mesmo período, diminui as chances de ter a muita confiança em ambos (porém mais nos partidos). Além disso, há algumas diferenças consideráveis entre Congresso e partidos.
Figura 10
Efeitos da ocorrência de eleições na aprovação do presidente, na confiança nas institui- ções e na crença da eficácia do voto
Como outros estudos demonstraram que os efeitos de curto prazo dos MDDs em outras questões, como o comparecimento eleitoral, são maiores do que os de longo prazo (DYCK, SEABROOK, 2010), utilizar a variável de ocorrência de MDD permitiu capturar esse impacto e ter mais segurança a respeito da relação causal entre as variáveis.
As pesquisas anteriores que conectaram o uso de democracia di- reta e o apoio político ao regime utilizaram com mais frequência o efeito cumulativo dos MDDs, quer dizer, seu efeito de longo prazo, ou consi- deraram as previsões constitucionais de utilização de MDDs. O proble- ma nesses casos é que não há como saber, por exemplo, se a maior percepção da eficácia do voto faz com que um país utilize mais MDDs ou vice-versa. Mas isso não quer dizer que os efeitos de longo prazo não devam ser considerados.
No modelo da confiança no Congresso, os efeitos acumulados dos MDDs realizados na última década fazem desaparecer o impacto da ocorrência de MDD no ano anterior a realização do surveys. Este foi o
único caso em que essa situação ocorreu, o que parece demonstrar maior impacto dos efeitos de longo prazo do que de curto prazo.
Figura 11
Efeitos do número acumulado de MDDs na confiança nas instituições e na crença da eficácia do voto
O impacto mostrado pelo coeficiente do número cumulativo dos MDDs reflete apenas a diferença entre a média e um desvio-padrão, o que quer dizer que para saber o efeito máximo entre o grupo que não teve nenhum MDD nos últimos dez anos e o que teve o maior número de MDDs, o coeficiente deve ser multiplicado por quatro.
Os MDDs obrigatórios por lei, que deveriam ser especialmente im- portantes para o desempenho do Congresso porque envolvem negoci- ações entre o Executivo e o Legislativo, apresentaram coeficiente não significativo nos efeitos diretos. Com interação com eleições, o impacto é pequeno, somente menor do que o das eleições.
No caso dos referendos, se foram convocados e aprovados, signi- fica que o Legislativo acabou de passar uma lei contrária à opinião da maioria dos cidadãos. No entanto, ele apresenta o maior coeficiente positivo entre todos os tipos. Duas ressalvas devem ser feitas. Primeiro, os modelos relativos às instituições têm poder explicativo menor do que os modelos de aprovação do Presidente ou de eficácia do voto, logo, a falta de outras variáveis de controle pode gerar resultados distorcidos.
Segundo, devido ao pequeno número de casos, os resultados podem apresentar viés grande.
O plebiscito facultativo do Equador sobre convocação da Assem- bleia Constituinte possui o maior coeficiente de todos, com efeito nega- tivo. No modelo de avaliação do chefe do Executivo, ao contrário, tor- nava duas vezes mais provável a aprovação. Esse Presidente, no en- tanto, elegeu-se sem que seu partido lançasse candidatos ao Legislati- vo, com um discurso que culpava a instituição por boa parte dos pro- blemas do país. Já os dois MDDs sobre o mandato presidencial reali- zados na Bolívia e na Venezuela alcançam o maior impacto positivo, seguidos da interação de poucos assuntos muito relevantes e, final- mente, dos MDDs que envolvem muitos assuntos — para os quais era esperado ter uma das maiores influências. Faz sentido, no entanto, o pequeno efeito negativo no caso de MDDs que tratam de poucos as- suntos não muito importantes.
Nos modelos sobre a confiança nos partidos, inserindo a variável que mantém constante o número de MDDs dos últimos dez anos (im- pacto de longo prazo), o efeito da ocorrência de MDD e de eleições é semelhante. Isto quer dizer que o efeito da ocorrência de MDD diminui quando o histórico do país com esses mecanismos é considerado. Po- rém, somente a diferença de não ter tido MDD na última década ou de ter tido o número máximo da amostra alcança uma probabilidade de confiança nos partidos maior do que a ocorrência das outras duas vari- áveis, o que não ocorre no modelo sobre a eficácia do voto.
O único estudo que havia relacionado o uso de MDDs e os efeitos na opinião pública sobre os partidos, tinha encontrado resultados con- trários: esses mecanismos piorariam a avaliação que os cidadãos fa- zem das agremiações partidárias (BOWLER, DONOVAN, 2008). Entre- tanto, foi uma pesquisa comparativa de estados norte-americanos. En- tre eles, alguns utilizam mais iniciativas populares em um ano do que a AL toda votou em MDDs nesse período de quinze anos.
Apenas nesse modelo e no da eficácia do voto é que os plebiscitos mandatórios têm efeitos diretos, aumentando a probabilidade de maior confiança nas agremiações partidárias e no voto como instrumento de mudança no futuro. Como era de se esperar, a interação com as elei- ções favorecem mais esse tipo no modelo da aprovação presidencial, ocorrendo o contrário no caso dos partidos e da eficácia do voto.96
96 A expectativa de que alguns partidos de oposição, tendo papel fundamental de apoio ou estímulo aos MDDs iniciados pelos próprios cidadãos, angariariam mais de apoio às agremiações partidárias em geral é parcialmente confirmada: no caso dos referen-