Imogene M. King – enfermeira americana – nasceu em 1923. Recebeu sua educação básica em enfermagem no St. John’s Hospital School of Nursing, em St. Louis Missouri, formando-se em 1946. Concluiu o grau de bacharel em Ciências da Educação em Enfermagem em 1948, e, o mestrado em Enfermagem em 1957. Em 1961, obteve o título de Doutora pela Universidade da Columbia, em Nova Iorque. Também fez estudos de pós- doutorado em desenho de pesquisa, estatística e computação em 1986. Em 1968, publicou o livro ‘A conceptual frame of reference for nursing’; em 1971, ‘Toward a Theory for Nursing:
General Concepts of Human Behavior’; em 1981, ‘A Theory for Nursing: systemas, concepts, process’ (Bello, 2000).
David (2000) refere que King propôs uma estrutura conceitual de enfermagem, identificando-a como sendo a de um sistema aberto e uma teoria como algo para a consecução de metas. A teoria de consecução de metas de King deriva-se, pois, de uma estrutura de sistemas abertos, tendo como foco o cuidado da enfermagem aos seres humanos, e como meta o atendimento à saúde dos indivíduos e grupos. King considera que os seres humanos constituem sistemas abertos e que esses estão em constante interação com o meio ambiente.
Essa estrutura conceitual compõe-se de três sistemas interativos que são: sistema pessoal, sistema interpessoal e o sistema social.
Os indivíduos compõem um tipo de sistema no ambiente chamado sistema pessoal, interagindo para formar grupos diádicos, triádicos, pequenos ou grandes, os quais compreendem outros tipos de sistemas, chamados sistemas interpessoais. Os grupos com interesses e necessidades especiais, formam organizações, os quais formam comunidades e sociedades (figura 1), sendo então chamados sistemas sociais (KING, 1981).
Pode-se observar na figura 1 que os três sistemas são abertos e intercomunicantes.
Figura 1 – Estrutura conceptual de Imogene M. King.
Fonte: KING (1981).
Os sistemas e seus conceitos, segundo King, foram traduzidos e adaptados para este estudo, conforme se observa no quadro 1.
Quadro 1 – Sistemas e conceitos.
SISTEMAS PESSOAIS SISTEMAS
INTERPESSOAIS
SISTEMAS SOCIAIS
Percepção Papel Organização
Self Interação Poder
Imagem Corporal Comunicação Autoridade
Crescimento e Desenvolvimento
Transação Status
Tempo e Espaço Estresse Tomada de decisão
Fonte: Adaptado de King (1981)
4.1.1 Sistema pessoal
Todo indivíduo é considerado um sistema pessoal, cujos conceitos relevantes são:
percepção;
self;
crescimento e desenvolvimento;
imagem corporal;
espaço e tempo.
Percepção – tem a orientação voltada para o presente e baseia-se na informação disponível. Percepção é definida por King (1981) como transações, isto é, os indivíduos são participantes ativos de situações, e suas identidades são afetadas por sua participação. A autora ainda discute a percepção como um processo em que dados, obtidos através dos sentidos e a partir da memória, são organizados, interpretados e transformados. Esse processo de interação humana com o ambiente influencia no comportamento, proporciona significado à experiência e representa a imagem da realidade que o indivíduo possui. “É a representação que cada pessoa faz da realidade.” (KING, 1981, p. 20). Todo ser humano é único, e vivencia uma determinada situação de maneira única, e responde em função de suas percepções. Vale dizer que toda percepção pode ser modificada ao longo de um processo, no sentido de crescimento a fim de alcançar um objetivo e chegar à transação.
Self – King (1981) é composto pelo conhecimento e sentimentos que constituem a percepção que a pessoa tem de sua existência individual, sua concepção do que é, e do que é o
“eu”. O self é o ambiente subjetivo completo de uma pessoa. O self inclui, entre outras coisas, um sistema de idéias, atitudes, valores e compromissos. Trata-se de um centro distinto de experiência e significado. Ele constitui o mundo interior de uma pessoa, como distinto do mundo exterior que consiste em todas as outras pessoas e coisas.
Para King conhecimento de si mesmo é chave para a compreensão do comportamento humano. O “eu” é a maneira como eu me defino para mim mesmo e para os outros. O eu é tudo o que eu sou. Eu sou uma pessoa total. O “eu” é o que eu penso de mim e o que eu sou capaz de ser e fazer. O “eu” é subjetivo, ou seja, é o que eu penso que deveria ser ou gostaria de ser.
No processo de trabalho da saúde se lida com pessoas, portanto faz-se necessário que se desenvolvam habilidades no sentido de compreender como as pessoas se percebem a si mesmas e a situação na qual se encontram, e, a partir disso, planejar ações em conjunto, que as ajudem a enfrentarem as situações que se apresentam, para que alcancem os objetivos e cheguem à transação.
Crescimento e desenvolvimento – King (1981) conceitua como sendo: “uma função genérica de experiências significativas e satisfatórias e de um ambiente adequado a propiciar os indivíduos a atingir a maturidade, que é influenciado por seu self”. Processo que tem lugar na vida das pessoas, que os ajuda a mover-se em direção a capacidade potencial para atingir a auto-realização.
Imagem corporal – é caracterizada como pessoal subjetiva (aprendida ou adquirida) e dinâmica, à medida que a pessoa redefine o self. É a maneira pela qual cada pessoa percebe seu corpo, e as reações dos outros à sua aparência.(King, 1981).
Espaço – Segundo King é caracterizado como universo pessoal ou subjetivo, individual, situacional e dependente das relações na situação; dimensional como uma função de volumes, área, distância e tempo; e transacional ou baseado na percepção que o indivíduo tem da situação. King (1981, p.145) define tempo como “[...] a duração entre um acontecimento e outro, sendo mensurável e experienciado de forma única pelo ser humano; é a relação de um acontecimento com o outro.”
Quando os sistemas pessoais entram em contato um com o outro, formam um sistema interpessoal.
4.1.2 Sistema interpessoal
Para King (1981) o sistema interpessoal é formado por seres humanos que vivem em interação, quando formado por dois indivíduos são díades, quando por três são tríades e quatro ou mais formam pequenos ou grandes grupos. A família é um tipo especifico de sistema interpessoal. Quanto maior o número de indivíduos, maior é a complexidade das interações.
Para King a relação enfermeira-cliente compreende um sistema interpessoal e inclui os seguintes conceitos para melhor ajudar a compreender a relação entre os seres humanos:
papel (do paciente e do enfermeiro);
interação;
comunicação;
transação;
estresse.
Papel – Papel é um conjunto de comportamentos que se espera de uma pessoa que ocupa uma posição dentro de um sistema social e compreende regras que definem os direitos e as obrigações numa posição. Implica na relação com um ou mais indivíduos que interagem numa situação específica para alcançar um propósito (KING, 1981). Supõe-se que as enfermeiras têm como papel ensinar, aconselhar, cuidar e guiar indivíduos e grupos, ajudando-os a manter sua saúde.
Interação – é caracterizada por comportamentos observáveis em díades, tríades ou em grupos. Para King (1981, p. 145) trata-se de “Um processo de percepção e comunicação entre a pessoa e meio ambiente e entre uma pessoa e outra, representado por comportamentos verbais e não-verbais voltados para uma meta.” King afirma que a interação envolve:
percepção, julgamento, ação e reação. Percepção e julgamento, para a autora, são comportamentos não-observáveis diretamente, enquanto que a interação e transação são diretamente observáveis. Enfim, interação é uma função primordial dos seres que vivem em grupos; é um processo gradativo de conquista, é uma construção.
Comunicação – Para ser eficiente, King (1981, p. 62), diz que deve “[...] ocorrer em atmosfera de mútuo respeito e desejo de compreensão e sempre considerar que as palavras representam diferentes significados para diferentes pessoas.”
King (1981, p. 146) ainda coloca que comunicação é o meio pelo qual a informação é prestada numa determinada situação de enfermagem, “[...] a fim de identifica preocupações e/ou problemas, compartilhar informações que auxiliam os indivíduos na tomada de decisões que conduzem à obtenção de objetivos no ambiente.”
Transação – Para King ( 1981) são comportamentos humanos dirigidos a metas.
Acontecem em situações nas quais os seres humanos participam ativamente em eventos e esta participação ativa nos movimentos/ações para alcançar uma meta provoca mudança nos indivíduos. King (1981, p. 80), diz que transação
[...]é um processo de interação no qual os seres humanos comunicam-se com o ambiente para atingir os objetivos que são valorizados e acordados entre eles. As transações podem ser observadas em situações concretas, são únicas em dimensão de tempo e espaço.
A transação é um conceito chave, pois direciona o caminho a ser percorrido pelos envolvidos. Para que ocorra é preciso compartilhamento de experiências, crenças, valores,
conhecimentos e expectativas, estabelecimento de objetivos e meios para o alcance dos mesmos. Muitas vezes, nesse processo de viabilizar os meios, os envolvidos necessitam estar abertos para poder barganhar e mudar.
A transação ocorre dentre de um processo de percepção, e se concretiza quando os objetivos traçados pelos elementos envolvidos forem alcançados.
Estresse – para King (1981) é um estado dinâmico no qual o ser humano/grupos interagem com o ambiente para manter o equilíbrio, o crescimento e desenvolvimento.
Envolve troca de energia e informações entre pessoas e ambiente para regulação e controle dos agentes estressores, que podem ser um estímulo físico, emocional, social ou espiritual que resulta em ameaça, e que exceda a capacidade de resposta do ser humano.
As transações decorrentes dessas ações são as manifestações concretas da participação ativa dos seres humanos (enfermeira e cliente) nos eventos do alcance de metas, que traz como conseqüência, mudanças nos indivíduos.
A partir da união dos sistemas interpessoais, formam-se sistemas maiores, chamados sistemas sociais.
4.1.3 Sistema social
Para King (1981) as forças sociais estão em constante movimentação dentro dos sistemas sociais, e os jogos inter-relacionados entre essas forças influenciam o comportamento social, a interação, a percepção e a saúde. Um sistema social é definido como um sistema organizado e delimitado de regras sociais, comportamentos e práticas desenvolvidas para manterem valores e mecanismos que regulamentam as práticas e as regras.
Exemplos de sistemas sociais para King (1981) são a família, grupos religiosos, escolares, profissionais, enfim grupos que têm afinidades em comum.
Os conceitos relevantes que formam o Sistema Social segundo King (1981) são:
organização;
autoridade;
poder;
status;
tomada de decisão.
Organização – é caracterizada por uma estrutura que ordena cargos e atividades, relaciona combinações formais e informais de indivíduos e grupos para consecução de metas pessoais e organizacionais. “É composta de seres humanos com papeis e posições prescritas que utilizam recursos para alcançar objetivos pessoais e da organização.” (KING, 1981, p.
119).
Autoridade – Para King (1981, p.124), autoridade é um processo
[...] transacional que se caracteriza por relações recíprocas e ativas, nas quais os valores, antecedentes e percepções os membros influem para definir, validar e aceitar a autoridade dos indivíduos dentro de uma organização. Uma pessoa influi em outra que reconhece, aceita e acata a autoridade dessa pessoa.
Poder – Segundo King( 1981) é caracterizado como universal, pessoal, situacional ou não-dinâmico e voltado para metas. Está diretamente ligado à autoridade. Estabelece uma função de interações humanas e de tomadas de decisões.
King (1981, p. 127-128), diz que o poder “[...] existe em todos os aspectos da vida de cada pessoa de maneira potencial segundo seus recursos individuais e as forças do meio ambiente que prevalecem. É uma força social que organiza e mantém metas.”
Status – é a posição de um indivíduo num grupo ou de um grupo em relação a outros grupos, e está acompanhado de privilégio, deveres e obrigações. “O status é um aspecto da estratificação social e está relacionado com quem o indivíduo é, o que faz, o que conhece, e o que tem alcançado.” (KING, 1981, p. 129).
Tomada de decisão Para King (1981), a tomada de decisão afeta o curso da ação a ser tomada numa situação específica. É um processo dinâmico e sistemático, por meio do qual indivíduos ou grupo fazem uma escolha dentre alternativas para responder a uma questão e alcançarem os objetivos propostos.