3.1 CLASSES SOCIAIS: O EXERCÍCIO DO PODER
3.1.6 Intelectuais Orgânicos
Como visto, para efetivar a hegemonia civil a classe subalterna necessita de organização, princípios em comum e vontade coletiva. Para isso acontecer, precisa-se valorizar a singularidade e o saber popular, defendendo a socialização do conhecimento e recriar a função dos intelectuais, juntando-se às lutas políticas subalternas, como pensava Gramsci.
Gramsci afirma também que todos são intelectuais, e reflexiona que não existe nenhuma atividade humana que pode ser executada sem a intervenção intelectual, não existe trabalho nem aquele somente físico, que não demande por mínimo que seja de atividade intelectual criadora. Entretanto, ele faz referências entre o intelectual tradicional e o orgânico.
O intelectual tradicional seria aquele que executa e dá continuidade em seu trabalho através do tempo e não percebe e nem se envolve com as relações e as classes sociais em luta.
Geralmente ele faz parte da elite intelectual. Já o intelectual orgânico mantém-se sempre ligado à sua classe social originária, atuando como interlocutor das ações.
Gramsci (1972 apud WANDERLEY, 2012) em seu artigo coloca o que Gramsci define por intelectuais orgânicos:
Cada grupo social, ao nascer no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, se cria, conjunta e organicamente, um ou mais segmentos de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não somente no campo econômico, mas também no social e no político. (GRAMSCI, 1972 apud WANDERLEY, 2012, p. 20).
Para o autor Semeraro:
Como Gramsci apresenta, desde os tempos de L’Ordine Nuovo, a função do novo intelectual, orgânico à dinâmica da sociedade e à conquista da hegemonia da sua classe, não pode mais consistir “na eloquência” e nos ímpetos da “emoção”, mas na interpenetração entre conhecimento cientifico, filosófico e ação política. Tal intelectual deve ser um construtor, organizador, educador permanente. [...]
“Orgânicos”, são os intelectuais que fazem parte de um organismo vivo e em expansão. Por isso, estão ao mesmo tempo conectados ao mundo do trabalho, às organizações políticas e culturais mais avançadas que o seu grupo social desenvolve para dirigir a sociedade. (SEMERARO, 2016, p. 377-378).
Como visto, para Gramsci a relação orgânica e ético-política está intimamente ligada.
A explicação disso é que os dois remetem à universalização da democracia popular. E como Semeraro diz: “[...] essa só acontece com a construção de uma hegemonia capaz de entrelaçar em unidade subjetividades individuais e ‘vontade coletiva’, de transformar em liberdade a necessidade.” (SEMERARO, 2006, p. 387). Isso porque para Gramsci as preocupações com governantes e governados, exploradores e explorados ou dominados e dominadores, precisam estar ligadas dialeticamente para que possa surgir uma sociedade mais ética politicamente.
É neste contexto que os intelectuais orgânicos precisam conquistar espaços na sociedade civil a fim de reconhecer a relação de reciprocidade entre os sujeitos que aprendem e ensinam ao mesmo tempo. Paulo Freire (2005) utiliza-se de Gramsci concordando de que a escola, embora necessária, não é o único espaço para a formação de intelectuais. Nesse caso, pensando nas classes subalternas, as escolas precisam pensar e desenvolver uma pedagogia crítica para criar condições de construir subjetividades e conseguir efetivar a práxis, em favor da transformação social e das estruturas que oprimem.
Para Prado et al. (2012):
A Pedagogia Crítica tem como um dos seus mais fortes representantes o educador Paulo Freire, e seus fundamentos tem subsidiado inúmeras experiências pedagógicas na área da saúde, tanto na educação profissional como na educação em saúde. Para Freire, o aluno precisa ser protagonista de seu processo de aprendizagem e ao professor cabe a tarefa de despertar a curiosidade epistemológica. (PRADO et al., 2012, p. 173).
Pensando desta forma, a escola pode e deve ser uma instituição construtora e formadora de intelectuais orgânicos civis, e esses precisam estar interligados com as classes subalternas para a conquista da hegemonia, lutando assim por uma sociedade mais igualitária. São eles que estão próximos às atividades do cotidiano da massa trabalhadora. Cabe a eles elaborar e disseminar junto à classe subalterna uma nova visão de mundo, porém, compreendendo e
obedecendo ao princípio de que o desempenho de diferentes formas intelectuais nunca deve ter hierarquias ou divisão de classe.
Semeraro (2006) adiciona que:
As ideias de Gramsci passam a fundamentar a formação de novos intelectuais na práxis da hegemonia dos subalternos, cujas lutas teóricas e práticas buscam criar uma nova filosofia e uma outra política, capazes de promover a superação do poder como dominação e construir efetivos projetos de democracia popular. (SEMERARO, 2006, p. 380).
Complementando o autor, concorda-se que o intelectual orgânico é um dos mediadores entre a sociedade política e a sociedade civil, e tem como importante função a organização dos atores sociais no processo de articulação e intervenção de estratégias para fomentar a hegemonia da classe trabalhadora, tarefa essa complexa, que tem como essência a luta por transformação social.
Nas (re)leituras gramscianas, fica evidente a contribuição de formar uma visão histórica- dialética da realidade social, algo que deve ser construído culturalmente, oportunizando assim às classes subalternas a superação da condição de explorados, e capacitando-os para serem sujeitos históricos e protagonistas de sua emancipação social.
Na atual conjuntura pode-se afirmar que a classe trabalhadora dispõe de muitas organizações que lhe são fundamentais na luta contra o capital: sindicatos, associações, comissões de fábrica, frações parlamentares, organizações culturais, conselhos municipais entre outros, e que dessa classe podem surgir muitos intelectuais orgânicos a fim de fomentar e propor mudanças que venham ao encontro dos interesses desta mesma classe.
Gramsci acreditava que todo movimento coletivo tinha mais força e eficiência, sendo que sempre implementou os Conselhos de Fábrica, em benefício da classe trabalhadora.
Então, Gramsci também faz referências à sua forma de organização da classe operária:
A fábrica com suas comissões internas, os círculos socialistas, as comunidades camponesas são os centros de vida proletária nos quais é preciso trabalhar diretamente. As comissões internas são órgãos de democracia operária que é necessário libertar das limitações impostas pelos empresários e nos quais é preciso infundir vida e energia novas. Hoje, as comissões internas limitam o poder do capitalista na fábrica e desempenham funções de arbitragem e disciplina.
Desenvolvidas e enriquecidas, deverão ser amanhã os órgãos do poder proletário que substituirá o capitalista em todas as suas funções úteis de direção e administração.
(GRAMSCI, 2004 apud LIMA, 2011, p. 4).
Pode-se ressaltar que todo trabalho em grupo são possibilidades de transformação.
Percebe-se que as experiências dos conselhos de fábrica também significavam a retomada da
experiência da Comuna de Paris, trazendo também possibilidades para a construção do poder proletário em oposição ao poder do capital.
Diante disso, amplia-se a relação entre o fazer e o pensar. A construção de uma forma de pensar crítica e coerente, a formação de uma nova cultura política para potencializar a luta pela defesa da saúde, a ampliação da democracia, a efetiva cidadania e a construção de outro projeto de sociedade.