cas e de preconceito de classe que vemos no cenário político brasileiro.
Nos juntamos à luta por uma universidade pública de qualidade, diver- sa, e por um país livre cada vez mais inclusivo.
Nos primeiros dias as publicações do movimento foram voltadas principalmente para informar a comunidade acadêmica sobre as resolu- ções tomadas com relação ao prédio e à suspensão das atividades normais.
Informações sobre as doações de alimentos, produtos de higiene e mesmo contribuições em dinheiro, eram seguidamente disponibilizadas19. A fan page também atualizava a comunidade acadêmica com relação às negocia- ções com a reitoria, publicando avisos prévios e relatos posteriores de reu- niões. Neste espaço também foram divulgadas uma carta aberta ao reitor, assinada pelas 15 Ocupas de Porto Alegre, e um texto com a íntegra das reivindicações unificadas do Movimento de Ocupações da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde pediam, entre outras coisas, garantias para que não houvesse a criminalização e responsabilização civil, adminis- trativa e acadêmica do movimento.
Embora a fan page tenha sido criada para servir de elo entre os ocu- pantes e seu público no que dissesse respeito às ocupações, o movimento também utilizou a ferramenta e o seu potencial de mídia radical alternati- va para se posicionar com relação a outros fatos que iam acontecendo na sociedade. No dia 21 de novembro, por exemplo, a Ocupa Fabico publicou uma NOTA DE REPÚDIO AO PACOTE DE MEDIDAS DE SARTORI20. Nove dias depois houve uma postagem em solidariedade às vítimas do aci- dente com o avião da Chapecoense na Colômbia, ocorrido um dia antes.
O movimento procurava também mostrar, na página do facebook, imagens do cotidiano da ocupação, como os mutirões de limpeza, as aulas e oficinas, os shows e os cartazes que cobriam as paredes internas do pré- dio, buscando assim alargar as fronteiras do espaço físico delimitado onde o repertório de confronto se desenrolava. A página do grupo funcionava como uma espécie de janela por onde a sociedade podia vislumbrar as mo- vimentações internas do cotidiano de uma faculdade ocupada.
Depois da votação em primeiro turno no Senado, a Ocupa Fabico pu- blicou uma lista com nome e o partido dos 61 senadores que votaram pela aprovação da PEC 55, ação tomada também pela grande parte das fan pa-
19 As mensagens procuravam incentivar as doações e destacar a importância deste gesto para o sucesso da ação coletiva: ”Doação é ação”; “Você pode substituir seu like por uma doação”.
20 A Nota era, na verdade, uma pequena reportagem. Neste caso, a equipe de Comunicação, formada para administrar a imagem pública e gerir as informações sobre o movimento, se comportou como jornalistas de emissoras ao produzir uma matéria, chegando inclusive a entrevistar por telefone uma profissional da TVE.
ges das ocupas pelo Brasil. No dia 13 de dezembro de 2016 a PEC 55, que havia gerado centenas de ocupações universitárias em todo o Brasil, foi finalmente aprovada no Senado21. Minutos depois foi postado na página da Ocupa Fabico a chamada para um evento, o 4º Grande Ato contra a PEC 55 e o Pacotaço do Sartori. O texto do movimento reconhecia a derrota na luta que havia inspirado a ocupação e convocava as pessoas para ir às ruas com um jargão popularizado durante os protestos de junho de 2013:
VEM PRA RUA, VEM
Hoje foi aprovada a nefasta PEC da Morte, que assassinará o futuro de milhares de brasileiros. E hoje vamos para a rua gritar contra ela, contra os retrocessos dos desgovernos Temer e Sartori e contra o golpe jurídico conservador na presidenta Dilma.
Convidamos toda a comunidade fabicana a se juntar ao ato. Liguem para os colegas, mobilizem os amigos, combinem grupos e vamos jun- tos para a rua lutar pelo que nos é de direito.
Vem pra rua, vem, que o Brasil é nosso.
#OcupaFABICO #OcupaTudo #NenhumDireitoAMenos
Em 23 de dezembro de 2016, após 53 dias em que foi transformado em um espaço de exceção e de experimentação de processos de democracia direta e subversão de hierarquias, o prédio da Fabico foi desocupado pelos alunos – uma das últimas postagens na página é um vídeo com as diretoras retomando o controle do edifício. Uma semana depois, o movimento pos- tou uma lista com pequenas alterações realizadas no prédio, como criações artísticas nas portas de algumas salas de aula e um jardim em um lugar onde funcionava um espaço para fumantes. A Ocupa Fabico, assim como as demais, foi derrotada em seu propósito principal, o de barrar a PEC do Teto de Gastos. Mas como tática de ação direta foi bem sucedida, uma vez que conseguiu bloquear as atividades institucionais da instituição e manter o território conquistado por quase dois meses.
Em um repertório de confronto como este, onde é constante o medo de infiltrações, invasões, repressão e a possível expedição de mandatos de reintegração de posse, o desgaste emocional e físico é muito grande, e não foi diferente no caso das Ocupas em Porto Alegre. A sustentação do con- fronto contra atores como o Estado cobra um preço alto para os movimen- tos sociais, especialmente se eles não encontram eco de suas demandas em outras parcelas da sociedade civil. O tempo vai dizer se estas experiências terão desdobramento em novas frentes de luta e se as formas de autocomu-
21 Sua aprovação definitiva se deu em votação do segundo turno, com o placar de 53 votos favoráveis e 16 contrários.
nicação, com o emprego de mídias radicais alternativas, serão suficientes para vencer as batalhas de comunicação que acompanham os conflitos po- líticos na contemporaneidade.
Considerações finais
Apesar de toda a ruptura provocada no cotidiano da instituição – o que por si só já caracteriza um relativo sucesso da ação, os alunos ocupan- tes não conseguiram mobilizar como gostariam todos os colegas. Alguns manifestaram apoio postando coisas positivas a respeito do movimento no facebook; doando alimentos, colchões, cobertas; dialogando com outras pessoas e de alguma maneira colaborando na formação de uma imagem pública favorável do movimento. Como demonstrado anteriormente, hou- ve tentativas de integrar as diferentes ocupas para articular ações políticas unificadas e mais efetivas. Houve intercâmbio, visitas mútuas, membros de uma ocupação falaram em assembleias em outras faculdades e alguns que já ocupavam um prédio deram depoimentos decisivos em reuniões que de- cidiram pela tomada de algum novo prédio. Mas as dificuldades logísticas de manutenção dos espaços eram tão grandes – em boa parte devido jus- tamente a pouca adesão numérica – que a primeira preocupação acabou sendo a permanência no terreno conquistado, prejudicando uma atuação mais forte em outras instâncias, como nos espaços de poder como assem- bleia, câmara, tribunais etc.
As ocupações de universidades brasileiras revelaram uma geração dis- posta a dizer não, a criticar políticas que consideram injustas, a de alguma maneira tomar para si o bastão da resistência que alimenta os movimentos sociais através dos tempos. Mas dada a força do oponente que chamaram para a briga e a complexidade das estruturas que mantém o atual siste- ma representativo, do qual os políticos e suas ações são apenas a ponta do iceberg, seria utópico imaginar que apenas eles, jovens na faixa dos vinte anos, poderiam causar modificações profundas na sociedade armados ape- nas com a indignação e a razão. As grandes revoluções tiveram, por certo, grupos específicos que deram o primeiro grito e assumiram a dianteira do processo. Mas só foram bem sucedidos aqueles que conseguiram incen- diar – no sentido metafórico do termo – outros corações e mentes para então, juntos, realizarem as mudanças desejadas e possíveis. E esta adesão da sociedade civil não aconteceu, apesar da utilização das mídias radicais alternativas para tentar romper o silêncio da mídia hegemônica e contra- por informações tidas como negativas ao movimento.
Na Fabico, a maioria dos alunos-ocupantes tinha entre 18 e 22 anos.
Boa parte deles estava em seu primeiro ano de curso. Somem-se a isso as ocupações de secundaristas nos meses anteriores e podemos pensar em um repertório que possui, atualmente, um componente geracional muito marcante entre seus praticantes. Isso é uma limitação, ao menos neste caso, onde o objetivo não era nada simples: reverter um quadro de possível der- rota numa votação no Senado – derrota que acabou de fato se consuman- do. Além do mais, dificilmente um único repertório é capaz de alcançar objetivos que digam respeito à cúpula do poder político dos estados. Eles devem ser combinados a outros, como abaixo-assinados, audiências pú- blicas, possível intervenção de políticos com mandato simpáticos à causa, panfletagem, petições online etc.
Mas, como a história dos movimentos sociais demonstra, é de grande ingenuidade avaliar o sucesso ou não de determinadas lutas apenas a par- tir das vitórias ou derrotas imediatas. Conforme Downing (2004, p. 171), “o elemento tempo é muito óbvio. Seríamos cegos ao impacto dessas ativida- des de comunicação radical se as avaliássemos somente com base no curto prazo”. Um dos exemplos dados pelo autor para sustentar esta ideia é a ação das Mães da Praça de Maio, na Argentina. Um “trabalho de formiguinhas”, durante anos a fio, de extrema força simbólica e que rendeu frutos mais de uma década depois, com a série de julgamentos e condenações de líderes e carrascos da ditadura argentina. A experiência de vida em comum, durante quase dois meses de ruptura no funcionamento de uma instituição federal, não apenas foi vivida intensamente por eles como ainda pode contagiar seg- mentos sociais semelhantes em outras situações de conflito.
A ocupação, enquanto repertório que busca um objetivo num quadro de confronto político, existe para atingir determinado fim. Mas durante o de- correr da sua existência, enquanto persegue seu alvo, ela funciona como uma espécie de micorocosmo de experimentos de democracia direta, com outros códigos e regras. Uma esfera pública alternativa de questionamento constan- te aos valores da sociedade atual e de autoquestionamento. Então, mais até do que um repertório eficaz para atingir seu fim – seja lá qual for –, as ocu- pações devem ser avaliadas pela ousadia política dos mecanismos internos que a põem em funcionamento. Uma experiência de vida em sociedade que procurar eliminar de seu cotidiano os mais remotos traços daquilo que criti- cam, valorizando o afeto, a opinião de cada um, o viver em comum como um paradigma que suplante a competição individual. Uma esfera pública alter- nativa sem hierarquias, onde predomina a racionalidade, a argumentação, a discutibilidade. Um espaço de exceção onde se produz comunicação pública.
Manifestações de 2013 no Jornal Nacional e no Repórter Brasil
Tiago Gautier
Introdução
Há pouco mais de três anos, no inverno de 2013, o Brasil saiu às ruas.
No início, eram protestos isolados. Estudantes e movimentos sociais re- clamavam do aumento do preço e das condições do transporte público nas grandes cidades e convidavam os demais cidadãos, que observavam o movimento das paradas de ônibus e das janelas dos prédios, a se juntar a eles. Em poucas semanas, o protesto transformou-se em uma mobilização de grande proporção. Milhões de pessoas saíram às ruas, em centenas de cidades do país e novas questões foram acrescentadas à pauta. Instituições políticas tradicionais foram questionadas: estado, partidos políticos e in- clusive a mídia.
Os tempos são outros. Uma reconstrução rigorosamente científica da transformação política e econômica do Brasil nesse período extrapola em muito o objeto desse artigo. As relações entre Estado, governo e mídia, em especial a mídia pública, também são outras. Os arranjos institucionais se transformaram. O que resta desse trabalho, realizado originalmente em forma de dissertação (Gautier, 2015), é o registro de duas maneiras de fazer telejornalismo. O tema dessa pesquisa, a saber, os modos pelos quais o te- lejornalismo é capaz de abordar e explicar um acontecimento, construindo sentidos diversos sobre ele, assim permanece.
Presente em todas as mídias, o texto jornalístico apresenta-se através das diferentes linguagens dos meios em que está presente. A linguagem televisiva é notável tanto pela riqueza de sentidos que produz, misturando imagem, texto e som, quanto pela dimensão política e social que seu al- cance representa. A tela é um quadro e o que ela mostra vai muito além da tecnologia que lhe serve de suporte. Das várias articulações possíveis entre os fatores jornalismo e televisão, surgem formas de classificação que são
objeto desse trabalho. A respeito ao modo como são geridas as televisões e da finalidade de seu conteúdo, se pode falar em pelo menos dois tipos de TV. O primeiro é o modelo através do qual a maior parte das emissoras brasileiras foi criada e mantida nas últimas seis décadas: a televisão de ex- ploração comercial. A segunda só começa a se consolidar no Brasil já no início desde século: a televisão pública.
Uma pergunta sintetiza o problema de pesquisa deste trabalho: como estes dois modelos distintos de televisão construíram sentidos sobre um acontecimento da dimensão do conjunto de eventos que movimentou as ruas do Brasil em junho de 2013? Uma das hipóteses levantadas é que as diferenças entre eles refletem-se de alguma forma nas diferenças na cons- trução dos sentidos que marcam o conteúdo de ambas.
Trata-se de uma relação entre duas coberturas telejornalísticas sobre o mesmo acontecimento. Uma, do principal telejornal da maior emissora de televisão de exploração comercial em dimensão e alcance. Trata-se do Jornal Nacional, programa diário exibido pela TV Globo desde 1969. A segunda é da TV Brasil, que desde a sua criação, em 2008, é a única televi- são pública de alcance nacional. Seu telejornal diário noturno, o Repórter Brasil, também cobriu as manifestações de junho de 2013, bem como a resposta do poder público aos manifestantes.
O objetivo geral deste estudo foi compreender os enquadramentos construídos nas coberturas do Jornal Nacional e do Repórter Brasil em re- lação às Manifestações de junho de 2013 e também às consequências polí- ticas dos protestos, uma vez que o acontecimento público pressupõe efeitos sociais e políticos que também os constituem. Isto é, identificar as interpre- tações construídas por cada um dos telejornais para estes acontecimentos, que sentidos são enfatizados e quais as diferenças e aproximações entre uma cobertura e outra.
A base teórica da análise envolve três eixos. O primeiro, dedica-se às relações entre comunicação e política e também à comunicação pública en- quanto processo de circulação de informações acerca de temas de interesse público, a partir de sistemas de comunicação, resultando no estabelecimen- to de redes direcionadas ao debate (Weber, 2007). O conceito fundamental desta perspectiva é a ideia de esfera pública enquanto espaço de debate público e também de disputa por visibilidade e poder (Habermas, 1984;
Gomes, 2004; 2008; Esteves, 2011).
O segundo eixo, dá conta do telejornalismo (Squirra, 1993; Vizeu, 2005; Hagen, 2009; Rezende, 2010) enquanto tipo de conteúdo midiático resultante da combinação dos princípios, práticas e do caráter discursivo
do jornalismo (Berger, 2003; Fontcuberta, 2011; Traquina, 2004; Francis- cato, 2005) com a linguagem, a abrangência e o significado social e político da televisão (Weber, 2000; Aldé, 2001; Machado, 2001; Duarte, 2006; Mar- tins, 2006; Mattos, 2010; França, 2012). Quanto ao tipo de sistema em que a televisão se configura na prática, a este trabalho interessa especialmente a problemática da televisão pública (Leal Filho, 1997; 2008; Rincón, 2002;
Guareschi, 2013) enquanto política pública voltada à satisfação do direito humano à comunicação, centrada na cidadania e na valorização das cultu- ras nacionais e locais.
Finalmente, a terceira parte da argumentação teórica diz respeito ao acontecimento, e ao acontecimento jornalístico em especial (Charaudeau, 2006; Alsina, 2009; Berger; Tavares, 2010). Dentre as características deste fenômeno, importa especialmente a sua capacidade de tematizar proble- mas de caráter público, acionando mídia, sociedade e política. O tipo de acontecimento que privilegia esta relação é definido como acontecimento público (Quéré, 2011; Coelho, 2013).
A principal metodologia escolhida para a realização desta pesquisa foi a análise de enquadramento. O conceito teórico-metodológico orien- tador da análise foi, portanto, o conceito de enquadramento, entendido como quadro de sentido a partir do qual se compreende um fenômeno, implicando sua caracterização e a avaliação de suas causas, consequências e soluções, a partir de processos de ênfase, saliência, repetição e associação (Goffman, 1986; Entman, 1993; Scheufele, 1999; Aldé, 2001; Porto, 2004;
Fabrino; Simões, 2012).
A análise envolve um corpus de 14 edições, sete do Jornal Nacional e sete do Repórter Brasil, correspondentes aos dias em que aconteceram eventos que marcaram o desenvolvimento das manifestações de junho de 2013: 13/06/2013; 20/06/2013; 21/06/2013; 22/06/2013; 24/06/2013;
25/06/2013; e 26/06/2013. Estas edições foram obtidas via sites das emis- soras respectivas na internet, já fragmentadas em vídeos, totalizando 383 fragmentos, dos quais 25 – 12 do Repórter Brasil e 13 do Jornal Nacional – foram selecionados para a análise em profundidade de seus enquadra- mentos, a partir do seguinte critério: a reportagem e o link ao vivo de maior duração exibido em cada edição, sobre o assunto manifestações ou temas relacionados, sendo que uma das edições do Jornal Nacional (20/06/2013) não apresentou nenhuma reportagem e duas edições do Repórter Brasil (22 e 24/06/2013) não apresentaram nenhum link ao vivo.