O intuito foi o de reconhecer a vida em toda sua amplitude, complexidade e parte integrante dos processos de pesquisa e, principalmente, as valorosas contribuições dos próprios a(u)tores envolvidos nesses processos. Foram os alunos da EJA que permitiram o desabrochar desse conceito insurgente. São eles a inspiração e os inspiradores do que se tornou referência viviográfica e, posteriormente, a Viviografia, um embasamento por experiência, a partir das narrativas de vida e formação.
alunos entendam os aspectos da produção, da recepção e da circulação da literatura, assim como seu ensino.
Ancorada nas ideias de Street, Zappone (2008) conceitua letramento literário como sendo um conjunto de práticas sociais que utilizam os diferentes domínios: textos literários, filmes, novelas, anedotas, contação de histórias, mídias, enfim, os vários domínios da vida. Para ela, a literatura interfere na vida das pessoas e em sua maneira de agir em sociedade. Destarte, é a partir dos diferentes domínios da vida associados à metodologia de Círculos de leitura literária (COSSON, 2014a) e o desenvolvimento de oficinas que se destacam os dispositivos de letramento literário propostos nessa pesquisa.
Círculo de leitura literária coletiva é “essencialmente o compartilhamento organizado de uma obra dentro de uma comunidade de leitores que se constitui para tal fim” (COSSON, 2014a, p. 158). Os Círculos de leitura possuem caráter formativo, propiciando aprendizagem coletiva e colaborativa. No item 3.4 deste estudo, apresentamos com mais detalhes essa metodologia e como ela toma forma no desenvolvimento desta pesquisa.
A relevância em se trabalhar com o literário enquanto função social é também destacada em documentos educacionais. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) afirmam que “o texto literário constitui uma forma peculiar de representação e estilo em que predominam a força criativa da imaginação e a intenção estética” (BRASIL, 1998, p. 26).
Já as Orientações Curriculares Nacionais (OCN) alertam que:
O letramento literário permite compreender os significados da escrita e da leitura literária para aqueles que a utilizam e dela se apropriam nos contextos sociais, o que aponta para outro aspecto que se deve destacar aqui: o dos espaços de leitura na escola. O projeto pedagógico com vistas à formação do leitor da Literatura deve incluir a estruturação de um sistema de trocas contínuo, sustentado por uma biblioteca com bom acervo e por outros ambientes de leitura e circulação de livros. A ampliação dos espaços escolares de leitura resultará, com certeza, na ampliação dos tempos, diga-se de passagem, exíguos de aulas de Literatura, além de possibilitar trocas menos artificiais, já que colaboram para a criação de uma comunidade de leitores tão importante para a permanência da literatura, sobretudo em contextos sociais que não dispõem de uma biblioteca pública e/ou livraria. (BRASIL, 2006, p.
80)
Dessa forma, o principal objetivo do letramento literário escolar ou do ensino de literatura na escola é formar leitores capazes de construir outros sentidos para si e para o mundo que os cerca através de uma experiência de leitura crítica e reflexiva do texto literário e para além dele. Na EJA, como também em outros segmentos, as contribuições do letramento literário
se fundem às múltiplas experiências de vida e colaboram tanto para uma ampliação do conhecimento de mundo do aluno, quanto no que se refere às percepções, digamos que mais poéticas, literárias e literais, de suas próprias histórias de vida.
Acreditamos que o desenvolvimento do letramento em seus aspectos gerais, principalmente na modalidade EJA, beneficia a apropriação das práticas sociais letradas por parte dos estudantes, com vistas à inclusão social, acesso aos bens culturais e recursos tecnológicos e inserção no mundo do trabalho.
2.8.1 Letramento em EJA
“O sujeito da EJA não é um aluno que trabalha, mas um trabalhador que estuda.”
(Jane Paiva em Webinar de lançamento do GRALE 4- 4º Relatório Global sobre Aprendizagem e Educação de Adultos)
Principalmente quando se trata de letramento em EJA, convém advertir que letramento e alfabetização não são sinônimos. Kleiman (2005, p. 11) explica que “letramento não é alfabetização, mas a inclui!” Letramento pressupõe alfabetização, porém o contrário não é condição, muito embora possa vir a ser. Soares (2012) colabora ao dizer que alfabetizado não é necessariamente letrado, sendo este último alguém que, além de saber ler e escrever, faz uso social e competente da leitura e da escrita em seu dia a dia, tornando-a própria, assumindo-a como propriedade.
Dentro da perspectiva da função social, de acordo com Evaristo (2007), o ato de ler oferece uma apreensão do mundo e o de escrever ultrapassa os limites de percepção da vida, pressupondo um dinamismo próprio e proporcionando auto inscrição no interior do mundo.
Para a autora, escrever acaba por adquirir um sentido de insubordinação.
Para Soares (2012), em termos sociais e culturais, a pessoa letrada não é a mesma que era quando alfabetizada ou iletrada. A pessoa experimenta uma outra condição social e cultural, não quer dizer que se trate propriamente de mudar de nível ou de classe social, cultural, mas sim de mudar seu lugar social, sua maneira de viver na sociedade e sua inserção na cultura. A forma de relação com os outros, com o contexto e com os bens culturais passa a ser diferente.
O processo de letramento nas ações escolares é de extrema relevância, com destaque para o público-alvo deste estudo que são os alunos da EJA já alfabetizados, mas que aspiram
por uma aprendizagem voltada para as suas realidades, suas práticas sociais. Kleiman (2012, p.
25) assegura que o ensino na EJA é particularmente difícil, pois inserir esses alunos “nas práticas letradas dominantes, mais valorizadas, configura-se também em uma questão política, em função do preconceito e grafocentrismo dos grupos sociais que a escola representa e dos quais é porta voz”. Conforme apontam Mollica e Leal (2009, p. 57), “os indivíduos jovens e adultos desenvolvem estratégias, ao longo da vida, pela experiência, advinda de necessidades básicas do mundo do trabalho, pela necessidade de interagir com os diferentes contextos sociais”.
Em Letramento em EJA, Mollica e Leal (2009) acentuam a necessidade de práticas educacionais pelo viés do letramento para turmas da Educação de Jovens e Adultos, por esta modalidade de ensino ser recebedora de sujeitos que ora estão na condição de discente nas salas de aula ora estão ativamente inseridos nas diversas atividades na sociedade. O perfil predominante do aluno da EJA é aquele que já se encontra inserido no mercado de trabalho, ou é responsável por sua família ou ocupante das mais variadas funções em instituições sociais.
De acordo com o Jovem Wellington (2021, r.v.), “a EJA é um tipo de ensinamento escolar que ajuda as pessoas que começaram a trabalhar cedo e não tiveram muitas oportunidades de estudo”.
Mollica e Leal (2009) distinguem letramento social de letramento escolar. O letramento social tem relação com a maneira como os alunos buscam dispositivos próprios e está associado ao conhecimento de mundo que o sujeito carrega; já o letramento escolar se refere aos saberes sistematizados, conteúdos disciplinares que a escola se propõe a ensinar. Para as autoras, ambos devem se inter-relacionar.
Consoante as teóricas supracitadas, “o comportamento dos alunos nos conduz a pensar que o conhecimento de mundo necessita ser complementado com as habilidades específicas aprendidas no espaço escolar[...]” (ibidem, p. 34). Elas consideram que a vivência não é suficiente para o cidadão se adequar, de forma satisfatória, ao mundo letrado e experimentar inclusão social plena. Assim sendo, ratificamos a proposta dessa pesquisa de diálogo entre saberes formais e informais.
3 METODOLOGIA
Alguns caminhos, dispositivos e abordagens foram considerados para iluminar saberes e para refletir ante os propósitos, as trajetórias e os achados deste estudo. O modo de ser da pesquisa e de sua pesquisadora junto aos seus colaboradores declaram a instauração de uma pesquisa-formação (JOSSO, 2010), dentro da perspectiva narrativa que não obedece a critérios lineares e pré-estabelecidos. Desta forma, insurge o conceito de Viviografia que reveste, habita e conduz a pesquisa como um todo.