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44 Vozes e silenciamentos em Mariana

Meio Ambiente, Política e Economia: uma difícil equação 45

Se o licenciamento atual ainda provoca polêmicas entre o setor público e o privado, pelo tempo exigido para seu processamento adequado ou por sua fragilidade, face às pressões das empresas, poderá ainda ficar pior. Isso porque algumas dessas etapas poderão ser excluídas, como pode ser observado nas Propostas de Lei (PL) e/ou Propostas de Emendas à Constituição (PEC) que tramitam no Congresso Nacional. Como exemplo, são citadas aqui duas delas: a PEC 65/2012 e a PL do Senado 654/2015.

Como ficou evidenciado no caso do rompimento da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana, controlada pela Samarco Mineração SA, o licenciamento ambiental ainda está longe de ser uma garantia de segurança. Dentre os problemas que emer- gem da lama, literalmente, neste caso, podemos citar a flagrante falta de fiscalização do planeja- mento proposto no Congresso Nacional para o licenciamento da obra.

As evidências apontadas pela Delegacia de Crimes contra o Meio Ambiente e o Patrimônio Histórico da Polícia Federal de Minas Gerais de que a barragem de Fundão foi mal construída, mal monitorada e usada acima de sua capacidade deixam claros os problemas relacionados à fiscali- zação e ao monitoramento do que foi planejado no licenciamento ambiental. Esses problemas constatados por especialistas, com base nos procedimentos previstos na legislação ambiental vigente e noticiada em reportagem do jornal Estado de Minas, em 9 de junho de 2016, poderão ser de difícil identificação, no futuro, se aprovados os projetos em curso, que atendem mais a inte- resses econômicos para agilizar etapas do licenciamento ambiental do que ao interesse público.

Isso porque as propostas que tramitam no Congresso não levam em consideração essas questões. Ao invés de aprimorar a regulação, pretendem flexibilizar o licenciamento ambiental, incorrendo no risco de pavimentar a estrada para que outros desastres ambientais, como o de Mariana, venham a ocorrer.

Senadores Romero Jucá, Renan Calheiros e Acir Gurgacz Foto: UOL

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A PEC 65/2012 e a PL do Senado 654/2015: flexibilização

A PEC 65/2012, de autoria do senador Acir Gurgacz (PDT-RO), foi aprovada na Comissão de Constituição, Cidadania e Justiça (CCJ) do Senado em abril de 2016, seis meses após a tragédia de Mariana e no decorrer do processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff. Em meio ao turbilhão de notícias sobre o processo de impeachment, a informação sobre a PEC 65/2012 apa- receu timidamente na imprensa brasileira, sem que a sociedade brasileira pudesse discutir seus impactos.

Nem mesmo o fato de a proposta ter retornado à CCJ em agosto do mesmo ano, após forte pressão de entidades ambientais, mereceu um tratamento mais amplo dos veículos de comunica- ção. Mas trata-se de tema importante para o País, pois propõe acrescentar um parágrafo ao artigo 225 da Constituição Federal, que dispõe sobre o direito ao meio ambiente ecologicamente equili- brado, impondo ao Poder Público e à coletividade o dever de preservá-lo. A redação do parágrafo adicional proposto diz o seguinte:

Art. 225. § 7º A apresentação do estudo prévio de impacto ambiental importa autorização para a exe- cução da obra, que não poderá ser suspensa ou cancelada pelas mesmas razões a não ser em face de fato superveniente. (BRASIL. Senado Federal, 2012)

Sem examinar a eficácia da proposta, o acréscimo desse parágrafo na Carta Magna abre caminho para extinção de licenças prévias de instalação e operação, bastando apenas que se apresente o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) por parte do empreendedor para a liberação da obra. E mais: se aprovada a PEC, depois de iniciadas as obras, mediante apenas a apresentação do EIA, não será mais possível paralisá-las.

O que também chama a atenção para a PEC 65/2012 é a justificativa do senador Acir Gurgacz de que o licenciamento ambiental é a causa para o desperdício de dinheiro público em grandes obras. A proposta do senador, claramente de natureza política, não demonstra preocupação efe- tiva com o impacto de obras no meio ambiente, que é o objetivo atual do artigo 225. Fica claro, portanto, que em momento algum são apresentados argumentos técnicos ou questionamentos sobre o real motivo das paralisações de certas obras, que não seguem os ritos e o rigor necessá- rios para a obtenção do licenciamento ambiental, como foi o caso da barragem de Fundão, sob a responsabilidade da Samarco.

Já a PLS 654/2015, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR), nasce no contexto da chamada “Agenda Brasil”, conjunto de proposições de medidas legislativas apresentadas em setembro de 2015 pelo presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB-AL), com a justifi- cativa de melhorar o ambiente de negócios e enfrentar a crise econômica que o Brasil atravessa.

Porém, a receita do senador para fazer a economia brasileira voltar a crescer simplesmente des- considera por completo uma outra agenda, amplamente debatida mundo afora, a da sustentabi- lidade ambiental.

Meio Ambiente, Política e Economia: uma difícil equação 47

A proposta de Jucá prevê um ritmo acelerado para o licenciamento de grandes obras que o Governo Federal julgar estratégicas, como hidrelétricas, estradas, hidrovias, portos e linhas de transmissão e comunicação, reduzindo o processo atual que leva, em média, cinco anos para ser concluído para apenas cerca de oito meses. Pior: o projeto também não apresenta qualquer argu- mento técnico que valide sua iniciativa ou que aponte qual deve ser o tempo necessário para que os estudos de impacto ambiental sejam realizados.

No texto inicial, o autor incluía também as obras de “exploração de recursos naturais”, como é o caso de barragens de minério, como a que se rompeu em Bento Rodrigues. Porém, com os holofotes voltados para a tragédia ocorrida em Minas Gerais, o senador decidiu retirar esse item de última hora, antes de apresentá-lo aos demais integrantes da Comissão Especial do Senado.

No dia 25 de novembro de 2015, essa Comissão aprovou a proposta que depende, ainda, de vota- ção no Senado Federal.

Vale ressaltar que ambas as proposições fragilizam e extinguem uma parte importante do processo de licenciamento ambiental: a participação da população por meio de audiências públi- cas, em que são esclarecidas questões sobre a atividade com potencial de degradação ambiental.

Nessa etapa, a sociedade civil pode, inclusive, enviar propostas e solicitações que serão encami- nhadas ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

Sem dúvida, é desejável que o licenciamento ambiental seja aperfeiçoado. Mas, para que isso aconteça de forma coerente, é necessário que as informações sobre os processos sejam dis- cutidas em audiências públicas, circulem e ganhem mais espaço na mídia brasileira. Até agora, o que vemos é uma discussão que está restrita a poucos veículos, principalmente na mídia impressa e em alguns sites especializados.

No telejornal de maior audiência do País, que fez uma ampla cobertura do caso de Mariana, não há sequer menção às aprovações de tais propostas pelas comissões do Senado, como se pode constatar em uma pesquisa na página do Jornal Nacional, da Rede Globo. Falta aos meios de comunicação correlacionarem os temas, que estão intrinsecamente ligados. Sem informação, corre-se o risco de ampliar as possibilidades de novos desastres, como o de Mariana.

Trajeto da Tragédia

Foto: Rogério Santiago, convocatória ARFOC MG

CAPÍTULO 2

A VIDA ANTES