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Mulheres “vingativas” e provocadoras

No documento Alessandra Ranaldi-tese.pdf (páginas 153-156)

Parte II COMPOSIÇÃO PROCESSUAL E A MULHER FRENTE À

4.1 A moralidade como argumento

4.1.2 Mulheres “vingativas” e provocadoras

As mulheres acusadas que, no curso do processo, eram apresentadas pelos depoentes como “vingativas” e “provocadoras”, não eram tratadas de forma condescendente, na justiça.

A tendência era a de que fossem penalizadas e descritas negativamente, também, nos discursos jurídicos. Suas condutas não eram abordadas em função de sua moral sexual, mas de seu comportamento nas relações amorosas ou conjugais. Eram descritas em função da afetividade que devotavam ao companheiro e da maneira como executavam as tarefas domésticas. Nesses casos, o que estava em jogo era o ideal de comportamento feminino no âmbito das relações amorosas e conjugais.

Aos olhos dos profissionais, competiria à mulher dentro da esfera conjugal fazer concessões, ser submissa ao marido/ “amásio”, gerenciar o lar, ser uma companheira dedicada. Quando vítima de violência, por parte de seu companheiro, sua atitude deveria ser o silêncio. Deveria agir assim a fim de cautelosamente cessar a agressão e perpetuar os laços familiares202. As mulheres que se comportassem de forma “agressiva”, que revidassem a violência, que “vingassem” os maus-tratos sofridos por seus companheiros, eram predominantemente abordadas e avaliadas de uma perspectiva negativa pela justiça.

Os profissionais em questão entendiam, portanto, que a violência masculina era prática comum e até mesmo esperada dentro da esfera doméstico- conjugal. Ao mesmo tempo, pleiteavam a necessidade de que as relações amorosas ou conjugais fossem harmônicas. A perpetuação dessa harmonia, aos seus olhos, dependeria da ação feminina. A função da mulher seria evitar agressões, cumprindo todas as tarefas que lhe competia no lar, impedindo assim de ser “castigada” por não fazê-las. Além disso, não devia “provocar” o companheiro ou “revidar”, “agüentando calada” a fim de fazer cessar o conflito.

A representação presente era a de que, “agüentando calada”, a mulher manteria os laços conjugais. Revidando, acirraria o conflito, podendo abalar as bases destes vínculos e gerar conseqüências graves, como um crime, por exemplo. Estas idéias estão presentes em alguns processos, dentre eles, o que foi aberto para apurar o crime de Tereza de Sá Barreto203. No ano de 1898, depois de discutir com seu “amásio”, Roque Rangel, feriu-o com facadas.

Segundo os “autos”, o crime ocorreu como revide à agressão que ela e sua filha sofreram.

Sobre o fato, diz a promotoria:

202 Em um contexto histórico distinto Carrara, Vianna e Enne (2002) abordam a violência doméstica e retórica da

“defesa da família” no judiciário do Rio de Janeiro ao final da década de 1990.

203 Museu da Justiça, caixa 1219, n. 11892.

Ter Roque Rangel chegado em casa embriagado e ter começado uma altercação com a amásia e que ao invés de evitar discussão, ela buscou exacerbar a situação, mantendo discussão irritante e imprudente a ponto de lançar mão de uma faca e vibrar um golpe tão profundo em Rangel, que veio a falecer no dia seguinte, na Santa Casa de Misericórdia. Que o ofendido, pelo seu estado anormal (embriagado), não pôde se defender. A indiciada nega a autoria do delito e ainda mais pretende escapar à punição da lei, apegando-se à embriaguez no momento do crime[...] (Proc. M.J., caixa 1219, n. 11892, fl. 4).

Esta “denúncia” foi estruturada por meio da idéia de que uma mulher, frente às violências de marido/ “amásio” embriagado, deveria calar-se. Segundo a visão do promotor de justiça, Tereza não agiu de acordo com este padrão. De forma “irritante” e “imprudente”

acirrou o que poderia ser encerrado na esfera doméstica. Neste sentido, foi duplamente

“culpada”. Primeiro, por não ter sido capaz de suportar a violência, encerrando assim o conflito. Segundo, por ter cometido o delito propriamente dito. Falhou como companheira, cometeu um ato de “insubmissão”; falhou como cidadã, cometendo um delito.

Apesar desta imagem negativa, Tereza foi absolvida. Entretanto, o que promoveu sua absolvição foi a existência no processo da versão de que o ápice do conflito decorreu do fato de Roque ter agredido a filha da acusada. Frente a tal agressão, reagiu em defesa da filha. Na versão do delegado, na conclusão do inquérito, o ato criminoso foi provocado por Roque “que por motivos de vida privada, teve discussão com a amásia, passou às vias de fato, a agredindo e à sua filha menor.” (Proc. M.J., caixa 1219, n. 11892, fl. 18). Assim, como uma mãe zelosa

“Thereza, vendo sua pobre filha espancada, indignada, lançou mão de uma faca e feriu seu amasio” que deste ferimento faleceu, no dia seguinte. Assim pesou em termos do resultado final, mais a imagem de boa mãe do que a de amásia imprudente.

Considerações em torno da devoção e submissão feminina ao companheiro, também estavam presentes no processo de Maria Offemburger, acusada por ter jogado álcool e posto fogo em seu marido Guilherme Offemburger, no ano de 1929, enquanto este dormia204. Apesar de constar nos depoimentos de testemunhas e da vítima, a versão de que a ré era

“enferma mental”, os agentes do direito não incorporaram esta versão. Classificaram a ré de

“mulher vingativa” e julgaram-na por meio deste predicado. Não foi tratada como irresponsável, mas como uma mulher que por “ciúmes” e em respostas às agressões do marido, revidou de maneira “vingativa”, classificação que promoveu a condenação da mesma.

A respeito do que o levou à decidir sobre a condenação, o juiz responsável afirmou:

204 Arquivo Nacional, 6Z 13091.

Atendendo a que Maria Offemburger foi denunciada como incursa na sanção do artigo 303 do Código Penal porque na madrugada do dia 2 de maio de 1929[...]a indiciada, que vivia em constantes brigas com o seu marido, Guilherme Offemburger, por vingança, quando este dormia, despejou-lhe álcool sobre a cabeça, queimando-o, em seguida, como se verifica[...]

Atendendo a que foram observadas as formalidades legais e ao mais que dos autos consta: julgo procedente a denúncia de fls2 e condeno Maria Offemburger a 7 meses e 15 dias de juízo celular grão médio do art. 303 do Código Penal ( Proc.A.N 6Z 13091, fl. 70).

A fundamentação desta sentença foi estruturada pelo juiz por meio da representação universalista de que esposas não deveriam agir de forma violenta, acrescida de representação particular de o caso, em questão, dizer respeito ao ato de uma mulher de “temperamento vingativo”. Apesar de assim o fazer, o juiz pretendeu que sua decisão não fosse compreendida como produto da avaliação moral que fez da acusada. Para tanto, afirmou ter sua decisão decorrido da “confissão” que a ré fez na polícia. Tomou o depoimento do inquérito policial como “prova”.

Vale lembra que a validade desse tipo de “prova” era questionada no universo jurídico de então. Entendia-se que depoimentos e “confissões” na polícia, não tinham “valor de prova”, porque eram produzidos sem o “crivo do contraditório” (sem a presença de representantes de acusação e/ ou defesa).

Mulheres “vingativas”, portanto, não eram vistas com bons olhos pelos profissionais do direito, daquela época. Ao avaliarem-nas não construíam ordens de positivações possíveis para seus atos. Viam-nas de maneira oposta e simétrica às criminosas por honra. Estas eram pensadas como preocupadas com os laços sociais, aquelas com seus desejos individuais, não levando em conta nem mesmo a importância da preservação dos vínculos conjugais.

Estas questões levam à consideração de que entender e desculpar a violência feminina dependia da tessitura do estado moral e emocional das rés. Nos casos em que descreviam seus atos, através da idéia de uma “nobreza moral”, eram vistas de forma condescendente. Nas situações em que entrava em jogo as alterações emocionais como quebra de ordens morais, como por exemplo, agir de forma vingativa contra o marido, acabavam penalizadas.

No documento Alessandra Ranaldi-tese.pdf (páginas 153-156)