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NÍVEL NARRATIVO

No documento Scripta Alumni - Curitiba (páginas 73-77)

Assumidos os valores estruturantes, entramos na segunda etapa do percurso, a do nível das estruturas narrativas, em que alienação e pertencimento “circulam entre sujeito graças à ação também de sujeitos” (BARROS, 1990, p. 11). O nível narrativo estabelece relações entre determinado objeto e um sujeito, a fim de enunciar a que ele é condicionado a partir da ação que realiza e que sofre na narrativa mínima. É a relação transitiva entre esses dois actantes que sustenta a tensão presente no conto.

Em semiótica, narrativa mínima é a transformação de estado sofrida pelo sujeito da ação (FIORIN, 1999). No caso de Felicidade, é dizer até que ponto a alienação do aniversariante Edgar (S1) transforma-se em pertencimento, com base nas ações que realiza.

Para determinar os tipos de investimentos necessários para que Edgar alcance o valor de pertencimento, é preciso identificar de qual objeto ele está disjunto.

O objeto, enquanto objeto sintático, é uma espécie de casa vazia, que recebe investimentos de projetos e de determinações do sujeito (...). Os investimentos fazem do objeto um objeto-valor e é, assim, por meio do objeto que o sujeito tem acesso aos valores. (BARROS, 1990, p. 19, ênfase no original)

O objeto-valor de Edgar é, num sentido simbólico, a festa. Uma festa, via de regra, possui valor narrativo eufórico. Em Felicidade, seu valor é disfórico: o sujeito da ação, embora fisicamente presente, encontra-se psicologicamente distante. O caminho para entrar em conjunção com este objeto- valor imaterial é encontrar o estado de espírito adequado para o acontecimento festivo.

Depois de soprar as velas, Edgar é confrontado pela esposa e pelos convidados, que insistem que ele faça um discurso. S1 (Edgar) sofre a ação de S2, sujeito composto pela esposa e convidados, que espera sua passagem ao estado eufórico de pertencimento. No sintagma elementar, um enunciado de fazer (Edgar precisa agir para estabelecer uma relação eufórica com seu objeto-valor) rege um enunciado de estado (Edgar sente-se deslocado da festa).

Scripta Alumni Curitiba, Paraná, v. 25, n. 2, p. 1-180, jul.-dez. 2022. ISSN: 1984-6614 eISSN: 2676-0118 https://revista.uniandrade.br/index.php/ScriptaAlumni/index Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution 3.0 .

Quando um sujeito atribui a outro a necessidade de realizar uma performance, identificamos a fase da competência, na qual S1 adquire um dever-fazer, e S2 desempenha o papel de destinador-manipulador.

O papel do destinador-manipulador no percurso narrativo é o da

“atribuição de competência modal (...) o destinador doa ao destinatário-sujeito os valores modais do querer-fazer, do dever-fazer, do saber-fazer e do poder-fazer

(BARROS, 1990, p. 28, ênfase no original). A manipulação, própria do processo comunicativo, diz respeito à agência de um sujeito em relação a outro. Os tipos mais frequentes de manipulação são por tentação, intimidação, sedução e provocação (FIORIN, 2005).

Em Felicidade, a manipulação assume uma dinâmica ambivalente, como veremos a seguir.

(...) escutou seu nome suavemente e era ela sorrindo e dizendo fale alguma coisa querido e alguém atrás dele disse cadê o discurso e todos agora estavam em silêncio de novo olhando para ele e sorrindo e esperando que ele falasse alguma coisa e ele passou a mão nos lábios sorrindo e olhando para o chão e pensando o quê que ia falar se não tinha vontade de falar a ninguém ali e se não tinha nada para falar e então olhou de novo para a mulher e ele estava pedindo socorro e ela estava sorrindo e esperando que ele falasse pois era o seu aniversário e os convidados estavam ali e ele tinha soprado as velas e haviam cantado parabéns pra você e agora era hora de ele falar qualquer coisa (...). (VILELA, 1985, p. 53-54, ênfase no original)

Quando “alguém” atrás de Edgar pergunta “cadê o discurso”, trata-se de uma provocação, que coloca uma expectativa em relação ao destinatário. Edgar reluta em aceitar seu dever-fazer, buscando na esposa uma espécie de autorização para um não-dever-fazer. Estabelece comunicação visual, mas percebe que ela era “apenas um rosto sorrindo” (VILELA, 1985, p. 53).

A esposa, que desempenha a função de agente mobilizadora, é a única personagem que pertence à intimidade do aniversariante. Esta intimidade é legitimada pelo uso do vocativo “querido” e do advérbio “suavemente”, modo como pronuncia o nome de Edgar. Não obstante, ela se mostra tão estranha ao aniversariante quanto qualquer dos convidados. Seu anonimato no texto contribui com essa noção de afastamento. Ao usar a voz imperativa para pedir que Edgar

“fale alguma coisa”, a esposa intimida o marido e filia-se ao mesmo campo axiológico dos convidados.

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(…) [A esposa], que organizou a tal festa, vale-se de sua própria concepção de felicidade, acreditando que seu marido também comungaria de tal visão. [Edgar], apesar de não desejar tal situação e estar em meio a um conflito interno amedrontador, vê-se em meio às cobranças implícitas da mulher, confessadas pela troca de olhares, tentando convencê- lo de que ele precisa discursar por ser o papel social que lhe cabe naquele momento. (DUPONT, 2017, p. 107)

Edgar adquire, a contragosto, a competência de um dever- fazer. Embora ninguém esteja o obrigando a fazer nada, o próprio sujeito sente a pressão do dever-fazer, implicada no contexto social: determinado comportamento é esperado por parte do aniversariante em razão da circunstância festiva.

S2 (destinador-manipulador) fica em silêncio. Tudo indica que S1

(destinatário) não conseguirá evadir-se à competência adquirida. Para estar em conjunção com o valor eufórico tomado como referência na oposição de nível fundamental, sua transformação depende da realização da performance, da interação discursiva com os convidados. No entanto, a ação que de Edgar se espera, a verbalização de sua alegria, torna-se numa completa inação: ele esfrega os lábios com as mãos, sente que não tem nada para dizer. Sua cabeça gira, uma sensação de desmaio o acomete. Quando Edgar abre a boca para falar, uma criança tosse, pessoas conversam em paralelo e as palavras lhe escapam.

Embora tenha esboçado realizar a performance, Edgar esbarra na impotência de um não-poder-fazer. A esposa pergunta se o aniversariante está se sentindo bem. Em seu lugar, um convidado chega a justificar sua falta de palavras, dizendo que “é a emoção” (VILELA, 1985, p. 54). S2 assume a função de destinador-julgador, emitindo uma sanção, um parecer sobre o não-fazer.

Constata-se uma divergência no modo como as ações compartilhadas pelos sujeitos envolvidos na narrativa são experienciadas, na medida em que a efusão crescente de S2 vai drenando sucessivamente toda e qualquer possibilidade de alegria de S1.

Os mesmos acontecimentos entram simultaneamente em duas lógicas narrativas antagônicas. Os elementos essenciais de um conto têm dupla função e são empregados de maneira diferente em cada uma das duas histórias. Os pontos de interseção são o fundamento da construção. (PIGLIA, 2017, p.

90)

A mera presença dos convidados contra a vontade do anfitrião delata o controle que S2 exerce sobre a situação. Na continuação da cena, Edgar se depara com um amigo a contar uma piada, e tenta restabelecer seu poder-fazer. Ri

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por cortesia, antes do término da piada. O interlocutor questiona se Edgar já tinha entendido o final antecipadamente. O destinador-julgador entra outra vez em ação, indagando a propriedade do riso do destinatário. A piada é contada até o fim. Todos riem, exceto Edgar, que perdeu o começo e ficou sem entender. Passam a perguntar se Edgar não achou graça da piada. As declarações interrogativas enfatizam a autoridade do destinador-manipulador como intermediário da transformação de S1.

Para contornar a situação, Edgar pensa em, por sua vez, também contar uma piada, mas sua ansiedade ocasiona um lapso de memória. A piada demora a surgir em sua cabeça, e quando Edgar chega a balbuciar algumas palavras, a atenção do grupo se esvai e os convidados se dispersam.

Enquanto convidados e esposa encontram-se à vontade, detentores do valor pertencimento, almejado pelo aniversariante, Edgar configura- se como sujeito virtual: quer ou deve fazer, mas não pode. O sujeito virtual é aquele que desacredita da possibilidade de realizar a conjunção esperada. O fazer, restrito à esfera do imaginar, nunca progride a um fazer concreto, consolidando um não-poder-fazer.

Edgar dissimula seu não-poder-fazer em nome da boa convivência. Ao rir de uma piada mesmo sem ter entendido, revela-se um simulacro mentiroso, que parece, mas não é.

(…) riu também e falou que aquela era boa mesmo e o outro falou você já manjou o fim? e ele respondeu claro e os outros da roda olharam para ele com admiração e incredulidade porque não tinham manjado o fim e ele então prestou atenção mas não tinha escutado o começo e quando a piada acabou ele não entendeu e estavam todos morrendo de rir e um perguntou se ele não tinha gostado mas ele falou eu já estava manjando o fim e sorriu e achou que seria bom contar uma piada também mas não se lembrava de nenhuma e pensou com medo e quase desespero que iam contar outras piadas e ele teria de rir e não estava com vontade nenhuma de rir (...).

(VILELA, 1985, p. 55, ênfase no original)

Os programas narrativos correlacionados em Felicidade são

“programas de privação” (BARROS, 1990, p. 22). As performances permanecem inexequíveis, repetidamente frustradas, agravando a alienação de Edgar.

O aniversariante não pode escapar à festa, que transcorre em sua homenagem. Sua saída é uma reclusão temporária no banheiro.

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(...) trancou-se no banheiro e sozinho sentado na quina da banheira olhando para a porta trancada e pensando que pelo menos durante alguns minutos não teria de sorrir ou de falar ou de apertar a mão de alguém ele [Edgar] pela primeira vez naquela noite sentiu um pouco de felicidade. (VILELA, 1985, p.

55)

O excerto sustenta a escolha da oposição semântica alienação versus pertencimento, em lugar de tristeza versus felicidade. A felicidade sentida por Edgar é insustentável, posto que próxima da não-felicidade. Resta que Edgar confunde uma pequena sensação de alívio com felicidade.

Numa de suas asserções holísticas a respeito do conto, Piglia observou que “há algo no final que estava na origem, e a arte de narrar consiste em postergá-lo, mantê-lo em segredo, até revelá-lo quando ninguém o espera”

(PIGLIA, 2017, p. 107). Em Felicidade, o substantivo abstrato que, a partir do título, inaugura o conto, também é a palavra derradeira, criando um ouroboros do sentimento inatingível.

Vilela utiliza procedimentos discursivos para desnortear o leitor, enredando-o no turbilhão de sensações experimentadas por Edgar. O desfecho é adiado até o limite do ponto de não retorno. Quando se consuma, instaura a ironia e deixa reverberar uma série de incompreensões. Queremos saber mais sobre o personagem central, mas só podemos conjecturar aquilo que constituiria sua realidade interior a partir de um breve recorte de sua vida. É possível presumir que a origem de seu descontentamento seja pregressa ao narrado, mas não se pode precisar se sua infelicidade é causada pelo evento do aniversário ou por um estado anterior, causador da apatia demonstrada por suas (in)ações.

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