1.3 Os frutos
1.3.1 O bispo da rua
A Arquidiocese de São Paulo apresentava desafios pastorais e sociais que requeriam um governo mais articulado. Ciente disso, Dom Paulo Evaristo Cardeal Arns (1921), então arcebispo de São Paulo, pedira à Santa Sé mais dois bispos auxiliares. Entre os dois nomes propostos, estava o do jesuíta Padre Luciano Mendes de Almeida, escolhido por Paulo VI como bispo titular de Turris in Proconsulari e auxiliar da Arquidiocese de São Paulo., em fevereiro de 197675.
“In nomine Iesu” rezava o lema episcopal do novo bispo jesuíta, cuja pauta serviçal despontou desde o primeiro pronunciamento na Catedral da Sé:
Meus irmãos, no dia de minha ordenação episcopal, renovo a oferta de minha pobre vida ao Pai, em união com Jesus Cristo ao serviço dos irmãos.
Venho como quem serve, desejoso de colaborar ainda mais com os que já trabalham na vinha do Senhor, continuando a missão do próprio Cristo, mandado pelo Pai sob a ação do Espírito Santo, para revelar seu amor, fonte de vida para todos os homens76.
74 A expressão é do teólogo Giovanni Moioli que explica: «O Espírito Santo, que é o Espírito de Cristo, torna o homem espiritual memória de Cristo. Memória, porém, não quer dizer repetição. [...] A memória não é isso, expressa, ao invés, a historicidade da experiência do cristão. O cristão é memória, aqui e agora, feito assim, nesse mundo, conforme a própria vocação e a própria modalidade. É memória de Cristo nesse tempo e para esse tempo» (MOIOLI, L’esperienza spirituale, p. 33. Tradução nossa).
75 O outro era o Pe. Antonio Celso Queiroz, do Clero de Campinas e então subsecretário da CNBB. O processo para chegar à finalização da eleição episcopal dos dois encontrou alguns empecilhos
“curiais”, sucessivamente superados pela confiança depositada pelo próprio Paulo VI, no então Arcebispo de São Paulo (cf. ARNS, Da esperança à utopia, p. 227).
76 ENJ 42. Estas palavras foram pronunciadas durante a cerimônia de Ordenação Episcopal, ocorrida na Catedral da Sé, em São Paulo, no dia 2 de maio de 1976.
31 O seu pastoreio realizou-se na área mais desvalida do leste de São Paulo, a região Belém77, cujas numerosas contradições sociais a tornavam um ingente desafio pastoral. Uma missão, portanto, entre os mais empobrecidos do território paulistano.
Gustavo Gutiérrez (1928) nos recorda que a pobreza corresponde à morte e que o compromisso cristão, animado pela fé e pela esperança, sobretudo, quando se encontra mais próximo da realidade oprimida pela injustiça, não admite elucubrações artificiais sobre a Ressurreição de Jesus78. Nesse sentido, o “reino de morte” da região Belém não deixava muita escolha a quem quisesse seguir as pegadas libertadoras de Jesus (cf. Mt 15,29-31; At 10,38b).
Em entrevista à Folha de São Paulo, Dom Luciano explicou que:
De duas uma: ou você blinda a porta de casa ou entra em comunhão com eles. Esta é uma exigência do lugar, uma região pobre, desativada da cidade.
Os que me procuram não têm mais a quem recorrer. Os serviços sociais do Estado são limitados79.
O cristianismo não permite neutralidade diante dos empobrecidos. Antes impele, por razões cristológicas, a optar por eles, buscando caminhos de libertação80. E Dom Luciano fez sua opção. Ao espaço confortável de um palácio episcopal, preferiu o risco da rua.
A rua é um lugar grávido de paradoxos. É o espaço do encontro e, também, da indiferença. Nela, a paz e a violência reivindicam seu domínio. A rua é o limiar limpo da casa dos ricos, mas também é a “casa” suja dos sem-teto. Além disso, sabemos que desempenhou papel importante na práxis libertadora de Jesus, favorecendo os tantos encontros com marginalizados e necessitados de curas (cf. Mc 5,1-13.21-34; 6,53-56; 7,31-35). O próprio Filho do Homem se apresentou como um “Messias de rua”, aquele que “não tem onde reclinar a cabeça” (cf. Lc 9,58). Seu estilo missionário foi marcado pela itinerância (cf. Lc 8,1; Mt
77 Naquela época, a Região Belém contava cerca de 1.200.000 habitantes.
78 Cf. GUTIÉRREZ, Onde dormirão os pobres?, p. 60-61.
79 KOTSCHO, O bispo dos miseráveis, p. 22.
80 Jesus proclamou sua missão nestes termos: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor » (Lc 4,18-19).
32 9,35), pela provisoriedade, enfim, pela falta de estabilidade e proteção (cf. Mt 8,20). É, justamente, isso que ele propõe a quem se coloca ao serviço do Reino (cf. Lc 9,57-62)81.
Dom Luciano optou por esse mesmo procedimento da práxis de Jesus, madrugando ao lado dos marginalizados, os únicos a saberem, sempre, onde encontrar seu bispo. O “bispo da rua” tinha sempre tempo para visitá-los nos hospitais ou para servir-lhes uma sopa quente, à noite. Com eles, trocava até sua cama pelo chão82.
Muitos o viram andar pelas praças e ruas, noite avançada, depois de um dia exaustivo, com um saco de cobertores à mão, cobrindo os mendigos com cuidado extremo para não acordá-los83.
Como Jesus, também Dom Luciano, por ter privilegiado o povo de rua, pôde conhecer de perto o sofrimento desse povo, sobretudo, da população dos cortiços e dos que buscavam uma digna moradia no “Belezinho”84. Além disso, a rua envolvia-o numa experiência nova, a dos protestos pacíficos ao lado de seus pobres, clamando por justiça85. Das páginas da Folha de São Paulo questionava:
Acabo de passar pela favela do Tatuapé. Os barracos estão sendo removidos, apesar da chuva e da lama. Para onde vão estas crianças? Será que a inteligência dos homens do governo não poderia enfrentar, com mais eficácia e humanidade, o problema dos cortiços e favelas?86
A rua colocou o bispo jesuíta, também, em contato direto com o mundo da marginalização juvenil, com os que ele mesmo apelidava de “filhos da rua”87. Eram meninos e meninas com histórias, quiçá, diferentes das que tinha escutado no Instituto Gabelli de Roma, mas portadoras da mesma amargura. Tal situação constituía, para Dom Luciano, a maior chaga social do Brasil, que teria gerado pessoas incapazes de colaborar para a
81 Cf. SOUZA-AUGUSTA, O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça, p. 83.
82 Cf. ARNS, Da esperança à utopia, p. 267; EDD 201.
83 MOREIRA, Dom Luciano: um homem de Deus, p. 166.
84 Em artigo escrito para a Folha de São Paulo, Dom Luciano descreve perfeitamente o perfil da população de rua. Tal capacidade provinha não de um conhecimento teórico, mas de uma convivência constante com os sofredores que ele visitava (cf. ALMEIDA, Sofredores de rua, p. 2).
85 Cf. KOTSCHO, O bispo dos miseráveis, p. 22; EDD 275-282; ALMEIDA, Condomínio popular, p.
2. Certa vez chegou a ser apedrejado durante uma manifestação, mas proibiu ao seu povo de responder com a violência e mediou as negociações (cf. EDD 279).
86 ALMEIDA, “Ação de Natal”, p. 2.
87 UPP 66. Tradução nossa.
33 construção de uma nova sociedade88. Para nosso bispo, os inúmeros menores sem família tinham o direito de experimentar a existência de uma comunidade de irmãos e irmãs em busca de soluções humanas e solidárias para a situação deles89 e os menores infratores precisavam ser dispensados de qualquer forma de violência física ou verbal90. Em função disso, com o apoio de Dom Paulo Evaristo Arns, fundou, em 1977, a Pastoral do Menor na Arquidiocese de São Paulo91.
A rua, finalmente, foi o altar da proximidade entre Dom Luciano e os abandonados deste mundo. Sobre “aquele altar” se consumou o sacrifício da caridade, através do fogo do serviço. Ousamos afirmar que foi, justamente ali, na rua, que nosso bispo jesuíta celebrou, constantemente seu culto ao Pai, priorizando os últimos de seus filhos (cf. Is 58,6-7;
Pr 17,5; 19,17).
Dom Luciano compreendeu, perfeitamente, que Deus se faz amar no próximo (cf.
Mt 25,31-46), em cujo caminho, à luz da parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10,29-37), o cristão deve-se pôr. À luz desta experiência pessoal, o bispo da rua postulava:
“Continuaremos, como na parábola de Cristo, passando ao lado do desvalido?”92. Com efeito, é justamente a conversão ao ser humano oprimido que permite se situar na perspectiva do Reino (cf. Mt 19,21), para vivenciar uma espiritualidade libertadora (cf. Is 61,1-2), musicada pelas notas da solidariedade (cf. Lc 12,33-34). Uma solidariedade, porém, não genérica e fria, mas com pessoas concretas, exigindo entrega e capacidade de aproximação (cf. Mc 6,37)93.
88 Cf. ibid., p. 65–66. Do jornal Folha de São Paulo, Dom Luciano lança seu apelo em favor dos menores: «Trata-se de captar, de uma vez para sempre, que os menores não são causas da situação de carência, mas vítimas da própria sociedade que não está organizada para valorizar, acolher e promover a criança e a dignidade da pessoa humana. [...] Optar pelo menor é subordinar a dimensão econômica e política à dignidade da pessoa humana» (ALMEIDA, O encontro ecumênico do menor, p. 2).
89 Cf. UPP 90; ALMEIDA, Menores de rua, p. 2; id., Educadores novos, p. 2; id., Quinta Festa do Belém, p. 2; id., Crianças brincando na praça, p. 2; id., Direitos do menor, p. 2.
90 Cf. id., Direitos Humanos, p. 2; id., A serviço do menor infrator, p. 2; id., Direitos do menor, p. 2;
id., Por que morrer tão cedo?, p. 2.
91 A Arquidiocese de São Paulo, graças à perspicácia de Dom Paulo Evaristo Arns e à eficiência de Dom Luciano Mendes, foi pioneira no trabalho junto aos menores, desde 1977. Só a partir da Campanha da Fraternidade de 1987, a Pastoral do Menor tornou-se uma experiência que envolveu a Igreja toda no Brasil. O projeto pretendia conscientizar a sociedade toda sobre o cuidado com os menores desfavorecidos (cf. APPY, Pastoral do menor em São Paulo, p. 155 – 156; AZZI, A Igreja e o menor, p.177).
92 ALMEIDA, Em favor dos enfermos, p. 2.
93 Cf. GUTIÉRREZ, Teologia da libertação, p. 250-259; id., Beber em seu próprio poço, p. 129.
34 Com poucas palavras resumiu os doze anos de serviço pastoral como bispo auxiliar do Arcebispo de São Paulo:
Nestes anos cresceu, à luz do Evangelho, a descoberta de que a universalidade do amor cristão deve se harmonizar com as exigências do amor preferencial aos mais pobres, crianças carentes, moradores de cortiços e sofredores de rua. Sofrem mais o desrespeito da dignidade da pessoa humana94.
Na perfeita conjugação entre fé e transformação social, no Pentecostes de 1988, partiu de São Paulo para Mariana 95.