3.5 Compreensão dos representantes de empresas e seus trabalhadores sobre
3.5.1 O conhecimento sobre o Programa de Cultura do Trabalhador
Ao se pensar no processo de implantação do Programa de Cultura do Trabalhador no município de Itajaí, proposta desta pesquisa, a primeira questão que veio à mente da pesquisadora, é se o meio empresarial composto por gestores e funcionários conhecem esta política. Com efeito, esta foi a primeira pergunta feita a todas as categorias entrevistadas. Diante disso obteve-se o resultado apresentado no Quadro 6.
Quadro 6 - Conhecimento sobre a existência do Programa de Cultura do Trabalhador
Fonte: Compilação de dados coletados pela pesquisadora durante as entrevistas.
Esta primeira pergunta não mede a profundidade, mas apenas a existência ou não do conhecimento do Programa de Cultura do Trabalhador. Dos 48 sujeitos da pesquisa, apenas 44 responderam às questões, logo o percentual dos respondentes equivalendo a 91,7% do total da amostragem. Deste total, 26 pessoas conhecem o programa, mesmo que parcialmente, sendo que isso equivale a 59,1% dos respondentes. Os participantes que desconhecem completamente o programa totalizaram 18 pessoas e equivalem a 40,9%.
Avaliando por categorias de respondentes, 10 dos 24 Funcionários (41,7%) entrevistados conhecem o programa e 14 (58,3%) desconhecem. Na
Pergunta Você conhece o Programa de Cultura do Trabalhador do Ministério da Cultura, popularmente conhecido como VALE CULTURA?
Amostragem 48 pessoas = 100% da amostragem prevista Participantes 44 = 100% dos respondentes da entrevista efetivada
Respostas SIM NÃO
Diretoria 4 2
Contábil 4 2
RH 8 0
Funcionários 10 14
Total 26 18
categoria RH 100% dos participantes tem conhecimento da política do Vale Cultura. Considerando que o RH é o setor da gestão que lida diretamente com os benefícios dos funcionários, a discrepância entre a porcentagem de conhecimento destas duas categorias (RH e Funcionários) demonstra uma aparente falha de comunicação das empresas para com os seus funcionários em relação a este programa. Aqui cabe a pergunta: Por que o setor de RH se abstêm de levar aos seus funcionários informações sobre o Programa de Cultura do Trabalhador, que é a principal política pública voltada ao desenvolvimento cultural do trabalhador?
As categorias Diretoria e Contábil apresentaram os mesmos resultados, 4 gestores (66,7%) declaram conhecer o programa e 2 (33,3%) afirmam desconhecer. Tendo em vista que esta política implica questões tributárias de isenção fiscal, que alteram o fluxo de caixa e influem diretamente no investimento de recursos da empresa para a ampliação da qualidade de vida dos seus trabalhadores, considera-se bastante elevado os índices de desconhecimento destas duas categorias de gestores.
Uma possível justificativa para estes valores é a inexistência de vias de comunicação, como links entre a plataforma digital do Ministério da Cultura (MinC) http://www.cultura.gov.br/valecultura, e os sites de federações de empresários e entidades representativas da área de recursos humanos e contabilidade, bem como, entre o site do MinC e o site da Receita Federal, que é diariamente acessado pelos gestores da área contábil.
Evidencia-se uma falha na comunicação pública entre o MinC e as empresas. Segundo Duarte (2007), comunicação pública é o esforço comunicativo iniciado pelo poder público, visando atingir toda a sociedade com informações de interesse do cidadão. Diretores de empresa, profissionais de RH e contabilidade não tem motivo, no desempenho diário de suas funções, para acompanhar o site do Ministério da Cultura e a evolução de seus programas.
Portanto, a falta de comunicação iniciada por parte do governo federal indica que o estímulo governamental para a adesão das empresas ao Vale Cultura é baixo.
Considerando que o Programa de Cultura do Trabalhador visa garantir a implementação de direitos culturais aos trabalhadores e ao mesmo tempo incentivar a cadeia produtiva da cultura (BRASIL, 2013a, p. 78); considerando também, que o exercício destes direitos de acesso e autonomia de consumo
cultural se estabelecerão a partir da adesão das empresas e de seus funcionários ao programa, e, diante da constatação dos índices de desconhecimento dos gestores sobre o programa, questiona-se, se o órgão governamental proponente desta política realiza esforços suficientes para que as empresas de todo país estejam informadas e se cadastrem e motivem seus funcionários a participarem do Programa de Cultura do Trabalhador. Como já se constatou acima, existe um distanciamento entre o poder público e a empresa privada, no que diz respeito a comunicação da política pública em foco. Fatos como esse levam a pensar a seguinte questão: qual é o sentido ideológico e de interesse político econômico e cultural que poderão existir não explícitos formalmente na política? Não será essa percepção a expressão de uma ineficácia da própria política no município de Itajaí?
Nas três categorias de gestão das empresas, Diretoria, Contábil e RH, 20 foram os respondentes e 16 desses gestores (80%) conhecem esta política.
Porém 4 (20%) desconhecem. Esses indicadores apontam que existe um conhecimento significativo do Vale Cultura por parte da gestão nas empresas, centralizado na categoria de RH com 100% de conhecimento, segundo o quadro supracitado. E, ao mesmo tempo, os dados evidenciam que o fluxo de comunicação entre as três áreas de gestão não é eficiente no que se refere à transmissão de informações sobre o Programa de Cultura do Trabalhador, pois os diretores e contabilistas não receberam suficientemente as informações e esclarecimentos por parte do RH.
Diante do acima exposto, levanta-se a seguinte questão: Por que somente os sujeitos do RH conhecem plenamente a política e não a direção e a área contábil?
Aqui não se quer trazer um juízo fechado sobre a questão pesquisa levada aos participantes. No entanto, percebe-se contundentemente que a dominância de informações sobre as políticas públicas de benefício cultural aos trabalhadores, ficam no âmbito do RH das empresas. Portanto, deveriam fluir a partir deste setor para as demais áreas das organizações empresariais, de modo que todos se sentissem informados a respeito do Programa de Cultura do Trabalhador.
De acordo com Kunsch (2003) existem vários fluxos de informação possíveis entre a cúpula administrativa, todos os níveis gerenciais da organização e os trabalhadores de todos os setores. O sentido que segue a comunicação nestes fluxos indica o grau de formalidade, a filosofia da empresa em relação à comunicação e a abertura para gestão participativa. Tais fluxos podem ser descendentes (da cúpula para o funcionário) ou ascendentes; lateral (entre pessoas do mesmo nível em setores diferentes); transversal (gestor/funcionário/gestor em setores diferentes) ou circular (comunicação ocorre em todos os sentidos).
Os dados obtidos na pergunta 1 indicam falha na operação do fluxo de informação ascendente, do RH para a diretoria; no fluxo lateral, entre RH e contabilidade; e no fluxo descendente do RH para os funcionários. A eficiência na comunicação é uma premissa básica para a implantação de uma política da magnitude do Programa de Cultura do Trabalhador, que visa a melhoria da qualidade de vida do trabalhador, por meio do direito constitucional de acesso à cultura e do desenvolvimento de autonomia na escolha de seu consumo cultural.
Pergunta-se então, estarão essas empresas engajadas em implementar o acesso à cultura dos seus trabalhadores?
3.5.2 Fonte do conhecimento sobre o Programa de Cultura do Trabalhador
A partir da percepção dos índices de conhecimento, a segunda questão levada aos entrevistados foi sobre a fonte de conhecimento do programa. Este dado pode vir a trazer indícios de quão generalizada está a difusão de informações sobre o Programa de Cultura do Trabalhador no meio empresarial itajaiense.
Quadro 7 - Fonte de conhecimento do Programa de Cultura do Trabalhador
Pergunta Como tomou conhecimento deste programa? (Múltipla escolha) Participantes 26 = 100% dos que dizem conhecer o Programa de Cultura do Trabalhador
Respostas Diretoria - 4 respondentes
Pela Imprensa
Diretamente no site do Ministério da
Cultura
Por meio do Contador da
empresa
Pelo setor jurídico da empresa
Pelo setor de RH da empresa
3 - 1 - -
Respostas Contábil - 4 respondentes
Pela Imprensa
Diretamente no site do Ministério da
Cultura
Por meio de entidades de contabilidade
Pela direção da empresa
Pelo setor de RH da empresa
2 1 1 - 1
Respostas RH - 8 respondentes
Pela Imprensa
Diretamente no site do Ministério da
Cultura
Por meio do Contador da
empresa
Pelo setor jurídico da empresa
Pela direção da empresa
8 - - - -
Respostas Funcionários
10 respondentes
Pela Imprensa
Pelas Redes Sociais
Por colegas de trabalho
Pelo sindicato da sua categoria
Pelo setor de RH da empresa
10 - 3 - -
Fonte: Compilação de dados coletados pela pesquisadora durante as entrevistas.
Esta é uma questão de múltipla escolha, pois o entrevistado pode obter conhecimento sobre o Vale Cultura a partir de mais de uma fonte de informação.
Aqui a imprensa mostrou-se o meio de comunicação com maior alcance para todas as categorias de participantes da pesquisa. A profundidade da informação veiculada não é avaliada diretamente, mas existem alguns indícios a esse respeito.
Os entrevistados, que indicaram como resposta a alternativa ‘pela imprensa’, declaram referir-se à divulgação do Vale Cultura por meio das mídias rádio e TV em propagandas oficiais. Tais propagandas focam o trabalhador, potencial usuário do cartão e basicamente informam o valor do cartão Vale Cultura e as possibilidades de uso e o site do MinC/Vale Cultura, sem maior detalhamento. Este vídeo pode ser acessado no Youtube pesquisando as palavras ‘vale cultura comercial’ (VALE CULTURA..., 2014). Portanto, a obtenção
de informação apenas pela imprensa não possibilita profundidade suficiente para respaldar a tomada de decisão dos gestores em aderir ou não ao Programa de Cultura do Trabalhador.
Na categoria Diretoria, três (75%) souberam pela imprensa e um (25%) pelo contador da empresa, e nenhum através do RH. Na categoria Contábil, por sua vez, dois entrevistados (50%) informaram-se pela imprensa, um (25%) através de entidades de contabilidade e um recebeu uma solicitação do setor de RH para que fosse feita pesquisa no site do Ministério da Cultura (MinC), portanto, dupla fonte de informação. Na categoria RH 100% dos respondentes tomaram conhecimento do programa por meio da imprensa. Nenhum indicou o site do MinC/Vale Cultura como fonte de informação.
Percebe-se que no âmbito da gestão das empresas entrevistadas, o conhecimento, sobre as políticas públicas que priorizam a elevação da qualidade de vida do trabalhador pela cultura, não é de interesse focal da gestão. Isso se evidencia pela atitude dos participantes da categoria RH, que tendo conhecimento parcial desta política, por meio da imprensa, não buscaram aprofundamento junto ao Ministério da Cultura e nem dialogaram sobre política de tal importância com a diretoria e área contábil das empresas. Da mesma forma, os participantes das categorias Diretoria e Contábil, embora conhecendo parcialmente a política do Vale Cultura, não buscaram aprofundamento no tema e nem estabeleceram diálogos com o RH sobre esta questão. Se o conhecimento do Programa de Cultura do Trabalhador não é prioritário, a tomada de decisão criteriosa e amplamente embasada para a adesão ao programa e implementação dos direitos culturais aos trabalhadores fica inviabilizada no momento presente.
Dentre os 10 Funcionários que conhecem o Vale Cultura, 100% souberam pela imprensa e três declararam que também foram informados por colegas de trabalho. A partir da divulgação na imprensa, três Funcionários tomaram a iniciativa de pesquisar no site do MinC/Vale Cultura e consultaram a gestão de suas empresas sobre a viabilidade de implantação. Mas, não obtiveram retorno sobre essa questão, pois as empresas ainda não optaram pela implantação do Programa de Cultura do Trabalhador. Como já mencionado, o foco da divulgação pela imprensa é o beneficiário final, ou seja, o trabalhador, mostrando as possibilidades de acesso à cultura. Isso os estimula a buscar mais informações
sobre esta possibilidade de ampliação de sua qualidade de vida pelo acesso à cultura.
A categoria de participantes Funcionários foi composta por 24 entrevistados e 14 declararam desconhecer o Vale Cultura. Isso é mais um indicativo de que as empresas não informaram seus funcionários sobre esta política. E também de que a mensagem veiculada pelos meios de comunicação de massa, não atingiu de forma eficiente 58,3% dos participantes desta categoria.
Por se tratar de divulgação de programa governamental, com foco no trabalhador, é função do Estado estabelecer uma comunicação pública eficiente. Este é certamente um desafio pois, muitas vezes, o cidadão trabalhador não está atento para decodificar informações não relacionadas à sua rotina cotidiana, e não percebe que tais mensagens lhe são direcionadas. Duarte (2007, p. 64) afirma que, a comunicação pública deve garantir “a possibilidade de o cidadão ter pleno conhecimento da informação que lhe diz respeito, inclusive aquela que não busca por não saber que existe [...]”.
Os dados indicam que a principal fonte de informação dos entrevistados que dizem conhecer o Programa de Cultura do Trabalhador é a imprensa. As informações obtidas por essa via foram introdutórias e parciais. Dentre todos os sujeitos da pesquisa, os que demonstraram interesse imediato por informações mais aprofundadas foram os trabalhadores, beneficiários finais desta política. Isso indica um interesse pelo acesso à cultura por parte do cidadão trabalhador. Para Calabre (2007, p. 14), “numa democracia participativa a cultura deve ser encarada como uma expressão de cidadania”, pois a cidadania implica “[...] um processo contínuo de democratização cultural”, que “deve estar baseado em uma visão de cultura como força social de interesse coletivo [...]”.
Por outro lado, as falas iniciais dos participantes não demonstram o mesmo interesse por parte dos participantes da gestão empresarial. Os dados levantados na primeira pergunta e sustentados pelas respostas da segunda, indicam que as empresas participantes da pesquisa ainda não se dedicaram a um estudo mais profundo da política do Vale Cultura, visando sua implantação e a contribuição para o estabelecimento da democracia cultural. Por outro lado, a própria política de cultura do município de Itajaí, não aparece nas falas dos sujeitos da pesquisa,
e isso denota um distanciamento político cultural entre a política local e a nacional.