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O Diabo tem cor: é preto!

Os brancos evangélicos estão sempre atrás do diabo, e quem é o diabo? Ele é um espírito que está sempre em um negro. A caça ao diabo começa a eliminar aos poucos a cultura e memória coletiva.

Paulina Chiziane

Desde o jardim de infância, eu aprendi que anjinhos são loirinhos e diabinhos são pretinhos, minha professora fazia, inclusive, chifrinhos com o cabelo crespo do Josué, meu coleguinha. Não o chamava de preto, mas o menino já havia sido um macaquinho simpático no Dia do Meio Ambiente e o saci na festa do folclore. Eu gostaria que essa fosse apenas a minha história, mas é a de tantas outras pessoas negras neste país. Gostaria de destacar a obra da escritora Sonya Silva, somada a tantas outras escritoras da literatura afro-brasileira, que,

preocupada com as narrativas construídas para crianças negras, criou uma história com um anjo de chocolate57.

O Diabo tem cor e, nessa sociedade eurocêntrica, colonialista e racista, o Diabo é preto.

Na primeira parte do Capítulo 1, tracei um longo percurso sobre o imaginário diabólico cristão europeu e de como ele atinge as culturas afro-pindorâmicas no Brasil. Na iconografia já foi verde, pequeno, plural, vermelho, até se tornar cada vez mais humanoide e negro, e não por acaso, no mesmo período do contato mais intenso dos europeus com os povos africanos. Como visto, o Diabo nunca agiu sozinho na Terra, mas sempre por intermédio dos seus agentes: os hereges. Assim foram chamados os judeus, os muçulmanos, as mulheres transformadas em bruxas e, obviamente, todas as populações colonizadas, entre elas, nossos/as descendentes africanos. Dentro da cosmovisão de mundo europeia cristã, não existe espaço para a diferença.

O diferente é sempre um objeto inferior, desumanizado e criminoso, em uma sociedade calcada no dogma, em verdades únicas e absolutas. Por isso mesmo, dentro do panteão de crenças de matriz africana, Exu é a força da natureza mais demonizada pelos cristãos porque ele foge dos binarismos, das dicotomias; é o senhor da encruzilhada, dos caminhos múltiplos.

Assim, defendo que, no imaginário social construído, do início da colonização até os dias de hoje, no Brasil, o Diabo é, em uma visão geral, um homem preto. Ele está em um lugar ainda mais marginalizado: ele não é considerado somente um agente, portador de uma máscara demoníaca, ele é visto como o próprio Diabo. No período colonial, a figura do Diabo poderoso e imanente da Renascença tornou-se, ao longo do tempo, cada dia mais humana, negra e masculina, seja a nível das representações coletivas, na iconografia e/ou nos manuais de demonologia. Enquanto máscara, colocada, convenientemente, na face de todas(os) as(os) inimigas(os) da cristandade branca e ocidental, as acusações de pacto com o Diabo, grande parte das acusações de feitiçaria, de bruxaria, de magia, recaiu sobre as mulheres. Entretanto, apesar de abominável, o Diabo é um ícone de poder, que nem do ponto de vista do mal parece caber às mulheres na mentalidade misógina e patriarcal da época, já que o gênero feminino era considerado o mais propenso a pactuar com o Diabo nos escritos religiosos, justamente por sua natureza “débil”, “lasciva”, “incontrolável” e “permissiva”. Entretanto, quem confere poder às feiticeiras de Satã dos séculos XV a XVIII é o próprio Satã.

O homem preto, visto enquanto Diabo, pode ser o temido “traficante” das favelas do Rio de Janeiro ou o feiticeiro pai de santo. Uma rápida incursão em algumas manchetes da

57 Existe um documentário incrível contando a história da escritora, que faz o debate sobre representatividade nas histórias infantis, chamado “Anjo de Chocolate”, do cineasta Clementino Junior.

mídia hegemônica demonstra essas associações de imagem/imaginários facilmente. A maioria dos “apelidos” diabólicos não foram assumidos pelos próprios protagonistas das histórias, mas dados por terceiros, em geral, pelos que os perseguem e os desumanizam. No Capítulo 3 desta tese, discorro sobre a história do chefe do varejo de drogas ilícitas, em uma favela da Zona Norte do Rio de Janeiro, conhecido como Danso, um “bandido” considerado muito violento.

Os rumores construídos em torno da sua vida apontam como justificativa para a sua personalidade sádica um suposto pacto com o Diabo; dizem que ele estava “incorporado” com exus quando cometia crimes. Vou recordar algumas reportagens que trazem os exemplos dados:

- “Traficante do RJ conhecido como Satanás é preso tentando entrar no Espírito Santo”.

“Satanás” foi preso pela polícia em 2018, caracterizado como um “bandido” perigoso e acusado de matar um policial em Sergipe.

- “Traficante foragido conhecido como Demônio é preso” em 2020.

- “Traficante conhecido como Diabo Loiro é preso no interior de São Paulo”. Aqui é um caso interessante porque “Diabo Loiro” não é um homem negro, e, nesse caso, foi preciso adjetivar a palavra “diabo” com o “loiro”. Ele foi considerado um dos líderes do PCC – Primeiro Comando da Capital – em São Paulo e dono de uma mansão avaliada à época em R$ 5 milhões de reais. As reportagens do momento de sua prisão, em 2012, ressaltavam o poder do “traficante” e montavam um discurso que reproduz a seguinte lógica: olha como os “traficantes” de drogas movimentam uma fortuna de dinheiro no país. Como se essa fosse a realidade de todos os corpos tidos como “traficantes” no Brasil, estejam ou não envolvidos no varejo de drogas ilícitas.

- “Traficante de marfim ´o Diabo` condenado a 12 anos de prisão”. Este caso é de um homem africano considerado o maior traficante de marfim do leste de África, conhecido como “the Devil” ou “o Diabo”, preso em 2017.

Figura 7 - Satanás é preso

Fonte:Jornal Extra, 2020.

Figura 8 - Prisão do Demônio

Fonte: G1 - Portal de notícias, 2020.

Quando o “dono do morro” diz que é do “bonde de jesus” e invade uma favela de facção rival em nome de um propósito com Cristo, ele está fazendo um movimento expiatório importante, subversivo em relação às imagens, externamente, construídas a seu respeito. Para a mídia corporativa e a opinião pública, está imerso em uma profunda contradição, que, em tese, marcaria a relação “discrepante” entre crime e religião. Relação essa que, na prática, faz parte de toda a história da humanidade, mas quem são os corpos dignos de humanidade? A figura do

“traficante” é completamente desumanizada na lógica da guerra iminente, em que todas as ações se justificam para conter uma ameaça perigosa. Como diz a autora Grada Kilomba, é fruto da

“inversão macabra” (KILOMBA, 2019) que o racismo faz, na qual o algoz (o traficante internacional de armas e de drogas, os representantes de uma supremacia branca detentora de grandes fortunas e de grande esquemas corruptivos, financiadores de episódios atrozes da história do país, em que ganham ainda mais dinheiro para engordar as suas históricas fortunas) se tona a vítima, e a vítima (de uma sociedade excludente, desigual, genocida e racista), o algoz.

Para receber as alcunhas de “bandido” e de “traficante”, não é preciso estar atuando no varejo de drogas na favela; basta parecer ser, ter o mesmo perfil em cor, idade, endereço, linguagem, estética e identidade, como já se debruçou a explicar grande parte da bibliografia que conjuga favelas e raça.

A nível local, o Diabo preto do “tráfico de drogas” reproduz violências e ódio às/aos suas/seus semelhantes, que podem ser outros “traficantes”, rivais de facções criminosas, moradoras(es) das áreas conflagradas nesses conflitos e, atualmente, também as/os sacerdotisas/sacerdotes dos cultos de matriz africana, vistos como potenciais inimigos. O Diabo, a nível local ou geral, está sempre no “outro”, que precisa ser exterminado e contido. E na lógica do racismo, aprendemos com o auto-ódio a nos aniquilar, cumprindo o “serviço”

desejado pelo projeto de poder vigente. O policial, em grande parte dos casos, também um homem preto e de classes populares, aprende que deve desconfiar de um perfil de “pessoas”

muito semelhante ao seu, mas que estaria do outro lado da “guerra”, por isso deve ser exterminado. O homem negro favelado que atua no varejo de drogas ilícitas aprendeu a ver o policial, que, às vezes, cresceu ao seu lado na infância, como um “alemão”, e também a outros varejistas que estão do “outro” lado da “guerra”. Dessa forma, matam-se entre si, e o sangue dos seus corpos alimenta a voracidade do sistema escravocrata colonialista.

Quando esses homens se convertem ou se aproximam do neopentecostalismo, aprendem que, ainda que o varejo de drogas em si seja ruim, eles, enquanto pessoas, não são essencialmente maus, como grande parte das projeções e dos medos coletivos aponta, mas que foi o Diabo que os levou a cometer os crimes e que, podem, portanto, mudar de vida se aceitarem a Cristo. Nesse sentido, é o Demônio o responsável por todos os possíveis “desvios de conduta” do ser humano, como o adultério, o alcoolismo, os assassinatos, os roubos, os estupros, a tortura, o tráfico e a corrupção. Assim, lhes é apresentado, em alguns casos, talvez, pela primeira vez na vida, um horizonte – milagroso - de salvação, de absolvição e de redenção.

Todos são filhos de Deus aos olhos de Cristo, ainda que desviados ou em processos de recuperação.

Em 2017, no caso em que alguns varejistas de drogas ilícitas invadem armados um terreiro e chamam uma mãe de santo, mulher negra, de “demônio-chefe”, demonstra como essas imagens são construídas e transplantadas para o gênero feminino. Independentemente da pessoa que comanda o terreiro ser homem ou mulher, ela está representando/cultuando Exu, o maior símbolo da ofensiva neopentecostal nas representações simbólicas das “macumbas”, dos terreiros, traduzido como o próprio Diabo cristão. Exu, força dinamizadora dos cruzos e das comunicações, que ri, brinca e inverte os sentidos, caracterizado, frequentemente, como um homem preto de falo gigante. Falo esse, traduzido pela cultura ocidental como pênis, mas que para as sociedades yorubás está presente em diversas formas da natureza (da ponta dos dedos e do topo da cabeça, passando pelo próprio formato do clitóris, até todas as formas de seta) e são símbolos de fertilidade, de abundância, de conexão e de ímpeto.

Há uma possibilidade de enxergar Jesus como um homem preto, defendida por alguns teólogos negros e também em traduções populares (no último capítulo eu trago uma história que ilustra essa possibilidade e podemos lembrar também do desfile do Carnaval da Estação Primeira de Mangueira, em 2019), mas ainda é bem tímida, no nível macro das representações.

“Falam tanto de Deus e Diabo. É que vocês só enxergam em 2D” (DJONGA, 2017).

Figura 9 - Capa do disco Ladrão, do rapper mineiro, Djonga

Fonte: Rolling Stone, 2019.

2.5 Desencapetamento total: neopentecostalismo e varejo de drogas ilícitas no Rio de