Etapa XII Considerações Finais
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.2 O Dinheiro como Signo e Produto Ideológico
Ideologia é compreendida pelo pensamento baktiniano (Freitas, 2001) como a forma com que membros de um dado grupo social vêem o mundo, uma forma de representação do real que reflete e refrata uma outra realidade que lhe é exterior.
Para Bakhtin (1998 apud Freitas, 2001) a personalidade é também um produto ideológico que se define nos materiais semióticos, selecionando como próprios alguns dos aspectos sociais gerais. Para ele, não basta ao homem um nascimento físico, sendo-lhe necessário um segundo nascimento, o social. Assim como Vigotski (Molon,1999), fala de um sujeito histórico, datado, concreto, marcado por sua cultura.
Segundo Rey (2003), numa visão histórico cultural, a categoria da subjetividade social é fruto de um pensamento no qual individual e social não se excluem reciprocamente. Os processos sociais são vistos como implicados dentro de um sistema complexo, da qual o indivíduo é constituído e simultaneamente constituinte. Essa perspectiva rompe com a idéia, até então predominante na psicologia de que a subjetividade é um fenômeno individual. É necessário, segundo Rey (2003), reconhecer a gênese histórico-social da subjetividade, isto é, não associada somente às experiências atuais de um sujeito, ou instância social, mas à forma em que uma experiência atual adquire sentido e significação dentro da constituição subjetiva da história do agente de significação, que pode ser tanto social como individual.
Ambos os pesquisadores reconhecem a influência do social na configuração de sentidos individuais, partindo desse pressuposto, pode-se inferir que desde o seu nascimento o indivíduo manterá contato com a cultura monetária própria de seu povo, percebendo gradualmente a simbologia das palavras, das ações, dos rituais, dos sentimentos e do conhecimento ligado às trocas monetárias e também as trocas simbólicas entremeadas nessas transações.
O dinheiro tem uma encarnação material, seja na forma de moeda, cédula, cartão de crédito. Possui um significado social, mas também remete a sentidos estabelecidos socialmente como status, poder, liberdade, prazer, dentre outros, que perpassam esse significado puramente monetário. A partir do pensamento de Bakhtin (1999) pode-se inferir que essas características fazem dele um produto ideológico constituído como um meio de comunicação entre indivíduos organizados.
No entendimento de Bakhtin (1999) a realidade ideológica está situada logo acima da base econômica de uma sociedade e são as leis sociais e econômicas que apóiam a realidade objetiva dos signos sociais. A consciência deriva dos signos, eles são o alimento da consciência individual, a matéria de seu desenvolvimento. A consciência vai refletir a lógica e as leis da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social. Fora deste material, resta apenas, segundo o lingüista, o ato fisiológico
Ferreira, Amorim e Silva (2004) assinalam que as relações sociais são consideradas como fundantes não só nos primeiros anos de vida com também ao longo de toda vida, mantendo-se como arena e motor do processo de desenvolvimento.
Para as autoras, os contextos são considerados matrizes sócio-históricas de natureza semiótica, compostos por elementos sociais, econômicos, políticos, históricos e culturais que
servem como instrumento para o desenvolvimento dos indivíduos. Essa rede de significações em que as pessoas estão inseridas, estabelece um conjunto de possibilidades e limites ao comportamento e desenvolvimento humanos, canalizando ações, emoções e concepções em determinadas direções, mais do que em outras, promovendo certas práticas sociais.
Ao mesmo tempo em que a pessoa está sujeitada em um mundo semiótico do qual ela não pode desvincular-se, ela tem a possibilidade de dirigir sua interpretação mais para um do que para outro sentido.
A partir de suas experiências anteriores e de suas perspectivas presentes e futuras, dentro do jogo de papéis e posições sociais, cada pessoa defronta-se e negocia com o conjunto de significados que lhe são atribuídos e que ela atribui a si mesma, ao outro e às situações vivenciadas, acabando por fazer recortes das situações os quais são diversos das outras pessoas, já que são definidos pelo papel, posição, ou pela perspectiva assumida por ou atribuída à pessoa, dentro dos contextos específicos.
Bakhtin (1999), entende que todo signo resulta de um consenso entre indivíduos socialmente organizados no decorrer de um processo de interação. Estará condicionado à organização social de tais indivíduos e pelas condições em que as interações acontecem. Ao mesmo tempo em que o dinheiro transforma a sociedade, é simultaneamente transformado por ela, assumindo novas formas, novas configurações, reafirmando suas características de signo cultural que exerce e sofre influências simultaneamente na cultura em que é criado.
2.3.1 Dinheiro como Configuração Subjetiva
A partir do pensamento histórico – cultural, pode-se entender o dinheiro como uma configuração subjetiva, ordenadora dos diferentes aspectos da vida social, códigos morais e padrão emocional dominante.
É preciso portanto, falar de subjetividade e definir de que forma é entendida neste contexto de estudo.
Subjetividade, no entendimento de Molon (1999) caracteriza-se como um processo que não se cristaliza e nem existe como algo em si, abstrato, imutável. É o meio pelo qual se processa a dialética da relação interpsicológica e intrapsicológica e ao mesmo tempo o lugar onde este
fenômeno acontece, por meio da mediação semiótica. Para ela, a subjetividade manifesta-se, revela-se, converte-se materializa-se e objetiva-se no sujeito.
A estudiosa considera o mundo físico, biológico, imaginário, simbólico e social como o lugar de constituição da subjetividade, entrelaçado com a consciência, vontade, intenção, afetividade e pensamento. A subjetividade é entendida por ela como a fronteira entre o público (social) e o privado (singularidade).
Em consonância com esse pensamento, Rey (2003) entende que a condição de sujeito individual se define somente dentro do tecido social em que o homem vive, por meio dos sistemas de relações sociais. Os processos de subjetividade individual constituem um momento da subjetividade social. A subjetividade individual e a subjetividade social se constituem de forma recíproca sem que uma se dilua na outra, tendo esse processo um caráter permanente.
Os sentidos e significados gerados dentro dos espaços sociais, passam a ser elementos da subjetividade individual, entretanto, essa subjetividade está constituída em um sujeito ativo, cuja trajetória diferenciada é geradora de sentidos e significações que levam ao desenvolvimento de novas configurações subjetivas individuais que se convertem em elementos de sentidos contraditórios com o status dominante nos espaços sociais nos quais o sujeito atua. Para Rey (2003) essa condição de integração e ruptura, de constituído e constituinte que caracteriza a relação entre sujeito individual e subjetividade é um dos processos característicos do desenvolvimento humano.
A partir do pensamento de Rey (2003), pode-se entender que o dinheiro apresenta uma configuração complexa de sentidos que são produzidos de forma diferenciada de sujeito para sujeito e de sociedade para sociedade.
No pensamento de Rey (2003) a configuração é entendida como um núcleo dinâmico de organização que se nutre de sentidos subjetivos muito diversos, procedentes de diferentes zonas de experiência social e individual. As configurações formam um elemento de sentido dentro do comportamento atual de um sistema subjetivo, seja este social ou individual e podem ao mesmo tempo alterar sua forma de organização, por serem extremamente flexíveis.
Nos dados históricos trazidos por esse estudo pode-se observar o quanto a configuração social do dinheiro sofreu transformações, sendo reconstruída em diferentes momentos da história da humanidade. Começou mediando as trocas de produtos e hoje domina o sistema globalizado de organização mundial, que se constitui em torno do dinheiro. Percebe-se muito claramente o
quanto essa instituição social transita à parte do controle dos homens. Partindo do pressuposto que as configurações subjetivas individuais também apresentam essa flexibilidade e estão sujeitas às configurações sociais, pode-se inferir que a subjetividade humana tem se transmutado continuamente norteada de forma significativa pela trajetória do dinheiro na cultura humana.
Rey (2003) define a necessidade como estado produtor de sentido, associado à atuação do sujeito numa atividade concreta. Para ele, os motivos são sistemas de necessidades que foram configurados de forma relativamente estável na personalidade e atravessam as mais diferentes formas de atividades do sujeito.
Rey (2003) entende que as situações de sentido estão associadas às emoções e não à racionalidade . Novas situações de sentido podem provocar transformações nos entendimentos anteriores. Por exemplo, a mudança de posição econômica certamente irá proporcionar muitas modificações nas relações de um sujeito, bem como nas suas concepções de vida .
A partir dessas considerações pode-se concluir que a motivação de uma pessoa pelo dinheiro integra elementos de sentido diferentes em cada sujeito concreto, assim como em cada contexto social e cultural. As motivações de um sujeito em relação ao dinheiro estarão ativas dentro de um conjunto de elementos de sentido subjetivo, associados à história de cada indivíduo concreto, assim como ao contexto cultural em que estes vivem. As manifestações de um indivíduo em relação ao dinheiro estão relacionadas entre si pelo sentido que este tem para ele.