3.4 Jogos
3.4.2 O jogo e o conhecimento matemático
estudos de natureza psicológica referendam sua adoção na educação infantil.
Qualquer jogo empregado pela escola aparece sempre como um recurso para a realização das finalidades educativas e, ao mesmo tempo, um elemento indispensável ao desenvolvimento infantil. [...] Ao permitir a manifestação do imaginário infantil, por meio de objetos simbólicos dispostos intencionalmente, a função pedagógica subsidia o desenvolvimento integral da criança. Nesse sentido, qualquer jogo empregado pela escola, desde que respeite a natureza do ato lúdico, apresenta o caráter educativo e pode receber também a denominação geral de jogo educativo (KISHIMOTO, 1994, p. 22).
Brenelli (2000) explica que, para Piaget, o jogo tem um valor educacional muito grande, pois a criança, utilizando-se da ludicidade, assimila ou interpreta as realidades intelectuais e fortalece seus esquemas mentais. Também ressalta que os jogos de regra são considerados meios de compreender e intervir nos processos cognitivos das crianças. Brenelli acrescenta:
Ainda que enfatizem objetivos direcionados aos aspectos cognitivos decorrentes de sua aplicação, quer na aprendizagem de noções, quer como meio de favorecer os processos que intervêm no ato de aprender, não se ignora o aspecto afetivo que, por sua vez, se encontra implícito no próprio ato de jogar (BRENELLI, 2000, p. 27).
Uma proposta de trabalho de matemática para a Educação Infantil deve encorajar a exploração de uma grande variedade de idéias matemáticas, não apenas numéricas, mas também aquelas relativas à geometria, às medidas e às noções de estatística, de forma que as crianças desenvolvam e conservem com prazer uma curiosidade acerca da matemática, adquirindo diferentes formas de perceber a realidade (SMOLE;
DINIZ; CÂNDIDO, 2000, p. 9).
As noções matemáticas devem ser introduzidas desde a educação infantil, considerando o desenvolvimento, a linguagem e as experiências das crianças, sempre motivando e estimulando suas reflexões. Quando elas são respeitadas em suas ideias e consideradas como seres capazes de impulsionar sua própria aprendizagem, as crianças adquirem competências cognitivas cada vez mais complexas. Se lhes dermos condições, serão competentes o bastante para transformar as experiências que sugerimos em conhecimento social relevante para lidar com os desafios do mundo. Precisamos permitir que as experiências que propomos suscitem mudanças, já que as crianças possuem uma lógica própria e maneiras peculiares e originais de expressão. Devemos lembrar que elas são únicas, são diferentes, e que esta diferença não pode ser desprezada, mas, ao contrário, valorizada.
O jogo também possui aspectos interativos que propiciam a cooperação, a troca entre pares, a formação do senso crítico e a compreensão do raciocínio do aluno por parte do professor (GRANDO, 2008).
A psicologia do desenvolvimento destaca que a brincadeira e o jogo desempenham funções psicossociais, afetivas e intelectuais básicas no processo de desenvolvimento infantil. O jogo apresenta-se como uma atividade dinâmica que vem satisfazer uma necessidade da criança, dentre outras, de “movimento”, ação (GRANDO, 2008, p. 18).
Para Piaget, a cooperação entre as crianças é tão importante para o progresso do conhecimento quanto a ação, mediação dos adultos e as situações que favorecem a discussão entre pares, propiciando um verdadeiro intercâmbio de pontos de vista, são insubstituíveis para incentivar a formação do senso crítico e de um pensamento cada vez mais objetivo (Ibid., 2008, p. 28).
A utilização do jogo sob a intervenção do professor pode representar uma grande aliada na construção de conhecimentos matemáticos. Para Grando (2008, p. 15), deveria haver, por parte do professor, uma “preocupação em se estabelecer algum tipo de reflexão, registro, pré-formalização ou sistematização das estruturas matemáticas subjacentes à ação no jogo (análise)”.
O fato de a criança estar estimulada pelo jogo, envolvida na atividade, interessada e atenta aos lances, não garante seu desenvolvimento. As ideias da autora nos fazem refletir
sobre a importância da intervenção pedagógica no momento do jogo. Este precisa proporcionar desafios, ser um gerador de situações-problema e criar conflitos cognitivos para que estimule a aprendizagem. É necessário relembrar as ações desencadeadas durante a atividade, ou seja, traduzir para uma linguagem compreensível as reflexões ocorridas internamente, pois somente dessa maneira poderemos contribuir para o processo de ensino- aprendizagem da matemática.
Na pré-escola (educação infantil), onde as crianças têm a oportunidade de realizar os jogos como uma brincadeira, é perfeitamente possível observar seus comportamentos, isto é, como elaboram certas perguntas, como buscam soluções e qual lógica utilizam em cada jogada. Essa riqueza de acontecimentos é desencadeada por situações imaginárias que o jogo proporciona às crianças de cinco anos. Oferecer meios para que elas se utilizem de sua imaginação para o desenvolvimento do pensamento abstrato é um dos objetivos do professor ao utilizar os jogos na pré-escola (GRANDO, 2008).
É no jogo e pelo jogo que a criança é capaz de atribuir aos objetos, mediante sua ação lúdica, significados diferentes; desenvolver a sua capacidade de abstração e começar a agir independentemente daquilo que vê, operando com os significados diferentes da simples percepção dos jogos (GRANDO, 2008, p. 19).
O desenvolvimento gradativo da capacidade de abstração a partir da atividade lúdica possibilita à criança operar com significados diversos. A intervenção do professor nesse processo, de forma sistematizada e intencional, estimula a construção de uma linguagem matemática que poderá ser representada pelo uso de signos, proporcionando um ambiente onde será possível a constituição da semiótica. Desta forma, construir conhecimento matemático implica elaborar uma representação particular do objeto de aprendizagem.
Sendo assim, “podemos dizer que o jogo, determinado por suas regras, poderia estabelecer um caminho natural que vai da imaginação à abstração de um conceito matemático” (GRANDO, 2008, p. 20).
Assim, corroboramos as ideias de Grando, quando considera que
[...] o jogo, em seu aspecto pedagógico, apresenta-se produtivo ao professor que busca nele um aspecto instrumentador e, portanto, facilitador na aprendizagem de estruturas matemáticas, muitas vezes de difícil assimilação, e também produtivo ao aluno, que desenvolveria sua capacidade de pensar, refletir, analisar, compreender conceitos matemáticos, levantar hipóteses, testá-las e avaliá-las (investigação matemática), com autonomia e cooperação (GRANDO, 2008, p. 26).
“O registro no jogo, gerado por uma necessidade, pode representar um dos caminhos à construção desta linguagem matemática.” (Ibid., p. 38). Os registros do jogo e de situações- problema são fontes de conhecimento sobre o raciocínio do aluno para o professor e também ajudam o aluno a relatar e a organizar seu próprio pensamento, por meio de uma linguagem que leva à abstração do objeto denotado.