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O OUTRO AFIRMADO COMO “ENTRE-LUGAR”

No documento NOVOS TEMPOS, MESMAS HISTÓRIAS (páginas 128-133)

À medida que a tecnologia nos une em escala global, o sujeito social, cada vez mais, é confluído para um espaço ―transcultural‖7. Esse pertencimento híbrido, tendido a indistinguir-se das marcas mais originárias de uma determinada cultura; converte o ―tempo vazio e homogêneo de

7 Designa uma cultura híbrida.

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modernidade e progresso‖ (BHABHA, 1998, p. 25), requerido por Benedict Anderson8, em espaço contingenciado:

As grandes narrativas conectivas do capitalismo e da classe dirigem os mecanismo de reprodução social, mas não fornecem, em si próprios, uma estrutura fundamental para queles modos de identificação cultural e afeto político que se formam em torno de questões de sexualidade, raça, feminismo, o mundo de refugiados ou migrantes ou o destino social fatal da AIDS. (BHABHA, 1998, p. 25).

Homi Bhabha ao refletir sobre estas condições (bem como as suas variantes transgenéricas – caso, por exemplo, daqueles que optaram por trocar a sexualidade de origem) firma uma ―revisão radical do próprio conceito de comunidade humana‖ (BHABHA, 1998, p. 25).

Assim: ―O que seria esse espaço geopolítico, como realidade local ou transnacional, é o que se interroga e se reinaugura‖ (BHABHA, 1998, p. 25).

Deste comunitarismo de feições diaspóricas:

Tais culturas de contra-modernidade pós-colonial podem ser contingentes à modernidade, descontínuas ou em desacordo com ela, resistentes a suas opressivas tecnologias assimilacionaistas; porém, elas também põem em campo o hibridismo cultural de suas condições fronteiriças para ―traduzir‖, e portanto reinscrever, o imaginário social tanto da metrópole como da modernidade. (BHABHA, 1998, p. 26)

Esse estado revocável, contraposto ao alicerçamento nuclearizado das culturas, desloca os discursos na direção de uma assimilação sempre fluida.

―Nossa tarefa, entretanto, continua sendo mostrar como a intervenção histórica se transforma através do processo significante, como o evento histórico é representado em um discurso de algum modo fora de controle

(BHABHA, 1998, p. 34). Esta captação sempre leva as marcas da não contenção. ―Privado e público, passado e presente, o psíquico e o social desenvolvem uma intimidade intersticial‖ (BHABHA, 1998, p. 35). Nesse sentido é que Homi Bhabha aponta-nos para uma história social que se fabrica de modo intervalar. ―É uma intimidade que questiona as divisões binárias através das quais essas esferas da experiência social são freqüentemente opostas espacialmente‖ (BHABHA, 1998, p. 35).

O artigo sociológico de Francine Muel-Dreyfus – ―Uma atenção sociológica à psicanálise‖ – saído de: Trabalhar com Bourdieu – conjunta pesquisa e objeto, à própria estrutura que os assimila. Sempre aberto: este

8 Construtor de discursos teóricos que trazem o estado-nação como constituído a partir de uma nuclearidade absolutizante.

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horizonte é relativizável e intervalar. Amparado nos preceitos, tanto da psicanálise quanto da sociologia, proposita-se em uma apreensão histórica sempre contingente. Tributária de Pierre Bourdieu, capta-lhe a pendularidade apreensiva dos processos históricos:

Para que a história social tenha o valor de uma psicanálise do espírito científico e da consciência social, é preciso que ela reconstrua completamente, ou seja, por um trabalho propriamente interminável, as condições sociais de produção das categorias sociais de percepção e de representação do mundo natural e social, que podem estar no princípio da própria realidade deste mundo. (BOURDIEU apud MUEL- DREYFUS, 2005, p. 232)

Acerca, diz-nos ainda Francine:

Quando Pierre Bourdieu nos diz que, para compreender o mundo social, é preciso relacionar duas histórias, aquela objetivada e aquela incorporada, conforme ele procedeu em seu artigo ―Le mort le vif‖ [―O morto dá posse ao vivo‖], que teve algumas análises retomadas em Meditações pascalianas, ele abre um novo espaço para a perspectiva da sociologia e da psicanálise. (MUEL-DREYFUS, 2005, p. 233 e 234).

A abertura com vistas a uma escuta mais subjetivada do espaço social:

nos dá o exato enfoque pretendido por Francine. Trata-se de dar carga a uma clínica do social reapresentando-a em sua possibilidade cursiva – ―Essa abordagem da sociologia clínica, que integra à análise sociológica dados que, habitualmente, dependem da psicologia ou da psicanálise, enriquece a análise da vocação e das crises da vocação, a análise da identificação com a instituição e dos modos de investimento na instituição‖ (MUEL-DREYFUS, 2005, p. 234). Concita-nos, portanto, a produzir um ato analítico de mutualidades constitutivas: ―a sociologia histórica e a sociologia clínica não são separáveis, pois os inconscientes individuais também são formados pelo inconsciente social, que atua nas representações, nas classificações e nas instituições‖ (MUEL-DREYFUS, 2005, p. 234).

A mesma arte captadora das subjetividades sócio-históricas pode ser vista nos espaços romanescos de autoras como Tony Morrison e Nadine Gordimer. Em ambos, assim como nas narrativas fílmicas de Caché e Casa de areia e névoa, a história das identidades é escrutada desde seu campo mais íntimo. ―Cada uma das casas em A História de Meu filho, de Gordimer, está investida com um segredo específico ou uma conspiração, uma inquietação estranha‖ (BHABHA, 1998, p. 34). A territorialidade segregacionista da África do sul, em pleno apartheid, reproduz, no cosmo doméstico, a mesma instância intersticial complexa reproduzida no âmbito do estado. ―A casa no

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gueto é a casa do espírito de conluio das pessoas de cor [coloureds] em suas relações antagônicas com os negros [...]‖ (BHABHA, 1998, p. 34). A domiciliaridade metaforiciza-se em pequeno espéculo relacional, com se o todo mais amplo da política e do estado ali estivessem. ―Essas esferas da vida são ligadas através de uma temporalidade intervalar que toma a medida de habitar em casa, ao mesmo tempo em que produz uma imagem do mundo da história‖ (BHABHA, 1998, p. 35).

Em Casa de areia e névoa, pouco antes do seu final, já com o coronel Massoud e a esposa mortos sobre a cama, vemos Kathy (antiga proprietária da casa) após o terror inicial da cena, deitar-se ao lado dos corpos – emblematiza-se assim uma territorialidade impossibilitada pelo signo da tragédia. A cama compartilhada com zelo filial é um horizonte barrado para qualquer gesto de comunicação; ―nesse sentido, então, o espaço intermédio

‗além‘ torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora‖ (BHABHA, 1998, p. 27). O ato de partilha mais emblemático em Cachê dá-se também quando do final do filme. Os dois jovens, um deles filho de Georges (Daniel Auteuil) e o outro de Majid (Maurice Bénichou), encontram-se na escadaria do colégio onde o primeiro estuda. Sucede-se que nada sabemos acerca do encontro. A câmera permanece imóvel; depois de algum tempo, ambos se despendem de forma amistosa... e saem de quadro. O foco detém-se agora sobre um plano geral, registrando apenas o fluxo, quase terminado, dos últimos retardatários que deixam o prédio. Contrariamente a Casa de areia e névoa, a cena não esta compressa entre quatro paredes – mais sob o peso enigmático do encontro – e é por essa ausência imotivada que se interdita.

Ambas as cenas são dimensões alegorizadas de uma interatividade falhada – um ―entre-lugar‖ cindido e desapossado da possibilidade de ser enquanto lugar simétrico das trocas... A localização literária da angústia e da impossibilidade dirigida ao outro.

REFERÊNCIAS

ABBADE, M. Um cinema atual e necessário. Disponível em:

http://www.omelete.com.br/cinema/icasa-de-areia-e-nevoa/. Acesso: 28 jan.

de 2010.

BHABHA, H. K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

CHEMAMA, R.; VANDERMERSCH, B. Dicionário de psicanálise. Trad. Francisco Settineri e Mario Fleig. São Leopoldo: UNISINOS, 2007.

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FREUD, S. O mal-estar na cultura. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2010.

LACAN, J. O seminário, livro 10: a angústia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

MUEL-DREYFUS, F. Uma atenção sociológica à psicanálise. In: BOURDIEU, P.

Trabalhar com Bourdieu: sob a coordenação de Pierre Encrevé & Rose-Marie Lagrave. Trad. Karina Jannini. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

TODOROV, T. O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações.

Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 2010.

XIMENES, S. Um cinema atual e necessário. Disponível em:

http://www.cranik.com/ cache.html. Acesso em: 28 jan. de 2010.

ZIZEK, S. Bem-vindo ao deserto do real: cinco ensaios sobre o 11 de Setembro e datas relacionadas. Trad. Paulo Cezar Castanheira. São Paulo:

Boitempo, 2003.

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No documento NOVOS TEMPOS, MESMAS HISTÓRIAS (páginas 128-133)