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O teólogo diante da historicidade e exegese

1. A HISTÓRIA COMO ACONTECIMENTO TEOLÓGICO

1.3 O teólogo diante da historicidade e exegese

A exegese, assim como a teologia, possui uma história de desenvolvimento. Já nos primórdios do cristianismo, tornou-se instrumento fundamental para identificar os feitos e a fala de Jesus com o Messias prometido no Antigo Testamento. Na patrística divide-se em duas linhas interpretativas, o método alegórico, que foi mais praticado na escola catequética de Alexandria e o método literal na escola catequética de Antioquia. Ao método de buscar o esclarecimento do sentido do texto no próprio texto se acrescentou paulatinamente o método histórico crítico e a hermenêutica crítica, com desenvolvimento principalmente na modernidade, onde passa a possuir um vivo senso da história, espírito crítico e científico.

Mais tarde, ainda, acrescenta-se a esse método um fino senso da existência com o surgimento das filosofias existencialistas. A exegese é um instrumento importante para aprofundar o conhecimento bíblico e teológico.82

Joseph Moingt considera essa importância e faz observações quanto ao seu uso pelos teólogos. Segundo ele, os teólogos devem estar a par do seu desenvolvimento e das descobertas exegéticas que alimentam o debate cristológico.83 Entretanto, devem usar com parcimônia esse recurso, ou seja, o teólogo deve conhecer as pesquisas exegéticas a fim de não tirar conclusões ou fazer afirmações numa perspectiva que não se encontra no texto.84 Ele diz que o teólogo sistemático não deve depender da exegese para fazer teologia e interpretar os textos Sagrados, muito menos esperar unanimidade dos exegetas a respeito de um texto delimitado ou de uma perícope. Para ele, o teólogo deve aprender a servir-se da exegese sem pretender concorrer com ela.85 Apresenta os padres da Igreja como modelos a serem seguidos, pois faziam teologia com a Sagrada Escritura sem estarem submissos ao conhecimento exegético.86

Uma concepção de história como a simples evocação de fatos passados, ou de uma historiografia com métodos positivistas é descartado por Joseph Moingt. Ele pensa a história como uma ciência hermenêutica, assim como a Teologia.87 Ele alerta também para que o teólogo não abandone sua função tornando-se historiador, ou seja, busque fazer estudo

82 VECCHIA, V. Della. Exegese. In: LEXICON Dicionário Teológico Enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003.

p. 277- 278 e HARVEY, Anthony E. Exegese. In: Dicionário Crítico de Teologia. São Paulo: Loyola, 2004. p.

698 - 704.

83 HVD, p. 11.

84 HVD, p. 18.

85 Idem.

86 Idem.

87 Idem.

histórico-crítico dos textos do Evangelho.88 No entanto, o teólogo deve saber que é no campo histórico onde irá operar a sua reflexão, pois a história de onde nascem as narrativas bíblicas reúne os elementos que possibilitam à fé ter acesso a Deus e a Cristo.89

Ao longo de suas últimas obras, Joseph Moingt, por diversas vezes, retoma a questão da missão do teólogo diante de seus contemporâneos.90 Ele reflete em um contexto de desenvolvimento do pensamento teológico onde entra também a questão da responsabilidade do teólogo diante da tradição da Igreja, da palavra de Deus em vista de uma inteligibilidade da fé. 91 Nesse sentido propõe uma meditação do modo como uma tradição eclesial deve ser interpretada ao ser transmitida.92

Joseph Moingt, numa atitude fenomenológica, aproxima-se da narrativa,93 deixa o texto falar, percebendo nesta fala o alcance enunciativo e argumentativo. Depois da escuta, e do entendimento global do texto, procura narrar o que os textos, entendidos na sua globalidade, autorizam a dizer.94 Procura situar Jesus dentro do contexto cultural do judaísmo e do fenômeno religioso mais amplo.95 Recorre à narrativa como acesso histórico a Jesus, porém reconhece que a certeza que nasce da história não é da mesma ordem de onde provém a fé. Essa, não se liga a fatos históricos, mas à pessoa de Deus e à pessoa de Cristo. Joseph Moingt sem se retirar do quadro histórico utiliza-se desses parâmetros para elaborar a sua cristologia. Tem ainda como objetivo levantar a questão do perigo de basear a conclusão de uma investigação teológica em um único texto ou perícope da narrativa. É o que acontece pode-se deduzir de sua fala, como o texto do prólogo do Evangelho de João. Desse texto, temos a base de toda a argumentação da cristologia do Verbo encarnado. Daí, sugere também que sejam interpretados no seu conjunto. Em caso de se partir de uma perícope para interpretar o conjunto do texto corre-se o risco de unilateralismo. Joseph Moingt é a favor de utilizar mais uma hermenêutica critica na leitura dos Evangelhos do que a exegese. Aliás, existe uma pluralidade de métodos exegéticos e mesmo utilizando um único método é possível chegar a conclusões muito diferentes. É preciso, a seu ver, uma exegese crítica, mas

88 HVD, p. 22.

89 HVD, p. 206-207.

90 São as principais obras de Joseph Moingt publicadas sucessivamente com intervalo de alguns anos e

―L‘homme qui Venait de Dieu‖ em 1993, ―Dieu qui vient à l‘homme I‖ (DVH, T.I), com o subtítulo ―Du deuil au dévoilement de Dieu‖ em 2002, com a mesma temática deste ―Dieu qui vient à l‘homme II.1‖ (DVH, T. II, v.1), com o subtítulo ―De l‘apparition à la naissance de Dieu‖ em 2005 e por fim a continuação desse com o mesmo título ―Dieu qui vient à l‘homme II- 2‖ em 2007 (DVH, T.II, v. 2). Temos traduzido em português os três primeiros livros.

91 Cf. DVH, T 2, V.1, p. 14-15.

92 HVD, p. 10.

93 HVD, p. 68 .

94 HVD, p.17. Para Joseph Moingt, essa fala é dirigida a um tempo e a uma cultura pelo teólogo contemporâneo.

95 HVD, p. 45; 162 – 163.

o teólogo sistemático trabalha mais a partir da hermenêutica que faz emergir o sentido do texto do que da sua compreensão literal. Para Joseph Moingt esse sentido produz a reflexão teológica, como veremos a seguir.

Na introdução, Joseph Moingt diz que não usará o método exegético clássico, ou seja, histórico e textual nem as novas exegeses retóricas e semióticas.96 Procurará o alcance enunciativo e argumentativo de um conjunto de textos.97 Pontualmente, ele utiliza a exegese em alguns textos para levantar questões e fazer afirmações. Ao contrapor a preexistência do Verbo Encarnado98 à proexistência de Cristo,99 a concepção de morte expiatória e necessária à concepção de entrega voluntária de Jesus.100 Por outro lado levanta suspeita101 sobre o nascimento natural de Jesus e oferece uma interpretação nova sobre a virgindade de Maria.102 Assim ele diz:

Que Jesus seja homem e que seja tal indivíduo, o Filho de Maria, é um ponto que não reclama um ato de fé, pois é uma certeza histórica. Todavia, à fé importa afirmar que ele é ‗verdadeiro‘ homem, para afastar, dialeticamente, a ideia de que sua origem divina o ‗impediria‘ de se ‗fazer homem‘ como nós. Não devemos esquecer que as lutas pela ‗verdadeira‘ humanidade de Jesus tiveram, nos primeiros séculos da Igreja, tanta extensão e entusiasmo em relação à fé, no interior das comunidades cristãs, quanto havia, no exterior e na mesma época, a defesa de sua ‗verdadeira‘

divindade, contra as negações vindas dos judeus e dos pagãos. Se os cristãos de hoje já não são tentados a negar a verdadeira humanidade de Jesus, nem por isso permanece menos vital para a fé afirmar, com tanta força quanto no passado, seu vínculo com a história, pelo qual se revela a ‗humanidade de Deus‘. Afirmar a unção original e a historicidade original da pessoa de Jesus, sua plena pertença inicial tanto a Deus quanto à raça humana, que o qualifica, de ambas as partes, para ser o salvador do mundo: é esse o verdadeiro interesse e objeto da fé ‗em Jesus [...]

concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria‘. Desvia-se a intenção da fé, deprecia-se seu alcance, quando se põe todo o peso da afirmação sobre o caráter

‗maravilhoso‘ de seu nascimento.103

Levanta questões interessantes sobre o Espírito Santo sugerindo uma impessoalidade do Espírito.104 Busca, segundo as suas palavras, fazer uma interpretação do conjunto da

96 Cf. HVD, p. 77. Poderíamos encontrar aí uma incongruência de Joseph Moingt. Ele recorre à exegese quando trata da questão da divindade de Cristo referindo à cata de Paulo em Filipenses 2,6-7.

97 Cf. HVD, p. 17. Recorre mais a uma hermenêutica crítica, onde fundamenta o controle dos eventos. Ver também DVH, T. I, p. 10.

98 HVD, p. 77.

99 Cf. HVD, p. 368. Joseph Moingt diz que é a proexistência que revela o sentido da existência de Jesus revelando a sua identidade. Ele se faz servo por nós, em nosso favor ele age e fala.

100 Cf. HVD, p. 354 – 355. A mentalidade de nossa época não aceita com facilidade a noção de morte expiatória de Cristo. Joseph Moingt expressa essa dificuldade do nosso horizonte cultural em vê Jesus antes de nascer já concordando em sofrer o suplício da morte como pagamento e o perdão dos pecados. Pretende ver essa dificuldade nos textos do Evangelho e na carta de Paulo aos Romanos 3,25-26 e outras passagens.

101Cf. HVD, p. 544 - 549. De fato Joseph Moingt não afirma a concepção natural de Jesus, porém sugere. Diz que a forma como foi interpretado o texto da origem de Jesus nasce mais em ―especulações metafísicas que escapam às referências e a controles da narratividade.‖

102 Os textos bíblicos que narram o nascimento de Jesus, para Joseph Moingt, fala muito mais de sua origem humana do que divina.

103 HVD, p 549.

104 HVD, p. 550.

Sagrada Escritura procurando o que se pode afirmar segundo os textos. Ao longo do livro, será recorrente aos exegetas e à exegese para afirmar questões teológicas e mostrar as novas descobertas que solapam a teologia dogmática.105 Por outro lado, é verdade que procura ver, tanto nos dados oferecidos pela história quanto pela exegese, as condições a partir das quais será possível a inteligência da fé trabalhar.106 Na busca de compreender o conjunto da escritura em uma hermenêutica crítica Joseph Moingt elabora a sua teologia especulativa.