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Os elementos constituintes da nação moderna

CAPÍTULO 2 NAÇÃO: ORIGENS, ELEMENTOS CONSTITUTIVOS, O EXEMPLO BRASILEIRO

2.1.1 Os elementos constituintes da nação moderna

Renan (1997, 24) é enfático ao afirmar que é preciso “[...] admitir que uma nação pode existir sem o princípio dinástico, e até mesmo que nações formadas através de dinastias podem separar-se desta dinastia sem por isto deixar de existir”, porque os direitos da monarquia não devem suplantar os direitos da nação. O autor, então, elenca cinco elementos e questiona a validade dos mesmos como critérios sobre os quais o direito nacional poderia ser fundado, a saber: a raça, a língua, a religião, a comunidade de interesses e a geografia.

A raça é o primeiro critério apontado por muitos como o fator que dá direitos a uma população, como o que legitima um povo. Mas, para Renan, pensar dessa forma é um grande erro, pois a “[...] consideração etnográfica não teve [...] qualquer participação na constituição das nações modernas” (1997, 27), ela é imprecisa e não serve como base fundadora do direito nacional. O autor reconhece que nas tribos e cidades antigas, em que até os membros mais afastados eram ramificações de uma mesma família, como a tribo dos “filhos de Israel”, o

critério racial era essencial. Para os israelitas, ou cananeus, a raça, em conjunto com a religião e a língua eram os critérios responsáveis pela coesão nacional daquela comunidade. Quando se trata da nação moderna, fortemente marcada pela miscigenação étnica, a raça não tem peso decisivo como critério fundador do direito nacional, principalmente no caso das nações americanas pós-coloniais, e, até mesmo, das nações europeias conquistadas pelo império romano.

O segundo elemento, a língua, “[...] convida à reunião; não força a isto”. (RENAN, 1997, 31-32). Para o autor, a vontade de permanecer unido, independente da quantidade e variedade das línguas, é mais importante que uma semelhança linguística ou racial. Muitas vezes o critério linguístico é tomado como característica racial, contudo, como destaca Renan (1997, 33), as línguas “[...] são formações históricas, que pouco indicam acerca do sangue de seus falantes, e que, em todo o caso, não poderiam acorrentar a liberdade humana quando se trata de determinar a família à qual nos unimos para a vida e para a morte”.

Já a religião, assim como a raça e a língua, não serve como base fundadora da nação moderna, porque, apesar da sua importância para a vida de cada indivíduo, “[...] está praticamente excluída das razões que traçam os limites dos povos”. (RENAN, 1997, 36). Ela era suficiente nos tempos descritos pela bíblia cristã, quando o grande grupo dos hebreus acreditava ser a vontade de seu Deus um êxodo de 40 anos.

Tanto o critério étnico, quanto o linguístico, o religioso e até mesmo a comunidade de interesses se estruturam como um corpo da nação, porém, para Renan (1997, 39), a nacionalidade é alma e corpo ao mesmo tempo. E o quarto critério por ele elencado, a comunidade de interesses, é a responsável pelos tratados comerciais, portanto não inclui o lado sentimental – a alma.

O último critério normalmente atribuído como fundador da nação são os limites territoriais, as fronteiras naturais, em resumo, a geografia. No entanto, Renan novamente o descarta como fator responsável pela fundação da nação moderna e afirma que:

[...] não é a terra, mais que a raça, que faz uma nação. A terra fornece o substrato, o campo da luta ou do trabalho; o homem fornece a alma. O homem é tudo na formação dessa coisa sagrada que chamamos povo. A este respeito, nenhum elemento material é suficiente. Uma nação é um princípio espiritual, que resulta das profundas complicações da história, uma família espiritual, não um grupo determinado pela configuração do solo. (RENAN, 1997, 37-38).

Como, então, seria essa alma, quais os constituintes desse princípio espiritual? De acordo com o historiador francês, é o legado comum das recordações (passado) e o desejo

atual de viver em conjunto (presente) que constituem esse princípio espiritual. (RENAN, 1997, 39-43). A ideia nacional, portanto, está assentada em uma atual devoção ao passado heroico de um povo. Devoção que justificaria a necessidade de esquecer determinados fatos passados, a exemplo dos massacres entre membros de uma mesma nação, substituindo tais lembranças por outras através da imaginação, como sugere a ideia da nação como uma comunidade imaginada. (ANDERSON, 2008). Segundo Bhabha (1998, 225), nessa proposta de Renan, é a vontade de ser uma nação

[...] que introduz no presente enunciativo da nação um tempo diferencial e iterativo de reinscrição [...]. Renan argumenta que o princípio não-naturalista da nação moderna está representado na vontade de nacionalidade – não nas identidades anteriores de raça, língua ou território. É a vontade que unifica a memória histórica e assegura o consentimento de cada dia. A vontade é, de fato, a articulação do povo- nação. (BHABHA, 1998, 225).

Retomando as questões levantadas anteriormente: quais os elementos que constituem o povo hebreu como uma nação (“a nação de Israel”)? O que os manteve unidos (ou não) ao longo de tantos anos? Enfim, o que é uma nação?

Chegou-se aqui às seguintes considerações: a “nação de Israel” foi “imaginada” a partir da promessa de uma vida plena e feliz (uma promessa ainda a se cumprir, segundo a Bíblia cristã). A ideia desse grupo de hebreus como uma comunidade (ou seja, um grupo que partilha interesses comuns) nasce no desespero de um povo oprimido, escravizado e violentado pela “nação egípcia”, ou seja, uma comunidade/nação forjada por meios brutais. E é por meio da religião que se mantém unida (e em desunião, muitas vezes) por tantos anos.

Ela, enfim, se torna na[rra]cão por meio da religião (ainda esperando pelo cumprimento

“daquela” promessa) e da “raça única” – os hebreus/cananeus/israelitas, em suma, populus Dei, o povo de Deus.

E o mais curioso é que a nação dos israelitas continua sendo narração, ainda vivendo a experiência do tempo messiânico (para uns que esperam pela primeira vinda do Messias e, para outros tantos, que esperam pela segunda vinda), mesmo que, ao longo dos séculos, seu caráter diaspórico a tenha fragmentado e dispersado pelo Oriente e Ocidente. O mais contraditório é que, de modo geral, a “nação de Israel” gozava de uma aparente homogeneidade externa, mas internamente sempre foi marcada pela diferença: por várias ocasiões houve descontentamentos com a forma como (e por quem) as regras – religiosas e de convívio geral – eram definidas e comandadas; e, além disso, por causa do êxodo demorado, muitos começavam a “desacreditar” que chegariam à terra prometida.

Nessa introdução à problemática da ideia de nação, procurou-se mostrar que não existem respostas objetivas e conclusivas para tais perguntas, mas também se tentou mostrar que é possível levantar hipóteses e testar suas validades. Em suma, vários fatores mantêm a

“unidade” de um povo: para Renan (1997) são os interesses comuns e o esquecimento, mas para Anderson (2008) é a imaginação desses interesses comuns que agrupa os indivíduos em uma comunidade.