4. Verdade e Sentido 82
4.4 A norma
4.4.1 PSR
4.4.1.3 Perspectiva holística do PSR
devemos nos basear sempre no uso estabelecido para a comunicação e verificação efetivas. No entanto, quando não estipulamos nenhum uso devemos nos ater aos usos habituais das palavras90.
(f) Rivais: termos contrários; contraditórios ou vizinhos contam como rivais. Os dois primeiros são claramente rivais; quanto ao último, temos de examinar mais de perto. Alguns termos vizinhos que compartilham fronteiras e se tocam – e.g., vermelho e laranja – são rivais; outros não – e.g., mulher e trabalhadora, pônei e animal de estimação – a mulher pode ser qualificada por trabalhadora, mas não exige que seja assim, o mesmo acontece com pônei e animal de estimação.
Por seu turno, sinônimos, termos com distintos níveis de generalidade – e.g., um disco voador pode ser chamado, em outro nível, de OVNI – e descrições distintas de um mesmo referente – e.g., Deus pode ser chamado Criador ou Pai – não devem ser considerados rivais.
(g) Termos: deve-se ter em mente, na fórmula do PSR, expressões como as encontradas no dicionário – e.g., a fortiori, força centrípeta, chuva, Deus – elementos lógicos e símbolos matemáticos e não expressões no sentido de fórmulas longas e complexas, como descrições definidas detalhadas.
tempo da jogada, etc. Mas um computador não faz nada disso, e mesmo assim dizemos que Deep Blue derrotou Kasparov em uma partida de xadrez. Dizemos isso acertadamente, uma vez que, de acordo com o PSR, jogar xadrez se assemelha mais à atividade que o computador desempenha – pois ele não joga xadrez como os seres humanos – do que a outras atividades que preenchem o restante da nossa língua. Podemos afirmar que a atividade do computador se distancia do que chamamos Pôquer, aproxima-se mais do que nós chamamos Damas, talvez ainda mais ao que chamamos Go. No entanto, Xadrez é o mais próximo de todos, e é por meio deste termo – rivalizando com o restante da língua – que podemos afirmar significativa e verdadeiramente que Deep Blue joga xadrez (ibid.).
“Em cada caso, tal julgamento é”, segundo Hallett, “em certo sentido, holístico, já que o princípio é holístico, exigindo comparação entre expressões rivais disponíveis na língua” (LP, 146;
grifo nosso). Contudo, o PSR envolve uma espécie de holismo semântico diferente daquele de Quine. O holismo do último “não diz simplesmente para escolher a expressão mais próxima daquelas disponíveis; ele diz para consultar todo um sistema de proposições inter-relacionadas – central, periférico e intermediário – e ver onde os ajustes devem ser feitos” (ibid.). Então, é necessária uma reflexão holística sobre todas as fontes históricas disponíveis – motivação, eventos relacionados, etc. – para, por exemplo, determinar a morte de Brutus. No entanto, Quine admite que a língua é um determinante da verdade: “não há dúvida de que o uso verbal puro é, em geral, um determinante importante da verdade. Mesmo assim, uma sentença como ‘Brutus matou César’ deve sua verdade não só ao assassinato, mas igualmente ao uso das palavras componentes como fazemos” (QUINE, 1960, 351). Aqui, similarmente ao PSR, ele reconhece a realidade e a língua como co-determinantes da verdade. E, ainda mais impressionante, não apenas a língua no geral, mas
“ao uso de cada palavra componente”. Deste modo, ele parece exemplificar um princípio como o PSR. Porém, se a língua tem de ser avaliada reflexivamente da mesma forma que as fontes históricas, nenhuma autoridade foi, de fato, concedida a ela. Se, por outro lado, ela co-determina a verdade, o verbo matar, como acordado na língua portuguesa atual, é empregado verdadeiramente para afirmar que Brutus matou César caso tal coisa tenha acontecido, isto é, se ele fez algo que se aproxima mais do que chamamos matar do que salvar, poupar, etc. Este fato reflete a autoridade da língua – e a qualidade do holismo semântico do PSR (LP, 146)91.
91Distinguindo entre o uso das ferramentas verbais e a criação delas, Hallett assevera que o holismo de Quine não impede o seu próprio holismo; que possui perspectiva comunicacional em vez de definicional ou explicativa (cf. LP, 147-8). Antes, pelo que foi dito acima, o holismo do primeiro parece depender do holismo do segundo.
Embora nos dias de hoje perseguir e orientar-se por uma noção de verdade derivada da prática linguística comum possa soar, para muitos, como uma atitude ingênua (IL, 6), a abordagem dialética halletiana pode ser o caminho entre esse pessimismo radical contemporâneo e o otimismo antigo e ingênuo. Portanto, as análises precedentes aceitam que
[a] posição da tese tradicional estava certa ao caracterizar a verdade como correspondência, no sentido direto da semelhança, mas errada ao supor que a semelhança se mantém entre similitudes nas mentes de crentes ou falantes e as coisas que eles acreditam ou falam. Os críticos estavam corretos […] ao rejeitarem tais filmes imaginários que produzem a verdade na mente [cf., por exemplo, item 3.3.3], mas errados em descartar a correspondência junto com eles (TBL, 42).
Portanto, a reflexão hallettiana sobre a verdade como correspondência
concorda com os críticos ao rejeitar o relato mentalista de tal correspondência e combina essas duas verdades parciais em uma nova síntese […] Na maior parte, no entanto, os filósofos e teólogos atuais não veem as coisas dessa maneira.
Parece que, de forma implícita ou explícita, a maioria ocupa alguma variante da posição antitética, anti-pictórica […] não só eles não substituem a correspondência mental pela correspondência linguística […] eles não preveem, avaliam ou respondem a qualquer solução sintética (ibid.).
Hallett, então, unindo parcialmente a verdade tradicional da correspondência com a crítica à representação mental, de modo inovador e pertinente, reabilita a verdade como noção central.
Contudo, a análise não preserva a semelhança mental tradicional como chave da verdade correspondencial, mas também não rejeita o fato de a verdade ser correspondência, jogando fora o bebê junto com a água do banho. O caminho seguido por Hallett lhe possibilita, como vimos até agora, encontrar uma solução sintética entre Tese (antiga) e Antítese (moderna); e, desta forma, a sua solução correspondencial é mais forte, mais realista e mais evidente (IL, 6). E é assim porque leva em conta que é a língua a responsável por fornecer “o elo crucial e perdido em um relato mais adequado da verdade como correspondência” (ibid.).
Se a verdade linguística é tão evidente, podemos perguntar a Hallett: Porque tantos filósofos não a consideraram em suas reflexões? Como resposta ele afirma: “Eu falo desses fatos [da verdade linguística] como evidentes, no entanto, como um rosto em um enigma de imagem que é evidente
apenas uma vez que é descoberto” (IL, 35). Dado que Hallett descobre o rosto no enigma e nos fornece uma fórmula da verdade (PSR), a qual é dependente da inteligibilidade ou do sentido dos enunciados, então, surge a questão do significado, ou melhor, de como a autoridade da língua pode, de fato, determinar o que dizemos. Pois, como prometemos com Hallett, da descrição do que faz um enunciado verdadeiro podemos derivar a norma que deve orientar o uso de nossas palavras. E, alcançado tal norma teremos finalmente condições de avaliar a LR tanto sob o ponto de vista do que fazem as suas afirmações verdadeiras quanto, e talvez mais importante nesse âmbito, ao que assegura uma fala inteligível (significativa) e adequada sobre Deus. Por conseguinte, vamos apresentar, agora, a norma que orienta os nossos enunciados.