Pesquisas divulgadas pelo IPEA (2006) e pela FGV (s/d), a partir de dados do IBGE/PNAD, referente ao ano de 2004, dão conta de que houve uma queda da miséria e da desigualdade. No período de 2001-2004, teve-se uma redução de 4% no Coeficiente de Gini (índice que mede níveis de desigualdade), de 0,593 para 0,569. De 2004-2007, teve-se outra redução, caindo para 0,528 em 2007 (IBGE, 2008).
De acordo com esses estudos, esse decréscimo causa impacto substancial na pobreza, na melhoria das condições de vida dos mais pobres, mesmo em um período de estagnação econômica, estagnação da renda per capita (IPEA, 2006; NERI, 2006). Houve uma alteração na proporção de pessoas extremamente pobres no país, de mais de 3 p.p. “o que equivale a retirar cerca de 5 milhões de brasileiros da extrema pobreza” (IPEA, 2006, p.
18).
Marcelo Néri (FGV) também tem mostrado essa queda da desigualdade.
Segundo esses estudos, em 2008 o Brasil tem 17, 21% de miseráveis, vivendo com R$ 135, 00 mensais per capita, ou seja , uma medida maior que a aquela utilizada pelo Banco Mundial, de US$ 1 ao dia, com 4,69% da população. A taxa média anual de redução da miséria de 1992 a 2006 foi de 5,54%. No período 2003-2006 se atinge uma média de 11,8%.
De 1993 a 1995 o índice foi de 10,74. Ou seja, fala-se de mais de 5.000.000 de brasileiros que deixaram a condição de miseráveis nesses últimos anos dessa década.
Mesmo assim, para o IDB/DATASUS a proporção de pobres no Brasil em 2006 é de 33,12%. Segundo o IBGE, considerando a linha ½ salário mínimo per capita mensal, em 2007, a PNAD revelou que 30,0% dos brasileiros estão em situação de pobreza, com este patamar de rendimentos. Para o IPEA, são 30,65% de pessoas pobres em 2007, 56,4 milhões de pessoas em domicílios pobres, com renda per capita inferior à linha de pobreza.
O fato é que apesar dessas alterações a problemática da pobreza continua sendo extensa e intensa no interior da sociedade brasileira.
Dentre os vários fatores responsáveis por esses impactos, destacam-se a estabilidade da moeda, as alterações nas taxas de desemprego - apresentando queda - e os programas de transferência de renda, considerando sua expansão e focalização nos segmentos pobres (IPEA, 2006; NERI, 2006; SILVA E SILVA, 2006). Sobre o efeito dos programas de transferência de renda, no declínio da pobreza, Neri (2006) e o IPEA (2006) destacam as aposentadorias rurais, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pelo valor do benefício, e, especialmente, o Bolsa Família, em função da extensão de sua cobertura, cerca de 11,2 milhões de famílias.
Para Schwarzer e Querino (2002), essas mudanças no número de pobres devem-se à contribuição das aposentadorias rurais, com início da sua implantação entre 1992-1996. Soares (apud SILVA E SILVA, 2006) acredita que o Bolsa Família tem conseguido apenas melhorar a situação de vida das famílias beneficiadas sem, contudo, alterar a condição de pobreza delas. Nesse sentido, para Soares somente programas, como o Benefício de Prestação Continuada e a aposentadoria rural, apresentam impacto significativo no quadro da pobreza no Brasil (SOARES, apud SILVA E SILVA, 2006).
O que se quer destacar, para fins de análise, é o fato de que esse impacto identificado, de mobilidade dos indigentes para a condição de pobres, de alteração na vida desse segmento, ou ainda, das pessoas na linha de pobreza, apesar de ser considerado significativo - num contexto de grandes contingentes de indigentes no país, é preciso que se diga - a partir da própria afirmação do IPEA, que a desigualdade de renda brasileira permanece extremamente elevada, quando “a renda apropriada pelo 1% mais rico da população é igual à renda apropriada pelos 50% mais ricos” (IPEA, 2006, p.8).
Pode-se, então, considerar que esse impacto refere-se muito mais ao índice de miséria e pobreza, do que necessariamente aos padrões de desigualdade de renda e riqueza, numa redistribuição de renda, tirando dos mais ricos para os mais pobres. Trata-se de um repasse de recursos públicos para os mais pobres, através das transferências de benefícios monetários, de forma focalizada e minimalista.
A concentração de renda e riqueza está relacionada à distância, ao fosso
“abismal” entre os rendimentos do capital e do trabalho, da “depressão salarial” (OLIVEIRA, 1988), e, por conseqüência, ao fato de que “a distribuição funcional da renda tem um viés anti-salarial [...], ou seja, o salário representa uma parcela reduzida da renda comparativamente a juros, lucros e aluguéis” (GONÇALVES, 1999, p. 54). Um exemplo de grande magnitude é o próprio salário mínimo, no qual se identifica uma distorção entre as necessidades básicas de uma família e o poder de compra conferido por esse salário.
Observando a tabela 2, conclui-se que o salário mínimo é pelo menos 5 a 4 vezes menor que o salário necessário, de acordo com cálculos do Dieese (2005).
Não só o salário mínimo é mais baixo que o salário necessário, como também a média - rendimentos reais - tem declinado ao longo dos anos, sendo insuficiente para garantir a satisfação das necessidades dos trabalhadores e suas famílias. Verifica-se o
“decréscimo do poder aquisitivo dos salários nos anos 1990 quando comparado com o rendimento médio real das ocupações profissionais de 1986” (POCHMANN, 2001, p. 72).
Em 1986, a média real dos rendimentos era de 3,56 salários mínimos; em 1995, passou para 2,35, uma queda correspondente a 34%. Em 2004 a média dos rendimentos estava em 3,18 salários mínimos, indicando uma alteração em relação a 1995. Em 2007, cai para 2,52 salários. É importante enfatizar que essa média cai consideravelmente se se leva em conta os trabalhadores sem carteira assinada (IPEA, 2006; IBGE, 2006). Outro dado importante na avaliação dos rendimentos é que em 2007, os 10% da população ocupada com os mais baixos rendimentos detiveram 1,1% do total da renda do trabalho, enquanto os 10% com os maiores rendimentos ficaram com 43,2%, evidenciando a permanência de alta concentração de renda (IBGE, 2008).
Tabela 1 - Relação salário mínimo real x valor necessário 1998-2004
ANO/MÊS /
REFERÊNCIA VALOR NOMINAL VALOR NECESSÁRIO
1998/MAIO R$ 130,00 R$ 942,09
1999/MAIO R$ 136,00 R$ 882,53
2000/ABRIL R$ 151,00 R$ 973,84
2001/ABRIL R$ 180,00 R$ 1.092,97
2003/ABRIL R$ 240,00 R$ 1.557,55
2004/MAIO R$ 260,00 R$ 1.386,47
2007/MAIO R$ 380,00 R$ 1.620,64
2008/MAIO R$ 415,00 R$ 1.987,51
2009/MAIO R$ 465,00 R$ 2.045,06
Fonte: DIEESE
Outro fator que pode ser associado à concentração de renda e riqueza, e como decorrência disso a produção e reprodução da pobreza e da desigualdade, é a histórica condição da mão-de-obra excedente – a questão do desemprego e do subemprego.
Segundo Pochmann, “[...] a parte mais visível deste excedente é identificada pelo desemprego aberto, [...], que corresponde aos trabalhadores que procuram ativamente por uma ocupação, estando em condições de exercê-la imediatamente e sem desenvolver qualquer atividade laboral...”, seja de longo prazo ou não. Por outro lado, “o subemprego e
outras formas de sobrevivência respondem pela parte menos visível do excedente de mão- de-obra porque envolvem os trabalhadores que fazem ‘ bicos’ para sobreviver”, além daqueles que deixam de buscar uma colocação profissional “por força de um mercado de trabalho extremamente desfavorável (desemprego oculto pelo trabalho precário e pelo desalento)” (POCHMANN, 2005, p. 78-79).
O mercado de trabalho no Brasil, de acordo com Pochmann, passou por um processo de estruturação, abarcando o período que vai de 1930 a 1980, com predominância do segmento organizado urbano, em vista do avanço das ocupações mais homogêneas,
“com base nas empresas tipicamente capitalistas, na administração pública e nas empresas estatais representadas fundamentalmente pelo emprego assalariado regular e regularizado”
(POCHMANN, 2006, p.123), apesar de que constituiu um movimento em que foi conformada uma “sociedade salarial incompleta”, com “periferização do setor industrial” (POCHMANN, 2005, p.25), portanto, deu-se uma estruturação incompleta.
A partir dos anos 1980, passou a prevalecer uma dinâmica de desestruturação do mercado de trabalho, com acentuação na década de 1990, com a desregulamentação e flexibilização do mercado de trabalho, caracterizada pelo que Pochmann chama de uma
“segunda década perdida, marcada pelo crescente desemprego, pela contínua concentração da renda, pelo aumento do endividamento interno e externo e pela ausência de crescimento sustentado” (POCHMANN, 2005, p.63); pelo abandono do projeto de industrialização e pela adesão a políticas macroeconômicas de inserção na nova ordem internacional e enfraquecimento do trabalho, por meio da manifestação do segmento não organizado do mercado de trabalho, do aumento do trabalho informal, da precarização do mundo do trabalho (POCHMANN, 2006).
As taxas de desemprego, segundo gráfico 2 abaixo, a partir dos anos 1990, têm um crescimento acentuado, sem paralelo em qualquer outro período, especialmente a partir de 1992, período de grande crise com o governo Collor. De acordo com o IBGE (2001)
“houve tendência de crescimento do desemprego até 1992, queda no triênio 1993/1995, seguindo-se leve aumento em 1996/1997 e um salto no final da década para um patamar mais elevado” (IBGE, 2001, p. 116).
Fonte: Pochmann (2005)
Gráfico 2 – Brasil: Evolução do índice de desemprego, 1980 – 1999 (1980 = 100,0)
Apesar de essa tendência ter se mantido até o ano de 2000, “com forte taxa de desemprego aberto e perda relativa de participação do emprego formal no total da ocupação”, há novidades, segundo Pochmann, na composição do mercado de trabalho em geral, no Brasil. Essas alterações são analisadas pelo autor tendo como referência dois períodos (1979-1999 e 1999-2004), a partir de resultados de pesquisas do IBGE/PNAD. O segundo período interessa mais de perto ao estudo aqui desenvolvido. Ele registra “uma contraposição em relação ao comportamento geral de desestruturação do mercado de trabalho” (POCHMANN,2006, p.124), podendo ser estendido até 2008, segundo tabela 1.
Essa reversão conjuntural é medida pela queda relativa na taxa de desocupação9 (tabelas 01 e 02), segundo dados do IBGE; o florescimento do assalariamento, respondendo por 87% das novas vagas geradas, no total das ocupações abertas; e a retomada do emprego na indústria, com melhor desempenho, responsável por quase 1/3 do total de novos empregos no setor urbano, sem desconsiderar também o papel do setor terciário10 (POCHMANN,2006). Apesar dessas quedas na desocupação, os índices ainda continuam significativos, inclusive com taxas altíssimas de informalidade (tabela 03).
9 Para o IBGE, as pessoas classificadas como desocupadas são aquelas “que não estavam trabalhando, estavam disponíveis para trabalhar [...] e tomaram alguma providência efetiva para conseguir trabalho nos trinta dias anteriores à semana em que responderam à pesquisa (IBGE, 2009, p.19).
10 A expansão do emprego na indústria encontra-se diretamente associada à taxa de câmbio e ao crescimento do comércio internacional, com o aumento das exportações, ainda que com baixo crescimento econômico no período analisado (1999-2004) (POCHMANN, 2006).
Tabela 2 - Taxas de desocupação no Brasil
Ano 1999 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
% 7,6% 6,2% 9,2% 9,7% 8,9% 9,3% 8,4% 8,2% 7,9%
Fonte: IBGE/PNAD/PME
Tabela 3 - Taxas de desocupação no Brasil – Ano 2009
Ano 1999 meses
Jan Fev Mar Abr Mai
% 8,2% 8,5%| 9,0% 8,9% 8,8%
Fonte: IBGE/PME
Tabela 4 -Taxas de informalidade(1) do trabalho no Brasil
Ano 1999 (2)
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
% 32,5% 57,9% 58,0% 51,6% 57.0% 57.0% 55.1 % 55.1%
Fonte: IBGE/PNAD
Nota:(1) Em geral incluídos os empregados sem carteira, por conta própria, sem remuneração, trabalho para o próprio consumo.
(2) Conta própria e não remunerados
Pochmann questiona até que ponto essas mudanças são suficientes para reverter a tendência de desestruturação do mercado de trabalho. A propósito disso, o autor cita o período de 1983 - 1989 quando houve uma significativa recuperação do emprego formal, mais expressiva do que essa (1999-2004), e que acabou por representar uma oscilação temporária, interrompida pelo governo Collor. Nesse caso, dos anos 1999-2004, para que seja assegurada a reversão da desestruturação do trabalho, há que se garantir desempenho do setor exportador, o crescimento econômico e o compromisso com a restrição à desregulamentação do mercado de trabalho. Fora disso, será “apenas mais um caso de interrupção temporária” da longa marcha de precarização do trabalho no Brasil (POCHMANN, 2006, p. 142).
O problema é que não se pode entender a dinâmica de funcionamento do mercado de trabalho apenas a partir de questões internas, no padrão de desenvolvimento e nas políticas macroeconômicas e nas lutas sociais, há que se levar em conta também os fatores externos, como o modo de inserção no contexto internacional, a exemplo das conseqüências da crise desencadeada nos E.U.A. em 2008, na economia brasileira.
Por esses motivos, convive-se com mudanças e continuidades, com a
“possibilidade da ocorrência simultânea dos tempos, capaz de combinar processos de longa duração das estruturas com movimentos de menor temporalidade da conjuntura” (BRAUDEL apud POCHMANN, 2006, p. 142), em outras palavras, um lapso na temporalidade, uma alteração conjuntural que muitas vezes não tem conseguido atingir os padrões estruturais.
O que se quer destacar finalmente é a relação entre pobreza e trabalho, não só do ponto de vista do trabalho excedente, produzido pelo capitalismo, mas pela própria forma de apropriação do trabalho, considerando o valor; os rendimentos; as condições laborais; a negação do direito ao trabalho; a atividade produtiva em geral, restrita à busca da sobrevivência do trabalhador; a secundarização do processo de criação, do crescimento, da capacitação, da ciência, da tecnologia, da fruição do tempo livre. Um exemplo disso é que nos anos 1990, da mão-de-obra ocupada no Brasil, 66,4% estavam na condição de atividade inferior, desenvolvendo tarefas simples, manuais, de execução. É importante também enfatizar as desigualdades no mercado de trabalho considerando fatores como gênero, raça, cor, idade, região, localização - rural/urbano/metropolitano - a segmentação - formal/informal.
Associada às questões da renda, da riqueza e do trabalho, destaca-se outros indicadores significativos para a compreensão da pobreza na sociedade brasileira, como a educação, a saúde e a previdência. A educação, enquanto política básica, tem constituído um tema importante na questão da pobreza, juntamente com a saúde, especificamente nos programas de transferência de renda, a exemplo do Bolsa Família. Sobre a educação, de início enfatiza-se uma conquista importante: a freqüência escolar tem apresentado uma tendência à universalização, com 97% para a faixa etária de 7 a 14 anos e 82% para a de 15 a 17, em 2004. (IBGE, 2006). No entanto, faz-se necessário colocar algumas questões:
primeiro o fato de que essa tendência não se aplica a todos os grupos etários, no caso, considerando as crianças de 0 a 3 anos, esse índice da freqüência escolar baixa para 13%;
no ensino médio, a proporção de adolescentes na faixa de 15 a 17 anos que conseguiram atingir esse patamar de escolaridade era de apenas 44, 4%, caindo para 22% nas áreas rurais, uma vez que boa parte desses adolescentes encontrava-se no ensino fundamental.
O mesmo ocorre com o ensino superior quando apenas 1/3 dos jovens entre 18 a 24 anos estavam, em 2004, na universidade (IBGE, 2006).
Depois, a taxa de analfabetismo no Brasil, em 2004, era de 11,4%, mas, levando em conta o analfabetismo funcional (pessoas alfabetizadas com deficiência na leitura, na escrita e nas operações elementares de matemática), esse número aumenta para 24,4% ou mesmo 30% se se considera o segmento dos adultos. Outro dado importante que revela o perfil da escolaridade no país é a média de anos de estudo das pessoas, na faixa de 15 ou mais de idade, de apenas 6,8, demonstrando um baixo índice de formação escolar da
população. Por último, é importante registrar desafios relativos à correção do fluxo escolar, o atraso, o combate à evasão, a defasagem série/idade, além das melhorias na qualidade do ensino, com rebatimentos na aprendizagem dos alunos.
Nesse sentido, é reveladora a contradição entre a tendência universalizadora da freqüência escolar e as taxas de aprendizagem, a relação entre os indicadores quantitativos (freqüência escolar) e os qualitativos (aprendizagem). Segundo Demo (2003), os níveis de aprendizagem têm seguido movimento decrescente, a exemplo do desempenho dos alunos da 4ª série do ensino fundamental, quando em 1995 apresentava média de aprendizagem de 188.2 em português e 190.6 em matemática, em 2001 esses números baixaram para 165.1 e 176.3 respectivamente.
No tocante à saúde, indicadores como a esperança de vida ao nascer também vêm aumentando. De 1991 a 2004 foram acrescentados 4,7 anos, totalizando 71, 7 anos em 2004, com variações singulares nas questões regionais e de gênero. Decresceram as taxas de mortalidade de 6,8% em 1991 para 6,3 em 2004, especificamente a infantil, de 45, 1%
para 26, 6% no mesmo período (IBGE, 2006).
O perfil da mortalidade no Brasil tem apresentado uma queda de óbitos infantis, redução relativa de mortes por doenças infecciosas e parasitárias e o aumento das mortes por doenças crônico degenerativas e causas externas. Segundo dados do Ministério da Saúde a proporção das causas de morte no país está assim colocada: em primeiro lugar as doenças do aparelho circulatório (31, 54%), a principal causa no Brasil e em todas as regiões, seguida das neoplasias (15, 50%) e causas externas (14, 58%), depois as doenças do aparelho respiratório (11, 24). As doenças infecciosas apresentam taxa de 5, 3611. A mortalidade infantil, apesar de registrar queda, ainda permanece alta, com incidência maior no nordeste (35,48%) seguida do norte (26,22) (BRASIL/DATASUS, 2005).
As doenças infecciosas e parasitárias mesmo não constando, em termos proporcionais, como dado significativo no quadro da mortalidade, elas apresentam a quarta maior causa de internação no Sistema Único de Saúde (SUS), com 8, 38% no Brasil, sendo o norte brasileiro a região que registra o maior índice (13, 18%), vindo a seguir o nordeste (11,80%)12. O aumento das mortes por causas externas, principalmente em decorrência da violência, é outro dado preocupante, atinge jovens e adultos, sobretudo do sexo masculino.
Esses números vêm crescendo de 121 óbitos em 1980 para 184 em 2003, para cada
11 Dentre as causas de morte estão classificadas as chamadas causas mal definidas que atingem índice de 13, 31%, o que indica deficiências no preenchimento dos atestados de óbito e por outro lado precariedade de recursos médico-assistenciais, prejudicando as pesquisas sobre a realidade da saúde brasileira, especificamente sobre a questão da mortalidade (BRASIL/ DATASUS, 2005).
12 As causas de internação no SUS estão assim classificadas: primeiro os motivos de gravidez, parto e puerpério (23, 02%); segundo as doenças do aparelho respiratório (14, 91%); depois as enfermidades do aparelho circulatório (10, 49%); em quarto as infecciosas, como já mencionado acima (BRASIL/DATASUS, 2005).
100.000 jovens de 20 a 24 anos de idade, do sexo masculino, grupo etário este de maior vulnerabilidade (IBGE, 2006).
Outro dado de saúde pública que revela o quadro da pobreza no Brasil é a questão do esgotamento sanitário que passou em 1993 de 64,7% para 69,6% em 2004. Os serviços de água potável (83, 2%), coleta de lixo (85, 8%), energia elétrica (97, 4%), apesar de expandidos, ainda não foram universalizados, especialmente a água, o esgoto e a coleta de lixo (IBGE, 2005).
No que se refere à previdência, segundo dados do IBGE (2006), em 2004, a proporção de contribuintes em qualquer trabalho na população ocupada estava em 46, 5%, com maior presença dos homens, sendo que a região sudeste apresenta o maior percentual (58, 3%) e no outro extremo aparece o nordeste (28, 2%). Esse dado sobre o percentual de contribuintes à previdência revela, dentre outros aspectos, a situação de precarização do trabalho no Brasil, a esfera da informalidade nos contratos de mão-de-obra. Uma outra questão dos serviços previdenciários que se faz necessário pontuar é o valor médio dos benefícios, no patamar de R$ 473, 51 em 2005, o que representa menos de dois salários mínimos (DIEESE, 2006). Segundo ainda o DIEESE (2006), a maioria dos benefícios do Instituto de previdência no país estão na faixa de um salário mínimo, correspondendo a 63,54% do total dos beneficiários. Nesse sentido, os serviços básicos são perpassados pela precariedade, pela dimensão minimalista, ou seja, uma proteção social pública de perfil extremamente excludente, que por sua vez é revelador da situação de pobreza da população brasileira, marcada por desigualdades, contrastes sociais e econômicos.
Essa problemática relacionada à família exige de um lado o entendimento primordial de questões estruturais, relativas ao padrão de desenvolvimento do país, de dependência externa e profundas assimetrias sociais, a oferta de serviços de proteção social, a questão do trabalho, do emprego, da renda, do salário, as desigualdades sociais perpassadas por questões regionais, culturais, políticas e sociais, mas também a observação de alguns elementos, tais como: a) as famílias pobres tendem a ser mais numerosas (em 1990, 47,3% das famílias pobres eram constituídas de mais de quatro pessoas, em comparação com 26, 2% entre as não-pobres); b) a renda das famílias pobres depende mais dos ganhos do trabalho dos chefes das famílias; c) esses chefes de famílias nas camadas pobres são relativamente mais jovens, com crescimento da chefia feminina, incidindo na questão da inserção no mercado de trabalho e nos salários; d) os chefes de famílias que se declaram de cor preta são proporcionalmente mais presentes entre os pobres; e) os pobres estão mais submetidos a trabalho informal, a atividades econômicas em setores de baixa produtividade; f) os níveis de escolaridade dos chefes de famílias são muito baixos, com grande incidência de analfabetismo (SOARES, 2001, p. 180-181); g) as crianças e adolescentes são mais vulneráveis à pobreza, a exemplo da problemática do
trabalho infantil. A despeito da redução das estatísticas, ainda existem no Brasil 4,8 milhões de crianças e adolescentes trabalhadoras, num contingente de 44,7 milhões, na faixa etária de 5 a 17 anos de idade (IBGE, 2008).
Enfim, essa realidade do trabalho, da renda, da pobreza e da desigualdade atinge diretamente a grande maioria das famílias brasileiras, constituindo portanto uma demanda desses grupos e certamente um enorme desafio no contexto das políticas e dos programas sociais.