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Questões metodológicas

Todos têm o seu método tal como todos têm a sua loucura; mas só consideramos sensato aquele cuja loucura coincide com a da maioria.”

(Miguel Unamuno y Jugo)

Para realizar a análise do discurso falado do indivíduo diagnosticado com esquizofrenia, desenvolvi um estudo de abordagem qualitativa e delineamento descritivo, buscando interpretar os fenômenos sociais da língua. Segundo Cervo, Bervian e Silva (2007), a pesquisa descritiva observa, registra, analisa e correlaciona fatos e fenômenos variáveis sem manipulá-los a fim de desvelar, com o máximo de precisão, a frequência com a qual tal fenômeno ocorre, sua relação e conexão com outros fenômenos, sua natureza e características. Assim, a pesquisa descritiva trabalha com dados ou fatos colhidos da própria realidade, podendo ser viabilizada por meio de instrumentos como observação e entrevista.

Nesta tese, buscamos analisar o chamado “discurso esquizofrênico” por meio de entrevistas e conversas informais, interferindo o mínimo possível nos fenômenos.

Segundo Turato (2005), na pesquisa qualitativa o pesquisador volta-se para o significado dos fenômenos, o qual é partilhado culturalmente e organiza os grupos sociais por representações e simbolismos. Em se tratando de pacientes diagnosticados com esquizofrenia, compreender o significado dos fenômenos atrelados a esse transtorno é essencial para que a pesquisa se desenvolva com ética, comprometimento e seriedade.

Ainda sobre o método qualitativo, tem-se que o campo deve ser o ambiente em que o sujeito está inserido, onde a observação se dá sem o controle de variáveis. Além disso, o pesquisador é o próprio instrumento de pesquisa, o qual utiliza de seus sentidos para apreender os objetos estudados, “espelhando-os então em sua consciência onde se tornam fenomenologicamente representados para serem interpretados” (TURATO, 2005, p. 510).

Outra característica do método qualitativo, segundo Turato (2005), é o fato de que ele tem maior rigor na validade dos dados coletados, dada a observação acurada e aprofundada, que leva o pesquisador a aproximar-se em demasia da essência do objeto de estudo. Por fim,

37 embora os resultados não sejam matemáticos ou quantificáveis, o método qualitativo permite estabelecer análises que revejam, reavaliem ou reafirmem pressupostos iniciais, a partir da descrição de fenômenos que se dão na interação social.

Adentrando uma Instituição Psiquiátrica: o valor dos meus valores

Por se tratar de uma pesquisa que envolva seres humanos, primeiramente enviei meu projeto de pesquisa ao COPEP – Comitê Permanente de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual de Maringá. O Projeto foi avaliado e, após alguns ajustes solicitados pelo Comitê, foi aprovado sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética de número 71700417.7.0000.0104.

Com o projeto aprovado, entrei em contato com a direção do Hospital Psiquiátrico de Maringá e apresentei o projeto ao diretor, o qual aceitou prontamente minha estadia na instituição para a realização da pesquisa.

Primeira contradição: eu estava recebendo ajuda direta de uma instituição psiquiátrica. De uma instituição que, para mim e para a Reforma Psiquiátrica, não deveria existir. Perguntava-me a todo tempo o que eu estaria fazendo ali, e se eu não estaria colocando meus interesses pessoais acima da honestidade. Nos meses anteriores, por meio do estágio de Psicologia, eu havia criado laços não só com os pacientes, mas com os funcionários do Hospital, com a diretoria do Hospital, enfim: eu criei laços com uma instituição psiquiátrica.

Segunda contradição: eu estava estabelecendo, ali, com o diretor, uma promessa. A promessa de uma pesquisa de Doutorado que, muito provavelmente, questionaria os métodos de tratamento daquela instituição.

Foram dias de autopunição e de questionamentos das mais variadas ordens. Qual seria meu papel? Seria possível jogar “nos dois times” ou eu estava mesmo “virando a casaca”? Como eu iria apresentar uma pesquisa que criticava a institucionalização à uma instituição que me acolheu prontamente? Eu conseguiria trabalhar ali, ignorando os fatos históricos e científicos sobre as instituições psiquiátricas? Isso seria certo? Os fins justificariam os meios?

38 Acessei o dicionário do Google, em busca da palavra “contradição”. Lá estava: “falta de nexo ou de lógica; incoerência, discrepância”. Nada mais claro: se eu estava ali para falar de incoerência, então eu também precisava lidar com as minhas. Segui com a pesquisa e com minhas contradições.

O Hospital Psiquiátrico de Maringá foi fundado como Sanatório Maringá em 23 de dezembro de 1966 pelo médico paulista Onofre Pereira de Mendonça. O hospital conta com 240 leitos, divididos em seis alas: a primeira acolhe os recém-chegados; a segunda é chamada de “ala dos transtornos mentais” para pacientes do sexo masculino; a terceira é chamada de

“ala dos dependentes químicos”; a quarta é exclusiva das pacientes do sexo feminino; a quinta abriga crianças e adolescentes; e a sexta ala é somente para pacientes particulares.

Cerca de 95% dos pacientes são encaminhados pelo Sistema Único de Saúde, tendo suas despesas custeadas pelos órgãos públicos. Nossa pesquisa se deu na “ala dos transtornos mentais” para pacientes do sexo masculino e na ala dedicada a pacientes do sexo feminino.

Eu já estava inserida na instituição há cerca de dois meses antes de começar a pesquisa, pois, como já disse, desenvolvia um estágio para o curso de Psicologia. Portanto, já estava ambientada no campo em que coletaria os dados. A pedido da direção do Hospital, a coleta foi realizada em duas salas de atendimento médico, sendo que uma se encontrava adjacente ao pátio da ala feminina e outra adjacente ao pátio da “ala de transtornos mentais”

para pacientes do sexo masculino.

Foram entrevistados, ao todo, 17 pacientes. Três pacientes com esquizofrenia de traços persecutórios não autorizaram a gravação da entrevista. Outros dois pacientes não apresentavam linguagem “confusa”, por estarem com seus quadros clínicos estabilizados. Ao final, foram transcritas 12 entrevistas, com 6 homens e 6 mulheres.

As entrevistas se deram da seguinte maneira: a psicóloga da instituição selecionava os pacientes diagnosticados com esquizofrenia e que apresentavam uma linguagem mais

“confusa” ou “incoerente”. Eles eram encaminhados a mim e nós conversávamos nas salas de atendimento. Quando o paciente chegava, eu explicava minha pesquisa de maneira acessível e meus objetivos ali. Em seguida, dizia que gostaria de gravar a conversa que teríamos, mediante autorização. Se o paciente concordava, eu logo ligava o gravador do celular, posicionava em frente ao paciente e iniciava o diálogo com uma pergunta

39 disparadora que envolvia questões pessoais, como “quem é você?”, “por que você está aqui?”, ou simplesmente pedia que contasse um pouco da sua história. A coleta foi realizada aos sábados pela manhã, quando eu entrevistava de 2 a 3 pacientes. As entrevistas duravam de 10 a 30 minutos e o corpus deste trabalho é composto de 218 minutos e 43 segundos de gravação.

Os nomes utilizados nesta pesquisa são fictícios e mantive total sigilo a respeito da identidade dos pacientes. Também são fictícios os sobrenomes e os nomes de terceiros que, porventura, aparecem no corpus. Ao apresentar excertos das entrevistas, identifiquei o nome fictício, o sexo, a idade e o transtorno do paciente de acordo com a categorização do CID-10.

Um paciente do sexo masculino, de 45 anos e diagnosticado com esquizofrenia paranoide, por exemplo, está identificado ao final dos excertos da seguinte maneira: (Onório, M, 45, F20.0). Nas transcrições, identificamos a fala da pesquisadora com a marcação da inicial P e a fala dos informantes com a marcação de Locutor 1 (L1). Importante destacar que, no capítulo final, em que falo de cada paciente, há algumas informações sobre ele ou ela. Apenas nome e sobrenome são fictícios, sendo que os outros dados, especiamente sobre suas condições clínicas, são reais e foram inseridos pois acredito que contribuem para minhas considerações finais, já que se trata de uma pesquisa de cunho qualitativo e na área das ciências humanas.

Para transcrever as falas dos pacientes, utilizei estratégias pensadas de acordo com os meus objetivos. Marcuschi (1986) destaca que é essencial que o analista assinale, na transcrição da conversação, o que lhe convier, devendo apresentá-la de maneira “limpa e legível, sem sobrecarga de símbolos complicados” (MARCUSCHI, 1986, p. 9). Assim, deve-se observar o que será importante para a análise para, então, realizar a transcrição. Não se deve, entretanto, ignorar elementos como detalhes entonacionais e paralinguísticos, já que se trata de uma conversação.

O que o autor sugere é um sistema ortográfico que siga a escrita padrão, mas considerando uma produção real, ou seja, podem-se eliminar morfemas finais, descrever maneiras de pronúncia diferenciadas e truncamentos. Também é interessante uma sequenciação de ideias com linhas não muito longas, sem cortar palavras de uma linha para a outra e evitando maiúsculas no início de turno.

40 Neste trabalho, utilizei algumas normas de transcrição propostas por Marcuschi (1986) e por Preti (2003) com algumas adaptações necessárias. A forma de transcrição do corpus desta pesquisa está apresentada no quadro a seguir.

Quadro 1 – Normas para transcrição, adaptadas de Marcuschi (1986) e Preti (2003) NORMAS PARA TRANSCRIÇÃO

OCORRÊNCIAS SINAIS EXEMPLFICAÇÃO

Incompreensão de palavras ou segmentos

# do nível de renda... ###

nível de renda nominal...

Hipóteses do que se ouviu [hipóteses] [estou] meio preocupado [com o gravador]

Truncamento (havendo homografia, usa-se acento indicativo da tônica e/ou timbre)

/ e comé / e reinicia

Entonação crescente maiúscula porque as pessoas reTÊM moeda Prolongamento de vogal e

consoante (como r ou s)

:: podendo aumentar para ::::

ou mais

ao emprestarem os... éh ::: ... o dinheiro

Silabação - por motivo de tran-sa-ção

Exclamação ! você era centroavante?!!!

Interrogação ? e o Banco... Central... certo?

Qualquer pausa ... são três motivos... ou três razões... que fazem com que se retenha moeda...

existe uma... retenção Comentários descritivos do

transcritor

((minúscula)) ((tossiu))

Superposição, simultaneidade de vozes

[ ligando as linhas A. na casa da sua irmã B. [sexta-feira?

A. fizeram lá...

B. [cozinharam lá?

Indicação de que a fala foi tomada ou interrompida em determinado

ponto. Não no seu início, por exemplo

(...) (...) nós vimos que existem...

Citações literais, relatos da fala de outrem ou leituras de textos,

durante a gravação

“ ” Pedro Lima...ah escreve na ocasião...

“O cinema falado em língua estrangeira não precisa de nenhuma baRREIra entre

nós”...

Fonte: elaborado pela autora.

Neste trabalho, realizamos a análise da língua falada sob algumas teorias específicas.

Baseamos nossa análise na pesquisa de cunho interpretativista utilizada na linguística aplicada e descrita por Moita Lopes (1994), a qual determina procedimentos metodológicos

41 específicos que visam a captar aspectos diferentes do fato social. Na visão interpretativista, de acordo com o autor, os múltiplos significados que constituem as realidades só são passíveis de interpretação. Nesse caso, as variáveis do mundo social não são passíveis de padronização e não podem ser tratadas estatisticamente para gerar generalizações. Assim, a linguagem funciona, ao mesmo tempo, como determinante do fato social e o meio de se ter acesso a sua compreensão, por meio da consideração de várias subjetividades ou interpretações dos participantes do contexto social sob investigação. Dessa forma, a operação científica é subjetiva, entendida como um modo particular de organizar a experiência humana por meio do discurso, sendo, portanto, uma construção social (MOITA LOPES, 1994).

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