3.5 Ambientes seguros
3.5.1 Shoppings centers
Outro tipo de espaço edificado que indica a opção de indivíduos cariocas por um modo de vida privado aparece sob a forma de shopping centers. Para eles, esses ambientes não representam apenas um centro de compras, mas oferecem serviços e atividade como cinemas, espaços para festas, consultórios médicos, agências bancárias e mais uma infinidade de opções.
Os shoppings deixam claro o papel que desempenham na vida social carioca em meio à violência da cidade. Assim, são considerados espaços que acolhem apenas os iguais, rejeitando de forma clara aqueles que não pertencem ao mesmo grupo social.
Vale destacar que os sujeitos estão atribuindo aos shoppings centers um lugar de ponto de encontro, precisamente o papel relacionado a um espaço público.
Entretanto, ao definirem dessa maneira, os frequentadores não se dão conta que ele não possui as características essenciais para se tornar um espaço público. Neste aspecto afirma Leitão (2005),
Além de ser necessariamente aberto, isto é, sem qualquer limitação ou condição para que a ele se tenha acesso, o espaço público, em sua expressão urbanística, é também o espaço da pluralidade, do encontro e do convívio com o diferente, bem ao contrário de um espaço onde renda e classe social são condições imprescindíveis para que nele se seja acolhido.
(p.12)
Esses espaços apenas refletem a imagem e semelhança da sociedade pós- moderna, ou seja, “caíram como uma luva numa sociedade excludente como poucas” (LEITÃO 2005, p.12). Isto posto, o shopping não é um espaço somente de compras que possibilita a entrada de qualquer consumidor. É um ambiente produzido com a intenção de tirar as pessoas das ruas, fazendo-as permanecerem lá por mais tempo.
Eles funcionam como um artifício usado pelos consumidores ativos para afastarem aqueles considerados falhos, como bem diz Bauman. A ideia de limpar os
ambientes dos sujeitos impuros se caracteriza também na escolha do shopping como ambiente múltiplo, abrangendo atividades além das compras efetivamente.
As narrativas comprovam esse ambiente como um espaço seguro para a prática do consumo.
S1: É, acho que as vezes shopping, eu não meu sinto, vamos dizer assim, correndo esse risco
S10: Shoppings. Acho que shoppings e lugares fechados que tem uma segurança privada acho que tem menos riscos de violência.
S14: Shopping eu me sinto mais que segura do que na rua. No meio da rua.
Algum outro local que eu me sinta mais segura...Ambientes fechados me sinto mais segura do que na rua, praça.
Outra alternativa criada pelos cidadãos da cidade, desta vez para a utilização de seus bens com segurança, é o ingresso em comércios diversos, não para consumirem a mercadoria específica do estabelecimento, mas sim para utilizarem seus celulares de maneira segura. De uma forma geral, os sujeitos relatam que entram em farmácias apenas para atenderem o celular e não sofrerem nenhum ato violento. Um dos entrevistados vai além afirmando que a entrada de pessoas nos comércios com esse fim já se tornou corriqueiro, a ponto dos funcionários não estranharem tal prática, pelo contrário, acharem “normal”. Nas palavres dele “[...]
você entra em uma loja, pede desculpa...Ah! Desculpa... e é engraçado porque as pessoas já entendem, né?!”. (S.8)
Os discursos revelam comportamentos com o objetivo de proteção, não só dos bens pessoais de quem fala, como também da própria segurança física. Mais uma vez, o ambiente fechado é utilizado, desta vez, como artifício para a utilização de objetos na cidade do Rio de Janeiro. A violência pode se transformar em uma doença da sociedade que aprisiona o indivíduo e, por consequência, a coletividade num estado de insegurança que gera o medo.
S3: Eu entro dentro de algum prédio pra usar o celular. Tipo se eu “tô”
andando, sei que recebi uma ligação importante eu entro dentro de algum prédio.
S8: Se eu vou atender uma ligação eu entro em uma galeria, em uma loja, em qualquer lugar. Na rua eu não atendo
S18: Mas, o celular, o celular é um objeto de valor caro e eu uso na rua, mas eu tomo algumas precauções. Se eu vou usar na rua, eu entro em uma farmácia.
A partir da oposição apresentada, Roberto Damatta (1997) diferencia, justamente, os ambientes abertos e fechados relacionando essa diferença à casa e à rua. Segundo ele, a casa possui um aspecto mais acolhedor e de cuidado, enquanto a rua provoca um sentimento de aflição e ameaça. Nas palavras dele:
Em todo caso, se a casa distingue esse espaço de calma, repouso, recuperação e hospitalidade, enfim, de tudo aquilo que define a nossa idéia de "amor", "carinho" e "calor humano", a rua é um espaço definido precisamente ao inverso. Terra que pertence ao "governo" ou ao "povo" e que está sempre repleta de fluidez e movimento. A rua é um local perigoso.
(p. 40)
Conforme as narrativas são repetidas, a cidade, a casa, os vizinhos todos apresentam um significado diferente devido ao crime, e sua existência pode ser reestabelecida de acordo com as memórias fornecidas pelo crime. O que corrobora com os dados da tabela acima, onde dos sujeitos que consideraram ambientes fechados como os menos violentos, apenas 1 não sofreu nenhum ato de violência5, assim como aqueles que consideraram a sua própria residência como o ambiente mais seguro, apenas 1 sujeito nunca sofreu com nenhuma ação violenta6.
A veiculação de reportagens, os assaltos que os cidadãos sofrem diariamente, os casos compartilhados a todo momento entre os indivíduos fazem do espaço público um lugar “perigoso e como tudo que o representa é, em princípio, negativo porque tem um ponto de vista autoritário, impositivo, falho, fundado no descaso e na linguagem da lei que, igualando, subordina e explora”. (DAMATTA, p.
42).
O medo e a violência fazem o discurso propagar e circular. A fala do crime, e nisso está incluído os mais variados tipos de conversas, narrativas, piadas, comentários, debates e brincadeiras que possuem o crime e o medo como tema, é contagiante. O que se percebe é que quando se conta um caso, certamente outros se seguem e dificilmente um comentário fica sem uma resposta no mesmo padrão. A fala do crime também é fragmentada, repetitiva e aparece no meio dos mais diversos diálogos, assinalando-as, repetindo a mesma história ou alterações das histórias já contadas, geralmente utilizando apenas recursos narrativos. Apesar de todos esses aspectos, os sujeitos não cansam de contar. Pelo contrário, eles parecem forçados a falar cada vez mais sobre o crime, como se a análise contínua
5 Sujeito 1
6 Sujeito 12
dos fatos pudesse ajudá-los a obter um meio de lidar com suas experiências perturbadoras ou com a natureza arbitrária e singular da violência.
A justificativa para essa prática é explicada por Caldeira (2000)
A repetição das histórias, no entanto, só serve para reforçar as sensações de perigo, insegurança e perturbação das pessoas. Assim, a fala do crime alimenta um círculo em que o medo é trabalhado e reproduzido, e no qual a violência é a um só tempo combatida e ampliada. (p.27)
Isso se identifica na fala dos sujeitos quando perguntados se já sofreram algum ato de violência. As respostas afirmativas somam 42 sujeitos, compreendendo 70% dos entrevistados. A maioria relaciona os atos aos assaltos.
Tabela 10 - Ato violento sofrido
Sofreu ato de violência Sim Não
Total (NA) 42 18
Total (%) 70 30
Fonte: O autor, 2018.
Ao serem perguntados sobre os atos violentos, vale destacar alguns dos discursos dos sujeitos:
S1: A primeira vez, eu fui assaltada e levaram meu celular com uma faca.
Segunda vez, um mês depois, tentaram levar meu celular de novo no metrô da Pavuna.
S22: Eu fui assaltada a mão armada com uma arma na cintura, é...na porta da minha casa onde levaram bolsa...eu tava chegando de viagem, então foi mochila, bolsa com comida que eu trouxe da minha casa e além de todos os meus pertences. Eu perdi tudo.
S9: Um garoto...na verdade foram dois. Um garoto...duas vezes que me assaltaram. Uma indo pra praia roubaram o meu relógio. Um menino do meu tamanho, sei lá, menor que eu, com 12 anos, pediu pra passar o relógio e eu passei. Aí ele falou pra eu continuar andando, eu continuei andando e acabou foi isso. E o outro foi um menino de 6 anos na esquina da Assembleia com Rio Branco me pediu dinheiro, eu abaixei pra falar com ele, o menino era muito pequenininho eu fiquei com pena e ele levou o meu cordão. Saiu voado com o meu cordão.
Diante das falas dos sujeitos, percebe-se, tal como ocorre nas interações diárias, que as entrevistas realizadas em momentos de excessiva preocupação são frequentemente permeadas pela repetição de relatos de crimes. Isso quer dizer que diversos sujeitos compartilham experiências parecidas de medo e temor.
Durantes os relatos, os sujeitos concedem detalhes sobre o lugar, as circunstâncias e a condição corriqueira do que estava acontecendo antes do
ocorrido, gerando um caráter específico de ruptura mediante à elaboração de pequenos detalhes. Nas palavras de Caldeira (2000):
Elas (as narrativas) representam um acontecimento que teve o poder de interromper o fluxo monótono do dia-a-dia, mudando sua essência para sempre; um acontecimento que se sobressai por causa do seu absurdo e de sua gratuidade. (p.33)
Por sofrerem os mais variados tipos de violência em ambientes cada vez mais hostis, as pessoas elaboram múltiplos mecanismos para escapar das situações que elas identificam como perigosas. Na pergunta “Você, quando está na cidade do Rio de Janeiro, observa as pessoas para a identificação de uma situação de risco para o uso de objetos pessoais?”, obtiveram-se os seguintes resultados:
Tabela 11 - Identificação dos sujeitos
Você, quando está na cidade do Rio de Janeiro, observa as pessoas para a
identificação de uma situação de risco para o uso de objetos pessoais? Sim Não
Total (NA) 51 8
Total (%) 85 15
Fonte: O autor, 2018.
Os sujeitos da pesquisa, em quase sua totalidade, afirmam que enquanto estão nas ruas da cidade percebem nas pessoas características específicas para identificar uma situação de risco. Dentre as particularidades, podemos destacar segundo um deles “a forma como ela [a pessoa] ‘tá’ olhando” (S. 11).
Segundo a psicóloga forense da Universidade de Portsmouth, Claire Nee, o furto começa antes do ato ser executado. Um criminoso começa a enxergar oportunidades em seu cotidiano quando começa a necessitar de dinheiro e pode facilmente mudar foco, ou seja, escolher outra vítima se perceber que existe alguém mais acessível.
Por causa disso, os sujeitos ficam atentos a qualquer comportamento que possa indicar quais dos indivíduos a sua volta possa ser um possível assaltante.
Apesar de alguns aspectos acerca da criminalidade mudarem ao longo dos anos, outros elementos permanecem atualmente tanto nos meios de comunicação como nas narrativas dos aparelhos repressivos do Estado. De acordo com Terra (2010), o que permanece é a ideia de que o criminoso possa ser identificado a partir das suas roupas, ou pelo seu corpo e na relação que se estabelece entre a pobreza e a criminalidade.
O olhar fixo para determinadas áreas do corpo, para os entrevistados, já é um indício que o furto possa acontecer. O modo de olhar também pode ser um motivador para os entrevistados descerem do ônibus com medo de serem vítimas de um assalto.
S4: Se eles estão observando, principalmente menor, que fazem mais esses assaltos, esses furtos.
S13: Se a pessoa fica olhando muito, encarando muito todo mundo ou só a mim, eu presto atenção.
S23: Se elas estão encarando a bolsa de todo mundo.
S25: Eu já saí de uma situação, tipo, no 457 que eu achei que ia ter um assalto, eu desci do ônibus. Tipo, tinham 4 caras sentados em poltronas diferentes e tipo olhando no celular e olhando um para o outro e fazendo contato visual.
Ao observar a narrativa dos sujeitos, percebe-se que os preconceitos não são apenas verbais, mas se reproduzem em rituais de suspeita e investigação. As falas apontam que os pensamentos e os atos dos sujeitos estão “embebidos” pelo raciocínio da fala do crime, sua influência se propaga, afetando as interações sociais. O crime, o medo que ele provoca, o simbolismo que gera, promovem as mais diversas reações de proteção. E por consequência aqueles que não se enquadram nos padrões de normalidade vigentes são perigosos; em decorrência, sofrem os efeitos da exclusão.
As falas a seguir revelam o preconceito expressado por alguns de forma clara e por outros a partir do termo “estereótipo”.
S1: Um dia desses eu tava subindo a minha rua e aí um bando de gente voltou correndo e falando “tá vindo gente, tá vindo gente”. Aí eu voltei correndo também e entrei em um restaurante. E aí depois eu vi que eram vários meninos, não sei se eles eram de rua ou de alguma comunidade.
Sem camisa de short e tudo mais. Poderiam ser só pessoas passando?
Poderiam. Mas às vezes até pelo estereótipo a gente julga como se fosse um arrastão.
S25: Infelizmente, alguns preconceitos como morador de rua e coisas assim, acabam interferindo e tudo mais. É...aqueles estereótipos que a gente não consegue tirar da cabeça, influenciam bastante.
S7: Sempre. Centro da cidade de chinelo...Centro da cidade de chinelo, se não tá sujo de tinta, nem de graxa pode anotar aí que tá lá pra assaltar.
S22: Então, tipo eu aprendi a não ver padrão, mais o que você acha é inerente você vê uma pessoa que anda mais esculachada, que anda mais jogado e infelizmente se for negro, se for isso, se for aquilo, a gente acaba tendo um pouco mais de apreensão, apesar de lutar contra que isso não seja, mas não necessariamente é, mas como a sociedade...sobre tudo, as
informações que a gente tem, o que é divulgado, então a gente acaba achando isso.
S2: Obviamente quando você passa por crianças de rua, você sempre fica mais em alerta. É até um preconceito, mas é inerente, eu acho, quase.
O que se observa é que por mais que alguns sujeitos tenham falado abertamente sobre os preconceitos que permeiam suas atitudes no cotidiano, verifica-se esse mesmo conceito implícito nos discursos de outros sujeitos que encontraram em diferentes termos estratégias para driblar as práticas discriminatórias. Por exemplo, o indivíduo S1 ao dizer “sem blusa, sem camisa, as vezes negro, então a gente cria um estereótipo e as vezes a gente tenta não ficar próximo dessas pessoas assim” está limitando o seu convívio com pessoas que possuem tais características, afirmando que isso acontece pelo fato de criar
“estereótipos”.
A definição de preconceito mais utilizada na Psicologia Social é aquela definida por Allport (1954) que diz que é uma atitude negativa em relação a uma pessoa fundada na crença de que ela tem as características negativas atribuídas a um grupo. Essa atitude seria desenvolvida a partir de dois elementos: um cognitivo, a generalização categorial, e outro disposicional, a hostilidade, que motivaria comportamentos discriminatórios (Jones, 1972).
Com a manifestação da perspectiva de cognição social, o preconceito passou a ser esclarecido a partir da orientação psicológica responsável pelos erros no processamento das informações e dos princípios sociais. Segundo Dorai e Deschamps (1990), nesta perspectiva a estereotipagem seria a qualidade central do preconceito. Os estereótipos são particularidades conferidas aos indivíduos constituídos no fato delas pertencerem a um grupo ou categoria social.
Para Oakes, Haslam e Turner (1994), ter consciência da presença de outros grupos pode estabelecer um mecanismo de comparação entre “nós” e “eles”. Deste modo, constantemente, pessoas são cooperativas em relação aos seus grupos (endogrupos) e inclinam-se a desmerecer os integrantes dos outros grupos (exogrupos). Conhecido como diferenciação intergrupal, esse processo psicológico pode ser compreendido como um dos fatores essenciais que proporcionaram o surgimento de acontecimentos sociais particularmente à formação de estereótipos e preconceitos.
Autores como Doise (1982) e Camino (1996) têm elaborado uma abordagem societal que tem por objetivo analisar as relações intergrupais que colocam o caráter endogrupal não em termos de motivações psicológicas, mas como resultado da dinâmica própria das relações de poder entre os grupos. Deste modo, o preconceito é determinado como uma forma de relação intergrupal constituída em torno das relações de poder entre grupos, criando representações ideológicas que fundamentam a expressão de atitudes negativas e depreciativas, bem como a expressão de comportamentos hostis e discriminatórios em relação aos integrantes de grupos minoritários (Camino & Pereira, 2000; Lacerda & cols., 2002).
Visto o que foi apresentado, o que pode estar ocorrendo é que diante de um conjunto de leis que impedem a discriminação, os grupos dominantes desenvolvam formas ideológicas que preservam as práticas discriminatórias, agora, não mais de forma aberta, mas de maneira mais encoberta.
Na modernidade os sujeitos tinham ancorado o sentido de existência à realidade e almejavam que suas vidas tivessem um caráter mais significativo. De maneira oposta, na atualidade eles são superficiais, divertidos, fonte de liberdade permanente e consumidores incansáveis de bens e serviços que consideram ser elemento crucial para atribuir valor à sua própria pessoa.
A partir desses aspectos adquiridos na pós-modernidade, ou seja, ao perderem sua base de sustentação simbólica e por estarem inseridos em uma sociedade fragmentadora dos afetos e dos laços sociais, os indivíduos pós- modernos se apegam ao consumo como uma espécie de ancoragem identitária em uma tentativa de substituir os aspectos amorosos que deveriam emanar das relações com os demais sujeitos. Pode-se afirmar que o consumo é um espaço de investigação complexo, que abrange diversas atividades, atores e conjunto de bens e serviços que não se limitam apenas aos realizados sob a forma de mercadorias.