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Tecendo memórias, costurando palavras

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 44-56)

entender uma cultura, ela é, e foi, um veículo importante na transmissão de cultura e de conhecimentos, sobretudo em povos africanos. A abordagem desse tema nos encontros foi para perceber o que de conhecimento e relacionamentos essas memórias contribuíram na construção do processo educacional de cada aluno/a negro/a.

É mister destacar o prestígio de autores que se propuseram a estudar e pesquisar o que é memória. Autores europeus renomados trouxeram contribuições de extrema seriedade ao conceituar e trazer os desdobramentos sobre o tema. Entretanto, é imprescindível entender o tema através de uma concepção africana e/ou afrodescendente.

Com a democratização da escrita, a grafia se sobrepôs aos povos ágrafos e por muito tempo considerou esses povos como sem cultura (HAMPATÉ BÂ, 1980). Com o decorrer dos anos, algumas instituições começaram a atentar para as riquezas que essas culturas têm, não somente isto, assim como na memória que pauta a história africana:

A memória realiza uma “revivência” dos fatos que são reatualizados pelos rituais, renovando-se e repetindo-se nas suas diferenças expressas em tempos e lugares.

Neste sentido, a memória vai além e transcende a mera repetição. A memória não separa o presente do passado, uma vez que o primeiro contém o segundo, que vai atualizando fatos da história e da vida. Dizendo de outro modo, a memória assume a condição de representações coletivas, trazendo no seu contexto a história de um povo. (SOUZA, 2006, p. 84)

A memória não é somente recontar um fato, entretanto ela tem um desempenho nobre de transmitir os valores e as histórias de um povo. A palavra é o veículo que forma e que acarreta riqueza à tradição. São histórias contadas de forma simples e didática e que esconde tesouros a serem revelados a um determinado grupo. A contribuição da memória no debate do grupo foi de extrema importância para a conscientização de que as histórias contadas por eles/as mesmos/as colaboraram para a identificação dos seus pares como a de si mesmo. A memória produziu uma reflexão não só no âmbito pessoal, mas estendeu o entendimento das pessoas que estiveram envolvidas na composição do saber de cada indivíduo.

Em uma escala comparativa, na sociedade contemporânea, a escrita passou a valer mais que a oralidade. Apesar de alguns países africanos terem registros gráficos e de escrita, abordaremos a importância da cultura oral. A cultura oral só é validada e reconhecida se tiver o respaldo da escrita. Porém, é esse testemunho, transmitido de geração em geração, que molda e constrói o continente africano. Países, a história e a memória são edificadas através da oralidade, na qual, a partir da palavra falada, a narrativa se torna real. A memória tem uma força magna, sobretudo para os africanos, pois existe um relacionamento intrínseco entre o homem e a palavra, a saber:

É, pois, nas sociedades orais que não apenas a função da memória é mais desenvolvida mas também a ligação entre o homem e a Palavra é mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem está ligado a palavra que profere. Está comprometido por ela. Ele é a palavra, e a palavra encerra um testemunho daquilo que ele é. (HAMPATÉ BÂ, 1980 p. 182)

Essa relação não prioriza a fidedignidade do que está escrito, mas de quem escreve. É a partir do homem e da mulher que emana o conhecimento, e é por meio dele/a que a história começa a ser tecida. No saber africano, a palavra forma o homem/mulher e através dela o ser humano pode se conectar socialmente, espiritualmente e historicamente. A tradição oral forma todo o saber dos países africanos: ela cria e recria, significa e ressignifica.

Como escrever a história, o poema, o provérbio sobre a folha branca? Saltando pura e simplesmente da fala para a escrita e submetendo-me ao rigor do código[...]? Isso não. No texto oral não toco e não o deixo minar pela escrita arma que conquistei ao outro [...]. Interfiro, desescrevo, para que eu conquiste a partir do instrumento da escrita um texto meu, da minha identidade [...]. Temos de ser nós. “Nós mesmos”.

Assim reforço a identidade com a literatura, (RUI, 1985a apud PADILHA, 2007, p.

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Hampaté Bâ (1980) sublinha a ideia de que o falar se compara a um ato de tecer. O ato de criar tem como matéria-prima o falar. O tear entrelaça os fios e dá origem a uma textura com cores e estampas, de tal maneira é o poder que o falar tem. Isoladamente é apenas um fio, porém, quando passa pelo processo do tear, principia a vestir formas e cores diversas e próprias. Existe uma importância na memória individual, contudo ela harmoniza ao se manifestar quando se torna coletiva: o valor coletivo é sobreposto ao valor individual.

Essa fala tem uma função primordial na criação do homem, uma vez que ele não é só matéria, porém é composto de vida, vontades, conhecimentos. Tudo isso passa a ter significado quando se verbaliza.

É relevante complementar esse conhecimento com o que Fanon (2008) sublinha quando ressalta que “falar é existir absolutamente para o outro” (FANON, 2008, p. 33).

Ribeiro (2017) reafirma isso ao destacar que “o falar não se restringe ao ato de emitir palavras, mas de poder existir” (RIBEIRO, 2017, p. 64). Há um entendimento da individualidade do ser humano, contudo há uma atenção ao senso de comunidade onde é possível notar a criação da coletividade com base na existência desse ser a partir da fala.

Hampaté Bâ (1980), em A tradição viva, faz uma alusão à Palavra com um oficio. A Palavra não é algo aleatório. Há uma didática para se fazer dela uma obra. Usa-se de algumas profissões que refletem bem a importância que se tem para os povos africanos, a saber:

Os artesãos tradicionais acompanham o trabalho com cantos rituais ou palavras rítmicas sacramentais, e seus próprios gestos são considerados uma linguagem. De fato, os gestos de cada ofício reproduzem, no simbolismo que lhe é próprio, o mistério da criação primeira, que, como foi mostrado anteriormente, ligava-se ao poder da Palavra. Diz-se que:

“O ferreiro forja a Palavra, O tecelão a tece,

O sapateiro amacia-a curtindo-a” (HAMPATÉ BÂ, 1980, p. 185)

Assim como a profissão era um ofício passado de pais para filhos, a memória é preservada e confiada às próximas gerações como um ofício. Uma responsabilidade que é comunicada para que se preserve essa identidade. Um cuidado todo especial é dedicado a essa transmissão para que ela possa se manter fidedigna e não ser manipulada. Em contraste, a educação moderna é vista através de uma visão cartesiana, onde a vida do homem é separada por blocos, entretanto a cultura africana é vista na totalidade. O aprendiz precisa viver e experimentar para compreender esse conhecimento.

Quando se fala em Palavra, essa formação não deixa de ser a memória também. Ela é responsável pela tradição, assim como pelo a formação identitária do ser humano. A memória traz a identidade e projeta para o futuro.

Essa conexão conjuga a relação pessoal como também a coletiva. A partir do momento em que se labora essa identidade, advém a se ter um aprofundamento grupal, entendendo que o outro é parte de si e parte de sua história. Por meio das trajetórias que não são estáticas ou imóveis, há uma consciência individual e coletiva.

Ora, a base identitária africana se faz através desse prisma. Ela se torna um elo importante para definir a formação e projeta para o futuro para que as próximas gerações sejam detentoras e transmissoras desses conhecimentos.

Faz-se necessário refletir nesse processo pedagógico que estabelece uma intrínseca relação entre o saber e o fazer. Todo o fazer procede de um conhecimento e o saber automaticamente designa um fazer. Está conectado e não separado o que difere do atual sistema escolar. Especificamente dentro do sistema escolar brasileiro, muitas instituições, sobretudo as geridas pelo sistema público, trabalham com o fazer excluindo o processo do saber, principalmente no processo coletivo da qual a compreensão do outro faz parte. Isso se fez nítido com um dos escritos de Ivone, a saber:

Como pode as pessoas tão queridas que fazem parte de nossas vidas, que vão embora e nunca mais às vemos.

Porquê sentir saudade? De alguém, algo? Que já fez parte de nossa História de vida.

Existe saudades que podemos amenizar um pouco fazendo uma ligação, vizitando ou até mesmo passando uma mensagem. Hoje em dia com tantos meios de

comunicação conseguimos matar um pouco a saudade. Mas, aquelas pessoas que já se foram e não dar para nos comunicarmos mais. Então vamos fazer, dizer, demonstrar enquanto há tempo e vida pois depois que vão embora e não fazem mais parte desse mundo dos vivos. Só nos restará a saudade ou o arrependimento.

(Autonarrativa, 2018, Belford Roxo - RJ)

O griot, palavra de origem francesa, era a pessoa responsável pela transmissão das histórias a um povo. Ele é um mediador entre o povo e o conhecimento. Ele não nasce com essa função, mas torna-se um ao adquirir a proficiência suficiente. O griot era um intercessor entre os indivíduos, uma comunidade ou mesmo entre outras comunidades.

A função de contar histórias não estava somente imputada a uma pessoa. O povo podia usufruir dessa arte contanto que tivesse um atributo imprescindível: o autocontrole (HAMPATÉ BÂ, 1980, p. 190). Esse conhecimento não estava designado a um grupo ou uma linhagem genealógica, ficava a dispor de todos que quisessem se imergir nesse conhecimento.

Há uma relação na aquisição educacional africana que difere da educação europeia.

Enquanto na Europa a educação formal era imperiosa para adquirir conhecimento, na educação africana a vida era a própria escola, ou seja, o fazer, o se relacionar com a comunidade, o constante contato com os anciões, a transmissão de profissão era um conhecimento que garantia ao sujeito pleno de saberes. Na educação europeia, que ainda hoje é vigente na educação brasileira, é ignorado esse histórico, essas vivências, e ele passa a ser letrado a partir do momento em que esse estudante domina os conteúdos pedagógicos.

As memórias, as relações familiares, a transversalidade entre outras histórias é totalmente imêmore em um ambiente escolar. Em uma concepção africana isso é o saber. É valor. A comunidade e as relações com os anciãos são, portanto, a real construção do saber de um indivíduo, nas quais ele entende a sua identidade individual como também coletiva.

Percebe-se essa relação na escrita da Ivone em seu diário:

Lembranças não se tonará um tormento quando elas parecem boas. Mas, lembrar de algumas coisas que nos causam algum mau, faz com que agente perceba que devemos tomar cuidado na hora de fazer-mos nossas próprias escolhas pois se elas não derem certo que possamos achar um jeito de corrigilas e poderemos recomeçar sem elas nos impessa de seguir em frente.

Pensamos que tarde é o tempo que-se demora passar mas, tarde e quando vemos que não fazemos o que queríamos enquanto tínhamos tempo. (Autonarrativa, 2018, Belford Roxo - RJ)

Esse processo educacional não é temporal, todavia ele se faz no cotidiano e passa-se a entender que até na longeva idade é tempo para se aprender. Foi possível perceber em um dos encontros, como descrevi abaixo:

Percebo que vivemos um tempo onde as redes sociais democratizaram a fala. Antes você não tinha instrumentos que pudessem ampliar a sua voz, e com redes sociais tais como o Facebook, Instagram e outros aplicativos isso se tornou possível. Eu não acredito que elas podem oferecer a totalidade daquilo que uma pessoa possa falar.

Elas precisam de outros espaços para que a sua voz seja ouvida, acolhida e apreciada porque alunos e alunas falam em todo o momento.

Uma sala de aula é repleta de vozes que se misturam e gerando um barulho que irrita muitos professores no momento em que precisam explicar a matéria que acabaram de aplicar. Realmente, como professor acho estressante ter muitas vozes falando ao mesmo tempo não permitindo que eu fale. Quando me refiro a ter espaço, significa fala, poder ser ouvido e compreendido. No meio de uma multidão que fala, a sua voz se perde e se torna apenas uma. O lugar de fala requer um espaço daquele que fala e daquele que ouve também. E para mim esses encontros seriam a oportunidade de ouvir o que eles tinham a falar não apenas para mim, mas para o mundo.

Outra posição que tive antes desse segundo encontro foi ter estendido o convite para a escola toda. Alguns alunos/as eu tive a chance de falar pessoalmente, já outros pedi ajuda aos meus colegas de trabalho. Alguns foram indicados antes de iniciar esse processo e foram incluídos no grupo de Whatsapp que criei, já outros eu aguardava que estivessem presentes nesse segundo momento uma vez que eles me garantiram, depois do apelo, que estariam. Inclusive, abri esse convite para aqueles que não eram considerados alunos exemplares pela escola. Talvez esses falassem até muito mais e de forma mais intensa do que outros que são considerados os “bons”

uma vez que eles seriam valorizados por aquilo que eles são, pela maneira como enxergam o mundo e não por uma nota no final de um bimestre.

Um desses alunos que convidei, aliás, ele foi o primeiro a ser convidado desde o início do ano, foi o Abdias. Ele estava muito animado em participar inclusive falou a todos os seus colegas que eu o tinha escolhido para ser parte do grupo que ele sequer sabia o que iria fazer. O processo para que os encontros se tornassem efetivos demorou muito e isso talvez tenha sido um dos motivos da sua desistência. Queria muito que ele participasse pois ele estava no grupo de alunos que “identificado como os não queria nada e não tinham comportamento adequado”. Lembro que eu perguntei para ele se ele gostava de escrever ou de falar de si e ele me disse que gostava de compor. O ritmo? Funk. Ele tinha alguns funks que ele já tinha escrito que lamentavelmente eu não conseguir ter acesso.

Infelizmente nenhum dos convidados apareceram, todavia as quatro alunas (os) do primeiro encontro estavam lá. A primeira pergunta que fiz para eles haviam lido o trecho de “Quarto de despejo- o diário de uma favelada” que havia entregue como cópia para eles. Martinho leu boa parte do livro pois além de entregar cópia dos trechos eu os enviei o livro em PDF. As meninas se afixaram apenas aos trechos entregues no último encontro. Eu os perguntei o que acharam da leitura e todos foram uníssonos em dizer que tiveram um sentimento de tristeza ao ler o livro.

Disseram que a vida sofrida da autora foi o que chocou e trouxe esse sentimento no momento em que liam.

Para este segundo encontro separei um momento para poder falar sobre memória.

Gosto muito desse tema e não é à toa que eu o inclui na minha pesquisa. A memória faz parte da construção desse “eu”, da identidade e da história de cada ser humano.

Paulo Freire afirma que um educador não pode ver um educando como uma “tábula rasa”, ou seja, um ser isento de história. A memória traz a compreensão de passado, de um ser que tem passado, presente e que planeja um futuro. Não apenas alguém que a instituição esteja apenas interessada na força braçal ou alguém que supra as necessidades de boas notas para trazer à escola o status de cumpridora do seu papel.

A escolha pelas duas obras de Carolina não foi sem motivo. Ao meu ver existe uma ponte entre “Diário de Bitita” e “Quarto de despejo”, é o elo entre o passado e o presente. Depois do sucesso editorial de sua primeira obra “Quarto de despejo” creio

que “Diário de Bitita” foi uma resposta de Carolina para dizer ao mundo que ela tinha um passado, e que se orgulhava dele, das suas relações, do seu lugar de nascimento e todas essas relações moldaram o seu caráter, sobretudo para uma mulher negra.

Percebo que o Estado acaba reproduzindo esse estereótipo quando colocam 40-50 alunos em uma sala de aula o que impede em que o professor (a) dê atenção adequada a estes, e compreenda seus contextos de vivência, o que facilitaria o processo de aprendizagem.

Ao perguntar sobre as suas memórias, sobre o que eles lembram da sua infância ou do seu passado surgiram muitas histórias engraçadas uma forma leve de ver o passado e as suas infâncias. As histórias geraram um momento de descontração e tirou o peso do nervosismo que tomava conta de mim no primeiro encontro. Eu pude perceber que nessas histórias sempre estava presente a figura de um mais velho não apenas como um figurante, mas como alguém que imputa influência e ensino. Era comum a figura da avó ser marcante nas biografias de cada um. Dandara relatou que ela tem uma memória fotográfica e que ela lembra detalhes que sua própria mãe desconhece. Uma dessas pessoas presente no compartilhar de suas memórias também foi sua avó.

Ao final do nosso primeiro encontro eu havia pedido que escrevessem nos cadernos que lhes entreguei. E que eles se sentissem à vontade para escrever e compartilhar.

Martinho disse que escreveu muitas coisas sobre ele, sobre seus objetivos e não estava confortável em partilhar em voz alta. Após um silêncio, Ivone decidiu ler em voz alta o que ela escreveu que tinha como título “o tempo”. Aqui um trecho:

Nós queremos sempre que o tempo esteja do nosso jeito mas o tempo deve ser respeitado. Portanto se não respeitamos o tempo ele também não nos respeita [...]

Ele voa e nos faz mal por causa das nossas escolhas e falta de paciência.

Devemos respeitar o tempo. Parece que está demorando mas ele está colhendo as coisas boas para nos trazer.

Veremos que foi a melhor escolha. Nada demora. Tudo se aperfeiçoa para a melhor hora.

Eu a questionei o porquê de escrever sobre o tempo. Segundo ela:

“Eu falo tanto do tempo, falo tanto pra pessoa saber esperar o tempo, às vezes a pessoa entender o porquê estar passando aquilo e eu vejo que quero viver meu tempo eu tenho que aprender a viver cada coisa devagar, cada coisa passando.”

[imediatamente Abdias a interrompe e pergunta se tinha algum motivo de ela ter escrito sobre isso e ela continua:]

“Como mesmo diz um texto na bíblia sobre o tempo de chorar e de repente a pessoa só quer viver sorrindo mas a gente tem que entender que nós temos que chorar, a gente tem que viver o tempo de choro, viver o tempo de sorrir. Todo mundo tem um tempo. Eu posso estar sorrindo e você pode estar chorando e depois a vida pode trocar: eu estar chorando e você sorrindo.”

Apreendo com nitidez a relação do tempo que Ivone traz em seu texto com a relação de Carolina Maria de Jesus. Nos seus diários ela identifica o tempo como algo que age como uma máquina que a impulsiona a sair para catar papel, a levar alimento para casa, a escrever, inclusive datando cada dia no seu diário, revelando essas nuances entre o estar bem e o chorar como ela mesma revela: “tem hora que me revolto com a vida atribulada que levo. E tem hora que me conformo” (2000, p. 22).

O tempo na escrita de Carolina Maria de Jesus permeia a sua escrita dando temporalidade as ações assim como Ivone descreve. Para Ivone tempo é uma chave que levará a entender o significado da vida, a relação que cada ser humano terá que

estabelecer entre o sorrir e o chorar como algo que faz parte da vida e algo que qualquer pessoa terá que enfrentar. (Autonarrativa sobre encontro do dia 23/11/2017, Belford Roxo, RJ)

Toda relação que já é pensada desde a infância começa a tecer um extenso pano de memória que trará uma identificação com um grupo. A comunicação dos mais velhos com as crianças era imprescindível para que se tornasse conhecido a relação do homem com os seus próximos, a natureza e os seus ancestrais. Tomar conhecimento dessas histórias significava conhecer a si mesmo e logo idealizar quem você quer ser e aonde quer chegar.

Novamente, os cinco participantes estiveram presentes. Aproveitando o último tema sobre memória, eu abri o momento com a seguinte pergunta: “Falar seu passado diz sobre quem você é?”. Todos concordaram que isso era possível e imediatamente a Sara se adiantou a dizer que no passado ela brigava muito na escola, uma realidade bem diferente do presente já que ela é muito calma, inclusive no seu falar. Ela percebeu que precisava mudar quando a escola (não sei se outra escola ou a que estamos inseridos) ameaçou sua família de chamar o conselho tutelar. Eu perguntei se ela havia sido a minha aluna e ela respondeu que sim, na turma 902. Eu não me lembrava. Despertou em todo o grupo o desejo de falar sobre o seu passado escolar, de quanto eram desatentos e como isso mudou.

Acredito que o fato de estar dentro de uma escola despertou essa memória afetiva.

Como professor tenho percebido a escola não apenas como um espaço de aprendizagem, mas também como de um lugar que inconscientemente faz parte da vida deles. Muitos alunos ficam ansiosos para que a aula acabe ou que um professor falte para poder sair logo de sala de aula e permanecer na escola por conta do amplo espaço que tem para poderem jogar bola, conversar ou mesmo almoçar, sobretudo em Belford Roxo, onde a escola é um CIEP e mantém uma extensa estrutura física.

A propósito, muitos alunos e alunas têm pais que foram também estudantes da escola na época em que ela funcionava em período integral e a comunidade era participativa nas decisões escolares. Acredito que eles herdaram esse sentimento da escola como um lugar que pertence a eles, não aquilo que eles aprendem como parte de um conteúdo programático, mas as relações estabelecidas causadas por esse lugar.

Por isso a vivência na escola ocupa um lugar em suas memórias.

Dei uma breve explicação sobre o “Diário de Bitita” e fiz uma leitura coletiva de algum trecho do livro, especificamente o capítulo “Os negros”. Eu queria saber como seria a reação deles como ouvintes de um livro que eles começavam a ter contato e também me deleitar em ouvir uma escrita tão poética. Após a leitura, no qual Carolina descreve sua amarga experiência tão nova com o racismo. No término, eu pergunto sobre o tema principal que permeia esse capítulo e Dandara responde que é o preconceito. Eu perguntei se eles se identificaram com algum trecho do livro, sobretudo com racismo. Um silêncio se fez presente. Não sei se era timidez ou se eles não se viam como parte da pergunta. Silêncio novamente. Questiono se eles se consideram negros. Eles responderam que sim, que se viam como negros. Ivone reforça que o fato de ser negra não a faz inferior que ninguém e tampouco menos capaz para fazer qualquer coisa que ela queira mas no final da sua fala revela a sua preocupação de ser avaliada pela sua cor mesmo ainda não tendo vivido isso. Nesse momento a Sara traz a tona um assunto que levantaria muito mais debates do que o racismo. Era o fato de ser moradora da Baixada Fluminense. Isso era para eles uma preocupação já que o fato de morarem distante do centro da cidade os impediriam de conseguir um bom emprego. Sara descreveu que boa parte dos processos seletivos perguntam logo qual o bairro que moram os candidatos e logo avisam que só podem pagar uma passagem de ida e uma de volta o que impede moradores de Belford Roxo, por exemplo de concorrerem ou então terão que pagar do seu próprio bolso a passagem para poderem ir trabalhar.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 44-56)

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