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TRÁFEGO INTRACELULAR DE FERRO E COLESTEROL

TRYPANOSOMATIDAE). CAPTAÇÃO E ARMAZENAMENTO DE MACROMOLÉCULAS

2. REVISÃO DA LITERATURA

2.3 TRÁFEGO INTRACELULAR DE FERRO E COLESTEROL

Ainda que os dados sobre os reservossomos e sobre o tráfego endocítico sejam escassos, outros dados da literatura apontam a relevância desses compartimentos para a proliferação e durante o estresse nutricional que antecede a metaciclogênese.

A captação de íons ferro, por exemplo, é essencial para o metabolismo e sobrevivência de T. cruzi. A aquisição dos íons nos epimastigotas ocorre tanto pela captação de heme quanto por transportadores. A captação de heme já foi mostrada por transportadores do tipo ABC (do inglês ATP Binding Cassete) em epimastigotas (LARA et al., 2007) e pela presença de um transportador localizado na membrana da bolsa flagelar (TcHTE). O mecanismo de ação do transportador TcHTE não está esclarecido, mas é fato que aumenta ou atua no tráfego de heme pela membrana (MERLI et al., 2016).

Os tripanossomatídeos são auxotróficos para heme e as formas epimastigotas de T.

cruzi dependem de heme para a proliferação. O grupo porfirínico atua mediante a sinalização do estado redox no parasito, havendo produção de espécies reativas de oxigênio (NOGUEIRA et al., 2011).

No inseto vetor, a aquisição de íons ferro também ocorre por endocitose de transferrina. O receptor de transferrina em epimastigotas e amastigotas não está caracterizado. Por outro lado, Brosson e colaboradores (2016) mostraram que a endocitose de transferrina ocorre mediante a interação com lectinas de 375 kDa semelhantes topologicamente à superfamília de receptores de lectinas de mamíferos.

Durante o estresse nutricional, Tonelli e colaboradores (2011) mostraram que a fosforilação da eIF2α é necessária para desencadear a metaciclogênese. A eIF2α é um fator de início de tradução em eucariotos superiores, sendo formada por três subunidades (α, β e ) e é ativada sob condições de estresse, sendo fosforilada por uma serina treonina cinase. Em mamíferos, há quatro tipos de serina treonina cinases, uma delas sensível à concentração de heme. Em T. cruzi, a eIF2α cinase (TcK2) está localizada nos reservossomos e é regulada pela concentração de heme. No reto dos triatomíneos, onde a metaciclogênese ocorre, a disponibilidade de heme é escassa e desencadeia a autofosforilação de TcK2, ativando-a. Quando os níveis de heme estão baixos e a TcK2 se torna ativa, ocorre parada da síntese proteica e inicia-se a metaciclogênese (DA SILVA AUGUSTO et al., 2015). Em contrapartida, quando os níveis estão altos, logo após o repasto sanguíneo, o heme captado sai dos reservossomos e é estocado no citosol, contribuindo para a proliferação dos epimastigotas (LARA et al., 2007).

Além do ferro, tanto T. cruzi como outros tripanossomatídeos dependem de fontes de esteróis exógenos. T. cruzi adquire lipídios oriundos do hospedeiro mamífero ou inseto vetor a fim de executar tarefas indispensáveis em todas as formas de desenvolvimento. As formas epimastigota e tripomastigota apresentam variações na composição de fosfolipídios e no perfil de lipídios neutros de acordo com a idade da cultura ou a temperatura de

crescimento (BRONIA; AGUERRI; BERTETTO, 1986; FLORIN-CHRISTENSEN et al., 1997). Já os amastigotas apresentam altas quantidades de colesterol e uma baixa concentração de ergosterol, que constitui o principal lipídio neutro nos epimastigotas provenientes de cultura in vitro ou do inseto vetor (BRONIA; AGUERRI; BERTETTO, 1986;

ISOLA; LAMMEL; GONZALEZ CAPPA, 1986; LIENDO et al., 1999). Esses trabalhos mostram claramente que os parasitos têm a habilidade de modular sua composição lipídica de acordo com o meio e as necessidades celulares. Entretanto, enquanto o receptor de LDL já foi caracterizado em T. brucei rhodesiense (doença do sono na África Oriental, incluindo Moçambique), T. vivax (doença do sono em gado, equinos e ovinos), L. donovani (leishmaniose visceral no Velho Mundo) como uma proteína de 145 kDa (BASTIN et al., 1996), em T. cruzi pouco é sabido acerca do tráfego de lipídios neutros.

O colesterol adquirido por endocitose de LDL é distribuído para a membrana plasmática ou é estocado na forma de ésteres de colesterol em corpos lipídicos. A esterificação mediante a ação de uma enzima semelhante à ACAT (acil-CoA: colesterol aciltransferase) sensível ao avasimibe (PEREIRA et al., 2015; PEREIRA et al., 2018)

O mecanismo de saída do colesterol dos reservossomos não está elucidado.

Provavelmente, deve ocorrer à semelhança do que ocorre em mamíferos, pela presença de proteínas no lúmen e na membrana lisossomal que transferem o colesterol para a membrana do retículo endoplasmático mediante o estabelecimento de sítios de contato (RAIBORG; WENZEL; STENMARK, 2015). Os epimastigotas de T. cruzi expressam Rab18 e está localizada nos corpos lipídicos (PEREIRA et al., 2018). A Rab18 está envolvida na aposição do retículo endoplasmático em torno dos corpos lipídicos, permitindo, assim, a disponibilização das reservas para suprir a demanda da célula, como por exemplo, a síntese de membrana ou sob estresse nutricional (KHOR, SHEN, KRAEMER; 2013).

Em epimastigotas mantidos em meio com privação de lipídios, as reservas presentes nos reservossomos são mobilizadas mais rapidamente do que as estocadas nos corpos lipídicos. Por outro lado, os epimastigotas mantidos sob controle, com disponibilidade de nutrientes, estocam o colesterol captado nos corpos lipídicos (PEREIRA et al., 2015).

Os corpos lipídicos de epimastigotas mantidos em cultivo axênico apresentam grandes quantidades de ésteres de colesterol, perfazendo quase 90% de seu conteúdo. O restante é constituído de colesterol livre, triacilglicerol e outros lipídios neutros (PEREIRA et al., 2018).

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os aspectos celulares das formas epimastigotas de T. cruzi, assim como das demais formas de desenvolvimento, carecem de aprofundamento. Nas duas últimas décadas houve um avanço considerável relativo à compreensão dos fenômenos celulares que regem a captação de nutrientes, o metabolismo do parasito, a transcrição e expressão de (glico) proteínas endógenas ou de superfície que norteiam o processo de infecção tanto nos triatomíneos quanto nos mamíferos.

O avanço das técnicas moleculares tem proporcionado dados imprescindíveis aos pesquisadores de forma a elucidar eventos associados à evolução do parasitismo, às diferenças de virulência entre as cepas, assim como sua distribuição no continente americano. Similarmente, tem permitido modular a expressão de genes e avaliar o papel de diversas proteínas na fisiologia parasitária.

A identificação de proteínas ou enzimas cruciais para a sobrevivência do parasito pode se tornar um alvo estratégico para a quimioterapia antiparasitária ou para a modulação do estabelecimento e colonização no inseto vetor, proporcionando alternativas para o controle da transmissão vetorial.