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Vínculo e longitudinalidade

No documento Ana Carolina Lopes Neves (páginas 131-134)

4.2 Análise de conteúdo temático-categorial das entrevistas

4.2.2 Categoria 2 – Longitudinalidade

4.2.2.3 Vínculo e longitudinalidade

Ao longo das entrevistas, mesmo não tendo sido realizada nenhuma pergunta aos profissionais referente a vínculo/relação entre usuário e equipe, houve 12 unidades de registro que se enquadraram na subcategoria relacionada à vínculo.

A palavra “vínculo”, segundo Michaelis (2018), possui o significado de ser algo que

“ata, liga ou aperta; atadura, liame, nó; o que estabelece uma relação lógica ou de subordinação; o que liga afetivamente duas ou mais pessoas; relação, relacionamento; o que restringe ou condiciona (algo)”.

Como abordado por Starfield (2002) e citado anteriormente, a longitudinalidade fica a depender do cuidado realizado no decorrer do tempo, somado à relação pessoal entre o usuário e médico (equipe).

Quanto a esta subcategoria, é possível visualizar relação/vínculo entre equipe/unidade e usuário nas seguintes falas dos profissionais:

[...] Sempre eles voltam, sempre voltam; eles voltam sim porque eles sabem que aqui é o apoio deles; tem aqueles casos que “não, eu faço com o cardiologista, não vou”, mas uma grande maioria volta, a grande maioria continua aqui.... até por conta da aferição da PA, o diabético com a medição da glicose. (ENF. U1)

[...] E a própria comunidade também tem muito isso, essa abertura de procurar, de tá vendo... quando não é simplesmente uma ajuda: “ah, mas eu queria... mas eu queria conversar...” Às vezes, traz os próprios exames mesmo quando eles retornam do especialista ou então quando eles trocam a receita...até pra eu tentar, igual, por exemplo: a médica tá de férias, até pra mostrar mesmo o remédio, essa coisa toda...

(ENF. U1)

[...] tanto que os pacientes aqui que tratam com a doutora daqui, eles têm um carinho muito grande com ela, porque ela realmente cuida, ela realmente acolhe. (ACS 1 U2)

Eles [os pacientes] falaram que eu sou um anjo que Deus mandou pra eles...eles falam sempre, que você não saia mais daqui, porque você foi um anjo que Deus mandou pra gente... eu te falei... tem pessoas que falaram: eu só voltei a entrar aqui dentro porquê você veio pra cá, porquê eu não entrava mais aqui, não vinha nesse posto. Então eu vejo assim que foi uma coisa boa. (AUX. ADM. 2 U2)

[...] mas aí você já tem tanta afinidade com a pessoa que você já vê que ela não tá bem. Daí você fala: vem cá verificar pressão! “Ah, não precisa não!” Daí você fala:

precisa sim”! E quando vai ver tá 16x10, 227 de glicose. Aí: Você vai consultar,

“Ah, não precisa não!”, “Ah, precisa!”. (TÉC. ENF. 3 U1)

É possível notar que os profissionais consideram haver vínculo do usuário com a unidade, consigo mesmo (no caso das técnicas de enfermagem e auxiliar administrativo), e com a médica da unidade. Há a compreensão do enfermeiro de que o retorno e vínculo do paciente com hipertensão e diabetes com a unidade é relacionado à necessidade de aferição da PA e de medição da glicose. O mesmo enfermeiro demonstra a compreensão de que o fato de ser visto como mediador de processos, leva os usuários a o procurarem para auxiliar nas suas necessidades. De fato, isto pode ser considerado como um tipo de vínculo (ainda que não um laço forte), transparecendo assim o capital social que o enfermeiro ocupa na unidade, confirmando o que já foi visualizado anteriormente neste e em outros estudos, como por exemplo, em Fonseca (2017). Daí pode-se questionar: O quanto o vínculo de alguns pacientes é de fato com o profissional da unidade ou com a unidade de saúde? E caso não seja somente com a unidade, o quanto não é relacionado somente ao capital social que tal profissional ocupa naquele ambiente, visando a satisfação de suas necessidades?

O vínculo com as médicas foi de igual modo visualizado na análise de conteúdo da maior parte dos usuários de ambas unidades, os quais as citam com muita frequência, demonstrando satisfação com a paciência e dedicação como são tratados, havendo um importante capital social e cultural representado por estas médicas.

Outro fator que se destacou foi como o auxiliar administrativo citado no tópico anterior (que realiza uma forma de educação em saúde), se percebe com vínculo com os usuários, relatando elogios que recebe, confirmando o que foi visualizado na coleta de dados dos usuários da Unidade 2, em que estes citam o mesmo auxiliar administrativo participando de sua rede de contatos como facilitador ao seu acesso à saúde. A este fator, atribui-se a percepção do capital social deste profissional na unidade, bem como o capital cultural que o mesmo possui, seja por maior possibilidade de acesso às informações de saúde, seja por interesse e proatividade em aprender e captar as informações que estão ao seu redor.

Sobressalta-se a percepção atribuída ao vínculo dos técnicos de enfermagem quando ao observar o semblante do paciente, perceber que não está bem, verificar sua PA ou glicemia, e de fato os valores apresentarem alteração; tendo ainda o encaminhamento do técnico de enfermagem para a consulta médica no mesmo dia/momento. Daí vê-se a importância do relacionamento interpessoal, do contato, da “afinidade” entre profissional e usuário conforme uma das técnicas de enfermagem verbalizou, o que leva a uma maior possibilidade de haver a longitudinalidade do cuidado ao paciente.

Entretanto, quanto ao ACS - profissional que seria o mais próximo ao usuário e à sua realidade -, o resultado encontrado na ARS com relação à Centralidade de grau e de Intermediação direciona para o baixo ou pouco vínculo destes para com a comunidade.

Durante a ARS, foi visualizado que as ACS de ambas unidades não possuem alto grau de Centralidade de entrada ou de Intermediação, com exceção da ACS 1 U2 pelos motivos abordados anteriormente na pesquisa. Na U1, os ACS foram citados pelos profissionais em menor quantidade que os auxiliares administrativos; já na U2, citados menos que estes profissionais e do que a Facilitadora de SisReg (profissional externa à Unidade).

Considerando que uma das propostas da função dos ACS é servir como “ponte” entre a comunidade e a Unidade de saúde, e que este fator tende a facilitar a formação de vínculo entre estes profissionais e os usuários, se assim fossem vistos e exercessem de fato tal papel no cuidar na realidade estudada, possivelmente seriam mais citados pelos demais profissionais como importantes no processo de assistência ao usuário. Este fato aponta para uma provável falha na longitudinalidade do cuidado nestas unidades, seja pelo perfil particular e individual dos profissionais, seja por dificuldades encontradas no processo de trabalho, como foi citado por alguns ACS. A associação dos resultados com a possível falha na longitudinalidade é realizada considerando que esta diretriz do SUS está diretamente interligada à existência de vínculo entre profissional e usuário.

Relacionando ainda a categoria “longitudinalidade” à realidade de a consulta ser exclusivamente médica no município, pode-se levantar a consideração de que, se os usuários somente possuem consultas com estes profissionais, o vínculo tende a ser pouco, com poucos profissionais, ou inexistente. O fato de as médicas de ambas unidades terem tão alto grau de importância dentro das redes, com maiores Centralidade de grau e de Intermediação do que qualquer outro profissional para o cuidado à pessoa com hipertensão e diabetes, comprova esta afirmação. Ter somente um profissional para se consultar e por vezes como única referência aos cuidados de sua saúde, com foco na consulta e no tratamento e cada vez menos nas orientações e no vínculo, dificulta a proposta da longitudinalidade. Acrescenta-se a isto,

como abordado anteriormente, o fato de que diversas das vezes, os usuários deixam a prescrição na unidade para somente haver renovação de receita sem passarem por consulta, avaliação, e sem saberem se seus parâmetros estão estáveis ou não. Logo, percebe-se a tendência de o vínculo do usuário ser estabelecido no máximo com o médico e com alguns poucos ACS, isto quando houver vínculo com algum profissional.

No documento Ana Carolina Lopes Neves (páginas 131-134)