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Vulnerabilidades em saúde e suas dimensões

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 45-51)

Ambas as condutas são tidas como tendências que podem expressar uma ação impulsiva ou descontrolada na presença de estímulos provocantes, principalmente numa sociedade patriarcal em que as normas sociais responsabilizam as próprias mulheres em situação de violência pela provocação dos instintos masculinos da agressão. Nessa acepção, a violência de gênero constitui-se em atos sociais roteirizados e envolve diversos tipos de roteiros, baseados nas diferenças das relações entre papéis sociais (GAGNON, 2006).

Dentre os tipos de violência, as agressões e coerções sexuais entre homens e mulheres que mantêm um relacionamento afetivo íntimo podem se manifestar à medida que o relacionamento assume um maior nível de envolvimento. Para Gagnon (2006), todas as visões da violência e coerções sexuais utilizam, seja de maneira explícita ou implícita, o conceito de roteiros sexuais.

Nas relações afetivas íntimas, a coerção sexual perpassa pela existência de um cenário cultural influenciado pela sociedade patriarcal, a qual legitima o uso da força e incita a promulgação da cultura do estupro e culpabilização da vítima, sobretudo quando as expectativas que antecedem o ato sexual são frustradas ao homem, acreditando este que a mulher havia consentido inicialmente a relação sexual e que posteriormente desistiu de tê-la (GAGNON, 2006).

Dessa maneira, entende-se que será de extrema relevância a identificação dos roteiros elaborados pelos jovens universitários por meio das condutas sexuais em suas relações afetivas íntimas para, a partir daí, analisarmos as dimensões de vulnerabilidade à violência nestas relações, sob a perspectiva de gênero.

epidemia do HIV/aids no mundo (AYRES et al., 2009; MALAGÓN-OVIEDO; CZERESNIA, 2015).

No Brasil, este livro foi parcialmente reeditado em 1993 e apresentou uma relevante contribuição para as propostas de renovação das práticas de saúde e, particularmente, da prevenção e promoção da saúde. Tal conceito de vulnerabilidade proporcionou uma compreensão ampliada sobre a influência dos aspectos coletivos e contextuais, e não apenas os individuais, que ocasionam maior suscetibilidade à exposição e adoecimento das pessoas ao HIV e menor ou maior condições de se protegerem (AYRES et al., 2009; MALAGÓN- OVIEDO; CZERESNIA, 2015).

Dessa forma, o conceito de vulnerabilidade vem sendo utilizado no campo da saúde pública por sua capacidade heurística, ou seja, sua capacidade de inovar e apresentar uma nova forma de compreender os fenômenos estruturantes dos processos de saúde-doença frente à hegemonia do conceito de risco, e por possibilitar, ademais, uma vasta reflexão sobre as práticas de saúde para a promoção e prevenção de agravos e doenças (MALAGÓN-OVIEDO;

CZERESNIA, 2015).

Com o intuito de compreender a incorporação deste conceito na saúde pública, será apresentada uma breve contextualização sobre o processo histórico da pandemia de HIV/aids, a explanação dos conceitos de grupo de risco, comportamento de risco e o conceito de vulnerabilidade em saúde, o qual será utilizado como referencial nesta pesquisa.

O conceito de risco, originário do campo da epidemiologia nos anos 1950, fundamentava-se nas chances que o indivíduo tinha de se expor aos agentes patológicos e nas possibilidades de adoecimento. A partir deste entendimento, surgiu uma série de estudos que procuravam identificar os fatores de risco associados ao surgimento da nova doença nos chamados “grupos de risco” (AYRES et al., 2009, 2012).

No entanto, as políticas de saúde neste período foram ineficazes em termos epidemiológicos e incitaram atitudes extremamente preconceituosas contra os grupos de risco, principalmente os denominados “quatro Hs” (homossexuais, hemofílicos, haitianos, usuários de heroína). Como reflexo destas políticas, as estratégias de prevenção para os grupos de risco eram a abstinência e o isolamento sanitário, o que produziu grande estigma social a estes grupos, além de ter obtido um êxito restrito no controle da doença (AYRES et al., 2009, 2012).

A mobilização social organizada pelo movimento dos grupos gays norte-americanos foi fundamental para que as estratégias de abstinência e isolamento destinadas aos grupos de risco dessem lugar às chamadas estratégias de redução de danos e riscos através da difusão de

informações, controle de bancos de sangue e estímulo ao uso de preservativos e ao sexo seguro (AYRES et al., 2006, 2009, 2012).

Todavia, no final da década de 1980, a epidemia da aids não apresentava limites de acordo com o sexo e orientação sexual das pessoas, ou com aspectos geográficos, e o conceito de grupo de risco já não se aplicava. Neste segundo momento, surgiu um novo conceito para instrumentalizar as práticas preventivas em relação à epidemia, denominado “comportamento de risco”, a partir de ações direcionadas para toda a população como incentivo à mudança de comportamentos que deixavam as pessoas mais expostas ao HIV (AYRES et al., 2009, 2012).

É notório que este novo conceito não apresentou apenas uma mudança conceitual, mas foi importante para amenizar o estigma vivenciado pelos grupos de risco, por ampliar a compreensão de que as ações de prevenção não deveriam se restringir a eles, mas englobar qualquer pessoa. Porém, o conceito de comportamento de risco apresentou fragilidades ao trazer em questão a culpabilização individual, uma vez que a falha na prevenção, contaminação e transmissão do HIV passou a ser vista como uma consequência da negligência do indivíduo.

Desse modo, a noção de comportamento de risco não obteve impactos significativos na implementação das ações preventivas e recebeu críticas de grupos e movimentos populares organizados, como os movimentos de mulheres, ao enfatizar que a mudança comportamental não é resultante apenas da vontade do indivíduo associada à informação, mas que estaria condicionada pelos recursos culturais, econômicos, políticos, jurídicos, distribuídos desigualmente entre os segmentos sociais, os gêneros, grupos étnicos e as faixas etárias (AYRES et al., 2006, 2009).

Tais críticas foram evidenciadas com a mudança radical do perfil da epidemia da aids, que afetou principalmente, os grupos sociais de menor poder social, expostos à maior vulnerabilidade social, ou seja, os pobres, os marginalizados, as mulheres, os negros, a periferia (AYRES et al., 2006, 2009). É possível avaliar esta mudança como um processo caracterizado pela pauperização e feminilização da epidemia no país no início da década de 1990.

A epidemia da aids, que havia se alastrado em todo o mundo, principalmente em países africanos, reiterando a tendência da pauperização, assume novos rumos, ganhando a condição de pandemia. Diante dessa situação, os avanços tecnológicos progrediram rapidamente nos recursos dos diagnósticos, prognósticos e terapêuticos, com a técnica de contagem da carga viral e os antirretrovirais, ambos com alto custo financeiro. Mas, os benefícios destes recursos não corresponderam ao controle efetivo da epidemia, permitindo

que novas proposições fossem fortalecidas, com estratégias de prevenção nas dimensões social ou estrutural, e não apenas de redução individual de comportamentos de risco, possibilitando um olhar sobre os determinantes sociais envolvidos na transmissão do HIV (AYRES et al., 2009).

Nesse contexto, no início da década de 1990, um grupo de pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard, em conjunto com a Coalização Global de Políticas contra a aids, precursora do Programa das Nações Unidas para a Aids (UNAIDS), identificou as limitações dos conceitos de risco, grupo de risco e comportamento de risco e propôs um novo conceito que possibilitasse a compreensão e intervenção sobre a epidemia de aids, a análise de vulnerabilidade das pessoas, grupos ou populações à infecção pelo HIV e aids (AYRES et al., 2009, 2012; MANN; TARANTOLA; NETTER, 1993; MANN; TARANTOLA, 1996). Sendo assim, a noção de vulnerabilidade apresentada pelos pesquisadores volta-se para as diversas condições e possibilidades que todo e qualquer indivíduo teria de se contaminar com o vírus HIV, levando em conta o conjunto de suas características individuais e sociais consideradas relevantes para uma maior exposição ou menor chance de proteção diante do agravo (MANN;

TARANTOLA; NETTER, 1993).

Posteriormente, em 1996, Jonathan Mann e Daniel Tarantola acrescentaram ao entendimento do conceito de vulnerabilidade a discussão dos Direitos Humanos como um subsídio para a avaliação das situações individuais e, também, globais da epidemia, na substituição dos indicadores socioeconômicos, além de permitir uma abrangência para analisar e intervir sobre a vulnerabilidade (MANN; TARANTOLA, 1996). Todavia, atualmente, a discussão em torno da vulnerabilidade é bastante ampliada e diversificada, inserindo-se em diversos contextos, para além das questões concernentes à epidemia da Aids.

No Brasil, o pesquisador José Ricardo Ayres e colaboradores, com base no conceito de vulnerabilidade de Jonathan Mann, Daniel Tarantola e Thomas Netter, contribuíram significativamente para o desenvolvimento de aportes para a elaboração teórica da vulnerabilidade. Este desenvolvimento ocorreu motivado, especialmente, pelas preocupações em compreender a vulnerabilidade concernente aos determinantes envolvidos na pandemia de HIV/aids, e também a partir de reflexões sobre cuidado, prevenção e promoção da saúde baseadas na abordagem dos Direitos Humanos (AYRES et al., 2009, 2012). Reconstruíram a trajetória do conceito de risco para o conceito de vulnerabilidade em saúde, apresentando relevância nos campos da epidemiologia e, consequentemente, da saúde pública.

Nesta ótica, as pessoas não seriam vulneráveis em si mesmas, mas a depender das condições em que se encontrarem, em diferentes momentos de suas vidas, poderão estar

vulneráveis a determinados agravos ou não. Todavia, ao considerar a vulnerabilidade atrelada à possibilidade de autonomia, a qual é objeto de conquista, sob a perspectiva ética da dignidade, todos os seres humanos são vulneráveis, finitos e conscientes dessa condição.

Nesse sentido, é preciso ampliar a concepção a partir de uma perspectiva antropológica de vulnerabilidade individual que supõe uma fragilidade individual intrínseca do homem, da qual se compreende como uma vulnerabilidade social que aponta para condições sociais modificáveis (SEVALHO, 2018).

Aproximando o objeto de estudo dessa concepção sobre vulnerabilidades, entende-se que a mulher se apresenta numa condição de vulnerabilidade de gênero pelo fato de ser mulher, ou seja, pelas relações sociais desiguais entre homens e mulheres socioculturalmente construídas, traduzidas por um conjunto de normas distintas pela diferença biológica. Para tanto, a condição de vulnerabilidade destaca-se para além de condições de adoecimento, associando-se às condições estabelecidas nas construções das relações de poder que apontam a situação de dominação masculina e subordinação feminina, por vez vigente no sistema hegemônico patriarcal.

Nesse sentido, Ayres e colaboradores (AYRES et al., 2009, 2012) acrescentaram ao conceito de vulnerabilidade a perspectiva da análise das influências interligadas de cada dimensão sobre a vida de qualquer pessoa, e não a análise e identificação de escores probabilísticos de um indivíduo na exposição a algum agravo à saúde. Assim, as análises de vulnerabilidade envolvem a avaliação de três eixos articulados entre si, que visam a integrar suas dimensões: individual, social e programática.

No que diz respeito a cada uma destas dimensões (AYRES et al., 2009, 2012) destaca- se que:

Vulnerabilidade individual: refere-se ao grau e à qualidade da informação de que os indivíduos dispõem sobre os agravos e patologias, associada à capacidade de incorporar tais informações à sua prática cotidiana com vistas a efetivar práticas de prevenção. Desse modo, as análises dessa dimensão entendem que o modo de vida das pessoas pode contribuir para que estas se exponham ou se protejam de determinada patologia ou situação.

Vulnerabilidade social: corresponde à obtenção de informações e à possibilidade de incorporá-las às mudanças práticas. Contudo, para que estas mudanças ocorram, o indivíduo necessita de outros aparatos, como o acesso aos meios de comunicação, disponibilidade de recursos materiais, escolarização, empoderamento nas questões e decisões políticas, enfrentamento das barreiras culturais, estar livre de coerções violentas ou ter como se defender delas.

Vulnerabilidade programática: compreende aspectos voltados para os recursos sociais dos quais as pessoas precisam para não estarem expostas aos agravos; aqui se incluem as instituições sociais, como família, escola, igreja, serviço de saúde e outros, bem como à qualidade e ao funcionamento efetivo dos programas de controle e serviços. Desse modo, é necessário avaliar de que forma estas instituições são capazes de prevenir, reproduzir ou aprofundar as condições de vulnerabilidade.

Ademais, os recursos sociais relacionados aos programas nacionais, regionais e locais também necessitam ser avaliados como elementos que promovam e proporcionam, de maneira efetiva e democrática, as informações, os insumos e materiais, além de outros componentes imprescindíveis à promoção e prevenção da saúde, para que as propostas de intervenção sejam estabelecidas pelas instâncias governamentais, considerando as individualidades dos sujeitos e seus contextos sociais.

Tal vulnerabilidade refere-se ao grau de alerta e preocupação com o problema, quanto ao modo que se organiza para enfrentá-lo (planejamento, recursos, capacidade, gestão e avaliação), que impede ou limita a intervenção sobre as razões sociais, as quais levam os indivíduos aos modos de pensar, fazer e querer que os exponham aos agravos.

Destarte, a partir da análise das três dimensões de vulnerabilidade — individual, social e programática — é possível identificar a complexidade que perpassa as situações de vulnerabilidade, por comporem as características próprias de cada indivíduo, suas relações com o contexto social e familiar, o acesso às informações e à oferta de redes de apoio social, uma vez que os indivíduos podem estar expostos a determinados agravos e não a outros, sob condições distintas, em momentos diferentes da vida.

Nesse contexto, os jovens universitários encontram-se num período de conflitos e indecisões que tendem a deixá-los expostos à vivência de violência em suas relações afetivas íntimas. E, em especial, acredita-se que as jovens universitárias apresentam uma maior exposição a este fenômeno por uma questão de desigualdade de gênero, ou seja, apenas pelo fato de serem mulheres em uma sociedade patriarcal.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 45-51)