ANATOMIA E FISIOLOGIA DO ABOMASO, SEMIOLOGIA APLICADA
ETIOPATOGENIA
A etiopatogenia da AU não foi suficientemente elucidada (DIRKSEN et al., 2005), mas muitos estudos demonstram a gama de fatores predisponentes que podem causar lesões no epitélio, devido ao desequilíbrio na produção e liberação de ácido gástrico e substâncias protetoras do ácido gástrico. a mucosa do abomaso (DA ROCHA et al., 2016). Outro fator que reduz a capacidade protetora da mucosa do abomaso é a chegada de grandes quantidades de ácidos que podem dissolver a camada protetora de muco e permitir que os íons H+ entrem em contato com a parede do órgão (RIET-CORREA et al., 2007). . Clostridium perfringens Tipo A ou suas toxinas têm sido descritas como causa de AI, principalmente em bezerros (VAN IMMERSEEL et al., 2010; OMAN et al., 2016).
Estudo realizado por Hund e Wittek (2017) descreveu que a AU pode ser decorrente de efeitos secundários do uso desses anti-inflamatórios, pois afetam a formação de muco protetor da mucosa abomasal (RIET-CORREA et al., 2007). ). Taninos condensados (TC) ou proantocianidinas (DE OLIVEIRA et al., 2011) não são absorvidos pelo trato GI e podem causar danos à mucosa. Quando administrado por via intrarruminal em altas concentrações (3g/kg de peso do animal), é responsável por lesões na mucosa do abomaso em ovinos (COSTA et al., 2008).
O jejum, o consumo de grande quantidade de carboidratos e/ou baixa ingestão de fibras resulta na diminuição do pH ruminal, o que pode levar a alterações no sistema digestivo e causar AI (DA ROCHA et al., 2016).
EPIDEMIOLOGIA
Na necropsia podem ser observadas úlceras bem definidas com conteúdo necrótico e distensão abomasal (HERVAS et al., 2003), porém poucos estudos avaliaram o efeito indireto dos taninos associados às lesões abomasais em ruminantes (DE OLIVEIRA et al., 2011 ). A frequência de AI em vacas leiteiras com alta produtividade é elevada, principalmente no período pré-natal, quando estão mais sensíveis ao estresse, mas também aparece no pós-parto, secundário a doenças como deslocamento de abomaso, hipocalcemia, metrite e mastite ( RIET-CORREA et al., 2007). Em bovinos de corte, a incidência de úlcera está associada a dietas ricas em grãos (MILLS et al., 1990).
As UA tipo I apresentam sinais clínicos sutis, que podem mascarar sua baixa incidência (DIRKSEN et al., 2005). As UA do tipo IV apresentam baixa incidência em comparação às UA do tipo I e II (DA SILVA et al., 2017). Fonte: adaptado de Hamid et al. 2012) relataram um caso de úlcera de abomaso com perfuração de parede em vaca leiteira com impactação primária de abomaso relacionada ao consumo de silagem de girassol e, Da Silva et al. 2017) descrevem um caso de animal submetido à descorna cirúrgica e alertam que cirurgias eletivas podem favorecer o desenvolvimento de AU devido ao estresse.
Foi realizado um estudo sobre doenças do aparelho digestivo de caprinos e ovinos no semiárido brasileiro, onde foram examinados 2.144 pequenos ruminantes, onde foram registrados 512 casos de animais portadores de doenças digestivas, dos quais três apresentaram AU classificada como tipo IV, podendo a etiologia das feridas não estar definida (DE LIRA et al., 2013).
SINAIS CLÍNICOS
Com base na classificação descrita pela primeira vez por Whitlock em 1980, podemos distinguir os sinais clínicos apresentados pelos animais acometidos por um único tipo de AI, tipo I, tipo II, tipo III e tipo IV (Tabela 1) (RADOSTITIS et al., 2002 ). Os sinais clínicos de animais com úlceras pancreáticas tipo III e IV estão associados à peritonite por extravasamento de conteúdo gástrico (BRAUN et al., 2019a) e são semelhantes aos sinais clínicos na reticuloperitonite traumática localizada ou difusa (RIET-CORREA et al., 2007). Quando ocorre peritonite localizada, é caracterizada por aderências do omento ou vísceras com coalho e extravasamento de pequenas quantidades de conteúdo, onde os animais apresentam anorexia, febre e diarreia ocasional, o que se caracteriza como uma doença crônica.
Se houver grande vazamento de conteúdo, causa peritonite difusa aguda, que pode levar à morte do animal em poucas horas. Na grande maioria dos casos, as fezes são pastosas, de cor enegrecida, malcheirosas e contêm muco.
PATOLOGIA CLÍNICA
Em sangramentos prolongados com duração de semanas ou meses, o resultado geralmente é anemia macrocítica e normocrômica com leve reticulocitose (PRANDI, 2011) e o valor do hematócrito é reduzido (MARSHALL, 2009; SOUZA et al., 2016). Os achados laboratoriais anormais mais comuns, em relação à AI, são azotemia, hipocalemia, hipoproteinemia e hiperfibrinogenemia (SOUZA et al., 2016). No AU tipo IV, o valor do hematócrito aumenta em mais de 35% e há diminuição da proteína total em menos de 60 g/l, indicando hemoconcentração induzida por choque (BRAUN et al., 2019a).
Para os casos em que ocorre peritonite localizada ou difusa, as alterações são leucocitose por neutrofilia (SOUZA et al., 2016) com desvio à esquerda e aumento do fibrinogênio plasmático (DIRKSEN et al., 2005). A presença de conteúdo abomasal também pode ser observada, indicando derrame difuso para a cavidade abdominal. A atividade do pepsinogênio plasmático também pode ser usada para identificar animais afetados por úlceras do tipo I e II.
A análise do líquido ruminal também pode ser utilizada como parâmetro para avaliar possível AI, onde, além da redução do número de infusórios vivos (densidade e motilidade), pode-se observar o cheiro e a cor do suco ruminal. teor de cloreto (SOUZA et al. 2016).
ACHADOS ANATOMOPATOLÓGICOS
Lesões mais superficiais são especificadas como erosões da mucosa, são mais discretas e não penetram na camada muscular (HUND et al., 2015; HUND; . WITTER, 2018), podem variar de 1 a 20 mm de diâmetro e aparecem como pontos hemorrágicos e na maioria das vezes são múltiplos e circulares, não formando cicatrizes quando cicatrizam (RIET-CORREA et al., 2007; MARSHALL, 2009). Úlcera tipo Ib nas dobras da região corporal do abomaso com sangramento evidente e cicatrizes locais, indicadas pela seta. Úlcera tipo Ic em mucosa da região pilórica do abomaso, evidenciando existência de inflamação e fibrina, indicada pela seta.
Id Úlceras que convergem entre si e podem causar perfusão da parede do ouvido. Conforme descrito nas ulcerações tipo III, uma ulceração tipo IV da parede antral do coalho e do conteúdo se difunde rapidamente pela cavidade peritoneal, causando peritonite generalizada (Figura 11) (BORGES, 2013; BRAUN et al., 2019a). Também pode ocorrer fibrose e adesão do coalho ao diafragma, resultando na comunicação entre o coalho e a cavidade pleural (COSTA et al., 2002).
A maior parte dos danos causados pela AI pode estar localizada na região pilórica (MARSHALL, 2009), mas as lesões também podem ser encontradas na região fundal do abomaso (BUS; STOCKHOFE; WEBB, 2019) e variam de linear a oval (RAOUFI ) e outros, 2007).
DIAGNÓSTICO
US obtida do 7º EIC esquerdo de uma vaca com extensas lesões inflamatórias por AI tipo IV. O baço é circundado por líquido e alterações inflamatórias ecogênicas, alternadas com líquido, são observadas entre o baço e o rúmen. 1 Parede abdominal lateral, 2 Baço, 3 Rúmen, 4 Alterações inflamatórias ecogênicas alternadas com líquido, 5 Líquido acumulado, Ds Dorsal, Vt Ventral; b.
US obtida da área paramediana direita caudal ao retículo de uma vaca mostrando extensa lesão fibrinótica. Alterações ecóicas maciças interrompidas por líquido representando peritonite são observadas entre a parede abdominal e o abdome (não visíveis).
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
No caso de úlceras pépticas perfuradas, o diagnóstico diferencial deve ser realizado nos casos de: reticuloperitonite traumática, ruptura de órgãos abdominais, como ruptura uterina e septicemia (MARSHALL, 2009; PRANDI, 2011), em bezerros diarreia viral bovina, micoticréia abomasite e rinotraqueíte infecciosa bovina (LEIVAS, 2007) ).
TRATAMENTO
Antagonistas dos receptores tipo 2 da histamina (WALLACE; REECY; WILLIAMS, 1994) e inibidores da bomba de prótons também são utilizados, com o objetivo principal de promover redução da secreção de HCl (CONSTABLE et al., 2006). O animal, ao apresentar quadro clínico de fraqueza, extremidades frias, taquicardia, dispneia, hematócrito baixo (12%) e mucosas pálidas, indica a necessidade de transfusão sanguínea associada à fluidoterapia, pois apresentam anemia grave, que necessita de reposição sanguínea . volume (RADOSTITS et al., 2002). A transfusão é de extrema importância para animais com úlceras hemorrágicas (DA SILVA et al., 2017), que geram grande perda sanguínea, e consequentemente choque hipovolêmico (DIRKSEN et al., 2005).
A oxitetraciclina pode, portanto, ser utilizada na dose de 20mg/kg de peso corporal/IM (PATRICIO et al., 2012). A alimentação de animais de alta produção, composta por altos teores de proteínas e carboidratos, pode ser suscetível a úlceras estomacais, portanto, nos animais acometidos, deve ser substituída por uma ração fibrosa, como o feno, que deve conter fibras. boa qualidade (RADOSTITS et al., 2002). A oferta de silagem finamente moída e concentrado deve ser reduzida ou talvez retirada da dieta (DIRKSEN et al., 2005).
Portanto, a adequação da dieta, a redução do estresse e a prevenção e controle de doenças primárias são pontos essenciais para determinação do tratamento (DA SILVA et al., 2017).
PREVENÇÃO
O tratamento cirúrgico conservador é realizado em animais com úlceras perfuradas, principalmente em bezerros e animais de alto valor zootécnico, porém os resultados não são favoráveis (BORGES, 2013), pois é necessária a excisão de grande área na presença de grande número de úlceras . tecidos da orelha e nestes casos o sangramento geralmente é considerável (RADOSTITS et al., 2007). Os animais infectados devem ter um ambiente com clima favorável, sem frio e calor, à sombra, com água e alimentação de qualidade, evitando assim situações estressantes. 44 Para reduzir danos ao úbere em bezerros, o fornecimento de leite e/ou ração sólida também deve ser fracionado (ou fornecido ad libitum) para aumentar o pH da orelha e prevenir a formação de úlceras (BUS; STOCKHOFE; . WEBB). , 2019).
Práticas adequadas de manejo de bezerros devem ser introduzidas nos rebanhos para evitar que esta doença cause grandes perdas econômicas à pecuária (SOUZA et al., 2016). Animais adultos devem preferencialmente ser alimentados com volumoso (feno ou palha), manter o animal comendo por mais tempo e também estimular a produção de saliva para neutralizar a produção de ácido dentro do abomaso (BUS; STOCKHOFE; WEBB, 2019).
PROGNÓSTICO
Surto de impactação primária do abomaso em bovinos leiteiros relacionado ao consumo de silagem de girassol. Quantificação de citocinas no conteúdo abomasal de bovinos de corte na presença ou ausência de úlceras pépticas. Um estudo sobre a incidência e classificação macroscópica de úlceras pépticas em bovinos no matadouro de Shahre-kord, Irã.
Doenças de ruminantes e cavalos: Doenças não infecciosas do aparelho digestivo de ruminantes - Úlcera abomasal. Úlceras gástricas perfuradas em novilhos alimentados com pastagem de azevém – Relato de caso. Úlcera péptica tipo IV com perfuração diafragmática associada à acidose ruminal em ovinos no oeste da Bahia, Brasil.