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A Lusofonia numa Visão Crítica

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Academic year: 2023

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Ações do Instituto Internacional da Língua Portuguesa na gestão multilateral da linguagem Carlos Alberto Faraco. Além disso, a distribuição geográfica dos países de língua portuguesa no mundo faz com que seja a língua mais falada no hemisfério sul. No entanto, esse quadro oficial pouco diz sobre os contextos em que os usuários da língua portuguesa a utilizam nas mais diversas situações comunicativas.

Aqui destaca-se o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), sediado na capital cabo-verdiana da Praia, que se tem empenhado na produção de ferramentas e elementos normativos, como o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), a partir do consenso dos seus membros.

Prefácio

As ações do instituto internacional da língua

A promoção e divulgação da língua portuguesa é um dos três principais objetivos da CPLP (Comunidade dos Países Lusófonos). Esta conferência foi a primeira iniciativa concreta da CPLP para estabelecer linhas de orientação, metas e projetos de forma a atingir o seu objetivo principal de promoção e divulgação da língua portuguesa. O Instituto Internacional da Língua Portuguesa não foi criado para substituir ou substituir Camões ou a Rede Brasil Cultural.

Importa, por isso, dizer que este modelo de gestão conjunta e multilateral da língua portuguesa consubstanciado no IILP é único no mundo.

Introdução

Lusofonia revisitada e a crítica da celebração

A CPLP tornou-se um ator institucional relevante na mediação das relações internacionais “lusófonas”, cuja atuação, a pretexto de uma língua comum entre os Estados membros, promove o intercâmbio de ações políticas e empresariais entre os participantes, constituindo-se como um importante bloco político e económico no cenário mundial. Propomos que o carácter empresarial da CPLP - reforçado durante a X Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, realizada em Díli1, a par da inclusão da Guiné Equatorial como Estado membro da Comunidade - realce interesses políticos e económicos para além das questões linguísticas ou culturais, o que tem contribuído para a intensificação da visão linguística e económica (VERD10IZ; 2015; LEVISKI, 2015; ZOPPI-FONTANA, 2009), tornando as iniciativas em torno da difusão da a língua portuguesa funciona mais segundo uma lógica de "economia linguística" do que de "política linguística". Em seguida, exploramos os significados e papéis atribuídos à língua portuguesa a partir de duas perspetivas: a histórica, que retrata uma visão panorâmica do percurso colonial e pós-independência da língua portuguesa em diferentes contextos; o outro contemporâneo, que aborda os significados da Lusofonia a partir de uma perspectiva crítica.

Esta posição é necessária, especialmente à luz do estado de urgência e imediatismo que muitas vezes caracteriza a ação política atual.

Língua Portuguesa, Política e História

A língua portuguesa tornou-se efetivamente um sinal político, econômico, religioso e cultural da expansão do português cristão. Reconhecemos que tais cristãos continuam funcionando ao mesmo tempo, seja por um modelo epistemológico de linguagem que enquadra as línguas locais, seja pelo caráter messiânico e redentor que caracteriza diversas iniciativas em torno da expansão e difusão da língua portuguesa no mundo. 77 de 9 de Dezembro, do governador provincial de Angola Norton de Matos; de acordo com esse decreto, as línguas africanas só deveriam ser utilizadas para fins religiosos ou como auxiliares no ensino do português às crianças, sendo obrigatório o uso da língua portuguesa nas missões (RAMOS, 1970).

Em 1940, foi assinado um Acordo Missionário entre Portugal e Roma, concedendo às missões católicas maior controle sobre a educação na África portuguesa e sobre o ensino da língua portuguesa, como atesta o artigo 16: Tratava-se, portanto, de uma política linguístico-identitária em que o conhecimento da língua portuguesa estava vinculado a uma série de normas comportamentais e culturais, de acordo com a política colonialista lusófona. Essa diversidade, violentamente adaptada pelas ações coloniais, reflete na lógica de compreensão do que hoje se considera “língua”.

No contexto angolano contemporâneo, a pesquisadora Mona Mpanzu (2016, s.p.) critica a centralidade luso-brasileira nas políticas que envolvem a língua portuguesa no cenário internacional, e aponta para uma prática política e econômica que tem favorecido Portugal e o Brasil em detrimento dos países africanos: “[..] mais visibilidade e políticos nunca mais visibilidade e representatividade da África”. Essa centralidade europeia e brasileira em torno das políticas envolvendo a língua portuguesa contribui para o que o autor considera uma “idealização romântica e monumentalização da língua de herança” (2016, s.p.). Com base nesse documento, a categorização dos timorenses em "indígena" e "assimilado", ambas vinculadas à questão linguística, formalizou um sistema social de privilégios e marginalização baseado na língua e cultura portuguesas tomadas como referência. No contexto da ascensão do nacionalismo e dos Estados nacionais pós-independência que envolveu os actuais membros da CPLP - Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste - a língua portuguesa desempenhou um papel central na construção tanto de um imaginário interno das comunidades nacionais como de um olhar internacional.

Embora saibamos que cada membro da CPLP teve um percurso próprio para a constituição da sua independência e do seu nacionalismo, não podemos negar que este percurso de diferentes países partilhou práticas semelhantes no que diz respeito ao reconhecimento da língua portuguesa como língua de prestígio e valor nacional, tal como políticas oficiais e políticas linguísticas educativas. Com base neste enquadramento político e histórico sobre o papel desempenhado pela língua portuguesa no cenário colonial e pós-independência, abordamos a seguir a ideia de lusofonia, ligada a uma celebração contemporânea da expansão da língua portuguesa no mundo.

Da Lusofonia Contemporânea

A ideia de uma Lusofonia moderna também deve ser vista em relação a uma questão económica fortemente apoiada pela CPLP, como é o caso da integração dos Estados membros da Comunidade em torno da exploração de hidrocarbonetos. A ideia de uma comunidade política interligada pelo uso da língua portuguesa também pode ser relativizada pela inclusão da Guiné Equatorial na CPLP, país em que poucos falam efetivamente o português, conforme depoimentos de cidadãos equatorianos sobre a presença da língua no país, conforme expresso na fala do opositor político Salvador Bilan, quando diz: “Nunca ouvi falar português. É um empreendimento político-econômico que ajudou a criar um “lusófono de negócios” no qual a língua e outros elementos funcionam como uma mercadoria econômica dentro da indústria da língua.

O soft power construído e operado em torno da língua portuguesa oferecia bolsas, financiamentos. Tais iniciativas têm contribuído para a construção de um imaginário da língua portuguesa, que é entendida pela CPLP como uma “forma privilegiada de difusão da criação cultural entre os povos que a falam e de projeção internacional dos valores culturais, numa perspetiva aberta e universalista” (CPLP, Promoção e Difusão da Língua Portuguesa)9. Embora a CPLP promova eventos e discussões em torno da ideia do pluricentrismo da língua portuguesa, tendo em conta as diferentes normas nacionais e os diferentes centros de distribuição linguística, entendemos que os significados sociais e políticos inscritos no português europeu e brasileiro desempenham um papel importante na configuração de uma representação normativa e simbólica do que conta como português no mundo.

Um exemplo desse papel central lusco-brasileiro na política da língua portuguesa no mundo é o papel das instituições políticas, educacionais e culturais desses países no que diz respeito à sistematização, padronização e difusão da língua portuguesa. No contexto brasileiro, o conhecimento do português brasileiro é critério para obtenção da cidadania e também é utilizado como meio de acesso às universidades; Esse conhecimento foi avaliado pelo exame Celpe-Bras, sistematicamente utilizado no Brasil e no exterior desde 1998. Outro exemplo da assimetria no tratamento de falantes afro-português provenientes de países que fazem parte da CPLP é a exigência de que os candidatos aos programas PEC-G e PEC-PG10 dos países africanos da CPLP e Timor-Leste façam o exame Celpe-Bras de acordo com o Decreto n. Despacho n.º 334/2013 IN EP — Instituto Nacional de Estudos e Investigação Educacional Anísio Teixeira.

Como exemplo de uma sociolinguística assimétrica envolvendo os países membros da CPLP, citamos as estatísticas sobre línguas em Angola e Moçambique. O processo de legitimação da “nativização” da língua portuguesa pelos estados membros da CPLP põe em causa tanto o lugar simbólico de referência ocupado por Portugal e Brasil, como a relação da língua portuguesa com outras línguas locais em diversas instâncias institucionais.

Conclusões

A língua portuguesa como variedade

Sobre os organizadores

Alexandre Cohn Silveira

Participei do programa de Cooperação Internacional da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde lecionei Português na Universidade Nacional Timor Lorosa´e, em Timor-Leste (2012). Participou do programa brasileiro de cooperação internacional e atuou como articulador da área de língua portuguesa e articulador geral do programa de qualificação educacional em língua portuguesa em Timor-Leste - PQLP/CAPES. Com bolsa PDSE/CAPES realizou estágio de Doutorado Sanduíche no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Alexandre António Timbane

É membro do grupo de estudos de linguística forense da Universidade Federal de Santa Catarina, membro da The International Association of Forensic Linguists (IAFL), membro do grupo de estudos de sociolinguística da UNESP, membro do grupo de estudos de fonética acústica da UNESP, membro do grupo de trabalho NUPE, FCL, Araraquara, CLADIN, LEAD. Atualmente é professor visitante e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) na região de Catalão, onde atua na Linha 3: Língua, Linguagem e Cultura, onde leciona as disciplinas Fundamentos dos Estudos da Linguagem, Seminários de Pesquisa em Linguagem, Linguagem e Cultura, Linguagem (Gem) e Memória Social, Estudos da Linguagem e Cultura e Metodologia de Pesquisa em Estudos da Linguagem. Orienta alunos de pós-graduação, apoia a revista Linguagem: Estudos e Pesquisas e integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Língua Portuguesa do Programa de Mestrado em Estudos da Linguagem (UFG).

Membro do Grupo de Pesquisa África-Brasil: produção de conhecimento, sociedade civil, desenvolvimento e cidadania global (UNILAB).

Carlos Alberto Faraco

Charlott Eloize Leviski

Cristine Gröski Severo

Eduardo Ferreira dos Santos

Elvira Reis

Ermelinda Mapasse

Francisco Javier Calvo del Olmo

Gabriel Antunes de Araújo

João Veloso

Joice Eloi Guimarães

Leandro Rodrigues Alvez Diniz

É autor de manuais do PLA, revisor de várias revistas e membro do conselho consultivo da Associação Internacional da Língua Portuguesa (SIPLE). Principais áreas de investigação: Políticas linguísticas; Materiais didáticos de PLA; ensinando PLA para grupos minoritários.

Liliana Gonçalves

Marcos de Araújo Bagno

Rachide Djau

Renata Tironi de Camargo

Roberval Teixeira e Silva

Sweder Souza

Xoán Lagares

Referências

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